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Michel Foucault As Palavras e as Coisas    Uma arqueologia das
cincias humanas            Traduo     SALMA TANNUS MUCHAIL
Martins Fontes         So Paulo -- 2000           Esta obra foi
publicada originalmente em francs com o ttulo           LES MOTS ET
LES CHOSES -- Une Archologie des Sciences                     Humaines,
por ditions Gallimard. Paris.                   Copyright  ditions
Gallimard, Paris, 1966.                Copyright  Livraria Martins
Fontes Editora Ltda.,                     So Paulo, 1981, para a
presente edio.                                       8 edio
fevereiro de 1999                                      2 tiragem
junho de 2000                                   Traduo
SALMA TANNUS MUCHA1L                                  Reviso grfica
Ivete Batista dos Santos                      Ana Maria de Oliveira
Mendes Barbosa                                 Produo grfica
Geraldo Alves                                Paginao/Fotolitos
Studio 3 Desenvolvimento Editorial            Dados Internacionais de
Catalogao na Publicao (CIP)                    (Cmara Brasileira do
Livro, SP, Brasil)               Foucault, Michel, 1926-1984.
As palavras e as coisas : uma arqueologia das cincias humanas / Michel
Foucault ; traduo Salma Tannus Muchail. -- 8 ed. -- So Paulo :
Martins           Fontes, 1999. -- (Coleo tpicos)
Ttulo original: Les mots et les choses.               ISBN
85-336-0997-3               1. Cincias humanas -- Histria 2.
Classificao dos conhecimentos --           Histria 3. Linguagem --
Histria I. Ttulo. II. Ttulo: Uma arqueologia das           cincias
humanas. III. Srie. 99-0089
CDD-001.309                         ndices para catlogo sistemtico:
1. Cincias humanas : Histria 001.309                    Todos os
direitos para o Brasil reservados                       Livraria
Martins Fontes Editora Ltda,                       Rua Conselheiro
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........................................................................
............... IX
I Captulo I. Las Meninas...............................................
........................................... 3 Captulo II. A prosa do
mundo...................................................................
............. 23         I. As quatro similitudes, p. 23. -- II. As
assinalaes, p. 35. -- III. Os limites         do mundo, p. 41. -- IV A
escrita das coisas, p. 47 -- V O ser da linguagem, p.         58.
Captulo III. Representar...............................................
......................................... 63         I. Dom Quixote, p.
63. -- II. A ordem, p. 68. -- III. A representao do signo,         p.
80. -- IV A representao reduplicada, p. 87. -- V A imaginao da
semelhana, p. 93. -- VI. "Mthsis" e "taxinomia", p. 99. Captulo IV
Falar...................................................................
................................. 107         I. Crtica e comentrio,
p. 107. -- II. A gramtica geral, p. 112. -- III. A teoria         do
verbo, p. 128. -- IV A articulao, p. 135. -- V A designao, p. 146.
--         VI. A derivao, p. 155. -- VII. O quadriltero da linguagem,
p. 163. Captulo V Classificar..........................................
.................................................. 171         I. O que
dizem os historiadores, p. 171. -- II. A histria natural, p. 175. --
III.         A estrutura, p. 181. -- IV O carter, p. 190. -- V O
contnuo e a catstrofe, p.         200. -- VI. Monstros e fsseis, p.
208. -- VII. O discurso da natureza, p. 218. Captulo VI.
Trocar..................................................................
................................227         I. A anlise das riquezas,
p. 227. -- II. Moeda e preo, p. 231. -- III. O         mercantilismo,
p. 238. -- IV O penhor e o preo, p. 248. -- V A formao do
valor, p. 262. -- VI. A utilidade, p. 271. -- VII. Quadro geral, p. 278.
-- VIII.         O desejo e a representao, p. 287.
II Captulo VII. Os limites da representao............................
..................................297         I. A idade da histria, p.
297. -- II. A medida do trabalho, p. 303. -- III. A         organizao
dos seres, p. 310. -- IV A flexo das palavras, p. 319. -- V
Ideologia e crtica, p. 325. -- VI. As snteses objetivas, p. 334.
Captulo VIII. Trabalho, vida, linguagem................. 343         I.
As novas empiricidades, p. 343. -- II. Ricardo, p. 347. -- III. Cuvier,
p. 362.         -- IV Bopp, p. 386. -- V A linguagem tornada objeto, p.
408. Captulo IX. O homem e seus duplos.................................
......................................417         I. O retorno da
linguagem, p. 417. -- II. O lugar do rei, p. 423. -- III. A
analtica da finitude, p. 430. -- IV. O emprico e o transcendental, p.
439. -- V         O "cogito" e o impensado, p. 444. -- VI. O recuo e o
retorno da origem, p.         453. -- VII. O discurso e o ser do homem,
p. 463. VIII. O sono antropolgico,         p. 470. Captulo X. As
cincias humanas........................................................
....................475         I. O triedro dos saberes, p. 475. -- II.
A forma das cincias humanas, p. 482.         -- III. Os trs modelos,
p. 491. -- IV A Histria, p. 508. -- V Psicanlise,         etnologia,
p. 517. -- VI. p. 536. ndice onomstico................................
....................................................................537
PREFCIO Este livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que, com sua
leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento -- do nosso:
daquele que tem nossa idade e nossa geografia --, abalando todas as
superfcies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para ns a
profuso dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo,
nossa prtica milenar do Mesmo e do Outro. Esse texto cita "uma certa
enciclopdia chinesa" onde ser escrito que "os animais se dividem em:
a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d)
leites, e) sereias, f) fabulosos, g) ces em liberdade, h) includos na
presente classificao, i) que se agitam como loucos, j) inumerveis, k)
desenhados com um pincel muito fino de plo de camelo, l) et cetera, m)
que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas". No
deslumbramento dessa taxinomia, o que de sbito atingimos, o que, graas
ao aplogo, nos  indicado como o encanto extico de um outro
pensamento,  o limite do nosso: a impossibilidade patente de pensar
isso.      Que coisa, pois,  impossvel pensar, e de que
impossibilidade se trata? A cada uma destas singulares rubricas [pg.
IX] podemos dar um sentido preciso e um contedo determinvel; algumas
envolvem realmente seres fantsticos -- ani- mais fabulosos ou sereias;
mas, justamente em lhes conferindo um lugar  parte, a enciclopdia
chinesa localiza seus poderes de contgio; distingue com cuidado os
animais bem reais (que se agitam como loucos ou que acabam de quebrar a
bilha) e aqueles que s tm lugar no imaginrio. As perigosas misturas
so conjuradas, insgnias e fbulas reencontram seu alto posto; nenhum
anfbio inconcebvel, nenhuma asa arranhada, nenhuma pele escamosa, nada
dessas faces polimorfas e demonacas, nenhum hlito em chamas. Ali, a
monstruosidade no altera nenhum corpo real, em nada modifica o
bestirio da imaginao; no se esconde na pro- fundeza de algum poder
estranho. Sequer estaria presente em alguma parte dessa classificao,
se no se esgueirasse em todo o espao vazio, em todo o branco
intersticial que separa os seres uns dos outros. No so os animais
"fabulosos " que so impossveis, pois que so designados como tais, mas
a estreita distncia segundo a qual so justapostos aos ces em
liberdade ou queles que de longe parecem moscas. O que transgride toda
imaginao, todo pensamento possvel,  simplesmente a srie alfabtica
(a, b, c, d) que liga a todas as outras cada uma dessas categorias.
Tampouco se trata da extravagncia de encontros inslitos. Sabe-se o que
h de desconcertante na proximidade dos extremos ou, muito simplesmente,
na vizinhana sbita das coisas sem relao; a enumerao que as faz
entrechocar-se possui, por si s, um poder de encantamento: "J no
estou em jejum, diz Eustenes. Por todo o dia de hoje estaro a salvo da
minha saliva: spides, Anfisbenas, Anerudutos, Abedessimes, Alartas,
Ambatas, Apinaos, Alatrabs, Aractes, Astrios, Alcarates, Arges,
Aranhas, Asclabos, Atlabos, [pg. X] Ascalabotas, Aemorrides...". Mas
todos esses vermes e serpentes, todos esses seres de podrido e de
viscosidade fervilham, como as slabas que os nomeiam, na saliva de
Eustenes:  a que todos tm seu lugar-comum, como, sobre a mesa de
trabalho, o guarda- chuva e a mquina de costura; se a estranheza de seu
encontro  manifesta, ela o  na base deste e, deste em, deste sobre,
cuja solidez e evidncia garantem a possibilidade de uma justaposio.
Era decerto improvvel que as hemorridas, as aranhas e as ambatas
viessem um dia se misturar sob os dentes de Eustenes: mas, afinal de
contas, nessa boca acolhedora e voraz, tinham realmente como se alojar e
encontrar o palcio* de sua coexistncia. * No original: palais, que
significa palcio, palato, e paladar. (N. do T.)       A monstruosidade
que Borges faz circular na sua enumerao consiste, ao contrrio, em que
o prprio espao comum dos encontros se acha arruinado. O impossvel no
 a vizinhana das coisas,  o lugar mesmo onde elas poderiam
avizinhar-se. Os animais "i) que se agitam como loucos, j) inumerveis,
k) desenhados com um pincel muito fino de plo de camelo" -- onde
poderiam eles jamais se encontrar, a no ser na voz imaterial que
pronuncia sua enumerao, a no ser na pgina que a transcreve? Onde
poderiam eles se justapor, seno no no- lugar da linguagem? Mas esta,
ao desdobr-los, no abre mais que um espao impensvel. A categoria
central dos animais "includos na presente classificao " indica bem,
pela explcita referncia a paradoxos conhecidos, que jamais se chegar
a definir, entre cada um desses conjuntos e aquele que os rene a todos,
uma relao estvel de contedo e continente: se todos os animais
classificados se alojam, sem exceo, numa das casas [pg. XI] da
distribuio, todas as outras no estaro dentro desta? E esta, por sua
vez, em que espao reside? O absurdo arruna o e da enumerao, afetando
de impossibilidade o em onde se repartiram as coisas enumeradas. Borges
no acrescenta nenhuma figura ao atlas do impossvel; no faz brilhar em
parte alguma o claro do encontro potico; esquiva apenas a mais
discreta, mas a mais insistente das necessidades; subtrai o cho, o solo
mudo onde os seres podem justapor-se. Desaparecimento mascarado, ou,
antes, irrisoriamente indicado pela srie abecedria de nosso alfabeto,
que se supe servir de fio condutor (o nico visvel) s enumeraes de
uma enciclopdia chinesa... Numa palavra, o que se retira  a clebre
"tbua de trabalho"; e, restituindo a Roussel uma escassa parte do que
lhe  sempre devido, emprego esta palavra "tbua " em dois sentidos
superpostos: mesa niquelada, encerada, envolta em brancura, faiscante
sob o sol de vidro que devora as sombras -- l onde, por um instante,
para sempre talvez, o guarda-chuva encontra a mquina de costura; e
quadro que permite ao pensamento operar com os seres uma ordenao, uma
repartio em classes, um agrupamento nominal pelo que so designadas
suas similitudes e suas diferenas -- l onde, desde o fundo dos tempos,
a linguagem se entrecruza com o espao.      Esse texto de Borges fez-me
rir durante muito tempo, no sem um mal-estar evidente e difcil de
vencer. Talvez porque no seu rastro nascia a suspeita de que h desordem
pior que aquela do incongruente e da aproximao do que no convm;
seria a desordem que faz cintilar os fragmentos de um grande nmero de
ordens possveis na dimenso, sem lei nem geometria, do heterclito; e
importa entender esta palavra no sentido mais prximo de sua etimologia:
as coisas a so "deitadas", "colocadas", "dispostas" em lugares [pg.
XII] a tal ponto diferentes, que  impossvel encontrar-lhes um espao
de acolhimento, definir por baixo de umas e outras um lugar-comum. As
utopias consolam:  que, se elas no tm lugar real, desabrocham,
contudo, num espao maravilhoso e liso; abrem cidades com vastas
avenidas, jardins bem plantados, regies fceis, ainda que o acesso a
elas seja quimrico. As heterotopias inquietam, sem dvida porque
solapam secretamente a linguagem, porque impedem de nomear isto e
aquilo, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham, porque
arrunam de antemo a "sintaxe", e no somente aquela que constri as
frases -- aquela, menos manifesta, que autoriza "manter juntos " (ao
lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas. Eis por que
as utopias permitem as fbulas e os discursos: situam-se na linha reta
da linguagem, na dimenso fundamental da fbula; as heterotopias
(encontradas to freqentemente em Borges) dessecam o propsito,
estancam as palavras nelas prprias, contestam, desde a raiz, toda
possibilidade de gramtica; desfazem os mitos e imprimem esterilidade ao
lirismo das frases.      Parece que certos afsicos no chegam a
classificar de maneira coerente as meadas de ls multicores que se lhes
apresentam sobre a superfcie de uma mesa; como se esse retngulo
unificado no pudesse servir de espao homogneo e neutro onde as coisas
viessem ao mesmo tempo manifestar a ordem contnua de suas identidades
ou de suas diferenas e o campo semntico de sua denominao. Eles
formam, nesse espao unido, onde as coisas normalmente se distribuem e
se nomeiam, uma multiplicidade de pequenos domnios granulosos e
fragmentrios onde semelhanas sem nome aglutinam as coisas em ilhotas
descontnuas; num canto, colocam as meadas mais claras, noutro, as
vermelhas, aqui, [pg. XIII] aquelas que tm uma consistncia mais
lanosa, ali, aquelas mais longas, ou as que tendem ao violeta, ou as que
foram enroladas em novelo. Mas, mal so esboados, todos esses
agrupamentos se desfazem, pois a orla de identidade que os sustenta, por
mais estreita que seja,  ainda demasiado extensa para no ser instvel;
e, infinitamente, o doente rene e separa, amontoa similitudes diversas,
destri as mais evidentes, dispersa as identidades, superpe critrios
diferentes, agita-se, recomea, inquieta-se e chega finalmente  beira
da angstia.      O embarao que faz rir quando se l Borges  por certo
aparentado ao profundo mal-estar daqueles cuja linguagem est arruinada:
ter perdido o "comum" do lugar e do nome. Atopia, afasia. No entanto, o
texto de Borges aponta para outra direo; a essa distoro da
classificao que nos impede de pens-la, a esse quadro sem espao
coerente Borges d como ptria mtica uma regio precisa, cujo simples
nome constitui para o Ocidente uma grande reserva de utopias. A China,
em nosso sonho, no  justamente o lugar privilegiado do espao? Para
nosso sistema imaginrio, a cultura chinesa  a mais meticulosa, a mais
hierarquizada, a mais surda aos acontecimentos do tempo, a mais
vinculada ao puro desenrolar da extenso; pensamos nela como numa
civilizao de diques e de barragens sob a face eterna do cu; vemo-la
estendida e imobilizada sobre toda a superfcie de um continente cercado
de muralhas. Sua prpria escrita no reproduz em linhas horizontais o
vo fugidio da voz; ela ergue em colunas a imagem imvel e ainda
reconhecvel das prprias coisas. Assim  que a enciclopdia chinesa
citada por Borges e a taxinomia que ela prope conduzem a um pensamento
sem espao, a palavras e categorias sem tempo nem lugar mas que, em
essncia, repousam sobre um espao [pg. XIV] solene, todo
sobrecarregado de figuras complexas, de caminhos emaranhados, de locais
estranhos, de secretas passagens e imprevistas comunicaes; haveria
assim, na outra extremidade da terra que habitamos, uma cultura votada
inteiramente  ordenao da extenso, mas que no distribuiria a
proliferao dos seres em nenhum dos espaos onde nos  possvel nomear,
falar, pensar.      Quando instauramos uma classificao refletida,
quando dizemos que o gato e o co se parecem menos que dois galgos,
mesmo se ambos esto adestrados ou embalsamados, mesmo se os dois correm
como loucos e mesmo se acabam de quebrar a bilha, qual , pois, o solo a
partir do qual podemos estabelec-lo com inteira certeza? Em que
"tbua", segundo qual espao de identidades, de similitudes, de
analogias, adquirimos o hbito de distribuir tantas coisas diferentes e
parecidas? Que coerncia  essa -- que se v logo no ser nem
determinada por um encadeamento a priori e necessrio, nem imposta por
contedos imediatamente sensveis? Pois no se trata de ligar
conseqncias, mas sim de aproximar e isolar, de analisar, ajustar e
encaixar contedos concretos; nada mais tateante, nada mais emprico (ao
menos na aparncia) que a instaurao de uma ordem entre as coisas; nada
que exija um olhar mais atento, uma linguagem mais fiel e mais bem
modulada; nada que requeira com maior insistncia que se deixe conduzir
pela proliferao das qualidades e das formas. E, contudo, um olhar
desavisado bem poderia aproximar algumas figuras semelhantes e
distinguir outras em razo de tal ou qual diferena: de fato no h,
mesmo para a mais ingnua experincia, nenhuma similitude, nenhuma
distino que no resulte de uma operao precisa e da aplicao de um
critrio prvio. Um "sistema dos elementos" -- uma definio dos
segmentos sobre [pg. XV] os quais podero aparecer as semelhanas e as
diferenas, os tipos de variao de que esses segmentos podero ser
afetados, o limiar, enfim, acima do qual haver diferena e abaixo do
qual haver similitude --  indispensvel para o estabelecimento da mais
simples ordem. A ordem  ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas
como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas se olham de
algum modo umas s outras e aquilo que s existe atravs do crivo de um
olhar, de uma ateno, de uma linguagem; e  somente nas casas brancas
desse quadriculado que ela se manifesta em profundidade como j
presente, esperando em silncio o momento de ser enunciada.      Os
cdigos fundamentais de uma cultura -- aqueles que regem sua linguagem,
seus esquemas perceptivos, suas trocas, suas tcnicas, seus valores, a
hierarquia de suas prticas -- fixam, logo de entrada, para cada homem,
as ordens empricas com as quais ter de lidar e nas quais se h de
encontrar. Na outra extremidade do pensamento, teorias cientficas ou
interpretaes de filsofos explicam por que h em geral uma ordem, a
que lei geral obedece, que princpio pode justific-la, por que razo 
esta a ordem estabelecida e no outra. Mas, entre essas duas regies to
distantes, reina um domnio que, apesar de ter sobretudo um papel
intermedirio, no  menos fundamental:  mais confuso, mais obscuro e,
sem dvida, menos fcil de analisar.  a que uma cultura, afastando-se
insensivelmente das ordens empricas que lhe so prescritas por seus
cdigos primrios, instaurando uma primeira distncia em relao a elas,
f-las perder sua transparncia inicial, cessa de se deixar passivamente
atravessar por elas, desprende-se de seus poderes imediatos e
invisveis, libera-se o bastante para constatar que essas ordens no so
talvez as nicas possveis nem as melhores: de [pg. XVI] tal sorte que
se encontre diante do fato bruto de que h, sob suas ordens espontneas,
coisas que so em si mesmas ordenveis, que pertencem a uma certa ordem
muda, em suma, que h ordem. Como se, libertando-se por uma parte de
seus grilhes lingsticos, perceptivos, prticos, a cultura aplicasse
sobre estes um segundo grilho que os neutralizasse, que, duplicando-os,
os fizesse aparecer ao mesmo tempo que os exclusse e, no mesmo
movimento, se achasse diante do ser bruto da ordem.  em nome dessa
ordem que os cdigos da linguagem, da percepo, da prtica so
criticados e parcialmente invalidados.  com base nessa ordem, assumida
como solo positivo, que se construiro as teorias gerais da ordenao
das coisas e as interpretaes que esta requer. Assim, entre o olhar j
codificado e o conhecimento reflexivo, h uma regio mediana que libera
a ordem no seu ser mesmo:  a que ela aparece, segundo as culturas e
segundo as pocas, contnua e graduada ou fracionada e descontnua,
ligada ao espao ou constituda a cada instante pelo impulso do tempo,
semelhante a um quadro de variveis ou definida por sistemas separados
de coerncias, composta de semelhanas que se aproximam sucessivamente
ou se espelham mutuamente, organizada em torno de diferenas crescentes
etc. De tal sorte que essa regio "mediana", na medida em que manifesta
os modos de ser da ordem, pode apresentar-se como a mais fundamental:
anterior s palavras, s percepes e aos gestos, incumbidos ento de
traduzi-la com maior ou menor exatido ou sucesso (razo pela qual essa
experincia da ordem, sem seu ser macio e primeiro, desempenha sempre
um papel crtico); mais slida, mais arcaica, menos duvidosa, sempre
mais "verdadeira " que as teorias que lhes tentam dar uma forma
explcita, uma explicao exaustiva, ou um fundamento filosfico. Assim,
[pg. XVII] em toda cultura, entre o uso do que se poderia chamar os
cdigos ordenadores e as reflexes sobre a ordem, h a experincia nua
da ordem e de seus modos de ser.      No presente estudo,  essa
experincia que se pretende analisar. Trata-se de mostrar o que ela veio
a se tornar, desde o sculo XVI, no meio de uma cultura como a nossa: de
que maneira, refazendo, como que contra a corrente, o percurso da
linguagem tal como foi falada, dos seres naturais, tais como foram
percebidos e reunidos, das trocas, tais como foram praticadas, nossa
cultura manifestou que havia ordem e que s modalidades dessa ordem
deviam as permutas suas leis, os seres vivos sua regularidade, as
palavras seu encadeamento e seu valor representativo; que modalidades de
ordem foram reconhecidas, colocadas, vinculadas ao espao e ao tempo,
para formar o suporte positivo de conhecimento tais que vo dar na
gramtica e na filologia, na histria natural e na biologia, no estudo
das riquezas e na economia poltica. Tal anlise, como se v, no
compete  histria das idias ou das cincias:  antes um estudo que se
esfora por encontrar a partir de que foram possveis conhecimentos e
teorias; segundo qual espao de ordem se constituiu o saber; na base de
qual a priori histrico e no elemento de qual positividade puderam
aparecer idias, constituir-se cincias, refletir-se experincias em
filosofias, formar-se racionalidades, para talvez se desarticularem e
logo desvanecerem. No se tratar, portanto, de conhecimentos descritos
no seu progresso em direo a uma objetividade na qual nossa cincia de
hoje pudesse enfim se reconhecer; o que se quer trazer  luz  o campo
epistemolgico, a epistm onde os conhecimentos, encarados fora de
qualquer critrio referente a seu valor racional ou a suas formas
objetivas, enrazam sua positividade e manifestam assim uma histria que
[pg. XVIII] no  a de sua perfeio crescente, mas, antes, a de suas
condies de possibilidade; neste relato, o que deve aparecer so, no
espao do saber, as configuraes que deram lugar s formas diversas do
conhecimento emprico. Mais que de uma histria no sentido tradicional
da palavra, trata-se de uma "arqueologia"1.         Ora, esta
investigao arqueolgica mostrou duas grandes descontinuidades na
epistm da cultura ocidental: aquela que inaugura a idade clssica (por
volta dos meados do sculo XVII) e aquela que, no incio do sculo XIX,
marca o limiar de nossa modernidade. A ordem, sobre cujo fundamento
pensamos, no tem o mesmo modo de ser que a dos clssicos. Por muito
forte que seja a impresso que temos de um movimento quase ininterrupto
da ratio europia desde o Renascimento at nossos dias, por mais que
pensemos que a classificao de Lineu, mais ou menos adaptada, pode de
modo geral continuar a ter uma espcie de validade, que a teoria do
valor de Condillac se encontra em parte no marginalismo do sculo XIX,
que Keynes realmente sentiu a afinidade de suas prprias anlises com as
de Cantillon, que o propsito da Gramtica geral (tal como o encontramos
nos autores de Port- Royal ou em Bauze) no est to afastado de nossa
atual lingstica -- toda esta quase-continuidade ao nvel das idias e
dos temas no passa, certamente, de um 1     Os problemas de mtodo
suscitados por tal "arqueologia" sero examinados em uma prxima obra.
efeito de superfcie; no nvel arqueolgico, v-se que o sistema das
positividades mudou de maneira macia na curva dos sculos XVIII e XIX.
No que a razo tenha feito progressos; mas o modo de ser das coisas e
da ordem que, distribuindo-as, oferece-as ao saber,  que foi
profundamente alterado. Se a histria natural de Tournefort, de Lineu e
de [pg. XIX] Buffon tem relao com alguma coisa que no ela mesma, no
 com a biologia, a anatomia comparada de Cuvier ou o evolucionismo de
Darwin, mas com a gramtica geral de Bauze, com a anlise da moeda e da
riqueza tal como a encontramos em Law, em Vron de Fortbonnais ou em
Turgot. Os conhecimentos chegam talvez a se engendrar, as idias a se
transformar e a agir umas sobre as outras (mas como? at o presente os
historiadores no no-lo disseram); uma coisa, em todo o caso,  certa: a
arqueologia, dirigindo-se ao espao geral do saber, a suas configuraes
e ao modo de ser das coisas que a aparecem, define sistemas de
simultaneidade, assim como a srie de mutaes necessrias e suficientes
para circunscrever o limiar de uma positividade nova.      Assim, a
anlise pde mostrar a coerncia que existiu, durante toda a idade
clssica, entre a teoria da representao e as da linguagem, das ordens
naturais, da riqueza e do valor.  esta configurao que, a partir do
sculo XIX, muda inteiramente; a teoria da representao desaparece como
fundamento geral de todas as ordens possveis; a linguagem, por sua vez,
como quadro espontneo e quadriculado primeiro das coisas, como
suplemento indispensvel entre a representao e os seres, desvanece-se;
uma historicidade profunda penetra no corao das coisas, isola-as e as
define na sua coerncia prpria, impe-lhes formas de ordem que so
implicadas pela continuidade do tempo; a anlise das trocas e da moeda
cede lugar ao estudo da produo, a do organismo toma dianteira sobre a
pesquisa dos caracteres taxinmicos; e, sobretudo, a linguagem perde seu
lugar privilegiado e torna-se, por sua vez, uma figura da histria
coerente com a espessura de seu passado. Na medida, porm, em que as
coisas giram sobre si mesmas, reclamando para seu devir no mais que o
princpio de sua inteligibilidade e [pg. XX] abandonando o espao da
representao, o homem, por seu turno, entra, e pela primeira vez, no
campo do saber ocidental. Estranhamente, o homem -- cujo conhecimento
passa, a olhos ingnuos, como a mais velha busca desde Scrates -- no
, sem dvida, nada mais que uma certa brecha na ordem das coisas, uma
configurao, em todo o caso, desenhada pela disposio nova que ele
assumiu recentemente no saber. Da nasceram todas as quimeras dos novos
humanismos, todas as facilidades de uma "antropologia", entendida como
reflexo geral, meio positiva, meio filosfica, sobre o homem. Contudo,
 um reconforto e um profundo apaziguamento pensar que o homem no passa
de uma inveno recente, uma figura que no tem dois sculos, uma
simples dobra de nosso saber, e que desaparecer desde que este houver
encontrado uma forma nova.      V-se que esta investigao responde um
pouco, como em eco, ao projeto de escrever uma histria da loucura na
idade clssica; ela tem, em relao ao tempo, as mesmas articulaes,
tomando como seu ponto de partida o fim do Renascimento e encontrando,
tambm ela, na virada do sculo XIX, o limiar de uma modernidade de que
ainda no samos. Enquanto, na histria da loucura, se interrogava a
maneira como uma cultura pode colocar sob uma forma macia e geral a
diferena que a limita, trata-se aqui de observar a maneira como ela
experimenta a proximidade das coisas, como ela estabelece o quadro de
seus parentescos e a ordem segundo a qual  preciso percorr-los.
Trata-se, em suma, de uma histria da semelhana: sob que condies o
pensamento clssico pde refletir, entre as coisas, relaes de
similaridade ou de equivalncia que fundam e justificam as palavras, as
classificaes, as trocas? A partir de qual a priori histrico foi
possvel definir o grande tabuleiro das identidades [pg. XXI] distintas
que se estabelece sobre o fundo confuso, indefinido, sem fisionomia e
como que indiferente, das diferenas? A histria da loucura seria a
histria do Outro -- daquilo que, para uma cultura  ao mesmo tempo
interior e estranho, a ser portanto excludo (para conjurar-lhe o perigo
interior), encerrando-o porm (para reduzir-lhe a alteridade); a
histria da ordem das coisas seria a histria do Mesmo -- daquilo que,
para uma cultura,  ao mesmo tempo disperso e aparentado, a ser portanto
distinguido por marcas e recolhido em identidades.      E se se pensar
que a doena , ao mesmo tempo, a desordem, a perigosa alteridade no
corpo humano e at o cerne da vida, mas tambm um fenmeno da natureza
que tem suas regularidades, suas semelhanas e seus tipos -- v-se que
lugar poderia ter uma arqueologia do olhar mdico. Da experincia-limite
do Outro s formas constitutivas do saber mdico e, destas,  ordem das
coisas e ao pensamento do Mesmo, o que se oferece  anlise arqueolgica
 todo o saber clssico, ou melhor, esse limiar que nos separa do
pensamento clssico e constitui nossa modernidade. Nesse limiar apareceu
pela primeira vez esta estranha figura do saber que se chama homem e que
abriu um espao prprio s cincias humanas. Tentando trazer  luz esse
profundo desnvel da cultura ocidental,  a nosso solo silencioso e
ingenuamente imvel que restitumos suas rupturas, sua instabilidade,
suas falhas; e  ele que se inquieta novamente sob nossos passos. [pg.
XXII] I CAPTULO I LAS MENINAS
I      O pintor est ligeiramente afastado do quadro. Lana um olhar em
direo ao modelo; talvez se trate de acrescentar um ltimo toque, mas 
possvel tambm que o primeiro trao no tenha ainda sido aplicado. O
brao que segura o pincel est dobrado para a esquerda, na direo da
palheta; permanece imvel, por um instante, entre a tela e as cores.
Essa mo hbil est pendente do olhar; e o olhar, em troca, repousa
sobre o gesto suspenso. Entre a fina ponta do pincel e o gume do olhar,
o espetculo vai liberar seu volume.      No sem um sistema sutil de
evasivas. Distanciando-se um pouco, o pintor colocou-se ao lado da obra
na qual trabalha. Isso quer dizer que. para o espectador que no momento
olha, ele est  direita de seu quadro, o qual ocupa toda a ex-
tremidade esquerda. A esse mesmo espectador o quadro volta as costas:
dele s se pode perceber o reverso, com a imensa armao que o sustenta.
O pintor, em contrapartida,  perfeitamente visvel em toda a sua
estatura; de todo modo, ele no [pg. 03] est encoberto pela alta tela
que, talvez, ir absorv-lo logo em seguida, quando, dando um passo em
sua direo, se entregar novamente a seu trabalho; sem dvida, nesse
mesmo instante, ele acaba de aparecer aos olhos do espectador, sur-
gindo dessa espcie de grande gaiola virtual que a superfcie que ele
est pintando projeta para trs. Podemos v-lo agora, num instante de
pausa, no centro neutro dessa oscilao. Seu talhe escuro, seu rosto
claro so meios-termos entre o visvel e o invisvel: saindo dessa tela
que nos escapa, ele emerge aos nossos olhos; mas quando, dentro em
pouco, der um passo para a direita, furtando-se aos nossos olhares,
achar-se- colocado bem em face da tela que est pintando; entrar nessa
re- gio onde seu quadro, negligenciado por um instante, se lhe vai
tornar de novo visvel, sem sombra nem reticncia. Como se o pintor no
pudesse ser ao mesmo tempo visto no quadro em que est representado e
ver aquele em que se aplica a re- presentar alguma coisa. Ele reina no
limiar dessas duas visibilidades incompatveis.      O pintor olha, o
rosto ligeiramente virado e a cabea inclinada para o ombro. Fixa um
ponto invisvel, mas que ns, espectadores, podemos facilmente
determinar, pois que esse ponto somos ns mesmos: nosso corpo, nosso
rosto, nossos olhos. O espetculo que ele observa , portanto, duas
vezes invisvel: uma vez que no  representado no espao do quadro e
uma vez que se situa precisamente nesse ponto cego, nesse esconderijo
essencial onde nosso olhar se furta a ns mesmos no momento em que
olhamos. E, no entanto, como poderamos deixar de ver essa
invisibilidade, que est a sob nossos olhos, j que ela tem no prprio
quadro seu sensvel equivalente, sua figura selada? Poder-se-ia, com
efeito, adivinhar o que o pintor olha, se fosse possvel lanar os olhos
sobre a tela a que se aplica; desta, porm, s se distingue a [pg. 04]
textura, os esteios na horizontal e, na vertical, o oblquo do cavalete.
O alto retngulo montono que ocupa toda a parte esquerda do quadro real
e que figura o verso da tela representada reconstituiu, sob as espcies
de uma superfcie, a in-visibilidade em profundidade daquilo que o
artista contempla: este espao em que ns estamos, que ns somos. Dos
olhos do pintor at aquilo que ele olha, est traada uma linha
imperiosa que ns, os que olhamos, no poderamos evitar: ela atravessa
o quadro real e alcana,  frente da sua superfcie, o lugar de onde
vemos o pintor que nos observa; esse pontilhado nos atinge
infalivelmente e nos liga  representao do quadro.      Aparentemente,
esse lugar  simples; constitui-se de pura reciprocidade: olhamos um
quadro de onde um pintor, por sua vez, nos contempla. Nada mais que um
face-a-face, olhos que se surpreendem, olhares retos que, em se
cruzando, se su- perpem. E, no entanto, essa tnue linha de
visibilidade envolve, em troca, toda uma rede complexa de incertezas, de
trocas e de evasivas. O pintor s dirige os olhos para ns na medida em
que nos encontramos no lugar do seu motivo. Ns, espectadores, estamos
em excesso. Acolhidos sob esse olhar, somos por ele expulsos,
substitudos por aquilo que desde sempre se encontrava l, antes de ns:
o prprio modelo. Mas, inversamente, o olhar do pintor, dirigido para
fora do quadro, ao vazio que lhe faz face, aceita tantos modelos quantos
espectadores lhe apaream; nesse lugar preciso mas indiferente, o que
olha e o que  olhado permutam-se incessantemente. Nenhum olhar 
estvel, ou antes, no sulco neutro do olhar que traspassa a tela
perpendicularmente, o sujeito e o objeto, o espectador e o modelo
invertem seu papel ao infinito. E, na extremidade esquerda do quadro, a
grande tela virada exerce a sua segunda funo: obstinadamente
invisvel, impede que [pg. 05] seja alguma vez determinvel ou
definitivamente estabelecida a relao dos olhares. A fixidez opaca que
ela faz reinar num lado torna para sempre instvel o jogo das metamorfo-
ses que, no centro, se estabelece entre o espectador e o modelo. Porque
s vemos esse reverso, no sabemos quem somos nem o que fazemos. Somos
vistos ou vemos? O pintor fixa atualmente um lugar que, de instante a
instante, no cessa de mudar de contedo, de forma, de rosto, de
identidade. Mas a imobilidade atenta de seus olhos remete a uma outra
direo, que eles j seguiram freqentes vezes e que breve, sem dvida
alguma, vo retomar: a da tela imvel sobre a qual se traa, est talvez
traado, desde muito tempo e para sempre, um retrato que jamais se
apagar. De sorte que o olhar soberano do pintor comanda um tringulo
virtual, que define em seu percurso esse quadro de um quadro: no vrtice
-- nico ponto visvel -- os olhos do artista; na base, de um lado, o
lugar invisvel do modelo, do outro, a figura provavelmente esboada na
tela virada.      No momento em que colocam o espectador no campo de seu
olhar, os olhos do pintor captam-no, constrangem-no a entrar no quadro,
designam-lhe um lugar ao mesmo tempo privilegiado e obrigatrio,
apropriam-se de sua luminosa e visvel espcie e a projetam sobre a
superfcie inacessvel da tela virada. Ele v sua invisibilidade tornada
visvel ao pintor e transposta em uma imagem definitivamente invisvel a
ele prprio. Surpresa que  multiplicada e tornada ainda mais inevitvel
por um estratagema marginal. Na extremidade direita, o quadro recebe sua
luz de uma janela representada segundo uma perspectiva muito curta; dela
apenas se visualiza o vo; de sorte que o fluxo de luz que ela espalha
largamente banha ao mesmo tempo, com a mesma generosidade, dois espaos
vizinhos, entrecruzados, mas irredutveis: a superfcie [pg. 06] da
tela, com o volume que ela representa (isto , o ateli do pintor, ou a
sala em que instalou seu cavalete), e,  frente dessa superfcie, o
volume real que o espectador ocupa (ou ento o lugar irreal do modelo).
E, percorrendo a sala da direita para a esquerda, a vasta luz dourada
impele ao mesmo tempo o espectador em direo ao pintor e o modelo em
direo  tela;  ela tambm que, iluminando o pintor, torna-o visvel
ao espectador e faz brilhar como linhas de ouro, aos olhos do modelo, a
moldura da tela enigmtica, onde sua imagem, transposta, vai se achar
encerrada. Esta janela encantoada, parcial, apenas indicada, libera uma
luz inteira e mista que serve de lugar-comum  representao. Ela
equilibra, na outra extremidade do quadro, a tela invisvel: assim como
esta, virando as costas aos espectadores, se redobra contra o quadro que
a representa e forma, pela superposio de seu reverso visvel sobre a
superfcie do quadro que a contm, o lugar, para ns inacessvel, onde
cintila a Imagem por excelncia; assim a janela, pura abertura, instaura
um espao to manifesto quanto o outro  oculto; to comum ao pintor, s
personagens, aos modelos, aos espectadores quanto o outro  solitrio
(pois ningum o olha, nem mesmo o pintor). Da direita, derrama-se por
uma janela invisvel o puro volume de uma luz que torna visvel toda
representao;  esquerda, estende-se a superfcie que encobre, do outro
lado de sua textura demasiado visvel, a representao que ela contm.
Inundando a cena (quero dizer, tanto a sala quanto a tela, a sala
representada na tela e a sala onde a tela est colocada), a luz envolve
as personagens e os espectadores, impelindo-os, sob o olhar do pintor,
em direo ao lugar onde seu pincel os vai representar. Esse lugar,
porm, nos  recusado. Olhamo-nos olhados pelo pintor e tornados
visveis aos seus olhos pela mesma luz que no-lo faz ver. E, no momento
em que vamos nos apreender transcritos [pg. 07] por sua mo como num
espelho, deste no podemos surpreen- der mais que o inspido reverso. O
outro lado de um reflexo.      Ora, exatamente em face dos espectadores
-- de ns mesmos -- sobre a parede que constitui o fundo da sala, o
autor representou uma srie de quadros; e eis que, entre todas essas
telas suspensas, uma dentre elas brilha com um claro singu- lar. Sua
moldura  mais larga, mais sombria que a das outras; uma fina linha
branca, no entanto, a duplica interiormente, difundindo sobre toda a sua
superfcie uma luz dificilmente determinvel; pois no vem de parte
alguma seno de um espao que lhe seria interior. Nessa luz estranha
aparecem duas silhuetas e, acima delas, um pouco para trs, uma pesada
cortina de prpura. Os outros quadros s do a ver al- gumas manchas
mais plidas no limite de uma noite sem profundeza. Esse, ao contrrio,
abre-se para um espao em recuo onde formas reconhecveis se dispem
numa claridade que s a ele pertence. Entre todos esses elementos
destinados a oferecer representaes, mas que as contestam, as recusam,
as esquivam por sua posio ou sua distncia, esse  o nico que
funciona com toda a honestidade e que d a ver o que deve mostrar. A
despeito de seu distanciamento, a despeito da sombra que o envolve. Mas
no  um quadro:  um espelho. Ele oferece enfim esse encantamento do
duplo, que tanto as pinturas afastadas quanto a luz do primeiro plano
com a tela irnica recusavam.      De todas as representaes que o
quadro representa, ele  a nica visvel; mas ningum o olha. Em p ao
lado de sua tela, a ateno toda absorvida pelo seu modelo, o pintor no
pode ver esse espelho que brilha suavemente atrs dele. As outras
personagens do quadro esto, na maioria, voltadas tambm elas para o que
se deve passar  frente -- para a clara invisibilidade que margeia a
tela, para esse trio de luz, onde [pg. 08] seus olhares tm para ver
aqueles que os vem, e no para es- sa cavidade sombria pela qual se
fecha o quarto onde esto representadas. H, com efeito, algumas cabeas
que se oferecem de perfil: nenhuma, porm, suficientemente virada para
olhar, no fundo da sala, esse espelho desolado, pequeno retngulo
brilhante que nada mais  seno visibilidade, mas sem nenhum olhar capaz
de apossar-se dela, torn-la atual e comprazer-se no fruto, subitamente
amadurecido, de seu espetculo.       preciso reconhecer que essa
indiferena s se iguala  do espelho. Com efeito, este nada reflete
daquilo que se encontra no mesmo espao que ele: nem o pintor, que lhe
volta as costas, nem as personagens no centro da sala. Em sua clara
profundidade, no  o visvel que ele fita. Na pintura holandesa, era
tradio que os espelhos desempenhassem um papel de reduplicao:
repetiam o que era dado uma primeira vez no quadro, mas no interior de
um espao irreal, modificado, estreitado, recurvo. Ali se via a mesma
coisa que na primeira instncia do quadro, porm decomposta e recomposta
segundo uma outra lei. Aqui o espelho nada diz do que j foi dito. Sua
posio, entretanto,  quase central: sua borda superior est exatamente
sobre a linha que reparte em duas a altura do quadro, ocupa sobre a
parede do fundo (ao menos sobre a parte visvel desta) uma posio
mediana; deveria, pois, ser atravessado pelas mesmas linhas perspectivas
que o prprio quadro; poder-se-ia esperar que um mesmo ateli, um mesmo
pintor, uma mesma tela nele se dispusessem segundo um espao idntico;
poderia ser o duplo perfeito.      Ora, ele no faz ver nada do que o
prprio quadro representa. Seu olhar imvel vai captar  frente do
quadro, nessa regio necessariamente invisvel que forma sua face
exterior, as personagens que ali esto dispostas. Em vez de girar [pg.
09] em torno de objetos visveis, esse espelho atravessa todo o campo da
representao, negligenciando o que a poderia captar, e restitui a
visibilidade ao que permanece fora de todo olhar. Mas essa
invisibilidade que ele supera no  a do oculto: no contorna o
obstculo, no desvia a perspectiva, enderea-se ao que  invisvel ao
mesmo tempo pela estrutura do quadro e por sua existncia como pintura.
O que nele se reflete  o que todas as personagens da tela esto
fixando, o olhar reto diante delas; , pois, o que se poderia ver, se a
tela se prolongasse para a frente, indo mais para baixo, at envolver as
personagens que servem de modelos ao pintor. Mas  tambm, j que a tela
se interrompe ali, dando a ver o pintor e seu ateli, o que est
exterior ao quadro, na medida em que ele  quadro, isto , fragmento
retangular de linhas e cores, encarregado de representar alguma coisa
aos olhos de todo espectador possvel. No fundo da sala, ignorado por
todos, o espelho inesperado faz brilhar as figuras que o pintor olha (o
pintor e sua realidade representada, objetiva, de pintor trabalhando);
mas tambm as figuras que olham o pintor (nessa realidade material que
as linhas e as cores depositaram sobre a tela). Estas figuras so, uma e
outra, igualmente inacessveis, mas de modo diferente: a primeira, por
um efeito de composio que  prprio ao quadro; a segunda, pela lei que
preside  existncia mesma de todo quadro em geral. Aqui, o jogo da
representao consiste em conduzir essas duas formas de invisibilidade
uma ao lugar da outra, numa superposio instvel -- e em restitu-las
logo  outra extremidade do quadro -- a esse plo que  o mais altamente
representado: o de uma profundidade de reflexo na reentrncia de uma
profundidade de quadro. O espelho assegura uma mettese da visibilidade
que incide ao mesmo tempo sobre o espao representado no quadro e sua
natureza de representao; faz ver, no [pg. 10] centro da tela, aquilo
que, do quadro,  duas vezes necessariamente invisvel.      Estranha
maneira de aplicar ao p da letra, mas invertendo-o, o conselho que o
velho Pachero dera, ao que parece, ao seu aluno, quando trabalhava no
ateli de Sevilha: "A imagem deve sair da moldura."
II      Mas talvez seja tempo de nomear enfim essa imagem que aparece no
fundo do espelho e que o pintor contempla  frente do quadro. Talvez
valha a pena fixar de vez a identidade das personagens presentes ou
indicadas, para no nos atrapalharmos infinitamente nestas designaes
flutuantes, um pouco abstratas, sempre suscetveis de equvocos e de
desdobramentos: "o pintor", "as personagens", "os espectadores", "as
imagens". Em vez de prosseguir sem fim numa linguagem fatalmente
inadequada ao visvel, bastaria dizer que Velsquez comps um quadro;
que nesse quadro ele se representou a si mesmo no seu ateli, ou num
salo do Escoriai, a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem
contemplar, rodeada de aias, de damas de honor, de cortesos e de anes;
que a esse grupo pode-se muito precisamente atribuir nomes: a tradio
reconhece aqui dona Maria Agustina Sarmiente, ali, Nieto, no primeiro
plano, Nicolaso Pertusato, bufo italiano. Bastaria acrescentar que as
duas personagens que servem de modelo ao pintor no so visveis, ao
menos diretamente; mas que podemos distingui-las num espelho; que se
trata, sem dvida, do rei Filipe IV e de sua esposa Mariana.      Esses
nomes prprios constituiriam indcios teis, evitariam designaes
ambguas; eles nos diriam, em todo o caso, [pg. 11] o que o pintor olha
e, com ele, a maioria das personagens do quadro. Mas a relao da
linguagem com a pintura  uma relao infinita. No que a palavra seja
imperfeita e esteja, em face do visvel, num dficit que em vo se
esforaria por recuperar. So irredutveis uma ao outro: por mais que se
diga o que se v, o que se v no se aloja jamais no que se diz, e por
mais que se faa ver o que se est dizendo por imagens, metforas,
comparaes, o lugar onde estas resplandecem no  aquele que os olhos
descortinam, mas aquele que as sucesses da sintaxe definem. Ora, o nome
prprio, nesse jogo, no passa de um artifcio: permite mostrar com o
dedo, quer dizer, fazer passar sub-repticiamente do espao onde se fala
para o espao onde se olha, isto , ajust-los comodamente um sobre o
outro como se fossem adequados. Mas, se se quiser manter aberta a
relao entre a linguagem e o visvel, se se quiser falar no de
encontro a, mas a partir de sua incompatibilidade, de maneira que se
permanea o mais prximo possvel de uma e de outro,  preciso ento pr
de parte os nomes prprios e meter- se no infinito da tarefa. , talvez,
por intermdio dessa linguagem nebulosa, annima, sempre meticulosa e
repetitiva, porque demasiado ampla, que a pintura, pouco a pouco,
acender suas luzes.       preciso, pois, fingir no saber quem se
refletir no fundo do espelho e interrogar esse reflexo ao nvel de sua
existncia.      De incio, ele  o verso da grande tela representada 
esquerda. O verso ou, antes, a face dianteira, pois que mostra de frente
o que ela, por sua posio, esconde. Ademais, ope-se  janela e a
refora. Como ela,  um lugar-comum ao quadro e ao que lhe  exterior. A
janela, porm, opera pelo movimento contnuo de uma efuso que, da
direita para a esquerda, agrega s personagens atentas, ao pintor, ao
quadro, o espetculo que contemplam; j o espelho, por um movimento
[pg. 12] violento, instantneo e de pura surpresa, vai buscar,  frente
do quadro, aquilo que  olhado mas no visvel, a fim de, no extremo da
profundidade fictcia, torn-lo visvel mas indiferente a todos os
olhares. O pontilhado imperioso que est traado entre o reflexo e o que
ele reflete corta perpendicularmente o fluxo lateral da luz. Enfim -- e
 a terceira funo desse espelho -- ele pe em paralelo uma porta que,
como ele, se abre na parede do fundo. Tambm ela recorta um retngulo
claro, cuja luz fosca no se irradia pela sala. No passaria de uma
placa dourada, no estivesse ela aberta para fora atravs de um batente
esculpido, da curva de uma cortina e da sombra de vrios degraus. A
comea um corredor; mas, em vez de se perder em meio  obscuridade, ele
se dissipa num brilho amarelo, cuja luz, sem entrar, rodopia em torno de
si mesma e repousa. Sobre esse fundo, ao mesmo tempo prximo e sem
limite, um homem destaca sua alta silhueta; ele  visto de perfil; com
uma das mos retm o peso de um cortinado; seus ps esto pousados sobre
dois degraus diferentes; tem o joelho dobrado. Talvez v entrar na sala;
talvez se limite a espiar o que se passa no interior, contente de
surpreender sem ser observado. Tal como o espelho, fixa o verso da cena:
tanto quanto ao espelho, ningum lhe presta ateno. No se sabe donde
vem; pode-se supor que, seguindo por incertos corredores, contornou a
sala onde as personagens esto reunidas e onde trabalha o pintor; talvez
estivesse, h pouco, tambm ele  frente da cena, na regio invisvel
que  contemplada por todos os olhos do quadro. Como as imagens que se
distinguem no fundo do espelho,  possvel que ele seja um emissrio
desse espao evidente e escondido. H, no entanto, uma diferena: ele
est ali em carne e osso; surgiu de fora, no limiar da rea
representada; ele  indubitvel -- no um reflexo provvel, [pg. 13]
mas uma irrupo. O espelho, fazendo ver, para alm mesmo dos muros do
ateli, o que se passa  frente do quadro, faz oscilar, na sua dimenso
sagital, o interior e o exterior. Com um p sobre o degrau e o corpo
inteiramente de perfil, o visitante ambguo entra e sai ao mesmo tempo,
num balancear imvel. Ele repete, sem sair do lugar, mas na realidade
sombria de seu corpo, o movimento instantneo das imagens que atravessam
a sala, penetram no espelho, nele se refletem e dele ressaltam como
espcies visveis, novas e idnticas. Plidas, minsculas, essas
silhuetas no espelho so recusadas pela alta e slida estatura do homem
que surge no vo da porta.      Cumpre, no entanto, retornar do fundo do
quadro em direo  frente da cena;  preciso abandonar esse circuito
cuja voluta se acaba de percorrer. Partindo do olhar do pintor que, 
esquerda, constitui como que um centro deslocado, distingue- se primeiro
o reverso da tela, depois os quadros expostos, com o espelho no centro,
a seguir a porta aberta, novos quadros, cuja perspectiva, porm, muito
aguda, s deixa ver as molduras em sua densidade, enfim,  extremidade
direita a janela, ou, antes, a fenda por onde se derrama a luz. Essa
concha em hlice oferece todo o ciclo da representao: o olhar, a
palheta e o pincel, a tela inocente de signos (so os instru- mentos
materiais da representao), os quadros, os reflexos, o homem real (a
representao acabada, mas como que liberada de seus contedos ilusrios
ou verdadeiros que lhe so justapostos); depois, a representao se
dilui: s se vem as molduras e essa luz que, do exterior, banha os
quadros, os quais, contudo, devem em troca reconstituir  sua prpria
maneira, como se ela viesse de outro lugar, atravessando suas molduras
de madeira escura. E essa luz, vemo-la, com efeito, no quadro, parecendo
emergir no interstcio da moldura; e de [pg. 14] l ela alcana a
fronte, as faces, os olhos, o olhar do pintor que segura numa das mos a
palheta e, na outra, o fino pincel... Assim se fecha a voluta, ou
melhor, por essa luz, ela se abre.      Essa abertura no  mais, como
no fundo, uma porta que se abriu;  a prpria amplitude do quadro, e os
olhares que por ela passam no so de um visitante longnquo. O friso
que ocupa o primeiro e o segundo planos do quadro representa -- se se
incluir o pintor -- oito personagens. Cinco delas, a cabea mais ou
menos inclinada, virada ou abaixada, olham na direo perpendicular do
quadro. O centro do grupo  ocupado pela pequena infanta, com seu amplo
vestido cinza e rosa. A princesa vira a cabea para a direita do quadro,
enquanto seu busto e os grandes folhos do vestido pendem ligeiramente
para a esquerda; o olhar, porm, dirige-se aprumado na direo do
espectador que se acha em face do quadro. Uma linha mediana que
dividisse a tela em duas alas iguais passaria entre os dois olhos da
criana. Seu rosto est a um tero da altura total do quadro. De sorte
que a reside, sem dvida, o tema principal da composio; a, o objeto
mesmo dessa pintura. Como que para prov-lo e melhor sublinh-lo, o
autor recorreu a uma figura tradicional: ao lado da personagem
principal, colocou outra, ajoelhada, que a olha. Como um ofertante em
prece, como o Anjo saudando a Virgem, uma governanta de joelhos estende
as mos para a princesa. Seu rosto se recorta num perfil perfeito. Est
 altura do da criana. A aia olha para a princesa e s para ela. Um
pouco mais  direita, outra dama de honor, voltada tambm para a
infanta, ligeiramente inclinada acima dela, mas com os olhos claramente
dirigidos para a frente, l onde j olham o pintor e a princesa. Enfim,
dois grupos de duas personagens: um, em recuo; outro, composto de anes,
no primeiro plano. Em cada par, uma personagem olha em frente, a outra 
direita ou  esquerda. Por sua [pg. 15] posio e por sua proporo,
esses dois grupos se correspondem e se emparelham: atrs, os cortesos
(a mulher,  esquerda, olha para a direita);  frente, os anes (o rapaz
que est na extremidade direita olha para o interior do quadro). Esse
conjunto de personagens assim dispostas pode constituir, conforme a
ateno que se d ao quadro ou o centro de referncia que se escolha,
duas figuras. Uma seria um grande X; no ponto superior esquerdo estaria
o olhar do pintor e,  direita, o do corteso; na ponta inferior, do
lado esquerdo, est o canto da tela representada de costas (mais
exatamente, o p do cavalete); do lado direito, o ano (com o calado
deposto sobre o dorso do co). No cruzamento dessas duas linhas, no
centro do X, o olhar da infanta. A outra figura seria antes a de uma
vasta curva; suas duas pontas seriam determinadas pelo pintor  esquerda
e pelo corteso  direita -- extremidades altas e recuadas; o recncavo,
bem mais aproximado, coincidiria com o rosto da princesa e com o olhar
que a aia lhe dirige. Essa tnue linha desenha uma concha que, ao mesmo
tempo, encerra e libera, no meio do quadro, a localizao do espelho.
H, pois, dois centros que podem organizar o quadro, conforme a ateno
do espectador divague e se prenda aqui ou ali. A princesa mantm-se de
p no meio de uma cruz de Santo Andr, que gira em torno dela com o
turbilho dos cortesos, damas de honor, animais e bufes. Mas essa
rotao  fixa. Fixa por um espetculo que seria absolutamente invisvel
se essas mesmas personagens, subitamente imveis, no oferecessem, como
que no vo de uma taa, a possibilidade de olhar no fundo de um espelho,
o dplice imprevisto de sua contemplao. No sentido da profundidade, a
princesa se superpe ao espelho; no da altura,  o reflexo que se
superpe ao rosto. Mas a perspectiva os torna muito prximos um do
outro. Ora, cada um deles emana uma linha inevitvel; uma, [pg. 16]
sada do espelho, transpe toda a espessura representada (e mesmo alm
dela, j que o espelho perfura a parede do fundo e faz nascer atrs dela
um outro espao); a outra  mais curta; vem do olhar da criana e s
atravessa o primeiro plano. Essas duas linhas sagitais so convergentes,
segundo um ngulo muito agudo, e o ponto de seu encontro, saindo da
tela, se fixa  frente do quadro, mais ou menos l de onde o olhamos.
Ponto duvidoso, pois que no o vemos; ponto, porm, inevitvel e
perfeitamente definido, pois que  prescrito por essas duas figuras
mestras e confirmado ainda por outros pontilhados adjacentes que nascem
do quadro e que tambm dele escapam.      Que h, enfim, nesse lugar
perfeitamente inacessvel, porquanto exterior ao quadro, mas prescrito
por todas as linhas de sua composio? Que espetculo  esse, quem so
esses rostos que se refletem primeiro no fundo das pupilas da infanta,
depois dos cortesos e do pintor e, finalmente, na claridade longnqua
do espelho? Mas a questo logo se desdobra: o rosto que o espelho
reflete  igualmente aquele que o contempla; o que todas as personagens
do quadro olham so tambm as personagens a cujos olhos elas so
oferecidas como uma cena a contemplar; o quadro como um todo olha a cena
para a qual ele , por sua vez, uma cena. Pura reciprocidade que
manifesta o espelho que olha e  olhado, e cujos dois momentos so
desprendidos nos dois ngulos do quadro:  esquerda a tela virada, pela
qual o ponto exterior se torna puro espetculo;  direita o co
estirado, nico elemento do quadro que no olha nem se mexe, porque ele,
com seus fortes relevos e a luz que brinca em seus plos sedosos, s 
feito para ser um objeto a ser olhado.      O primeiro olhar lanado ao
quadro nos ensinou de que  constitudo esse espetculo-de-olhares. So
os soberanos. [pg. 17] Adivinhamo-los j no olhar respeitoso da
assistncia, no espanto da criana e dos anes. Reconhecemo-los, no
fundo do quadro, nas duas pequenas silhuetas que o espelho reflete. Em
meio a todos esses rostos atentos, a todos esses corpos ornamentados,
eles so a mais plida, a mais irreal, a mais comprometida de todas as
imagens; um movimento, um pouco de luz bastariam para faz-los
desvanecer-se. De todas as personagens representadas, elas so tambm as
mais desprezadas, pois ningum presta ateno a esse reflexo que se
esgueira por trs de todo o mundo e se introduz silenciosamente por um
espao insuspeitado; na medida em que so visveis, so a forma mais
frgil e mais distante de toda realidade. Inversamente, na medida em
que, residindo no exterior do quadro, se retiraram para uma
invisibilidade essencial, ordenam em torno delas toda a representao; 
diante delas que as coisas esto,  para elas que se voltam,  a seus
olhos que se mostra a princesa em seu vestido de festa; da tela virada 
infanta e desta ao ano que brinca na extremidade direita, desenha-se
uma curva (ou ento, abre-se o brao inferior do X) para ordenar em
relao a eles toda a disposio do quadro e fazer aparecer, assim, o
verdadeiro centro da composio, ao qual o olhar da infanta e a imagem
no espelho esto finalmente submetidos.      Esse centro 
simbolicamente soberano na sua particularidade histrica, j que 
ocupado pelo rei Filipe IV e sua esposa. Mas, sobretudo, ele o  pela
trplice funo que ocupa em relao ao quadro. Nele vm superpor-se
exatamente o olhar do modelo no momento em que  pintado, o do
espectador que contempla a cena e o do pintor no momento em que compe
seu quadro (no o que  representado, mas o que est diante de ns e do
qual falamos). Essas trs funes "olhantes" confundem- se em um ponto
exterior ao quadro: isto , [pg. 18] ideal em relao ao que 
representado, mas perfeitamente real, porquanto  a partir dele que se
torna possvel a representao; nessa realidade mesma, ele no pode
deixar de ser invisvel. E, contudo, essa realidade  projetada no
interior do quadro -- projetada e difratada em trs figuras que
correspondem s trs funes desse ponto ideal e real. So elas: 
esquerda, o pintor com sua palheta na mo (auto-retrato do autor do
quadro);  direita o visitante, com um p sobre o degrau, prestes a
entrar na sala; ele capta ao revs toda a cena, mas v de frente o par
real, que  o prprio espetculo; no centro, enfim, o reflexo do rei e
da rainha, ornamentados, imveis, na atitude de pacientes modelos.
Tal reflexo mostra ingenuamente, e na sombra, aquilo que todos olham no
primeiro plano. Restitui, como que por encanto, o que falta a cada
olhar: ao do pintor, o modelo que  recopiado no quadro pelo seu duplo
representado; ao do rei, seu retrato que se completa nesse lado da tela
que ele no pode distinguir do lugar em que est; ao do espectador, o
centro real da cena, cujo lugar ele assumiu como que por intruso. Mas
talvez essa generosidade do espelho seja simulada; talvez esconda tanto
ou mais do que manifesta. O lugar onde impera o rei com sua esposa 
tambm o do artista e o do espectador: no fundo do espelho poderiam
aparecer -- deveriam aparecer -- o rosto annimo do transeunte e o de
Velsquez. Pois a funo desse reflexo  atrair para o interior do
quadro o que lhe  intimamente estranho: o olhar que o organizou e
aquele para o qual ele se desdobra. Mas, por estarem presentes no
quadro,  direita e  esquerda, o artista e o visitante no podem estar
alojados no espelho: do mesmo modo o rei aparece no fundo do espelho, na
medida mesma em que no faz parte do quadro.      Na grande voluta que
percorria o permetro do ateli, desde o olhar do pintor, sua palheta e
sua mo suspensa, at os [pg. 19] quadros terminados, a representao
nascia, completava-se para se desfazer novamente na luz; o ciclo era
perfeito. Em contrapartida, as linhas que atravessam a profundidade do
quadro so incompletas; falta, a todas, uma parte de seu trajeto. Essa
lacuna  devida  ausncia do rei -- ausncia que  um artifcio do
pintor. Mas esse artifcio recobre e designa um lugar vago que 
imediato: o do pintor e do espectador quando olham ou compem o quadro.
 que, nesse quadro talvez, como em toda representao de que ele , por
assim dizer, a essncia manifestada, a invisibilidade profunda do que se
v  solidria com a invisibilidade daquele que v -- malgrado os
espelhos, os reflexos, as imitaes, os retratos. Em torno da cena esto
depositados os signos e as formas sucessivas da representao; mas a
dupla relao da representao com o modelo e com o soberano, com o
autor e com aquele a quem ela  dada em oferenda, essa relao 
necessariamente interrompida. Ela jamais pode estar toda presente, ainda
quando numa representao que se desse a si prpria em espetculo. Na
profundidade que atravessa a tela, que a escava ficticiamente e a
projeta para a frente dela prpria, no  possvel que a pura felicidade
da imagem oferea alguma vez, em plena luz, o mestre que representa e o
soberano representado.      Talvez haja, neste quadro de Velsquez, como
que a representao da representao clssica e a definio do espao
que ela abre. Com efeito, ela intenta representar-se a si mesma em todos
os seus elementos, com suas imagens, os olhares aos quais ela se
oferece, os rostos que torna visveis, os gestos que a fazem nascer. Mas
a, nessa disperso que ela rene e exibe em conjunto, por todas as
partes um vazio essencial  imperiosamente indicado: o desaparecimento
necessrio daquilo que a funda -- daquele a quem ela se assemelha e
[pg. 20] daquele a cujos olhos ela no passa de semelhana. Esse
sujeito mesmo -- que  o mesmo -- foi elidido. E livre, enfim, dessa
relao que a acorrentava, a representao pode se dar como pura
representao. [pg. 21] CAPTULO II A PROSA DO MUNDO
I. As quatro similitudes      At o fim do sculo XVI, a semelhana
desempenhou um papel construtor no saber da cultura ocidental. Foi ela
que, em grande parte, conduziu a exegese e a interpretao dos textos:
foi ela que organizou o jogo dos smbolos, permitiu o conhecimento das
coisas visveis e invisveis, guiou a arte de represent-las. O mundo
enrolava-se sobre si mesmo: a terra repetindo o cu, os rostos
mirando-se nas estrelas e a erva envolvendo nas suas hastes os segredos
que serviam ao homem. A pintura imitava o espao. E a representao --
fosse ela festa ou saber -- se dava como repetio: teatro da vida ou
espelho do mundo, tal era o ttulo de toda linguagem, sua maneira de
anunciar-se e de formular seu direito de falar.       preciso nos
determos um pouco nesse momento do tempo em que a semelhana desfar sua
dependncia para com o saber e desaparecer, ao menos em parte, do
horizonte do conhecimento. No fim do sculo XVI, no comeo ainda do s-
culo XVII, como era pensada a similitude? Como podia ela [pg. 23]
organizar as figuras do saber? E se  verdade que as coisas que se
assemelhavam eram em nmero infinito, podem-se, ao menos, estabelecer as
formas segundo as quais era possvel ocorrer-lhes serem semelhantes umas
s outras?      A trama semntica da semelhana no sculo XVI  muito
rica: Amicitia, Aequalitas (contractus, consensus, matrimonium,
societas, pax et similia), Consonantia, Concertus, Continuum, Paritas,
Proportio, Similitudo, Conjunctio, Copula1. E h ainda muitas outras
noes que, na superfcie do pensamento, se entrecruzam, se imbricam, se
reforam ou se limitam. Por ora, basta indicar as principais figuras que
prescrevem suas articulaes ao saber da semelhana. Dentre elas h
quatro seguramente essenciais.          Primeiro, a convenientia. Na
verdade, por esta palavra  designada com mais fora a vizinhana dos
lugares que a similitude. So "convenientes" as coisas que,
aproximando-se umas das outras, vm a se emparelhar; tocam-se nas
bordas, suas franjas se misturam, a extremidade de uma designa o comeo
da outra. Desse modo, comunica-se o movimento, comunicam-se as
influncias e as paixes, e tambm as propriedades. De sorte que, nessa
articulao das coisas, aparece uma semelhana. Dupla, desde que se
tenta destrinch-la: semelhana do lugar, do local onde a natureza
colocou as duas coisas, similitude, pois, de propriedades; pois, neste
continente natural que  o mundo, a vizinhana no  uma relao
exterior entre as coisas, mas o signo de um parentesco ao menos obscuro.
E, depois, desse contato nascem por permuta novas semelhanas; um regime
comum se impe;  similitude como razo surda da vizinhana, superpe-se
uma semelhana que  o efeito visvel da proximidade. A alma e o corpo,
[pg. 24] por exemplo, so duas vezes convenientes: foi preciso que o
pecado tivesse tornado a alma espessa, pesada e terrestre, para que Deus
a colocasse nas entranhas da matria. Mas, por essa vizinhana, a alma
recebe os movimentos do corpo e se assimila a ele, enquanto o "corpo se
altera e se corrompe pelas paixes da alma"2. Na vasta sintaxe do mundo,
os diferentes seres se ajustam uns aos outros; a planta comunica com o
animal, a terra com o mar, o homem com tudo o que o cerca. A semelhana
impe vizinhanas que, por sua vez, asseguram semelhanas. O lugar e a
similitude se imbricam: v-se crescer limos nos dorsos das conchas,
plantas nos galhos dos cervos, espcies de ervas no rosto dos homens; e
o estranho zofito justape, misturando-as, as propriedades que o tornam
semelhante tanto  planta quanto ao animal3. So signos de convenincia.
A convenientia  uma semelhana ligada ao espao na forma da
"aproximao 1     P. Grgoire. Syntaxeon artis mirabilis. Colnia,
1610, p. 28. 2     G. Porta. La physionomie humaine. Trad. francesa,
1655, p. 1. 3     U. Aldrovandi. Monstrorum historia. Bononiae, 1647, p.
663. gradativa".  da ordem da conjuno e do ajustamento. Por isso
pertence menos s prprias coisas que ao mundo onde elas se encontram. O
mundo  a "convenincia" universal das coisas; h tantos peixes na gua
quanto sobre a terra animais ou objetos produzidos pela natureza ou
pelos homens (no h peixes que se chamam Episcopus, outros Catena,
outros Priapus?); na gua e sobre a superfcie da terra, tantos seres
quantos os h no cu e aos quais correspondem; enfim, em tudo o que 
criado, h tantos quantos se poderiam encontrar eminentemente contidos
em Deus, "Semeador da Existncia, do Poder, do Conhecimento e do Amor"4.
Assim, pelo encadeamento da semelhana e do espao, pela fora dessa
convenincia que avizinha o semelhante [pg. 25] e assimila os prximos,
o mundo constitui cadeia consigo mesmo. Em cada ponto de contato comea
e acaba um elo que se assemelha ao precedente e se assemelha ao
seguinte: e, de crculos em crculos, as similitudes prosseguem retendo
os extremos na sua distncia (Deus e a matria), aproximando- os, de
maneira que a vontade do Todo-Poderoso penetre at os recantos mais
adormecidos.  essa cadeia imensa, estendida e vibrante, essa corda da
convenincia, que Porta evoca num texto de sua Magia natural: "No
tocante a sua vegetao, a planta convm com a besta bruta e, por
sentimento, o animal brutal com o homem, que se conforma ao resto dos
astros por sua inteligncia; essa ligao procede to apropriadamente
que parece uma corda estendida desde a primeira causa at as coisas
baixas e nfimas, por uma ligao recproca e contnua; de sorte que a
virtude superior, expandindo seus raios, chegar a tal ponto que, se lhe
tocarmos uma extremidade, tremer e far mover o resto."5          A
segunda forma da similitude  a aemulatio: uma espcie de convenincia,
mas que fosse liberada da lei do lugar e atuasse, imvel, na distncia.
Um pouco como se a convenincia espacial tivesse sido rompida, e os elos
da cadeia, de- satados, reproduzissem seus crculos longe uns dos
outros, segundo uma semelhana sem contato. H na emulao algo do
reflexo e do espelho: por ela, as coisas dispersas atravs do mundo se
correspondem. De longe, o rosto  o mulo do cu e, assim como o
intelecto do homem reflete, imperfeitamente, a sabedoria de Deus, assim
os dois olhos, com sua claridade limitada, refletem a grande iluminao
que, 4     T. Campanella. Realis philosophia. Frankfurt, 1623, p. 98. 5
G. Porta. Magie naturelle. Trad. francesa. Rouen, 1650, p. 22. no cu,
expandem o Sol e a Lua; a boca  Vnus, pois que por ela passam os
beijos e as palavras de amor; o nariz d a minscula imagem do [pg. 26]
cetro de Jpiter e do caduceu de Mercrio6. Por esta relao de
emulao, as coisas podem se imitar de uma extremidade  outra do
universo sem encadeamento nem proximidade: por sua reduplicao em
espelho, o mundo abole a distncia que lhe  prpria; triunfa assim
sobre o lugar que  dado a cada coisa. Desses reflexos que percorrem o
espao, quais so os primeiros? Onde a realidade, onde a imagem
projetada? Freqentemente no  possvel diz-lo, pois a emulao  uma
espcie de geminao natural das coisas; nasce de uma dobra do ser,
cujos dois lados imediatamente se defrontam. Paracelso compara essa
duplicao fundamental do mundo  imagem de dois gmeos "que se
assemelham perfeitamente, sem que seja possvel a ningum dizer qual
deles trouxe ao outro sua similitude"7.          No entanto, a emulao
no deixa inertes, uma em face da outra, as duas figuras refletidas que
ela ope. Pode ocorrer a uma ser mais fraca e acolher a forte influncia
daquela que vem refletir-se no seu espelho passivo. As estrelas no tm
primazia sobre as ervas da terra, das quais so o modelo sem mudana, a
forma inaltervel e sobre as quais lhes  dado verter secretamente toda
a dinastia de suas influncias? A terra sombria  o espelho do cu
disseminado, mas, nesta contenda, os dois rivais no tm nem o mesmo
valor nem a mesma dignidade. As luzes da erva, sem violncia, reproduzem
a forma pura do cu: "As estrelas", diz Crollius, "so a matriz de todas
as ervas, e cada estrela do cu no  mais que a prefigurao espiritual
de uma erva tal como a representa e, assim como cada erva ou planta 
uma estrela terrestre olhando o cu, assim tambm cada estrela  uma
planta celeste em forma [pg. 27] espiritual, a qual s pela matria 
diferente das terrestres (...), as plantas e as ervas celestes esto
viradas para o lado da terra e olham diretamente as ervas que elas
procriaram, infundindo-lhes alguma virtude particular"8.          Mas
pode tambm ocorrer que a contenda permanea aberta e que o calmo
espelho no reflita mais que a imagem dos "dois soldados irritados". A
similitude torna-se ento o combate de uma forma contra outra -- ou
melhor, de uma mesma 6     U. Aldrovandi. Monstrorum historia, p. 3. 7
Paracelso. Lider Paramirum. Trad. francesa de Grillot de Givry. Paris,
1913, p. 3. 8     Crollius. Trait des signatures. Trad. francesa. Lio,
1624, p. 18. forma separada de si pelo peso da matria ou pela distncia
dos lugares. O homem de Paracelso , como o firmamento, "constelado de
astros"; mas no est a ele ligado como "o ladro s galeras, o
assassino ao suplcio da roda, o peixe ao pescador, a caa ao caador".
Pertence ao firmamento do homem ser "livre e poderoso", "no obedecer a
ordem alguma", "no ser regido por nenhuma das outras criaturas". Seu
cu interior pode ser autnomo e repousar somente em si mesmo, sob a
condio, porm, de que, por sua sabedoria, que  tambm saber, ele se
torne semelhante  ordem do mundo, a retome em si e faa assim
equilibrar no seu firmamento interno aquele onde cintilam as estrelas
visveis. Ento, essa sabedoria do espelho envolver, em troca, o mundo
onde estava colocada; seu grande elo girar at o fundo do cu e mais
alm; o homem descobrir que contm "as estrelas no interior de si mesmo
(...), e que assim carrega o firmamento com todas as suas influncias"9.
A emulao apresenta-se de incio sob a forma de um simples reflexo,
furtivo, longnquo; percorre em silncio os espaos do mundo. Mas a
distncia que ela transpe no  anulada por sua sutil metfora;
permanece aberta para a visibilidade. E, neste duelo, as duas figuras
afrontadas se apossam [pg. 28] uma da outra. O semelhante envolve o
semelhante, que, por sua vez, o cerca e, talvez, ser novamente
envolvido por uma duplicao que tem o poder de prosseguir ao infinito.
Os elos da emulao no formam uma cadeia como os elementos da
convenincia: mas, antes, crculos concntricos, refletidos e rivais.
Terceira forma da similitude, a analogia. Velho conceito, familiar j 
cincia grega e ao pensamento medieval, mas cujo uso se tornou
provavelmente diferente. Nessa analogia superpem-se convenientia e
aemulatio. Como esta, assegura o maravilhoso afrontamento das
semelhanas atravs do espao; mas fala, como aquela, de ajustamentos,
de liames e de juntara. Seu poder  imenso, pois as similitudes que
executa no so aquelas visveis, macias, das prprias coisas; basta
serem as semelhanas mais sutis das relaes. Assim alijada, pode
tramar, a partir de um mesmo ponto, um nmero indefinido de parentescos.
A relao, por exemplo, dos astros com o cu onde cintilam,
reencontra-se igualmente: na da erva com a terra, dos seres vivos com o
globo onde habitam, dos minerais e dos diamantes com 9     Paracelso,
loc. cit. as rochas onde se enterram, dos rgos dos sentidos com o
rosto que animam, das manchas da pele com o corpo que elas marcam
secretamente. Uma analogia pode tambm se voltar sobre si mesma sem ser
por isso contestada. A velha analogia da planta com o animal (o vegetal
 um animal que se sustenta com a cabea para baixo, a boca -- ou as
razes -- entranhada na terra), Csalpin no a critica nem a pe de
parte; refora-a, ao contrrio, multiplica-a por ela prpria, quando
descobre que a planta  um animal de p, cujos princpios nutritivos
sobem de baixo para cima, ao longo de uma haste que se estende como um
corpo e se completa por uma cabea -- ramalhete, flores, folhas: relao
inversa mas no contraditria com a analogia primeira, que coloca "a
raiz na parte inferior da planta, a haste na parte superior, [pg. 29]
pois, nos animais, a rede venosa comea tambm na parte inferior do
ventre e a veia principal sobe para o corao e a cabea"10.
Tanto essa reversibilidade como esta polivalncia conferem  analogia um
campo universal de aplicao. Por ela, todas as figuras do mundo podem
se aproximar. Existe, entretanto, nesse espao sulcado em todas as
direes, um ponto privilegiado:  saturado de analogias (cada uma pode
a encontrar um de seus pontos de apoio) e, passando por ele, as
relaes se invertem sem se alterar. Esse ponto  o homem; ele est em
proporo com o cu, assim como com os animais e as plantas, assim como
com a terra, os metais, as estalactites ou as tempestades. Erguido entre
as faces do mundo, tem relao com o firmamento (seu rosto est para seu
corpo como a face do cu est para o ter; seu pulso bate-lhe nas veias
como os astros circulam segundo suas vias prprias; as sete aberturas
formam no seu rosto o que so os sete planetas do cu); todas essas
relaes, porm, ele as desloca e as reencontramos, similares, na
analogia do animal humano com a terra que habita: sua carne  uma gleba,
seus ossos, rochedos, suas veias, grandes rios; sua bexiga  o mar e
seus sete membros principais, os sete metais que se escondem no fundo
das minas11. O corpo do homem  sempre a metade possvel de um atlas
universal. Sabe- se como Pierre Belon traou, at nos detalhes, a
primeira tbua comparada do esqueleto humano com o dos pssaros: ali se
v "a ponta da asa chamada apndice, que est em proporo com a asa,
com o polegar, com a mo; a extremidade da 10      Csalpin. De plantis
libri XVl, 1583. 11      Crollius. Trait des signatures, p. 88 ponta da
asa, que  como nossos dedos (...); o osso, tido como pernas para os
pssaros, correspondendo ao nosso calcanhar; assim como temos [pg. 30]
quatro dedos pequenos nos ps, assim os pssaros tm quatro dedos, dos
quais o de trs tem proporo semelhante  do dedo grande do nosso
p"12. Tanta preciso s constitui anatomia comparada para um olhar
munido dos conhecimentos do sculo XIX. Ocorre que o crivo pelo qual
deixamos chegar ao nosso saber as figuras da semelhana recobre nesse
ponto (e quase somente nesse ponto) aquele que o saber do sculo XVI
dispusera sobre as coisas.          Mas a descrio de Belon, a bem
dizer, s procede da positividade que, em sua poca, a tornou possvel.
Ela no  mais racional nem mais cientfica que certa observao de
Aldrovandi, quando ele compara as partes inferiores do homem aos lugares
infectos do mundo, ao Inferno, s suas trevas, aos condenados que so
como excrementos do Universo13; ela pertence  mesma cosmografia
analgica que a comparao, clssica na poca de Crollius, entre a
apoplexia e a tempestade: a borrasca comea quando o ar se torna pesado
e se agita, a crise, no momento em que os pensamentos se tornam pesados,
inquietos; depois as nuvens se acumulam, o ventre incha, o trovo
estronda e a bexiga se rompe; os relmpagos fulminam enquanto os olhos
brilham com um fulgor terrvel, a chuva cai, a boca espuma, o raio
deflagra enquanto os espritos fazem rebentar a pele; mas eis que o
tempo se torna claro e a razo se restabelece no doente14. O espao das
analogias , no fundo, um espao de irradiao. Por todos os lados, o
homem  por ele envolvido; mas esse mesmo homem, inversamente, transmite
as semelhanas que recebe do mundo. Ele  o grande fulcro das propores
-- o centro onde as relaes vm se apoiar e donde so novamente
refletidas. [pg. 31]          Enfim, a quarta forma da semelhana 
assegurada pelo jogo das simpatias. Nela nenhum caminho  de antemo
determinado, nenhuma distncia  suposta, nenhum encadeamento prescrito.
A simpatia atua em estado livre nas profundezas do mundo. Em um instante
percorre os espaos mais vastos: do planeta ao homem que ela rege, a
simpatia desaba de longe como o raio; ela pode nascer, ao contrrio, 12
P. Belon. Histoire de la nature des oiseaux. Paris, 1555, p. 37. 13
Aldrovandi. Monstrorum historia, p. 4. 14      Crollius. Trait des
signatures, p. 87. de um s contato -- como essas "rosas fnebres que
serviro num funeral", que, pela simples vizinhana com a morte, tornam
"triste e agonizante"15 toda pessoa que respirar seu perfume. Mas  tal
seu poder, que ela no se contenta em brotar de um nico contato e em
percorrer os espaos; suscita o movimento das coisas no mundo e provoca
a aproximao das mais distantes. Ela  princpio de mobilidade: atrai o
que  pesado para o peso do solo e o que  leve para o ter sem peso;
impele as razes para a gua e faz girar com a curva do sol a grande
flor amarela do girassol. Mais ainda, atraindo as coisas umas s outras
por um movimento exterior e visvel, suscita em segredo um movimento
interior -- um deslocamento de qualidades que se substituem mutuamente:
o fogo, porque quente e leve, se eleva no ar, para o qual as chamas
infatigavelmente se erguem; perde, porm, sua prpria secura (que o
aparentava  terra) e adquire assim certa umidade (que o liga  gua e
ao ar); desaparece ento em ligeiro vapor, em fumaa azul, em nuvem:
tornou-se ar. A simpatia  uma instncia do Mesmo to forte e to
contumaz que no se contenta em ser uma das formas do semelhante; tem o
perigoso poder de assimilar, de tornar as coisas idnticas umas s
outras, de mistur-las, de faz-las desaparecer em sua individualidade
-- de torn-las, pois, estranhas ao que eram. A simpatia transforma.
Altera, mas na direo do idntico, de sorte que, se seu poder no fosse
contrabalanado, [pg. 32] o mundo se reduziria a um ponto, a uma massa
homognea,  morna figura do Mesmo: todas as suas partes se sustentariam
e se comunicariam entre si sem ruptura nem distncia, como elos de metal
suspensos por simpatia  atrao de um nico m16.          Eis por que
a simpatia  compensada por sua figura gmea, a antipatia. Esta mantm
as coisas em seu isolamento e impede a assimilao; encerra cada espcie
na sua diferena obstinada e na sua propenso a perseverar no que : "
assaz conhecido que as plantas tm dio entre si... diz-se que a
oliveira e a videira odeiam a couve; o pepino foge da oliveira...
Sabendo-se que seu crescimento se deve ao calor do sol e  umidade da
terra,  necessrio que toda rvore opaca e espessa -- assim como aquela
que tem vrias razes -- seja perniciosa s outras"17. Assim, 15      G.
Porta. Magie naturelle, p. 72. 16      G. Porta. Magie naturelle, p. 72.
17      J. Cardan. De la subtilit. Trad. francesa. Paris, 1656, p. 154.
infinitamente, atravs do tempo, os seres do mundo se odiaro e
mantero, contra toda simpatia, seu feroz apetite. "O rato da ndia 
pernicioso ao crocodilo, pois a natureza lho deu por inimigo; de sorte
que, quando esse violento animal se deita ao sol, ele lhe arma uma
emboscada e astcia mortal; percebendo que o crocodilo, adormecido em
suas delcias, dorme com a goela aberta, entra por ela e desliza pela
ampla garganta at o seu ventre, ri-lhe as entranhas e sai enfim pelo
ventre do animal morto." Mas os inimigos do rato, por sua vez, o
espreitam: pois est em discrdia com a aranha e, "combatendo
freqentemente com o spide, morre". Por este jogo de antipatia que as
dispersa tanto quanto as atrai ao combate, torna-as mortferas e as
expe, por sua vez,  morte, sucede que as coisas e os animais e todas
as figuras do mundo permanecem o que so. [pg. 33]          A
identidade das coisas, o fato de que possam assemelhar-se a outras e
aproximar-se delas, sem contudo se dissiparem, preservando sua
singularidade,  o contrabalanar constante da simpatia e da antipatia
que o garante. Explica que as coisas cresam, se desenvolvam, se
misturem, desapaream, morram, mas indefinidamente se reencontrem; em
suma, que haja um espao (no, porm, sem referncia nem repetio, sem
amparo de similitude) e um tempo (que deixa, porm, reaparecer
indefinidamente as mesmas figuras, as mesmas espcies, os mesmos
elementos). "Conquanto em si mesmos os quatro corpos (gua, ar, fogo,
terra) sejam simples e tenham suas qualidades distintas, todavia o
Criador ordenou que de elementos misturados seriam compostos os corpos
elementares, razo pela qual suas convenincias e discordncias so
notrias, o que se conhece pelas suas qualidades. O elemento do fogo 
quente e seco; tem, portanto, antipatia pelos da gua, que  fria e
mida. O ar quente  mido, a terra fria  seca, eis a antipatia. Para
concili- los, o ar foi colocado entre o fogo e a gua, a gua, entre a
terra e o ar. Enquanto  quente, o ar se avizinha do fogo e sua Umidade
se acomoda com a da gua. Ademais, porque sua umidade  temperada,
modera o calor do fogo de que tambm recebe ajuda, assim como, de outro
lado, por seu calor medocre, amorna a frieza mida da gua. A umidade
da gua  aquecida pelo calor do ar e abranda a fria secura da terra."18
A soberania do par simpatia -- antipatia, o movimento e a disperso que
ele prescreve do lugar a todas as formas da semelhana. Assim se 18
S. G. S. Annotations au grand miroir du monde de Duchesne, p. 498.
encontram retomadas e explicadas as trs primeiras similitudes. Todo o
volume do mundo, todas as vizinhanas da convenincia, todos os ecos da
emulao, todos os encadeamentos [pg. 34] da analogia so suportados,
mantidos e duplicados por esse espao da simpatia e da antipatia que no
cessa de aproximar as coisas e de mant-las a distncia. Atravs desse
jogo, o mundo permanece idntico; as semelhanas continuam a ser o que
so e a se assemelharem. O mesmo persiste o mesmo, trancafiado sobre si.
II. As assinalaes      E, no entanto, o sistema no  fechado.
Subsiste uma abertura: por ela, todo o jogo das semelhanas se
arriscaria a escapar de si mesmo ou a permanecer na noite, se uma nova
figura da similitude no viesse completar o crculo -- torn-lo ao mesmo
tempo perfeito e manifesto.      Convenientia, aemulatio, analogia e
simpatia nos dizem de que modo o mundo deve se dobrar sobre si mesmo, se
duplicar, se refletir ou se encadear para que as coisas possam
assemelhar-se. Dizem-nos os caminhos da similitude e por onde eles
passam; no onde ela est nem como a vemos, nem com que marca a
reconhecemos. Ora, talvez nos ocorresse atravessar toda essa
proliferao maravilhosa das semelhanas, sem mesmo suspeitarmos que ela
est preparada, des- de muito tempo, pela ordem do mundo e para nosso
maior benefcio. Para saber que o acnito cura nossas doenas de olhos
ou que a noz esmagada com o lcool sana as dores de cabea,  preciso
uma marca que no-la advirta: sem o que este segredo permaneceria
indefinidamente adormecido. Saberamos jamais que existe, de um homem
com seu planeta, uma relao de geminidade ou de contenda, se no
houvesse em seu corpo e entre as rugas de seu rosto, o sinal de que ele
 rival de Marte ou aparentado a Saturno?  preciso que as similitudes
[pg. 35] submersas estejam assinaladas na superfcie das coisas; 
necessria uma marca visvel das analogias invisveis. Acaso no ser
toda semelhana a um tempo o que h de mais manifesto e o que est mais
bem oculto? Com efeito, ela no  composta de pores justapostas --
algumas idnticas, outras diferentes --; ela , por inteiro, uma
similitude que se v ou que no se v. Seria, pois, sem critrio, se no
houvesse nela -- ou acima ou ao lado -- um elemento de deciso que
transformasse sua duvidosa cintilao em clara certeza.           No h
semelhana sem assinalao. O mundo do similar s pode ser um mundo
marcado. "No  vontade de Deus", diz Paracelso, "que o que ele cria
para o benefcio do homem e o que lhe deu permanea escondido... E ainda
que ele tenha escondido certas coisas, nada deixou sem sinais exteriores
e visveis com marcas especiais -- assim como um homem que enterrou um
tesouro marca a sua localizao a fim de que possa reencontr-lo."19 O
saber das similitudes funda-se na smula de suas assinalaes e na sua
decifrao. Intil deter-se na casca das plantas para conhecer sua
natureza;  preciso ir diretamente s suas marcas -- " sombra e imagem
de Deus que elas trazem ou  virtude interna que lhes foi dada do cu
como por dote natural,... virtude, digo eu, que se reconhece melhor pela
assinalao"20.O sistema das assinalaes inverte a relao do visvel
com o invisvel. A semelhana era a forma invisvel daquilo que, do
fundo do mundo, tornava as coisas visveis; mas para que essa forma, por
sua vez, venha at a luz,  necessria uma figura visvel que a tire de
sua profunda invisibilidade. Eis por que a face do mundo  coberta de
brases, de caracteres, de cifras, de palavras [pg. 36] obscuras -- de
"hierglifos", dizia Turner. E o espao das semelhanas imediatas
torna-se como um grande livro aberto;  carregado de grafismos; ao longo
da pgina, vem-se figuras estranhas que se entrecruzam e por vezes se
repetem. S se tem que decifr-las: "No  verdade que todas as ervas,
plantas, rvores e outros, provenientes das entranhas da terra, so
outros tantos livros e sinais mgicos?"21. O grande espelho calmo, no
fundo do qual as coisas se mirariam e remeteriam umas s outras suas
imagens, , na realidade, todo bulioso de palavras. Os reflexos mudos
so duplicados por palavras que os indicam. E, graas a uma ltima forma
de semelhana que envolve todas as outras e as encerra em um crculo
nico, o mundo pode se comparar a um homem que fala: "Assim como os
secretos movimentos de seu entendimento so manifestados pela voz, assim
no parece que as ervas falam ao mdico curioso por sua assinalao,
descobrindo-lhe... suas virtudes interiores 19      Paracelso. Die 9
Bcher der Natura Rerum. In: Oeuvres. Ed. Suhdorff, t. IX, p. 393 20
Crollius. Trait des signatures, p. 4. 21      Id., ibid. , p. 6.
ocultas sob o vu do silncio da natureza?"22           Mas convm nos
determos mais sobre essa prpria linguagem. Sobre os signos de que 
formada. Sobre a maneira como esses signos remetem ao que indicam.
H simpatia entre o acnito e os olhos. Essa afinidade imprevista
permaneceria na sombra se no houvesse sobre a planta uma assinalao,
uma marca e como que uma palavra dizendo que ela  boa para as doenas
dos olhos. Esse signo  perfeitamente legvel em suas sementes: so
pequenos globos escuros engastados em pelculas brancas, que figuram
aproximadamente o que as plpebras so para os olhos23. O mesmo se passa
com a afinidade entre a noz e a cabea; o [pg. 37] que cura "as
aflies do pericrnio"  a espessa casca verde que repousa sobre os
ossos -- sobre o invlucro -- do fruto: mas os males interiores da
cabea so evitados pelo prprio ncleo "que indica totalmente o
crebro"24. O sinal da afinidade, e o que a torna visvel, 
simplesmente a analogia; a cifra da simpatia reside na proporo.
Mas que assinalao trar a prpria proporo para que seja possvel
reconhec-la? Como se poderia saber que as pregas da mo ou as rugas da
fronte desenham no corpo dos homens o que so as inclinaes, os
acidentes ou os reveses no grande tecido da vida? Somente porque a
simpatia faz comunicarem-se o corpo e o cu e transmite o movimento dos
planetas s aventuras dos homens. Somente tambm porque a brevidade de
uma linha reflete a imagem simples de uma vida curta, o cruzamento de
duas pregas, o encontro de um obstculo, o movimento ascendente de uma
ruga, a escalada de um homem para o sucesso. A largura  sinal de
riqueza e de importncia; a continuidade marca a fortuna, a
descontinuidade, o infortnio25. A grande analogia do corpo e do destino
 assinalada por todo o sistema dos espelhos e das atraes. So as
simpatias e as emulaes que assinalam as analogias.           Quanto 
emulao, podemos reconhec-la na analogia: os olhos so estrelas porque
espalham a luz sobre os rostos como os astros na obscuridade, e porque
os cegos so no mundo como os que tm clarividncia no mais soturno da
noite. 22      Id., ibid., p. 6. 23      Id., ibid., p. 33. 24
Crollius. Trait des signatures, pp. 33-4. 25      J. Cardan.
Mtoposcopie. Ed. de 1658, pp. III-VIII. Podemos reconhec-la tambm na
convenincia: sabe-se, desde os gregos, que os animais fortes e
corajosos tm a extremidade dos membros larga e bem desenvolvida como se
seu vigor tivesse sido comunicado s partes mais distantes do seu [pg.
38] corpo. Do mesmo modo, o rosto e a mo do homem carregaro a
semelhana com a alma  qual esto ligados. O reconhecimento das mais
visveis similitudes apia-se, pois, numa descoberta que  a da
convenincia das coisas entre si. E se lembrarmos agora que a
convenincia no  sempre definida por uma localizao atual, mas que
muitos seres que se convm esto separados (como ocorre entre a doena e
seu remdio, entre o homem e seus astros, entre a planta e o solo de que
precisa) tornar-se- de novo necessrio um sinal da convenincia. Ora,
que outra marca existe de que duas coisas esto encadeadas uma  outra
seno que elas se atraem reciprocamente, como o sol e a flor do
girassol, ou a gua e o rebento do pepino26, seno que entre elas h
afinidade e como que simpatia?          Assim o crculo se fecha. V-se,
porm, atravs de qual sistema de desdobramentos. As semelhanas exigem
uma assinalao, pois nenhuma dentre elas poderia ser notada se no
fosse legivelmente marcada. Mas que so esses sinais? Como reconhecer,
entre todos os aspectos do mundo e tantas figuras que se entrecruzam,
que h aqui um carter no qual convm se deter, porque ele indica uma
secreta e essencial semelhana? Que forma constitui o signo no seu
singular valor de signo? --  a semelhana. Ele significa na medida em
que tem semelhana com o que indica (isto , com uma similitude).
Contudo, no  a homologia que ele assinala, pois seu ser distinto de
assinalao se desvaneceria no semelhante de que  signo; trata-se de
outra semelhana, uma similitude vizinha e de outro tipo que serve para
reconhecer a primeira, mas que, por sua vez,  patenteada por uma
terceira. Toda semelhana recebe uma assinalao; essa assinalao,
[pg. 39] porm,  apenas uma forma intermediria da mesma semelhana.
De tal sorte que o conjunto das marcas faz deslizar, sobre o crculo das
similitudes, um segundo crculo que duplicaria exatamente e, ponto por
ponto, o primeiro, se no fosse esse pequeno desnvel que faz com que o
signo da simpatia resida na analogia, o da analogia na emulao, o da
emulao na convenincia, que, por sua vez, para ser reconhecida, requer
a marca da simpatia... A assinalao e o que ela designa so exatamente
da 26      Bacon. Histoire naturelle. Trad. francesa, 1631, p. 221.
mesma natureza; apenas a lei da distribuio a que obedecem  diferente;
a repartio  a mesma.      Forma assinalante e forma assinalada so
semelhanas, mas paralelas. E  por isso, sem dvida, que, no saber do
sculo XVI, a semelhana  o que h de mais universal; ao mesmo tempo
aquilo que h de mais visvel, mas que se deve, entretanto, buscar
descobrir por ser o mais escondido; o que determina a forma do
conhecimento (pois s se conhece seguindo os caminhos da similitude) e o
que lhe garante a riqueza de seu contedo (pois, desde que soergamos os
signos e olhemos o que eles indicam, deixamos vir s claras e cintilar
na sua prpria luz a prpria Semelhana).      Chamemos hermenutica ao
conjunto de conhecimentos e de tcnicas que permitem fazer falar os
signos e descobrir seu sentido; chamemos semiologia ao conjunto de
conhecimentos e de tcnicas que permitem distinguir onde esto os
signos, definir o que os institui como signos, conhecer seus liames e as
leis de seu encadeamento: o sculo XVI superps semiologia e
hermenutica na forma da similitude. Buscar o sentido  trazer  luz o
que se assemelha. Buscar a lei dos signos  descobrir as coisas que so
semelhantes. A gramtica dos seres  sua exegese. E a linguagem que eles
falam no narra outra coisa seno a sintaxe que os liga. A natureza das
coisas, sua coexistncia, o encadeamento que [pg. 40] as vincula e pelo
que se comunicam no  diferente de sua semelhana. E esta s aparece na
rede de signos que, de um extremo ao outro, percorre o mundo. A
"natureza" est inserida na fina espessura que mantm, uma acima da
outra, semiologia e hermenutica; ela s  misteriosa e velada, s se
oferece ao conhecimento por ela s vezes confundido, na medida em que
essa superposio no se faz sem um ligeiro desnvel das semelhanas. De
imediato, o crivo no  claro; a transparncia se acha turva desde o
primeiro lance. Aparece um espao sombrio que ser necessrio
progressivamente aclarar.  a que est a "natureza" e  isso que 
mister aplicar-se a conhecer. Tudo seria imediato e evidente se a
hermenutica da semelhana e a semiologia das assinalaes coincidissem
sem a menor oscilao. Mas, posto que h um "vo" entre as similitudes
que formam grafismo e as que for- mam discurso, o saber e seu labor
infinito recebem a o espao que lhes  prprio: tero que sulcar essa
distncia indo, por um ziguezague indefinido, do semelhante ao que lhe 
semelhante.                          III. Os limites do mundo      Tal
, em seu esboo geral, a epistm do sculo XVI. Essa configurao traz
consigo um certo nmero de conseqncias.      E, de incio, o carter
ao mesmo tempo pletrico e absolutamente pobre desse saber. Pletrico
porque ilimitado. A semelhana jamais permanece estvel em si mesma; s
 fixada se remete a uma outra similitude que, por sua vez, requer
outras; de sorte que cada semelhana s vale pela acumulao de todas as
outras, e que o mundo inteiro deve ser percorrido [pg. 41] para que a
mais tnue das analogias seja justificada e aparea enfim como certa. ,
pois, um saber que poder, que dever proceder por acmulo infinito de
confirmaes requerendo-se umas s outras. E por isso, desde suas
fundaes, esse saber ser movedio. A nica forma de ligao pos- svel
entre os elementos do saber  a adio. Da essas imensas colunas, da
sua monotonia. Colocando a semelhana (ao mesmo tempo terceira potncia
e poder nico, pois que habita do mesmo modo a marca e o contedo) como
nexo entre o signo e o que ele indica, o saber do sculo XVI condenou-se
a s conhecer sempre a mesma coisa, mas a conhec-la apenas ao termo
jamais atingido de um percurso indefinido.       a que funciona a
categoria, demasiado ilustre, do microcosmo. Sem dvida, essa noo foi
reanimada, atravs da Idade Mdia e desde o comeo do Renascimento, por
certa tradio neoplatnica. Mas ela acabou por desempenhar, no sculo
XVI, um papel fundamental no saber. Pouco importa que ela seja ou no,
como se dizia outrora, viso do mundo ou Weltanschauung. De fato, ela
tem uma, ou melhor, duas funes muito precisas na configurao
epistemolgica dessa poca. Como categoria de pensamento, aplica a todos
os domnios da natureza o jogo das semelhanas redobradas; garante 
investigao que cada coisa encontrar, numa escala maior, seu espelho e
sua segurana macroscpica; afirma, em troca, que a ordem visvel das
mais altas esferas vir mirar-se na profundeza mais sombria da terra.
Mas, entendida como configurao geral da natureza, ela coloca limites
reais e, por assim dizer, tangveis ao inacessvel curso das similitudes
que se permutam. Indica que existe um grande mundo e que seu permetro
traa o limite de todas as coisas criadas; que, na outra extremidade,
existe uma criatura privilegiada que reproduz, nas suas dimenses
restritas, a ordem imensa [pg. 42] do cu, dos astros, das montanhas,
dos rios e das tempestades; e que  entre os limites efetivos dessa
analogia constitutiva que se desenvolve o jogo das semelhanas. Por isso
mesmo, a distncia do microcosmo ao macrocosmo pode ser imensa, mas no
 infinita; os seres que a residem podem ser numerosos, mas afinal
poderamos cont-los; e, conseqentemente, as similitudes que, pelo jogo
dos signos que elas exigem, apiam-se sempre umas nas outras, no se
arriscam mais a escapar indefinidamente. Para se apoiarem e se
reforarem, elas tm um domnio perfeitamente cerrado. A natureza, como
o jogo dos signos e das semelhanas, fecha-se sobre si mesma segundo a
figura redobrada do cosmos.       necessrio, pois, evitar inverter as
relaes. Sem dvida alguma, a idia do microcosmo , como se diz,
"importante" no sculo XVI; dentre todas as formulaes que uma
inquirio poderia recensear, ela seria provavelmente uma das mais
freqentes. Mas no se trata aqui de um estudo de opinies que somente
uma anlise estatstica do material escrito permitiria conduzir. Se, em
contrapartida, se interroga o saber do sculo XVI em seu nvel
arqueolgico -- isto , naquilo que o tornou possvel --, as relaes
entre o macrocosmo e o microcosmo aparecem como um simples efeito de
superfcie. No foi porque se acreditava em tais relaes que se passou
a buscar todas as analogias do mundo. Mas havia no corao do saber uma
necessidade: era preciso ajustar a infinita riqueza de uma semelhana,
introduzida como terceiro entre os sinais e seus sentidos, e a monotonia
imposta pela mesma repartio da semelhana ao significante e ao que ele
significava. Numa epistm onde signos e semelhanas se enrolavam
reciprocamente segundo uma voluta que no tinha termo, era realmente
necessrio que se pensasse [pg. 43] na relao do microcosmo com o
macrocosmo como a garantia desse saber e o termo de sua expanso.
Graas  mesma necessidade, esse saber devia acolher, ao mesmo tempo e
no mesmo plano, magia e erudio. Afigura-se-nos que os conhecimentos do
sculo XVI eram constitudos por uma mistura instvel de saber racional,
de noes derivadas das prticas da magia e de toda uma herana
cultural, cujos poderes de autoridade a redescoberta de textos antigos
havia multiplicado. Assim concebida, a cincia dessa poca aparece
dotada de uma estrutura frgil; ela no seria mais do que o lugar
liberal de um afrontamento entre a fidelidade aos antigos, o gosto pelo
maravilhoso e uma ateno j despertada para essa soberana racionalidade
na qual nos reconhecemos. E essa poca trilobada se refletiria no
espelho de cada obra e de cada esprito dividido... De fato, no  de
uma insuficincia de estrutura que sofre o saber do sculo XVI. Vimos,
ao contrrio, quo meticulosas so as configuraes que definem seu
espao.  esse rigor que impe a relao com a magia e com a erudio --
no contedos aceitos, mas formas requeridas. O mundo  coberto de
signos que  preciso decifrar, e estes signos, que revelam semelhanas e
afinidades, no passam, eles prprios, de formas da similitude. Conhecer
ser, pois, interpretar: ir da marca visvel ao que se diz atravs dela
e, sem ela, permaneceria palavra muda, adormecida nas coisas. "Ns,
homens, descobrimos tudo o que est oculto nas montanhas por meio de
sinais e correspondncias exteriores; e  assim que encontra- mos todas
as propriedades das ervas e tudo o que est nas pedras. Nada h nas
profundezas dos mares, nada nas alturas do firmamento que o homem no
seja capaz de descobrir. No h montanha bastante vasta para ocultar ao
olhar do homem o que nela existe; isso lhe  revelado por sinais
correspondentes."27 [pg. 44] A adivinhao no  uma forma concorrente
do conhecimento; incorpora-se ao prprio conhecimento. Ora, esses signos
que se interpretam s designam o oculto na medida em que se lhe
assemelham; e no se atuar sobre as marcas sem operar ao mesmo tempo
sobre o que , por elas, secretamente indicado. Eis por que as plantas
que representam a cabea, ou os olhos, ou o corao, ou o fgado, tero
eficcia sobre um rgo; eis por que os prprios animais so sensveis
s marcas que os designam. "Dize-me pois", pergunta Paracelso, "por que
a serpente na Helvcia, na Arglida, na Sucia, compreende as palavras
gregas Osy, Osya, Osy... Em que academias aprenderam, j que, ao
escutarem a palavra, viram em seguida sua cauda, a fim de no escut-la
de novo? No obstante sua natureza e seu esprito, basta escutarem a
palavra para permanecerem imveis e no envenenarem ningum com sua
ferida venenosa." E no se diga que isso  somente o efeito do rudo das
palavras pro- nunciadas: "Se escreveres, em tempo favorvel, somente
essas palavras em velino, 27      Paracelso. Archidoxis magica. Trad.
francesa, 1909, pp. 21-3. pergaminho, papel, e a impuseres  serpente,
esta no ficar menos imvel que se as tivesses articulado em voz
alta?". O projeto das "Magias naturais", que ocupa um amplo lugar no
final do sculo XVI e se alonga ainda at plenos meados do sculo XVII,
no  um efeito residual na conscincia europia; ele foi ressuscitado
-- como o diz expressamente Campanella28 -- e por razes contemporneas:
porque a configurao fundamental do saber remetia umas s outras as
marcas e as similitudes. A forma mgica era inerente  maneira de
conhecer.          E, pela mesma razo, a erudio: pois, no tesouro que
nos transmitiu a Antiguidade, a linguagem vale como o signo [pg. 45]
das coisas. No h diferena entre essas marcas visveis que Deus
depositou sobre a superfcie da Terra, para nos fazer conhecer seus
segredos interiores, e as palavras legveis que a Escritura ou os sbios
da Antiguidade, esclarecidos por uma luz divina, depositaram nesses
livros que a tradio salvou. A relao com os textos  da mesma
natureza que a relao com as coisas; aqui e l so signos que
arrolamos. Mas Deus, para exercitar nossa sabedoria, s semeou na
natureza figuras a serem decifradas (e  nesse sentido que o
conhecimento deve ser divinatio), enquanto os antigos j deram
interpretaes que no temos seno que recolher. Que deveramos somente
recolher, se no fosse necessrio aprender sua lngua, ler seus textos,
compreender o que dizem. A herana da Antiguidade  como a prpria
natureza, um vasto espao a interpretar; aqui e l  preciso arrolar
signos e pouco a pouco faz-los falar. Em outras palavras, Divinatio e
Eruditio so uma mesma hermenutica. Ela se desenvolve, porm, segundo
figuras semelhantes, em dois nveis diferentes: uma vai da marca muda 
prpria coisa (e faz falar a natureza); a outra vai do grafismo imvel 
clara palavra (restitui vida s linguagens adormecidas). Mas, assim como
os sinais naturais esto ligados ao que indicam pela profunda relao de
semelhana, assim tambm o discurso dos antigos  feito  imagem do que
ele enuncia; se tem para ns o valor de um signo precioso,  porque, do
fundo de seu ser, e pela luz que no cessou de atravess-lo desde seu
nascimento, est ajustado s prprias coisas, forma seu espelho e sua
emulao; ele , para a verdade eterna, o que os sinais so para os
segredos da natureza (desta palavra, ele  o sinal a decifrar); tem, com
as coisas que desvela, uma afinidade sem idade. Intil, pois, pedir-lhe
seu ttulo de autoridade; ele  um tesouro de signos 28      T.
Campanella. De sensu rerum et magia. Frankfurt, 1620. ligados por
similitude quilo que eles podem [pg. 46] designar. A nica diferena 
que se trata de um tesouro de segundo grau, remetendo s notaes da
natureza, as quais indicam obscuramente o fino ouro das prprias coisas.
A verdade de todas essas marcas -- quer atravessem a natureza, quer se
alinhem nos pergaminhos e nas bibliotecas --  em toda a parte a mesma:
to arcaica quanto a instituio de Deus.      Entre as marcas e as
palavras, no difere a observao da autoridade aceita ou o verificvel
da tradio. Por toda a parte h somente um mesmo jogo, o do signo e do
similar, e  por isso que a natureza e o verbo podem se entrecruzar ao
infinito, formando, para quem sabe ler, como que um grande texto nico.
IV. A escrita das coisas      No sculo XVI, a linguagem real no  um
conjunto de signos independentes, uniforme e liso, em que as coisas
viriam refletir-se como num espelho, para a enunciar, uma a uma, sua
verdade singular.  antes coisa opaca, misteriosa, cerrada sobre si
mesma, massa fragmentada e ponto por ponto enigmtica, que se mistura
aqui e ali com as figuras do mundo e se imbrica com elas: tanto e to
bem que, todas juntas, elas formam uma rede de marcas, em que cada uma
pode desempenhar, e desempenha de fato, em relao a todas as outras, o
papel de contedo ou de signo, de segredo ou de indicao. No seu ser
bruto e histrico do sculo XVI, a linguagem no  um sistema
arbitrrio; est depositada no mundo e dele faz parte porque, ao mesmo
tempo, as prprias coisas escondem e manifestam seu enigma como uma
linguagem e porque as palavras se propem aos homens como coisas a
decifrar. A grande metfora do livro que se abre, que se soletra [pg.
47] e que se l para conhecer a natureza no  mais que o reverso
visvel de uma outra transferncia, muito mais profunda, que constrange
a linguagem a residir do lado do mundo, em meio s plantas, s ervas, s
pedras e aos animais.      A linguagem faz parte da grande distribuio
das similitudes e das assinalaes. Por conseguinte, deve, ela prpria,
ser estudada como uma coisa da natureza. Seus elementos tm, como os
animais, as plantas ou as estrelas, suas leis de afinidade e de
convenincia, suas analogias obrigatrias. Ramus dividia sua gramtica
em duas partes. A primeira era consagrada  etimologia, o que no quer
dizer que se buscasse a o sentido originrio das palavras, mas sim as
"propriedades" intrnsecas das letras, das slabas, enfim, das palavras
inteiras. A segunda parte tratava da sintaxe: seu propsito era ensinar
"a construo das palavras entre si me- diante suas propriedades" e
consistia "quase que apenas em convenincia e mtua comunho das
propriedades, como a do nome com o nome ou com o verbo, do advrbio com
todas as palavras s quais  associado, da conjuno na ordem das coisas
conjugadas"29. A linguagem no  o que  porque tem um sentido; seu
contedo representativo que, para os gramticos dos sculos XVII e XVIII
ter tanta importncia a ponto de servir de fio condutor para suas
anlises, no tem aqui papel a desempenhar. As palavras agrupam slabas
e as slabas, letras, porque h, depositadas nestas, virtudes que as
aproximam e as desassociam, exatamente como no mundo as marcas se opem
ou se atraem umas s outras. O estudo da gramtica repousa, no sculo
XVI, na mesma disposio epistemolgica em que repousam a cincia da
natureza ou as disciplinas esotricas. As nicas diferenas so: h uma
[pg. 48] natureza e vrias lnguas; e, no esoterismo, as propriedades
das palavras, das slabas e das letras so descobertas por um outro
discurso que permanece secreto, enquanto na gramtica so as palavras e
as frases de todos os dias que, por si mesmas, enunciam suas
propriedades. A linguagem est a meio caminho entre as figuras visveis
da natureza e as convenincias secretas dos discursos esotricos.  uma
natureza fragmentada, dividida contra ela mesma e alterada, que perdeu
sua transparncia primeira;  um segredo que traz em si, mas na
superfcie, as marcas decifrveis daquilo que ele quer dizer. , ao
mesmo tempo, revelao subterrnea e revelao que, pouco a pouco, se
restabelece numa claridade ascendente.          Sob sua forma primeira,
quando foi dada aos homens pelo prprio Deus, a linguagem era um signo
das coisas absolutamente certo e transparente, porque se lhes
assemelhava. Os nomes eram depositados sobre aquilo que designavam,
assim como a fora est escrita no corpo do leo, a realeza no olhar da
guia, como a influncia dos planetas est marcada na fronte dos homens:
pela forma da similitude. Essa transparncia foi destruda em Babel para
punio dos homens. As lnguas foram separadas umas das outras e se
tornaram incompatveis, somente na medida em que antes se apagou essa
semelhana com as coisas que havia sido a primeira 29      P. Ramus.
Grammaire. Paris, 1572, pp. 3, 125-6. razo de ser da linguagem. Todas
as lnguas que conhecemos, s as falamos agora com base nessa similitude
perdida e no espao por ela deixado vazio. S h uma lngua que guarda
sua memria, porque deriva diretamente desse primeiro vocabulrio agora
esquecido; porque Deus no quis que o castigo de Babel escapasse 
lembrana dos homens; porque essa lngua teve de servir para narrar a
velha Aliana de Deus com seu povo; enfim, porque  nessa lngua que
Deus se dirigiu aos que o escutavam. O hebreu carrega, pois, como
resqucios, as marcas da nomeao primeira. E aquelas palavras [pg. 49]
que Ado havia pronunciado, impondo-as aos animais, permaneceram, ao
menos em parte, arrastando consigo na sua espessura, como um fragmento
de saber silencioso, as propriedades imveis dos seres: "Assim a
cegonha, to louvada por causa da caridade para com seus pais e mes, 
chamada em hebreu Chasida, que quer dizer bondosa, caridosa, dotada de
piedade... O nome Sus, do cavalo,  considerado do verbo Hasas, se no
for antes este verbo que deriva do nome e que significa altear-se, pois,
entre todos os animais de quatro ps, aquele  altivo e bravo como J o
descreve no captulo 39"30. Mas isso no passa de monumentos
fragmentrios; as outras lnguas perderam essas similitudes radicais que
s o hebreu conserva, para mostrar que foi outrora a lngua comum a
Deus, a Ado e aos animais da primeira terra.          Mas, se a
linguagem no mais se assemelha imediatamente s coisas que ela nomeia,
no est por isso separada do mundo; continua, sob uma outra forma, a
ser o lugar das revelaes e a fazer parte do espao onde a verdade, ao
mesmo tempo, se manifesta e se enuncia. Certamente que no  mais a
natureza na sua visibilidade de origem, mas tambm no  um instrumento
misterioso, cujos poderes somente al- guns privilegiados conheceriam. 
antes a figura de um mundo em via de se redimir, colocando-se, enfim, 
escuta da verdadeira palavra.  por isso que Deus quis que o latim,
linguagem de sua igreja, se expandisse por todo o globo terrestre.  por
isso que todas as linguagens do mundo, tal como foi possvel conhec-las
graas a essa conquista, formam, em conjunto, a imagem da verdade. O
espao em que se desdo- bram e sua imbricao liberam o signo do mundo
salvo, tal como a disposio dos primeiros nomes se assemelhava s [pg.
50] coisas que Deus colocara a servio de Ado. Claude Duret observa que
os hebreus, os cananeus, os samaritanos, os cal- 30      Claude Duret.
Trsor de 1'histoire des langues. Colnia, 1613, p.40. deus, os srios,
os egpcios, os pnicos, os cartagineses, os sarracenos, os turcos, os
mouros, os persas, os trtaros escrevem da direita para a esquerda,
seguindo assim "o curso e movimento dirio do primeiro cu, que  muito
perfeito, conforme a opinio do grande Aristteles, aproximando-se da
unidade"; os gregos, os georgianos, os maronitas, os jacobitas, os
coftitas, os tzvernianos, os posnanianos e, certamente, os latinos e
todos os europeus escrevem da esquerda para a direita, seguindo "o curso
e movimento do segundo cu, conjunto dos sete planetas"; os indianos, os
catnios, os chineses, os japoneses escrevem de cima para baixo,
conforme "a ordem da natureza, que deu aos homens a cabea no alto e os
ps embaixo"; "ao contrrio dos supracitados", os mexicanos escrevem
quer de baixo para cima, quer em "linhas espirais, como as que o Sol faz
em seu curso anual sobre o Zodaco". E assim, "por esses cinco diversos
modos de escrever, os segredos e mistrios da janela do mundo e da forma
da cruz, conjunto da redondeza do cu e da terra, so propriamente
denotados e expressos"31. As lnguas esto com o mundo numa relao mais
de analogia que de significao; ou, antes, seu valor de signo e sua
funo de duplicao se sobrepem; elas dizem o cu e a terra de que so
a imagem; reproduzem, na sua mais material arquitetura, a cruz cujo
advento anunciam -- esse advento que, por sua vez, se estabelece pelas
Escrituras e pela Palavra. H uma funo simblica na linguagem: mas,
desde o desastre de Babel, no devemos mais busc-la -- seno em raras
excees32 -- nas [pg. 51] prprias palavras, mas antes na existncia
mesma da linguagem, na sua relao total com a totalidade do mundo, no
entrecruzamento de seu espao com os lugares e as figuras do cosmos.
Da a forma do projeto enciclopdico, tal como aparece no fim do sculo
XVI ou nos primeiros anos do sculo seguinte: no refletir o que se sabe
no elemento neutro da linguagem -- o uso do alfabeto como ordem
enciclopdica arbitrria, mas eficaz, s aparecer na segunda metade do
sculo XVII33 -- mas reconstituir, pelo 31      Duret, loc. cit. 32
Gesner, em Mithridates, cita evidentemente, mas a ttulo de exceo, as
onomatopias (2 ed., Tiguri, 1610, pp. 3-4). 33   Salvo para as
lnguas, pois que o alfabeto  o material da linguagem. Cf. o captulo
II do Mithridates de Gesner. A primeira enciclopdia alfabtica  o
Grand dictionnaire historique de Moreri, 1674. encadeamento das palavras
e por sua disposio no espao, a ordem mesma do mundo.  esse projeto
que se encontra em Gregrio, no seu Syntaxeon artis mirabilis (1610), em
Alstedius com sua Encyclopaedia (1630); ou ainda em Cristophe de Savigny
(Tableau de tous les arts libraux) que consegue espacializar os
conhecimentos, ao mesmo tempo segundo a forma csmica, imvel e perfeita
do crculo e aquela, sublunar, perecvel, mltipla e dividida da rvore;
encontramo-lo tambm em La Croix du Maine, que imagina um espao ao
mesmo tempo de Enci- clopdia e de Biblioteca, que permitiria dispor os
textos escritos segundo as figuras da vizinhana, do parentesco, da
analogia e da subordinao, prescritas pelo prprio mundo34. De todo
modo, um tal entrelaamento da linguagem com as coisas, num espao que
lhes seria comum, supe um privilgio absoluto da escrita.          Esse
privilgio dominou todo o Renascimento e, sem dvida, foi um dos grandes
acontecimentos da cultura ocidental. [pg. 52] A imprensa, a chegada 
Europa dos manuscritos orientais, o aparecimento de uma literatura que
no era mais feita pela voz ou pela representao nem comandada por
elas, a primazia dada  interpretao dos textos religiosos sobre a
tradio e o magistrio da igreja -- tudo isso testemunha, sem que se
possam apartar os efeitos e as causas, o lugar funda- mental assumido,
no Ocidente, pela Escrita. Doravante, a linguagem tem por natureza
primeira ser escrita. Os sons da voz formam apenas sua traduo
transitria e precria. O que Deus depositou no mundo so palavras
escritas; quando Ado im- ps os primeiros nomes aos animais, no fez
mais que ler essas marcas visveis e silenciosas; a Lei foi confiada a
Tbuas, no  memria dos homens; e a verdadeira Palavra,  num livro
que a devemos encontrar. Tanto Vigenre como Duret35 diziam -- e em
termos quase idnticos -- que a escrita precedera sempre a fala,
certamente na natureza, talvez mesmo no saber dos homens. Pois poderia
bem ser que antes de Babel, antes do Dilvio, houvesse uma escrita
composta pelas marcas mesmas da natureza, de tal sorte que esses
caracteres tivessem o poder de agir diretamente sobre as coisas,
atra-las ou repeli-las, figurar suas propriedades, suas virtudes e seus
segredos. Escrita primitivamente natural, da qual certos saberes
esotricos e a 34      La Croix du Maine. Les cents buffets pour dresser
une biblioth-que parfaite, 1583. 35    Blaise de Vigenre. Trait des
chiffres. Paris, 1587, pp. 1-2. Claude de Duret. Trsor de l'histoire
des langues, pp. 19-20. cabala, em primeiro lugar, conservaram a memria
dispersada e tentam retomar os poderes desde muito tempo adormecidos. O
esoterismo do sculo XVI  um fenmeno de escrita, no de fala. Esta, em
todo o caso,  despojada de seus poderes; ela s , dizem Vigenre e
Duret, a parte fmea da linguagem, como seu intelecto passivo; j a
Escrita  o intelecto agente, o "princpio macho" da linguagem. Somente
ela detm a verdade. [pg. 53]      Essa primazia da escrita explica a
presena gmea de duas formas que so indissociveis no saber do sculo
XVI, apesar de sua oposio aparente. Trata-se, em primeiro lugar, da
no-distino entre o que se v e o que se l, entre o observado e o
relatado, da constituio, pois, de uma superfcie nica e lisa, onde o
olhar e a linguagem se entrecruzam ao infinito; e trata-se tambm,
inversamente, da dissociao imediata de toda linguagem que desdobra,
sem um termo jamais assinalvel, a repetio do comentrio.      Buffon,
um dia, estranhar que se possa encontrar em um naturalista como
Aldrovandi uma mistura inextrincvel de descries exatas de citaes
relatadas, de fbulas sem crtica, de observaes concernindo
indiferentemente  anatomia, aos brases, ao habitat, aos valores
mitolgicos de um animal, aos usos que dele se podem fazer na medicina
ou na magia. E, com efeito, quando nos reportamos  Historia serpentum
et draconum, vemos o captulo "Da Serpente em Geral" desenvolver-se
segundo as seguintes rubricas: equvoco (isto , os diferentes sentidos
da palavra serpente), sinnimos e etimologias, diferenas, forma e
descrio, anatomia, natureza e costumes, temperamento, coito e gerao,
voz, mo- vimentos, lugares, alimentao, fisionomia, antipatia,
simpatia, modos de captura, morte e ferimentos pela serpente, modos e
sinais de envenenamento, remdios, eptetos, denominaes, prodgios e
pressgios, monstros, mitologia, deuses aos quais  consagrada,
aplogos, alegorias e mistrios, hierglifos, emblemas e smbolos,
adgios, moedas, milagres, enigmas, divisas, signos herldicos, fatos
histricos, sonhos, simulacros e esttuas, usos nos alimentos, usos na
medicina, usos diversos. E Buffon diz: "Que se julgue, a partir disso,
que poro de histria natural se pode encontrar em toda essa miscelnea
de escrita. Tudo isso no  descrio, mas [pg. 54] lenda." Com efeito,
para Aldrovandi e seus contemporneos, tudo isso  legenda -- coisas
para ler. Mas a razo disso no est em que se prefira a autoridade dos
homens  exatido de um olhar no-prevenido, mas em que a natureza, em
si mesma,  um tecido ininterrupto de palavras e de marcas, de
narrativas e de caracteres, de discursos e de formas. Quando se tem de
fazer a histria de um animal, intil e impossvel escolher entre o
ofcio de naturalista e o de compilador: o que  preciso  recolher,
numa nica e mesma forma do saber, tudo o que foi visto e ouvido, tudo o
que foi contado pela natureza ou pelos homens, pela linguagem do mundo,
das tradies ou dos poetas. Conhecer um animal, ou uma planta, ou uma
coisa qualquer da terra,  recolher toda a espessa camada dos signos que
puderam ter sido depositados neles ou sobre eles;  reencontrar tambm
todas as constelaes de formas em que eles assumem valor de insgnia.
Aldrovandi no era nem melhor nem pior observador que Buffon; no era
mais crdulo que ele nem menos empenhado na fidelidade do olhar ou na
racionalidade das coisas. Simplesmente o seu olhar no estava ligado s
coisas pelo mesmo sistema, nem pela mesma disposio da epistm. O
prprio Aldrovandi contemplava meticulosamente uma natureza que era,
toda ela, escrita.          Saber consiste, pois, em referir a linguagem
 linguagem. Em restituir a grande plancie uniforme das palavras e das
coisas. Em fazer tudo falar. Isto , em fazer nascer, por sobre todas as
marcas, o discurso segundo do comentrio. O que  prprio do saber no 
nem ver nem demonstrar, mas interpretar. Comentrio das Escrituras,
comentrios dos antigos, comentrio do que relataram os viajantes,
comentrio das lendas e das fbulas: no se solicita a cada um desses
discursos que se interpreta seu direito de enunciar uma verdade; [pg.
55] s se requer dele a possibilidade de falar sobre ele. A linguagem
tem em si mesma seu princpio interior de proliferao. "H mais a fazer
interpretando as interpretaes que interpretando as coisas; e mais
livros sobre os livros que sobre qualquer outro assunto; ns no fazemos
mais que nos entreglosar."36 No se trata a da constatao do malogro
de uma cultura soterrada sob seus prprios monumentos; mas da definio
da relao inevitvel que a linguagem do sculo XVI entretinha consigo
mesma. De um lado, esta relao permite uma mobilizao infinita da
linguagem que no cessa de se desenvolver, de se retomar e de fazer
imbricarem-se suas formas sucessivas. Talvez pela primeira vez na
cultura ocidental descobre-se essa dimenso absolutamente 36
Montaigne. Essais, liv. III, cap. XIII. aberta de uma linguagem que no
pode mais se deter porque, jamais encerrada numa palavra definitiva, s
enunciar sua verdade num discurso futuro, inteiramente consagrado a
dizer o que ir dizer; mas esse prprio discurso no tem o poder de se
deter sobre si e encerra aquilo que diz como uma promessa legada ainda a
um outro discurso... A tarefa do comentrio, por definio, no pode
jamais ser completada. E, contudo, o comentrio  inteiramente voltado
para a parte enigmtica, murmurada, que se oculta na linguagem
comentada: faz nascer, por sob o discurso existente, um outro discurso,
mais fundamental e como que "mais primeiro", cuja restituio ele se
prope como tarefa. S h comentrio se, por sob a linguagem que se l e
se decifra, corre a soberania de um Texto primitivo. E  esse texto que,
fundando o comentrio, lhe promete como recompensa sua descoberta final.
De tal sorte que a necessria proliferao da exegese  medida,
idealmente limitada e, contudo, incessantemente animada por esse reino
[pg. 56] silencioso. A linguagem do sculo XVI -- entendida no como um
episdio na histria da lngua, mas como uma experincia cultural global
-- foi sem dvida tomada nesse jogo, nesse interstcio entre o Texto
primeiro e o infinito da Interpretao. Fala-se sobre o fundo de uma
escrita que se incorpora ao mundo; fala-se infinitamente sobre ela, e
cada um de seus signos torna- se, por sua vez, escrita para novos
discursos; mas cada discurso se enderea a essa primeira escrita, cujo
retorno ao mesmo tempo promete e desvia.      V-se que a experincia da
linguagem pertence  mesma rede arqueolgica a que pertence o
conhecimento das coisas da natureza. Conhecer essas coisas era patentear
o sistema das semelhanas que as tornavam prximas e solidrias umas s
outras; no se podia, porm, fazer o levantamento das similitudes seno
na medida em que um conjunto de signos formava o texto de uma indicao
peremptria. Ora, esses mesmos signos no eram seno um jogo de
semelhanas e remetiam a uma tarefa infinita, necessariamente inacabada,
de conhecer o similar. Da mesma forma, mas com alguma transposio, a
linguagem se d por tarefa restituir um discurso absolutamente primeiro
que, no entanto, ela s pode enunciar acercando-se dele, tentando dizer
a seu propsito coisas semelhantes a ele, e fazendo nascer assim, ao
infinito, as fidelidades vizinhas e similares da interpretao. O
comentrio se assemelha indefinidamente ao que ele comenta e que jamais
pode enunciar; assim como o saber da natureza encontra sempre novos
signos da semelhana, porque a se- melhana no pode ser conhecida por
si mesma, j que os signos no podem ser outra coisa seno similitudes.
E, assim como esse jogo infinito da natureza encontra seu liame, sua
forma e sua limitao na relao do microcosmo com o macrocosmo, assim a
tarefa infinita do comentrio se assegura [pg. 57] na promessa de um
texto efetivamente escrito, que um dia a interpretao revelar por
inteiro.                            V. O ser da linguagem      Desde o
estoicismo, o sistema dos signos no mundo ocidental fora ternrio, j
que nele se reconhecia o significante, o significado e a "conjuntura". A
partir do s- culo XVII, em contrapartida, a disposio dos signos
tornar-se- binria, pois que ser definida, com Port-Royal, pela
ligao de um significante com um significado. No Renascimento, a
organizao  diferente e muito mais complexa; ela  ternria, j que
apela para o domnio formal das marcas, para o contedo que se acha por
elas assinalado e para as similitudes que ligam as marcas s coisas
designadas; porm, como a semelhana  tanto a forma dos signos quanto
seu contedo, os trs elementos distintos dessa distribuio se resolvem
numa figura nica.      Essa disposio, com o jogo que ela autoriza, se
reencontra, mas invertida, na experincia da linguagem. Com efeito, esta
existe primeiramente, em seu ser bruto e primitivo, sob a forma simples,
material, de uma escrita, de um estigma sobre as coisas, de uma marca
espalhada pelo mundo e que faz parte de suas mais indelveis figuras.
Num sentido, essa camada da linguagem  nica e absoluta. Mas ela faz
logo nascer duas outras formas de discurso que a vo enquadrar: acima
dela, o comentrio, que retoma os signos dados com um novo propsito e,
abaixo, o texto, cujo comentrio supe a primazia oculta por sob as
marcas visveis a todos. Da trs nveis de linguagem a partir do ser
nico da escrita.  esse jogo complexo que vai desaparecer com o fim do
Renascimento. [pg. 58] E isso de duas maneiras: seja porque as figuras
que oscilavam indefinidamente entre um e trs termos vo ser fixadas
numa forma binria que as tornar estveis; seja porque a linguagem, em
vez de existir como escrita material das coisas, no achar mais seu
espao seno no regime geral dos signos representativos.      Essa nova
disposio implica o aparecimento de um novo problema at ento
desconhecido: com efeito, perguntava-se como reconhecer que um signo
designasse realmente aquilo que ele significava; a partir do sculo
XVII, perguntar-se- como um signo pode estar ligado quilo que ele
significa. Questo  qual a idade clssica responder pela anlise da
representao; e  qual o pensamento moderno respon- der pela anlise
do sentido e da significao. Mas, por isso mesmo, a linguagem no ser
nada mais que um caso particular da representao (para os clssicos) ou
da significao (para ns). A profunda interdependncia da linguagem e
do mundo se acha desfeita. O primado da escrita est suspenso.
Desaparece ento essa camada uniforme onde se entrecruzavam
indefinidamente o visto e o lido, o visvel e o enuncivel. As coisas e
as palavras vo separar-se. O olho ser destinado a ver e somente a ver;
o ouvido somente a ouvir. O discurso ter realmente por tarefa dizer o
que , mas no ser nada mais que o que ele diz.       Imensa
reorganizao da cultura de que a idade clssica foi a primeira etapa, a
mais importante talvez, posto ser ela a responsvel pela nova disposio
na qual estamos ainda presos -- posto ser ela que nos separa de uma
cultura onde a sig- nificao dos signos no existia, por ser absorvida
na soberania do Semelhante; mas onde seu ser enigmtico, montono,
obstinado, primitivo, cintilava numa disperso infinita.       Nada mais
h em nosso saber nem em nossa reflexo que nos traga hoje a lembrana
desse ser. Nada mais, salvo talvez [pg. 59] a literatura -- e ainda de
um modo mais alusivo e diagonal que direto. Pode-se dizer, num certo
sentido, que a "literatura", tal como se constituiu e assim se designou
no limiar da idade moderna, manifesta o reaparecimento, onde era
inesperado, do ser vivo da linguagem. Nos sculos XVII e XVIII, a
existncia prpria da linguagem, sua velha solidez de coisa inscrita no
mundo foram dissolvidas no funcionamento da representao; toda
linguagem valia como discurso. A arte da linguagem era uma maneira de
"fazer signo" -- ao mesmo tempo de significar alguma coisa e de dispor,
em torno dessa coisa, signos: uma arte, pois, de nomear e, depois, por
uma reduplicao ao mesmo tempo demonstrativa e decorativa, de captar
esse nome, de encerr-lo e encobri-lo por sua vez com outros nomes, que
eram sua presena adiada, seu signo segundo, sua figura, seu aparato
retrico. Ora, ao longo de todo o sculo XIX e at nossos dias ainda --
de Hlderlin a Mallarm, a Antonin Artaud -- a literatura s existiu em
sua autonomia, s se desprendeu de qualquer outra linguagem, por um
corte profundo, na medida em que constituiu uma espcie de
"contradiscurso" e remontou assim da funo representativa ou
significante da linguagem quele ser bruto esquecido desde o sculo XVI.
Cr-se atingir a essncia mesma da literatura, interrogando-a no mais
ao nvel do que ela diz, mas na sua forma significante: fazendo-o,
permanece-se no estatuto clssico da linguagem. Na idade moderna, a
literatura  o que compensa (e no o que confirma) o funcionamento
significativo da linguagem. Atravs dela o ser da linguagem brilha de
novo nos limites da cultura ocidental -- e em seu corao -- pois ele ,
desde o sculo XVI, aquilo que lhe  mais estranho; porm, desde esse
mesmo sculo XVI, ele est no centro do que ela recobriu. Eis por que,
cada vez mais, a literatura aparece [pg. 60] como o que deve ser
pensado; mas tambm, e pela mesma razo, como o que no poder em nenhum
caso ser pensado a partir de uma teoria da significao. Quer a
analisemos do lado do significado (o que ela quer dizer, suas "idias",
o que ela promete ou o que exige), quer do lado do significante (com a
ajuda de esquemas tomados  lingstica ou  psicanlise), pouco
importa: isso no passa de um episdio. Tanto num caso como no outro,
buscam-na fora do lugar onde, para nossa cultura, ela jamais cessou,
desde h um sculo e meio, de nascer e de se imprimir. Tais modos de
decifrao provm de uma situao clssica da linguagem -- aquela que
reinou no sculo XVII, quando o regime dos signos se tornou binrio e
quando a significao foi refletida na forma da representao; ento a
literatura era realmente composta de um significante e de um significado
e merecia ser analisada como tal. A partir do sculo XIX, a literatura
repe  luz a linguagem no seu ser: no, porm, tal como ela aparecia
ainda no final do Renascimento. Porque agora no h mais aquela palavra
primeira, absolutamente inicial, pela qual se achava fundado e limitado
o movimento infinito do discurso; doravante a linguagem vai crescer sem
comeo, sem termo e sem promessa.  o percurso desse espao vo e
fundamental que traa, dia a dia, o texto da literatura. [pg. 61]
CAPTULO III REPRESENTAR                                I. Dom Quixote
Com suas voltas e reviravoltas, as aventuras de Dom Quixote traam o
limite: nelas terminam os jogos antigos da semelhana e dos signos;
nelas j se travam novas relaes. Dom Quixote no  o homem da
extravagncia, mas antes o peregrino meticuloso que se detm diante de
todas as marcas da similitude. Ele  o heri do Mesmo. Assim como de sua
estreita provncia, no chega a afastar-se da plancie familiar que se
estende em torno do Anlogo. Percorre-a indefinidamente, sem transpor
jamais as fronteiras ntidas da diferena, nem alcanar o corao da
identidade. Ora, ele prprio  semelhante a signos. Longo grafismo magro
como uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros. Seu
ser inteiro  s linguagem, texto, folhas impressas, histria j
transcrita.  feito de palavras entrecruzadas;  escrita errante no
mundo em meio  semelhana das coisas. No po- rm inteiramente: pois,
em sua realidade de pobre fidalgo, s pode tornar-se cavaleiro,
escutando de longe a epopia secular [pg. 63] que formula a Lei. O
livro  menos sua existncia que seu dever. Deve incessantemente
consult-lo, a fim de saber o que fazer e dizer, e quais signos dar a si
prprio e aos outros para mostrar que ele  realmente da mesma natureza
que o texto donde saiu. Os romances de cavalaria escreveram de uma vez
por todas a prescrio de sua aventura. E cada episdio, cada deciso,
cada faanha sero signos de que Dom Quixote  de fato semelhante a
todos esses signos que ele decalcou.      Mas se ele quer ser-lhes
semelhante  porque deve prov-los,  porque os signos (legveis) j no
so semelhantes a seres (visveis). Todos esses textos escritos, todos
esses romances extravagantes so justamente incomparveis: nada no mundo
jamais se lhes assemelhou; sua linguagem infinita fica em suspenso, sem
que nenhuma similitude venha jamais preench-la; podem ser queimados
todos e inteiramente, mas a figura do mundo no ser por isso alterada.
Assemelhando-se aos textos de que  o testemunho, o representante, o
real anlogo, Dom Quixote deve fornecer a demonstrao e trazer a marca
indubitvel de que eles dizem a verdade, de que so realmente a
linguagem do mundo. Compete-lhe preencher a promessa dos livros.
Cabe-lhes refazer a epopia, mas em sentido inverso: esta narrava
(pretendia narrar) faanhas reais prometidas  memria; j Dom Quixote
deve preencher com realidade os signos sem contedo da narrativa. Sua
aventura ser uma decifrao do mundo: um percurso minucioso para
recolher em toda a superfcie da terra as figuras que mostram que os
livros dizem a verdade. A faanha deve ser prova: consiste no em
triunfar realmente --  por isso que a vitria no importa no fundo --,
mas em transformar a realidade em signo. Em signo de que os signos da
linguagem so realmente conformes s prprias coisas. Dom Quixote l o
mundo [pg. 64] para demonstrar os livros. E no concede a si outras
provas seno o espelhamento das semelhanas.      Seu caminho todo  uma
busca das similitudes: as menores analogias so solicitadas como signos
adormecidos que cumprisse despertar para que se pusessem de novo a
falar. Os rebanhos, as criadas, as estalagens tornam a ser a linguagem
dos livros, na medida imperceptvel em que se assemelham aos castelos,
s damas e aos exrcitos. Semelhana sempre frustrada, que transforma a
prova buscada em irriso e deixa indefinidamente vazia a palavra dos
livros. Mas a prpria no-similitude tem seu modelo que ela imita
servilmente: encontra-o na metamorfose dos encantadores. De sorte que
todos os indcios da no-semelhana, todos os signos que mostram que os
textos escritos no dizem a verdade assemelham-se a este jogo de
enfeitiamento que introduz, por ardil, a diferena no indubitvel da
similitude. E, como essa magia foi prevista e descrita nos livros, a
diferena ilusria que ela introduz nunca ser mais que uma similitude
encantada. Um signo suplementar, portanto, de que os signos realmente se
assemelham  verdade.      Dom Quixote desenha o negativo do mundo do
Renascimento; a escrita cessou de ser a prosa do mundo; as semelhanas e
os signos romperam sua antiga aliana; as similitudes decepcionam,
conduzem  viso e ao delrio; as coisas permanecem obstinadamente na
sua identidade irnica: no so mais do que o que so; as palavras erram
ao acaso, sem contedo, sem semelhana para preench-las; no marcam
mais as coisas; dormem entre as folhas dos livros, no meio da poeira. A
magia, que permitia a decifrao do mundo descobrindo as semelhanas
secretas sob os signos, no serve mais seno para explicar de modo
delirante por que as analogias so sempre frustradas. A erudio, que
lia como um [pg. 65] texto nico a natureza e os livros,  reconduzida
s suas quimeras: depositados nas pginas amarelecidas dos volumes, os
signos da linguagem no tm como valor mais do que a tnue fico
daquilo que representam. A escrita e as coisas no se assemelham mais.
Entre elas, Dom Quixote vagueia ao sabor da aventura.      A linguagem,
no entanto, no se tornou completamente impotente. Doravante, detm
novos poderes e que lhe so prprios. Na segunda parte do romance, Dom
Quixote reencontra personagens que leram a primeira parte do texto e que
o reconhecem, a ele, homem real, como o heri do livro. O texto de
Cervantes se dobra sobre si mesmo, se enterra na sua prpria espessura e
torna-se para si objeto de sua prpria narrativa. A primeira parte das
aventuras desempenha na segunda o papel que assumiam no incio os
romances de cavalaria. Dom Quixote deve ser fiel a esse livro em que ele
realmente se tornou; deve proteg-lo dos erros, das falsificaes, das
seqncias apcrifas; deve acrescentar os detalhes omitidos; deve manter
sua verdade. Esse livro, porm, Dom Quixote mesmo no o leu nem pode l-
lo, j que ele o  em carne e osso. Ele, que  fora de ler livros
tornara-se um signo errante num mundo que no o reconhecia, ei-lo
tornado, malgrado ele e sem o saber, um livro que detm sua verdade,
rene exatamente tudo o que ele fez e disse, viu e pensou e permite
enfim que o reconheam, de tal modo se assemelha a todos esses signos
cujo sulco indelvel deixou atrs de si. Entre a primeira e a segunda
parte do romance, no interstcio desses dois volumes e somente pelo
poder deles, Dom Qui- xote assumiu sua realidade. Realidade que ele deve
somente  linguagem e que permanece totalmente interior s palavras. A
verdade de Dom Quixote no est na relao das palavras com o mundo, mas
nessa tnue e constante relao que as marcas [pg. 66] verbais tecem de
si para si mesmas. A fico frustrada das epopias tornou-se no poder
representativo da linguagem. As palavras acabam de se fechar na sua
natureza de signos.      Dom Quixote  a primeira das obras modernas,
pois que a se v a razo cruel das identidades e das diferenas
desdenhar infinitamente dos signos e das similitudes: pois que a a
linguagem rompe seu velho parentesco com as coisas, para entrar nessa
soberania solitria donde s reaparecer, em seu ser absoluto, tornada
literatura; pois que a a semelhana entra numa idade que , para ela, a
da desrazo e da imaginao. Uma vez desligados a similitude e os
signos, duas experincias podem se constituir e duas personagens
aparecer face a face. O louco, entendido no como doente, mas como
desvio constitudo e mantido, como funo cultural indispensvel,
tornou-se, na experincia ocidental, o homem das semelhanas selvagens.
Essa personagem, tal como  bosquejada nos romances ou no teatro da
poca barroca e tal como se institucionalizou pouco a pouco at a
psiquiatria do sculo XIX,  aquela que se alienou na analogia.  o
jogador desregrado do Mesmo e do Outro. Toma as coisas pelo que no so
e as pessoas umas pelas outras; ignora seus amigos, reconhece os
estranhos; cr desmascarar e impe uma mscara. Inverte todos os valores
e todas as propores, porque acredita, a cada instante, decifrar
signos: para ela, os ouropis fazem um rei. Segundo a percepo cultural
que se teve do louco at o fim do sculo XVIII, ele s  o Diferente na
medida em que no conhece a Diferena; por toda a parte v semelhanas e
sinais da semelhana; todos os signos para ele se assemelham e todas as
semelhanas valem como signos. Na outra extremidade do espao cultural,
mas totalmente prximo por sua simetria, o poeta  aquele que, por sob
as diferenas nomeadas e cotidianamente previstas, reencontra os
parentescos subterrneos das coisas, suas similitudes dispersadas. [pg.
67] Sob os signos estabelecidos e apesar deles, ouve um outro discurso,
mais profundo, que lembra o tempo em que as palavras cintilavam na
semelhana universal das coisas: a Soberania do Mesmo, to difcil de
enunciar, apaga na sua li- nhagem a distino dos signos.      Da sem
dvida, na cultura ocidental moderna, o face-a-face da poesia e da
loucura. Mas j no se trata do velho tema platnico do delrio
inspirado. Trata-se da marca de uma nova experincia da linguagem e das
coisas. s margens de um saber que separa os seres, os signos e as
similitudes, e como que para limitar seu poder, o louco garante a funo
do homossemantismo: rene todos os signos e os preenche com uma
semelhana que no cessa de proliferar. O poeta garante a funo
inversa; sustenta o papel alegrico; sob a linguagem dos signos e sob o
jogo de suas distines bem determinadas, pe-se  escuta de "outra
linguagem", aquela, sem palavras nem discursos, da semelhana. O poeta
faz chegar a similitude at os signos que a dizem, o louco carrega todos
os signos com uma semelhana que acaba por apag-los. Assim, na orla
exterior da nossa cultura e na proximidade maior de suas divises
essenciais, esto ambos nessa situao de "limite" -- postura marginal e
silhueta profundamente arcaica -- onde suas palavras encontram
incessantemente seu poder de estranheza e o recurso de sua contestao.
Entre eles abriu-se o espao de um saber onde, por uma ruptura essencial
no mundo ocidental, a questo no ser mais a das similitudes, mas a das
identidades e das diferenas.                                   II. A
ordem      No  fcil estabelecer o estatuto das descontinuidades para
a histria em geral. Menos ainda, sem dvida, para a histria do
pensamento. Pretende-se traar uma divisria? Todo [pg. 68] limite no
 mais talvez que um corte arbitrrio num conjunto indefinidamente
mvel. Pretende-se demarcar um perodo? Tem-se porm o direito de
estabelecer, em dois pontos do tempo, rupturas simtricas, para fazer
aparecer entre elas um sistema contnuo e unitrio? A partir de que,
ento, ele se constituiria e a partir de que, em seguida, se
desvaneceria e se deslocaria? A que regime poderiam obedecer ao mesmo
tempo sua existncia e seu desaparecimento? Se ele tem em si seu
princpio de coerncia, donde viria o elemento estranho capaz de
recus-lo? Como pode um pensamento esquivar-se diante de outra coisa que
ele prprio? Que quer dizer, de um modo geral: no mais poder pensar um
pensamento? E inaugurar um pensamento novo?      O descontnuo -- o fato
de que em alguns anos, por vezes, uma cultura deixa de pensar como
fizera at ento e se pe a pensar outra coisa e de outro modo -- d
acesso, sem dvida, a uma eroso que vem de fora, a esse espao que,
para o pensamento, est do outro lado, mas onde, contudo, ele no cessou
de pensar desde a origem. Em ltima anlise, o problema que se formula 
o das relaes do pensamento com a cultura: como sucede que um
pensamento tenha um lugar no espao do mundo, que a encontre como que
uma origem, e que no cesse, aqui e ali, de comear sempre de novo? Mas
talvez no seja ainda o momento de formular o problema;  preciso
provavelmente esperar que a arqueologia do pensamento esteja mais
assegurada, tenha mais bem assumido a medida daquilo que ela pode
descrever direta e positivamente, tenha definido os sistemas singulares
e os encadeamentos internos aos quais se enderea, para tentar fazer o
contorno do pensamento e interrog-lo na direo por onde ele escapa de
si mesmo. Bastar pois, por ora, acolher essas descontinuidades na ordem
emprica, ao mesmo tempo evidente e obscura, em que se do. [pg. 69]
No comeo do sculo XVII, nesse perodo que, com razo ou no, se chamou
barroco, o pensamento cessa de se mover no elemento da semelhana. A
similitude no  mais a forma do saber, mas antes a ocasio do erro, o
perigo ao qual nos expomos quando no examinamos o lugar mal esclarecido
das confuses. " um hbito freqente", diz Descartes nas primeiras
linhas das Regulae, "quando se desco- brem algumas semelhanas entre
duas coisas, atribuir tanto a uma como  outra, mesmo sobre os pontos em
que elas so na realidade diferentes, aquilo que se reconheceu
verdadeiro para somente uma das duas."1 A idade do semelhante est
fechando-se sobre si mesma. Atrs dela s deixa jogos. Jogos cujos
poderes de encanto crescem com esse parentesco novo da semelhana com a
iluso; por toda a parte se desenham as quimeras da similitude, mas
sabe-se que so quimeras;  o tempo privilegiado do trompe-l'oeil, da
iluso cmica, do teatro que se desdobra e representa um teatro, do
qiproqu, dos sonhos e vises;  o tempo dos sentidos en- ganadores; 
o tempo em que as metforas, as comparaes e as alegorias definem o
espao potico da linguagem. E por isso mesmo, o saber do sculo XVI
deixa a lembrana deformada de um conhecimento misturado e sem regra,
onde todas as coisas do mundo se podiam aproximar ao acaso das
experincias, das tradies ou das credulidades. Doravante as belas
figuras rigorosas e constringentes da similitude sero esquecidas. E se
tomaro os signos que as marcavam por devaneios e encantos de um saber
que ainda no se tornara razovel.          Encontra-se, j em Bacon,
uma critica da semelhana. Crtica emprica, que no concerne s
relaes de ordem e de igualdade entre as coisas, mas aos tipos de 1
Descartes. Oeuvres philosophiques. Paris, 1963, t. I, p. 77. esprito e
s formas [pg. 70] de iluso s quais elas podem estar sujeitas.
Trata-se de uma doutrina do qiproqu. Bacon no dissipa as similitudes
por meio da evidncia e de suas regras. Mostra que elas cintilam diante
dos olhos, desvanecem- se quando nos aproximamos, mas se recompem
imediatamente, um pouco mais longe. So dolos. Os dolos da caverna e
os do teatro fazem-nos crer que as coisas se assemelham ao que
aprendemos e s teorias que formamos para ns; outros dolos fazem-nos
crer que as coisas se assemelham entre si. "O esprito humano 
naturalmente levado a supor que h nas coisas mais ordem e semelhana do
que possuem; e, enquanto a natureza  plena de excees e de diferenas,
por toda a parte o esprito v harmonia, acordo e similitude. Da esta
fico de que todos os corpos celestes descrevem, ao mover-se, crculos
perfeitos": tais so os dolos da tribo, fices espontneas do
esprito. A eles se juntam -- efeitos e por vezes causas -- as confuses
da linguagem: um s e mesmo nome se aplica indiferentemente a coisas que
no so da mesma natureza. So dolos do frum2. S a prudncia do
esprito pode dissip-los, desde que renuncie a sua pressa e ligeireza
natural para tornar-se "penetrante", e perceber enfim as diferenas
prprias  natureza.          A crtica cartesiana da semelhana  de
outro tipo. No  mais o pensamento do sculo XVI inquietando-se diante
de si mesmo e comeando a se desprender de suas mais familiares figuras;
 o pensamento clssico excluindo a semelhana como experincia
fundamental e forma primeira do saber, denunciando nela um misto confuso
que cumpre analisar em termos de identidade e de diferenas, de medida e
de ordem. Se Descartes recusa a semelhana, no  excluindo do
pensamento racional o ato de comparao, nem buscando [pg. 71]
limit-lo, mas, ao contrrio, universalizando-o e dando-lhe assim sua
mais pura forma. Com efeito,  pela comparao que encontramos "a
figura, a extenso, o movimento e outros semelhantes" -- isto , as
naturezas simples -- em todos os sujeitos onde elas podem estar
presentes. E, por outro lado, numa deduo do tipo "todo A  B, todo B 
C, logo todo A  C",  claro que o esprito "compara entre si o termo
procurado e o termo dado, a saber, A e C, atravs dessa relao segundo
a qual um e outro so B". Por conseqncia, se se puser de parte a
intuio de uma coisa isolada, pode-se dizer que todo conhecimento "se
obtm pela comparao de duas ou vrias coisas entre 2     F. Bacon.
Novum organum. Trad. francesa. Paris, 1847, liv. I, pp. 111 e ll9,  45
e 55. si"3. Ora, no h conhecimento verdadeiro seno pela intuio,
isto , por um ato singular da inteligncia pura e atenta, e pela
deduo que liga entre si as evidncias. De que modo a comparao, que 
requerida para quase todos os conhecimentos e que, por definio, no 
uma evidncia isolada nem uma deduo, pode autorizar um pensamento
verdadeiro? "Quase todo o trabalho da razo humana consiste, sem dvida,
em tornar essa operao possvel."4 Existem duas formas de comparao e
somente duas: a comparao da medida e a da ordem. Podem-se medir
grandezas ou multiplicidades, isto , grandezas contnuas ou
descontnuas; mas, tanto num caso como no outro, a operao de medida
supe que, diferentemente do clculo que vai dos elementos para a
totalidade, consideremos primeiro o todo e que o dividamos em partes.
Essa diviso vai dar em unidades, entre as quais umas so de conveno
ou "de emprstimo" (para as grandezas contnuas) e outras (para as
multiplicidades ou grandezas descontnuas) so as unidades da
aritmtica. Comparar duas grandezas ou duas multiplicidades exige, de
[pg. 72] toda maneira, que se aplique  anlise de uma e de outra uma
unidade comum. Assim, a comparao efetuada pela medida se reduz, em
todos os casos, s relaes aritmticas da igualdade e da desigualdade.
A medida permite analisar o semelhante segundo a forma calculvel da
identidade e da diferena5.          Quanto  ordem, estabelece-se sem
referncia a uma unidade exterior: "Reconheo, com efeito, qual  a
ordem entre A e B sem nada considerar seno esses dois termos extremos";
no se pode conhecer a ordem das coisas "na sua natureza isoladamente",
mas, sim, descobrindo aquela que  a mais simples, em seguida aquela que
 a mais prxima para que se possa aceder necessariamente, a partir da,
at as coisas mais complexas. Enquanto a comparao por medida exigia
primeiro uma diviso, depois a aplicao de uma unidade comum, aqui
comparar e ordenar so uma nica e mesma coisa: a comparao pela ordem
 um ato simples que permite passar de um termo a outro, depois a um
terceiro etc., por um movimento "absolutamente ininterrupto"6. Assim se
estabelecem sries em que o 3     Descartes. Regulae, XIV, p. 168. 4
Descartes. Regulae, XIV, p. 168. 5     Ibid., p. 182. 6     Ibid., VI,
p. 102; VII, p. 109. primeiro termo  uma natureza da qual se pode ter a
intuio independentemente de qualquer outra; e em que os outros termos
so estabelecidos segundo diferenas crescentes.          Tais so,
portanto, os dois tipos de comparao: uma analisa em unidades para
estabelecer relaes de igualdade e de desigualdade; a outra estabelece
elementos, os mais simples que se possam encontrar, e dispe as
diferenas segundo os graus mais fracos possveis. Ora, pode-se reduzir
a medida das grandezas e das multiplicidades ao estabelecimento de uma
ordem; os valores da aritmtica so sempre ordenveis segundo uma srie:
a multiplicidade das unidades pode, pois, [pg. 73] "dispor-se segundo
uma ordem tal que a dificuldade, que pertence ao conhecimento da medida,
acabe por depender somente da considerao da ordem"7. E  nisso
justamente que consistem o mtodo e seu "progresso": reduzir toda medida
(toda determinao pela igualdade e a igualdade) a uma colocao em
srie que, partindo do simples, faz aparecer as diferenas como graus de
complexidade. O semelhante, depois de ter sido analisado segundo a
unidade e as relaes de igualdade ou de desigualdade,  analisado
segundo a identidade evidente e as diferenas: diferenas que podem ser
pensadas na ordem das inferncias. Entretanto, essa ordem ou comparao
generalizada s se estabelece conforme o encadeamento no conhecimento; o
carter absoluto que se reconhece ao que  simples no concerne ao ser
das coisas, mas, sim,  maneira como elas podem ser conhecidas. De tal
sorte que uma coisa pode ser absoluta sob certo aspecto e relativa sob
outro8; a ordem pode ser ao mesmo tempo necessria e natural (em relao
ao pensamento) e arbitrria (em relao s coisas), j que uma mesma
coisa, segundo a maneira como a consideramos, pode ser colocada num
ponto ou noutro da ordem.          Tudo isso teve grandes conseqncias
para o pensamento ocidental. O semelhante, que fora durante muito tempo
categoria fundamental do saber -- ao mesmo tempo forma e contedo do
conhecimento -- se acha dissociado numa anli- se feita em termos de
identidade e de diferena; ademais, quer indiretamente por intermdio da
medida, quer diretamente e como que nivelada a ela, a comparao 
reportada  ordem; enfim, a comparao no tem mais como papel revelar a
or- 7     Regulae, XIV, p. 182. 8     Ibid., VI, p. 103. denao do
mundo; ela se faz segundo a ordem do pensamento e indo naturalmente do
simples ao complexo. Da, toda [pg. 74] a epistm da cultura ocidental
se acha modificada em suas disposies fundamentais. E em particular o
domnio emprico em que o homem do sculo XVI via ainda estabelecerem-se
os parentescos, as semelhanas e as afinidades e em que se entrecruzavam
sem fim a linguagem e as coisas -- todo esse campo imenso vai assumir
uma configurao nova. Podemos, se quisermos, design-lo pelo nome de
"racionalismo"; podemos, se no tivermos na cabea seno conceitos
prontos, dizer que o sculo XVII marca o desaparecimento das velhas
crenas supersticiosas ou mgicas e a entrada, enfim, da natureza na
ordem cientfica. Mas o que cumpre apreender e tentar restituir so as
modificaes que alteraram o prprio saber, nesse nvel arcaico, que
torna possveis os conhecimentos e o modo de ser daquilo que se presta
ao saber.      Essas modificaes podem resumir-se da seguinte maneira.
Primeiro, substituio da hierarquia analgica pela anlise: no sculo
XVI, admitia-se de incio o sistema global das correspondncias (a terra
e o cu, os planetas e o rosto, o microcosmo e o macrocosmo), e cada
similitude singular vinha alojar-se no interior dessa relao de
conjunto; doravante, toda semelhana ser submetida  prova da
comparao, isto , s ser admitida quando for encontrada, pela medida,
a unidade comum, ou mais radicalmente, pela ordem, a identidade e a
srie das diferenas. Ademais, o jogo das similitudes era outrora
infinito; era sempre possvel descobrir novas similitudes, e a nica
limitao vinha da ordenao das coisas, da finitude de um mundo
comprimido entre o macrocosmo e o microcosmo. Agora, uma enumerao
completa se tornar possvel: quer sob a forma de um recenseamento
exaustivo de todos os elementos que constitui o conjunto visado; quer
sob a forma de uma colocao em categorias que articula [pg. 75] na sua
totalidade o domnio estudado; quer, enfim, sob a forma de uma anlise
de certo nmero de pontos, em nmero suficiente, tomados ao longo da
srie. A comparao pode portanto atingir uma certeza perfeita: nunca
acabado e sempre aberto para novas eventualidades, o velho sistema das
similitudes podia, pela via de confirmaes sucessivas, tornar-se cada
vez mais provvel; jamais era certo. A enumerao completa e a
possibilidade de determinar em cada ponto a passagem necessria ao
seguinte permitem um conhecimento absolutamente certo das identidades e
das diferenas: "Somente a enumerao nos pode permitir, qualquer que
seja a questo a que nos apliquemos, ter sobre ela um julgamento
verdadeiro e certo."9 A atividade do esprito -- e este  o quarto ponto
-- no mais consistir, pois, em aproximar as coisas entre si, em partir
em busca de tudo o que nelas possa revelar como que um parentesco, uma
atrao ou uma natureza secretamente partilhada, mas ao contrrio, em
discernir: isto , em estabelecer as identidades, depois a necessidade
da passagem a todos os graus que delas se afastam. Nesse sentido, o
discernimento impe  comparao a busca primeira e fundamental da
diferena: obter pela intuio uma representao distinta das coisas e
apreender claramente a passagem necessria de um elemento da srie
quele que se lhe sucede imediatamente. Enfim, ltima conseqncia, j
que conhecer  discernir, a histria e a cincia vo se achar separadas
uma da outra. De um lado, haver a erudio, a leitura dos autores, o
jogo de suas opinies; este pode, por vezes, ter valor de indicao,
menos pelo acordo que a se forma que pelo desen- tendimento: "Quando se
trata de uma questo difcil  mais verossmil que se encontrem poucos e
no muitos para descobrir [pg. 76] a verdade a seu respeito." Em face
dessa histria e sem comum medida com ela, erguem-se os juzos seguros
que podemos fazer pelas intuies e seu encadeamento. Eles e s eles
constituem a cincia, e mesmo que tivssemos "lido todos os raciocnios
de Plato e de Aristteles,... no seriam cincias que teramos
aprendido, ao que parece, mas his- tria"10. Desde ento, o texto cessa
de fazer parte dos signos e das formas da verdade; a linguagem no 
mais uma das figuras do mundo nem a assinalao imposta s coisas desde
o fundo dos tempos. A verdade encontra sua manifestao e seu signo na
percepo evidente e distinta. Compete s palavras traduzi-la, se o
podem; no tero mais direito a ser sua marca. A linguagem se retira do
meio dos seres para entrar na sua era de transparncia e de
neutralidade.          Esse  um fenmeno geral na cultura do sculo
XVII -- mais geral que a ventura singular do cartesianismo.          
necessrio, com efeito, distinguir trs coisas. Houve, por um lado, o
mecanicismo que, num perodo afinal bastante curto (quase apenas a
segunda metade do sculo XVII), props um modelo terico para certos
domnios do saber 9     Regulae, VII, p. 110. 10      Regulae, III, p.
86. como a medicina ou a fisiologia. Houve tambm um esforo, bastante
diverso em suas formas, de matematizao do emprico; constante e
contnuo para a astronomia e uma parte da fsica, foi espordico em
outros domnios -- s vezes tentado realmente (como em Condorcet), s
vezes proposto como ideal universal e horizonte da pesquisa (como em
Condillac ou Destutt), s vezes tambm recusado em sua possibilidade
mesma (em Buffon, por exemplo). Todavia, nem esse esforo nem as
tentativas do mecanicismo devem ser confundidos com a relao que todo o
saber clssico, em sua forma [pg. 77] mais geral, mantm com a
mthsis, entendida como cincia universal da medida e da ordem. Sob as
palavras vazias, obscuramente mgicas de "influncia cartesiana" ou de
"modelo newtoniano", os historiadores das idias tm o hbito de
misturar essas trs coisas e de definir o racionalismo clssico pela
tentao de tornar a natureza mecnica e calculvel. Os outros -- os
semi- hbeis -- esforam-se por descobrir sob esse racionalismo o jogo
de "foras contrrias": aquelas de uma natureza e de uma vida que no se
deixam reduzir nem  lgebra nem  fsica do movimento e que mantm
assim, no fundo do classicismo, o reduto do no-racionalizvel. Essas
duas formas de anlise so, uma e outra, igualmente insuficientes. Pois
o fundamental, para a epistm clssica, no  nem o sucesso ou o
fracasso do mecanicismo, nem o direito ou a impossibilidade de
matematizar a natureza, mas sim uma relao com a mthsis que, at o
fim do sculo XVIII, permanece constante e inalterada. Essa relao
apresenta dois caracteres essenciais. O primeiro  que as relaes entre
os seres sero realmente pensadas sob a forma da ordem e da medida, mas
com este desequilbrio fundamental de se poderem sempre reduzir os
problemas da medida aos da ordem. De sorte que a relao de todo
conhecimento com a mthsis se oferece como a possibilidade de
estabelecer entre as coisas, mesmo no-mensurveis, uma sucesso
ordenada. Nesse sentido, a anlise vai adquirir bem depressa valor de
mtodo universal; e o projeto leibniziano de estabelecer uma matemtica
das ordens qualitativas se acha no corao mesmo do pensamento clssico;
 em torno dele que gravita todo esse pensamento. Por outro lado, porm,
essa relao com a mthsis como cincia geral da ordem no significa
uma absoro do saber nas matemticas nem que nelas se fundamente todo o
conhecimento possvel; ao contrrio, em correlao [pg. 78] com a busca
de uma mthsis, v-se aparecer um certo nmero de domnios empricos
que at ento no tinham sido nem formados nem definidos. Em nenhum
desses domnios ou em quase nenhum  possvel encontrar vestgios de um
mecanicismo ou de uma matematizao; e, contudo, eles se constituram
todos tendo por base uma cincia possvel da ordem. Se eles dependiam
efetivamente da Anlise em geral, seu instrumento particular no era o
mtodo algbrico, mas o sistema dos signos. Assim apareceram a gramtica
geral, a histria natural, a anlise das riquezas, cincias da ordem no
domnio das palavras, dos seres e das necessidades; e todas essas
empiricidades, novas na poca clssica e co-extensivas  sua durao
(tm por pontos de referncia cronolgicos Lancelot e Bopp, Ray e
Cuvier, Petty e Ricardo, que escreveram, os primeiros por volta de 1660,
e os segundos por volta dos anos 1800-1810), no se puderam constituir
sem a relao que toda a epistm da cultura ocidental manteve ento com
uma cincia universal da ordem.      Essa relao com a Ordem  to
essencial para a idade clssica quanto foi para o Renascimento a relao
com a Interpretao. E assim como a interpretao do sculo XVI,
superpondo uma semiologia a uma hermenutica, era essencialmente um
conhecimento da similitude, assim a colocao em ordem por meio dos
signos constitui todos os saberes empricos como saberes da identidade e
da diferena. O mundo, a um tempo indefinido e fechado, pleno e
tautolgico, da semelhana se acha dissociado e como que aberto em seu
centro; numa extremidade, encontrar-se- o os signos tornados
instrumentos da anlise, marcas da identidade e da diferena, princpios
da colocao em ordem, chaves para uma taxinomia; e na outra, a
semelhana emprica e murmurante das coisas, essa similitude surda que,
por sob o pensamento, [pg. 79] fornece a matria infinita das
reparties e das distribuies. De um lado, a teoria geral dos signos,
das divises e das classificaes; de outro, o problema das semelhanas
imediatas, do movimento espontneo da imaginao, das repeties da
natureza. Entre os dois, os saberes novos que encontram seu espao nessa
distncia aberta.                           III. A representao do
signo      Que  um signo na idade clssica? Pois o que mudou na
primeira metade do sculo XVII e por longo tempo -- talvez at hoje -- 
o regime inteiro dos signos, as condies sob as quais exercem eles sua
estranha funo;  aquilo que, dentre tantas outras coisas que sabemos
ou que vemos, os erige de sbito como signos;  seu prprio ser. No
limiar da idade clssica, o signo deixa de ser uma figura do mundo;
deixa de estar ligado quilo que ele marca por liames slidos e secretos
da semelhana ou da afinidade.          O classicismo o define segundo
trs variveis11. A origem da ligao: um signo pode ser natural (como o
reflexo num espelho designa o que ele reflete) ou de conveno (como uma
palavra, para um grupo de homens, pode significar uma idia). O tipo da
ligao: um signo pode pertencer ao conjunto que ele designa (como a boa
fisionomia que faz parte da sade que ela manifesta) ou ser dele
separado (como as figuras do Antigo Testamento so os signos longnquos
da Encarnao e do Resgate). A certeza da ligao: um signo pode ser to
constante que estamos seguros de sua fidelidade ( assim que a
respirao designa a vida); mas ele pode ser [pg. 80] simplesmente
provvel (como a palidez para a gravidez). Nenhuma dessas formas de
ligao implica necessariamente a similitude; o prprio signo natural
no a exige: os gritos so os signos espontneos, mas no anlogos, do
medo; ou ainda, como diz Berkeley, as sensaes visuais so signos do
tato instaurados por Deus e, no entanto, no se lhe assemelham de
maneira alguma12. Essas trs variveis substituem a semelhana para
definir a eficcia do signo no domnio dos conhecimentos empricos.
1. Uma vez que  sempre certo ou provvel, o signo deve encontrar seu
espao no interior do conhecimento. No sculo XVI, considerava-se que os
signos tinham sido depositados sobre as coisas para que os homens
pudessem desvendar seus segredos, sua natureza ou suas virtudes; mas
essa descoberta nada mais era que o fim ltimo dos signos, a
justificao de sua presena; era sua utilizao possvel, a melhor, sem
dvida; mas no tinham necessidade de ser conhecidos para existirem:
mesmo se permanecessem silenciosos e se jamais algum os percebesse,
nada perdiam de sua consistncia. No era o conhecimento mas a linguagem
mesma das coisas que os instaurava na sua funo significante. A partir
do sculo XVII, todo o 11      Logique de Port-Royal, 1 parte, cap. IV.
12      Berkeley. Essay d'une nouvelle thorie de la vision. In: Oeuvres
choisies. Trad. francesa de domnio do signo se distribui entre o certo
e o provvel: isso quer dizer que no seria mais possvel haver signo
desconhecido, marca muda. No que os homens estejam de posse de todos os
signos possveis. Mas, sim, que s h signo a partir do momento em que
se acha conhecida a possibilidade de uma relao de substituio entre
dois elementos j conhecidos. O signo no espera silenciosamente a vinda
daquele que pode reconhec-lo: ele s se constitui por um ato de
conhecimento. [pg. 81]        aqui que o saber rompe seu velho
parentesco com a divinatio. Esta supunha sempre signos que lhe eram
anteriores: de sorte que o conhecimento se alojava inteiramente na vaga
de um signo descoberto, ou afirmado, ou secretamente transmitido. Tinha
por tarefa fazer o levantamento de uma linguagem prvia distribuda por
Deus no mundo;  nesse sentido que, por uma implicao essencial, ele
adivinhava, e adivinhava o divino. Doravante,  no interior do
conhecimento que o signo comear a significar:  dele que tirar sua
certeza ou sua probabilidade. E, se Deus utiliza ainda signos para nos
falar atravs da natureza, serve-se de nosso conhecimento e dos laos
que se estabelecem entre as impresses, para instaurar no nosso esprito
uma relao de significao. Tal  o papel do sentimento em Malebranche
ou da sensao em Berkeley: no juzo natural, no sentimento, nas
impresses visuais, na percepo da terceira dimenso, so conhecimentos
apressados, confusos, mas prementes, inevitveis e constringentes, que
servem de signos a conhecimentos discursivos, que ns, porque no somos
puros espritos, j no temos a prerrogativa ou a permisso de atingir
por ns mesmos e apenas pela fora de nosso esprito. Em Malebranche e
Berkeley, o signo gerido por Deus  a superposio sagaz e diligente de
dois conhecimentos. J no h a divinatio -- in- sero do conhecimento
no espao enigmtico, aberto e sagrado dos signos; mas um conhecimento
conciso e concentrado em si mesmo: a centralizao de uma longa
seqncia de juzos na figura rpida do signo. V-se tambm como, por um
movimento de retorno, o conhecimento, que encerrou os signos no seu
espao prprio, poder agora abrir-se  probabilidade: de uma impresso
a outra, a relao ser de signo a significado, isto , uma relao que,
como na sucesso, se desdobrar da mais fraca probabilidade  maior
certeza. [pg. 82] "A conexo das idias Leroy. Paris, 1944, t.1, pp.
163-4. implica no a relao de causa a efeito mas somente a de um
indcio e de um signo  coisa significada. O fogo que se v no  a
causa da dor que sofro quando dele me aproximo:  o indcio que me
previne dessa dor."13 O conhecimento que adivinhava, por acaso, signos
absolutos e mais antigos que ele, foi substitudo por uma rede de signos
construda passo a passo pelo conhecimento do provvel. Hume tornou-se
possvel.          2. Segunda varivel do signo: a forma de sua ligao
com o que ele significa. Pelo jogo da convenincia, da emulao e
sobretudo da simpatia, a similitude no sculo XVI triunfava do espao e
do tempo: pois competia ao signo reduzir e reunir. Com o classicismo, ao
contrrio, o signo se caracteriza por sua essencial disperso. O mundo
circular dos signos convergentes  substitudo por um desdobramento ao
infinito. Nesse espao, o signo pode ter duas posies: ou faz parte, a
ttulo de elemento, daquilo que ele serve para designar; ou  dele real
e atualmente separado. Na verdade, essa alternativa no  radical; pois
o signo, para funcionar, deve estar ao mesmo tempo inserido no que ele
significa e dele distinto. Com efeito, para que o signo seja o que , 
preciso que ele seja dado ao conhecimento ao mesmo tempo que aquilo que
ele significa. Como observa Condillac, um som no se tornaria jamais
para uma criana o signo verbal de uma coisa, se no tivesse sido ouvido
pelo menos uma vez, no momento em que essa coisa  percebida14. Mas,
para que um elemento de uma percepo possa tornar-se seu signo, no
basta que dela faa parte;  preciso que seja distinguido [pg. 83] a
ttulo de elemento e destacado da impresso global a que estava
confusamente ligado;  necessrio, pois, que esta seja dividida, que a
ateno incida numa dessas regies imbricadas que a compem e que delas
tenha sido isolada. A constituio do signo , pois, inseparvel da
anlise.  seu resultado j que, sem ela, no poderia aparecer.  tambm
seu instrumento, j que, uma vez definido e isolado, ele pode ser
reportado a novas impresses; e a, desempenha em relao a elas como
que o papel de um crivo. Porque o esprito analisa, o signo aparece.
Porque o esprito dispe de signos, a anlise no cessa de prosseguir.
Compreende-se por que de Condillac a Destutt de Tracy e a Gerando, a
doutrina geral dos signos e a definio do poder de anlise do
pensamento se 13      Berkeley. Prncipes de la connaissance humaine.
In: Oeuvres choi-sies, t. I,p. 267. 14      Condillac. Essai sur l
`origine des connaissances humaines. In: Oeuvres. Paris, 1798, t. I, pp.
superpuseram exatamente numa nica e mesma teoria do conhecimento.
Quando a Lgica de Port-Royal dizia que um signo podia ser inerente
quilo que ele designa ou dele separado, mostrava que o signo, na idade
clssica, no  mais encarregado de tornar o mundo prximo de si e
inerente s suas prprias formas, mas, ao contrrio, de estend-lo, de
justap-lo segundo uma superfcie indefinidamente aberta e de prosseguir
a partir dele o desdobramento sem termo dos substitutos com os quais o
pensamos.  desse modo que o oferecemos ao mesmo tempo  anlise e 
combinatria, que o tomamos, de ponta a ponta, ordenvel. O signo no
pensamento clssico no apaga as distncias e no abole o tempo: ao
contrrio, permite desenrol-los e percorr-los passo a passo. Por ele,
as coisas tomam-se distintas, conservam-se em sua identidade,
desenlaam-se e se ligam. A razo ocidental entra na idade do juzo.
3. Resta uma terceira varivel: a que pode assumir os dois valores da
natureza e da conveno. Sabia-se desde h muito -- e bem antes do
Crtilo -- que os signos podem ser [pg. 84] dados pela natureza ou
constitudos pelo homem. O sculo XVI tambm no o ignorava e reconhecia
nas lnguas humanas os signos de instituio. Mas os signos artificiais
s deviam seu poder  sua fidelidade aos signos naturais. Estes, de
longe, fundavam todos os outros. A partir do sculo XVII, d-se um valor
inverso  natureza e  conveno: natural, o signo no  mais do que um
elemento subtrado s coisas e constitudo como signo pelo conhecimento.
Ele , pois, pres- crito, rgido, incmodo, e o esprito no pode
assenhorar-se dele. Ao contrrio, quando se estabelece um signo de
conveno, pode-se sempre (e  preciso, com efeito) escolh-lo de tal
sorte que ele seja simples, fcil de lembrar, aplicvel a um nmero
indefinido de elementos, suscetvel de se dividir ele prprio e de se
compor; o signo de instituio  o signo na plenitude de seu
funcionamento.  ele que traa a divisria entre o homem e o animal; ele
que transforma a imaginao em memria voluntria, a ateno espontnea
em reflexo, o instinto em conhecimento racional15. Foi sua carncia
ainda que Itard descobriu no "Selvagem de Aveyron". Desses signos de
conveno, os signos naturais no passam do esboo rudimentar, o desenho
longnquo que s ser concludo pela instaurao do arbitrrio. 188-208.
15      Condillac. Essai sur l'origine des connaissances humaines, p.75.
Mas esse arbitrrio  medido por sua funo, e suas regras muito
exatamente definidas por ela. Um sistema arbitrrio de signos deve
permitir a anlise das coisas nos seus mais simples elementos; deve
decompor at a origem; mas deve tambm mostrar como so possveis
combinaes desses elementos e permitir a gnese ideal na complexidade
das coisas. "Arbitrrio" s se ope a "natural" se se quiser designar a
maneira como os signos foram estabelecidos. Mas o arbitrrio [pg. 85] 
tambm o crivo de anlise e o espao combinatrio atravs dos quais a
natureza vai se oferecer no que ela  ao nvel das impresses
originrias e em todas as formas poss- veis de sua combinao. Na sua
perfeio, o sistema dos signos  essa lngua simples, absolutamente
transparente, que  capaz de nomear o elementar;  tambm esse conjunto
de operaes que define todas as conjunes possveis. A nossos olhos,
essa busca da origem e esse clculo dos agrupamentos parecem
incompatveis, e ns os explicamos facilmente como uma ambigidade no
pensamento dos sculos XVII e XVIII. O mesmo ocorre com o jogo entre o
sistema e a natureza. De fato, no h para esse pensamento nenhuma
contradio. Mais precisamente, existe uma disposio necessria e nica
que atravessa toda a epistm clssica:  a pertena de um clculo
universal e de uma busca do elementar a um sistema que  artificial e
que, por isso mesmo, pode fazer aparecer a natureza desde seus elementos
de origem at a simultaneidade de todas as suas combinaes possveis.
Na idade clssica, servir-se de signos no , como nos sculos
precedentes, tentar reencontrar por sob eles o texto primitivo de um
discurso afirmado, e reafirmado, para sempre;  tentar descobrir a
linguagem arbitrria que autorizar o desdobramento da natureza no seu
espao, os termos ltimos de sua anlise e as leis de sua composio. O
saber no tem mais que desencravar a velha Palavra dos lugares
desconhecidos onde ela se pode esconder; cumpre-lhe fabricar uma lngua
e que ela seja bem-feita -- isto , que, analisante e combinante, ela
seja realmente a lngua dos clculos.       possvel agora definir os
instrumentos que ao pensamento clssico prescreve o sistema dos signos.
 ele que introduz no conhecimento a probabilidade, a anlise e a
combinatria, o arbitrrio justificado do sistema.  ele que d lugar ao
mesmo [pg. 86] tempo  busca da origem e  calculabilidade; 
constituio de quadros fixando as composies possveis e  restituio
de uma gnese a partir dos mais simples elementos;  ele que aproxima
todo saber de uma linguagem e busca substituir todas as lnguas por um
sistema de smbolos artificiais e de operaes de natureza lgica. No
nvel de uma histria das opinies, tudo isso apareceria sem dvida como
uma imbricao de influncias, em que seria necessrio sem dvida fazer
aparecer a parte individual que cabe a Hobbes, Berkeley, Leibniz,
Condillac, aos idelogos. Mas se se interroga o pensamento clssico ao
nvel do que arqueologicamente o tornou possvel, percebe-se que a
dissociao entre o signo e a semelhana no comeo do sculo XVIII fez
aparecer estas figuras novas que so a probabilidade, a anlise, a
combinatria, o sistema e a lngua universal, no como temas sucessivos
engendrando-se ou repelindo-se uns aos outros, mas como uma rede nica
de necessidades. E foi ela que tornou possveis essas individualidades a
que chamamos Hobbes ou Berkeley ou Hume ou Condillac.
IV. A representao reduplicada          No entanto, a mais fundamental
propriedade dos signos para a epistm clssica no foi enunciada at o
presente. Com efeito, que o signo possa ser mais ou menos provvel, mais
ou menos afastado daquilo que significa, que possa ser natural ou
arbitrrio sem que sua natureza ou seu valor de signo seja afetado por
isso -- tudo isso mostra bem que a relao do signo com seu contedo no
 assegurada na ordem das prprias coisas. A relao do significante com
o significado se aloja agora num espao onde nenhuma figura
intermediria assegura mais seu encontro: ela , no interior do
conhecimento, [pg. 87] o liame estabelecido entre a idia de uma coisa
e a idia de uma outra. A Lgica de Port-Royal o diz: "O signo encerra
duas idias, uma da coisa que representa, outra da coisa representada; e
sua natureza consiste em excitar a primeira pela segunda."16 Teoria dual
do signo, que se ope sem equvoco  organizao mais complexa do
Renascimento; ento, a teoria do signo implicava trs elementos
perfeitamente distintos: o que era marcado, o que era marcante e o que
permitia ver nisto a marca daquilo; ora, este ltimo elemento era a
semelhana -- o signo marcava na medida em que era "quase a mesma coisa"
que o que ele designava.  esse sistema unitrio e triplo que desaparece
ao mesmo tempo 16      Logique de Port-Royal, 1 parte, cap. IV. que o
"pensamento por semelhana", e que  substitudo por uma organizao
estritamente binria.          Mas h uma condio para que o signo seja
realmente essa pura dualidade. Em seu ser simples de idia ou de imagem
ou de percepo, associada ou substituda a uma outra, o elemento
significante no  signo. Ele s se torna signo sob a condio de
manifestar, alm do mais, a relao que o liga quilo que significa. 
preciso que ele represente, mas que essa representao, por sua vez, se
ache representada nele. Condio indispensvel  organizao binria do
signo e que a Lgica de Port-Royal enuncia antes mesmo de dizer o que 
um signo: "Quando s se olha certo objeto como representando outro, a
idia que dele se tem  uma idia de signo e esse primeiro objeto se
chama signo."17 A idia significante se desdobra, porquanto  idia que
substitui outra se superpe a idia de seu poder representativo. Acaso
no haveria trs termos: a idia significada, a idia significante e, no
interior desta, a idia de seu papel de representao? No se trata,
porm, de [pg. 88] um retorno sub-reptcio a um sistema ternrio.
Trata-se antes de um desnvel inevitvel da figura com dois termos, que
recua em relao a si mesma e vem alojar-se por inteiro no in- terior do
elemento significante. De fato, o significante tem por contedo total,
por funo total e por determinao total somente aquilo que ele
representa: ele lhe  inteiramente ordenado e transparente; mas esse
contedo s  indicado numa representao que se d como tal, e o
significado se aloja sem resduo e sem opacidade no interior da
representao do signo.  caracterstico que o exemplo primeiro de um
signo que d a Lgica de Port-Royal no seja nem a palavra, nem o grito,
nem o smbolo, mas a representao espacial e grfica -- o desenho: mapa
ou quadro.  que, com efeito, o quadro s tem por contedo o que ele
representa e, no entanto, esse contedo s aparece representado por uma
representao. A disposio binria do signo, tal como aparece no sculo
XVII, substitui-se a uma organizao que, de modos diferentes, era
sempre ternria desde os esticos e mesmo desde os primeiros gramticos
gregos; ora, essa disposio supe que o signo  uma representao
duplicada e reduplicada sobre si mesma. Uma idia pode ser signo de
outra no somente porque entre elas pode estabelecer-se um liame de
representao, mas porque essa representao pode sempre se representar
no interior da idia que 17      Ibid. representa. Ou ainda porque, em
sua essncia prpria, a representao  sempre perpendicular a si mesma:
, ao mesmo tempo, indicao e aparecer, relao a um objeto e
manifestao de si. A partir da idade clssica, o signo  a
representatividade da representao enquanto ela  representvel.
Isso tem conseqncias de grande peso. Primeiramente, a importncia dos
signos no pensamento clssico. Eles eram outrora meios de conhecer e
chaves para um saber; so agora [pg. 89] co-extensivos  representao,
isto , ao pensamento inteiro, alojam-se nele, percorrendo-o, porm, em
toda a sua extenso: desde que uma representao esteja ligada a outra e
represente em si mesma essa ligao, h signo; a idia abstrata
significa a percepo concreta donde ela foi formada (Condillac); a
idia geral  to-somente uma idia singular servindo de signos s
outras (Berkeley); as imaginaes so signos das percepes donde elas
vieram (Hume, Condillac); as sensaes so signos umas das outras
(Berkeley, Condillac) e  possvel finalmente que as prprias sensaes
(como em Berkeley) sejam os signos do que Deus nos quer dizer, o que
delas faria como que os signos de um conjunto de signos. A anlise da
representao e a teoria dos signos se interpenetram de modo absoluto: e
no dia em que a Ideologia, no fim do sculo XVIII, se interrogar sobre o
primado que  preciso dar  idia ou ao signo, no dia em que Destutt
reprovar Gerando por ter elaborado uma teoria dos signos antes de ter
definido a idia18,  que sua imediata interdependncia j comear a
anuviar-se e que a idia e o signo cessaro de ser perfeitamente
transparentes um ao outro.          Segunda conseqncia: essa extenso
universal do signo no campo da representao exclui at a possibilidade
de uma teoria da significao. Com efeito, interrogar-se sobre o que  a
significao supe que esta seja uma figura determinada na conscincia.
Mas, se os fenmenos nunca so dados seno numa representao que, em si
mesma e por sua representatividade prpria,  inteiramente signo, a
significao no pode constituir problema. Mais ainda, ela nem sequer
aparece. Todas as representaes so ligadas entre si como signos; em
conjunto, formam como que uma imensa rede; cada uma na [pg. 90] sua
transparncia se d como o signo daquilo que ela representa; e todavia
-- ou, antes, por isso mesmo -- nenhuma atividade especfica da
conscincia pode jamais constituir uma 18      Destutt de Tracy.
lments d'idologie. Paris, ano XI, t. II, p. 1. significao. , sem
dvida, porque o pensamento clssico da representao exclui a anlise
da significao que ns, que s pensamos os signos a partir desta, temos
tanta dificuldade, a despeito da evidncia, em reconhecer que a
filosofia clssica, de Malebranche  Ideologia, foi inteiramente uma
filosofia do signo.      No h sentido exterior ou anterior ao signo;
nenhuma presena implcita de um discurso prvio que seria necessrio
restituir para trazer  luz o sentido autctone das coisas. Mas tambm
no h ato constituinte da significao nem gnese interior 
conscincia.  que entre o signo e seu contedo no h nenhum elemento
intermedirio e nenhuma opacidade. Os signos no tm, pois, outras leis,
seno aquelas que podem reger seu contedo: toda anlise de signos , ao
mesmo tempo e de pleno direito, decifrao do que eles querem dizer.
Inversamente, a elucidao do significado nada mais ser que a reflexo
sobre os signos que o indicam. Como no sculo XVI, "semiologia" e
"hermenutica" se sobrepem. Mas de uma forma diferente. Na idade
clssica, elas no se renem mais no terceiro elemento da semelhana;
ligam-se neste poder prprio da representao de representar-se a si
mesma. No haver, pois, uma teoria dos signos diferente de uma anlise
do sentido. Entretanto, o sistema concede certo privilgio  primeira
sobre a segunda; como ela no d ao que  significado uma natureza
diferente da que concede ao signo, o sentido no poder ser mais que a
totalidade dos signos desenvolvida em seu encadeamento; ele se dar no
quadro completo dos signos. Mas, por outro lado, a rede completa dos
signos se liga e se articula de acordo com os cortes [pg. 91] prprios
ao sentido. O quadro dos signos ser a imagem das coisas. Se o ser do
sentido est inteiramente do lado do signo, o funcionamento est
inteiramente do lado do significado.  por isso que a anlise da
linguagem, de Lancelot a Destutt de Tracy, faz-se a partir de uma teoria
abstrata dos signos verbais e na forma de uma gramtica geral: mas ela
toma sempre por fio condutor o sentido das palavras;  por isso tambm
que a histria natural se apresenta como anlise dos caracteres dos
seres vivos, mas que, mesmo artificiais, as taxinomias tm sempre o
projeto de se ajustar  ordem natural ou de dissociar-se dela o menos
possvel;  por isso que a anlise das riquezas faz-se a partir da moeda
e da troca, mas que o valor  sempre fundado na necessidade. Na idade
clssica, a cincia pura dos signos vale como o discurso imediato do
significado.       Enfim, ltima conseqncia que se estende, sem
dvida, at ns: a teoria binria do signo, a que funda, desde o sculo
XVII, toda a cincia geral do signo, est ligada, segundo uma relao
fundamental, a uma teoria geral da representao. Se o signo  a pura e
simples ligao de um significante com um significado (ligao que 
arbitrria ou no, voluntria ou imposta, individual ou coletiva), de
todo modo a relao s pode ser estabelecida no elemento geral da
representao: o significante e o significado s so ligados na medida
em que um e outro so (ou foram ou podem ser) representados e em que um
representa atualmente o outro. Era, pois, necessrio que a teoria
clssica do signo desse a si prpria, como fundamento e justificao
filosfica, uma "ideologia", isto , uma anlise geral de todas as
formas da representao, desde a sensao elementar at a idia abstrata
e complexa. Era igualmente necessrio que, reencontrando o projeto de
uma semiologia geral, Saussure desse ao signo uma definio que pde
parecer [pg. 92] "psicologista" (ligao de um conceito com uma
imagem):  que, de fato, ele redescobria a a condio clssica para
pensar a natureza binria do signo.                        V. A
imaginao da semelhana       Eis, pois, os signos, libertos de todo
esse fervilhar do mundo onde o Renascimento os havia outrora repartido.
Esto doravante alojados no interior da representao, no interstcio da
idia, nesse tnue espao onde ela joga consigo mes- ma, decompondo-se e
recompondo-se. Quanto  similitude, s lhe resta agora sair do domnio
do conhecimento.  o emprico sob sua mais rude forma; j no podemos
"olh-la como fazendo parte da filosofia"19, a menos que seja
desvanecida na sua inexatido de semelhana e transformada pelo saber
numa relao de igualdade ou de ordem. E todavia, para o conhecimento, a
similitude  uma indispensvel moldura. Pois uma igualdade ou uma
relao de ordem no pode ser estabelecida entre duas coisas, seno
quando sua semelhana tenha sido ao menos a ocasio de compar-las: Hume
colocava a relao de identidade entre aquelas, "filosficas", que
supem a reflexo; j a semelhana pertencia, para ele, s relaes
naturais, 19   Hobbes. Logique. Trad. francesa de Destutt de Tracy.
lments d'idologie. Paris, 1805, t. III, p. 599. quelas que
constrangem nosso esprito segundo uma "fora calma" mas inevitvel20.
"Que o filsofo se arrogue a preciso quando queira... ouso contudo
desafi-lo a dar um s passo em sua carreira sem a ajuda da semelhana.
Que se lance um olhar sobre a face metafsica das [pg. 93] cincias,
mesmo as menos abstratas; e que me digam se as indues gerais que se
tiram dos fatos particulares, ou, antes, se os prprios gneros, as
espcies e todas as noes abstratas podem formar-se de outro modo seno
por meio da semelhana."21 Na orla exterior do saber, a similitude 
essa forma somente esboada, esse rudimento de relao que o
conhecimento deve recobrir em toda a sua extenso, mas que,
indefinidamente, permanece por sob ele,  maneira de uma necessidade
muda e indelvel.          Como no sculo XVI, semelhana e signo se
interpelam fatalmente. Mas de um modo novo. Em vez de precisar de uma
marca para que seja desvendado seu segredo, a similitude  agora o fundo
indiferenciado, movedio, instvel, sobre o qual o conhecimento pode
estabelecer suas relaes, suas medidas e suas identidades. Dupla
reviravolta por conseguinte: porque  o signo e, com ele, todo o
conhecimento discursivo que exigem um fundo de similitude, e porque no
se trata mais de manifestar um contedo prvio ao conhecimento, mas de
dar um contedo que possa oferecer um lugar de aplicao s formas do
conhecimento. Enquanto no sculo XVI a semelhana era a relao
fundamental do ser consigo mesmo e a dobradura do mundo, na idade
clssica ela  a mais simples forma sob a qual aparece o que se deve
conhecer e que est mais afastado do prprio conhecimento.  por ela que
a representao pode ser conhecida, isto , comparada com as que podem
ser similares, analisada em elementos (em elementos que lhe so comuns
com outras representaes), combinada com as que podem apresentar
identidades parciais e distribudas finalmente num quadro ordenado. A
similitude na filosofia clssica (isto , numa filosofia da anlise)
[pg. 94] desempenha um papel simtrico ao que a diversidade assegurar
no pensamento crtico e nas filosofias do juzo.          Nessa posio
de limite e de condio (aquilo sem o que e aqum do que no se pode
conhecer), a semelhana se situa do lado da imaginao ou, mais
exatamente, ela s aparece em virtude da imaginao, e a imaginao, em
troca, s 20      Hume. Essai sur la nature humaine. Trad. francesa de
Leroy. Paris, 1946, t. I, pp. 75-80. 21      Merian. Rflexions
philosophiques sur la ressemblance, 1767, pp. 3-4. se exerce apoiando-se
nela. Com efeito, se se supem, na cadeia ininterrupta da representao,
impresses por mais simples que sejam, e se no houvesse entre elas o
menor grau de semelhana, no haveria nenhuma possibilidade para que a
segunda lembrasse a primeira, a fizesse reaparecer e autorizasse assim
sua reapresentao no imaginrio; as impresses se sucederiam na mais
total diferena: to total que no poderia sequer ser percebida, visto
que uma representao jamais teria ensejo de se estabelecer num lugar,
de ressuscitar outra mais antiga e de se justapor a ela para dar lugar a
uma comparao; a tnue identidade necessria a toda diferenciao
sequer seria dada. A mudana perptua se desenrolaria sem referncia na
perptua monotonia. Mas, se no houvesse na representao o obscuro
poder de tornar novamente presente uma impresso passada, nenhuma jamais
apareceria como semelhante a uma precedente ou dessemelhante dela. Esse
poder de lembrar implica ao menos a possibilidade de fazer aparecer como
quase semelhantes (como vizinhas e contemporneas, como existindo quase
da mesma forma) duas impresses, das quais uma porm est presente
enquanto a outra, desde muito talvez, deixou de existir. Sem imaginao
no haveria semelhana entre as coisas.      V-se o duplo requisito. 
preciso que haja, nas coisas representadas, o murmrio insistente da
semelhana;  preciso que haja, na representao, o recndito sempre
possvel da imaginao. E nem um nem outro desses requisitos pode [pg.
95] dispensar aquele que o completa e lhe faz face. Da duas direes de
anlise que se mantiveram ao longo de toda a idade clssica e no
deixaram de se aproximar, para finalmente enunciarem, na ltima metade
do sculo XVIII, sua verdade comum na Ideologia. De um lado, encontra-se
a anlise que explica a reverso da srie de representaes num quadro
inatual mas simultneo de comparaes: anlise da impresso, da
reminiscncia, da imaginao, da memria, de todo esse fundo
involuntrio que  como que a mecnica da imagem no tempo. De outro, h
a anlise que explica a semelhana das coisas -- sua semelhana antes de
sua ordenao, sua decomposio em elementos idnticos e diferentes, a
repar- tio em quadro de suas similitudes desordenadas: por que, pois,
as coisas se oferecem numa imbricao, numa mistura, num
entrecruzamento, em que sua ordem essencial est confusa, mas bastante
visvel ainda para que transparea sob forma de semelhanas, de
similitudes vagas, de ocasies alusivas para uma memria alerta? A
primeira srie de problemas corresponde grosso modo  analtica da
imaginao, como poder positivo de transformar o tempo linear da
representao em espao simultneo de elementos virtuais; a segunda
corresponde grosso modo  anlise da natureza, com as lacunas, as
desordens, que confundem o quadro dos seres e o dispersam numa seqncia
de representaes que, vagamente e de longe, se assemelham.      Ora,
esses dois momentos opostos (um, negativo, da desordem da natureza nas
impresses, outro, positivo, do poder de reconstituir a ordem a partir
dessas impresses) encontram sua unidade na idia de uma "gnese". E
isso de duas maneiras possveis. Ou o momento negativo (o da desordem,
da vaga semelhana)  atribudo  prpria imaginao que exerce ento,
por si s, uma dupla funo: se ela pode, apenas [pg. 96] pela
duplicao da representao, restituir a ordem,  na medida justamente
em que ela impediria de perceber diretamente, e na sua verdade
analtica, as identidades e as diferenas das coisas. O poder da
imaginao  to- somente o reverso ou a outra face de sua falha. Ela
est, no homem, na juntura da alma com o corpo. Com efeito,  a que
Descartes, Malebranche, Spinoza a analisaram, ao mesmo tempo como lugar
do erro e poder de aceder  verdade mesmo matemtica; nela reconheceram
o estigma da finitude, quer como signo de uma queda fora da extenso
inteligvel, quer como marca de uma natureza limitada. O momento
positivo da imaginao, ao contrrio, pode ser atribudo  semelhana
turva, ao murmrio vago das similitudes.  a desordem da natureza devida
 sua prpria histria, a suas catstrofes, ou talvez simplesmente  sua
pluralidade imbricada, que no  mais capaz de oferecer  representao
seno coisas que se assemelham. De tal sorte que a representao, sempre
acorrentada a contedos muito prximos uns dos outros, se repete, se
recorda, dobra-se naturalmente sobre si, faz renascer impresses quase
idnticas e engendra a imaginao.  nesse burburinho de uma natureza
mltipla mas obscuramente e sem razo recomeada, no fato enigmtico de
uma natureza que, antes de toda ordem, se assemelha a si mesma, que
Condillac e Hume buscaram o liame entre a semelhana e a imaginao.
Solues estritamente opostas, mas que respondem ao mesmo problema.
Compreende-se, em todo o caso, que o segundo tipo de anlise tenha sido
facilmente desenvolvido na forma mtica do primeiro homem (Rousseau) ou
da conscincia que desperta (Condillac) ou do espectador estranho jogado
no mundo (Hume): essa gnese funcionava exatamente em lugar da prpria
Gnese.      Ainda uma observao. Se as noes de natureza e de
natureza humana tiveram na idade clssica uma certa importncia, [pg.
97] no  porque bruscamente se descobriu, como campo de pesquisas
empricas, essa potncia surda, inesgotavelmente rica, a que se chama a
natureza; no  tambm porque se isolou, no interior dessa vasta
natureza, uma pequena regio singular e complexa que seria a natureza
humana. De fato, esses dois conceitos funcionam para assegurar a
interdependncia, o liame recproco da imaginao e da semelhana.
Decerto que a imaginao no , em aparncia, seno uma das propriedades
da natureza humana, e a semelhana um dos efeitos da natureza. Mas,
seguindo a rede arqueolgica, que confere suas leis ao pensamento
clssico, v-se bem que a natureza humana se aloja nesse tnue
extravasamento da representao que lhe permite se reapresentar (toda a
natureza humana est a: apenas estreitada ao exterior da representao
para que se apresente de novo, no espao branco que separa a presena da
representao e o "re" de sua repetio); e que a natureza no  mais do
que o inapreensvel tumulto da representao que faz com que a
semelhana seja a sensvel antes que a ordem das identidades seja
visvel. Natureza e natureza humana permitem, na configurao geral da
epistm, o ajustamento da semelhana e da imaginao, que funda e torna
possveis todas as cincias empricas da ordem.      No sculo XVI, a
semelhana estava ligada a um sistema de signos; e era sua interpretao
que abria o campo dos conhecimentos concretos. A partir do sculo XVII,
a semelhana  repelida para os confins do saber, do lado de suas mais
baixas e mais humildes fronteiras. L, ela se liga  imaginao, s
repeties incertas, s analogias nebulosas. E, em vez de desembocar
numa cincia da interpretao, impli- ca uma gnese que ascende dessas
formas rudes do Mesmo aos grandes quadros do saber desenvolvidos segundo
as formas da identidade, da diferena e da ordem. O projeto de uma [pg.
98] cincia da ordem, tal como foi fundado no sculo XVII, implicava que
fosse ele duplicado por uma gnese do conhecimento, como o foi
efetivamente, e sem interrupo, de Locke  Ideologia.
VI. "Mthsis" e "taxinomia"      Projeto de uma cincia geral da ordem;
teoria dos signos analisando a representao; disposio em quadros
ordenados das identidades e das diferenas: assim se constituiu na idade
clssica um espao de empiricidade que no existira at o fim do
Renascimento e que estava condenado a desaparecer desde o incio do
sculo XIX. Ele  para ns, hoje, to difcil de restituir e to
profundamente recoberto pelo sistema de positividades a que pertence
nosso saber que, durante muito tempo, passou despercebido. Deformamo-lo,
e mascaramo-lo atravs de categorias ou de uma distribuio que so
nossas. Pretende-se reconstituir, ao que parece, o que foram nos sculos
XVII e XVIII as "cincias da vida", da "natureza" ou do "homem".
Esquece-se simplesmente que nem o homem, nem a vida, nem a natureza so
domnios que se oferecem espontnea e passivamente  curiosidade do
saber.      O que torna possvel o conjunto da epistm clssica ,
primeiramente, a relao a um conhecimento da ordem. Quando se trata de
ordenar as naturezas simples, recorre-se a uma mthsis cujo mtodo
universal  a lgebra. Quando se trata de pr em ordem naturezas
complexas (as representaes em geral, tais como so dadas na
experincia),  necessrio constituir uma taxinomia e, para tanto,
instaurar um sistema de signos. Os signos esto para a ordem das
naturezas compostas como a lgebra est para a ordem das naturezas
simples. Mas, [pg. 99] na medida em que as representaes empricas
devem ser suscetveis de se analisar como naturezas simples, v-se que a
taxinomia se reporta inteiramente  mthsis; em contrapartida, posto
que a percepo das evidncias  apenas um caso particular da
representao em geral, pode-se dizer igualmente que a mthsis no 
mais do que um caso particular da taxinomia. Do mesmo modo, os signos
que o prprio pensamento estabelece constituem como que uma lgebra das
representaes complexas; e a lgebra, inversamente,  um mtodo para
conferir signos s naturezas simples e para operar sobre esses signos.
Tem-se, pois, a seguinte disposio:
Cincia geral da ordem      Naturezas simples
Representaes complexas      Mthsis
Taxinomia      lgebra
Signos      Mas no  tudo. A taxinomia implica, ademais, um certo
continuum das coisas (uma no-descontinuidade, uma plenitude do ser) e
uma certa potncia da imaginao, que faz aparecer o que no , mas
permite, por isso mesmo, trazer  luz o contnuo. A possibilidade de uma
cincia das ordens empricas requer, pois, uma anlise do conhecimento
-- anlise que dever mostrar de que modo a continuidade escondida (e
como que confusa) do ser pode reconstituir-se atravs do liame temporal
de representaes descontnuas. Da a necessidade, sempre manifestada ao
longo da idade clssica, de interrogar a origem dos conhecimentos. De
fato, essas anlises empricas no se opem ao projeto de uma mthsis
universal, como um ceticismo a um racionalismo; elas eram envolvidas nos
requisitos de um saber que no se d mais como [pg. 100] experincia do
Mesmo, mas como estabelecimento da Ordem. Nas duas extremidades da
epistm clssica, tem-se, portanto, uma mthsis como cincia da ordem
calculvel e uma gnese como anlise da constituio das ordens a partir
de seqncias empricas. De um lado, utilizam-se os smbolos das
operaes possveis sobre identidades e diferenas; de outro, analisam-
se as marcas progressivamente depositadas pela semelhana das coisas e
as recorrncias da imaginao. Entre a mthsis e a gnese estende-se a
regio dos signos -- signos que atravessam todo o domnio da
representao emprica, mas que jamais a transbordam. Margeado pelo
clculo e pela gnese, est o espao do quadro. Nesse saber, trata-se de
afetar com um signo tudo o que pode nos oferecer nossa representao:
percepes, pensamentos, desejos; esses signos devem valer como
caracteres, isto , articular o conjunto da representao em plagas
distintas, separadas umas das outras por traos assinalveis; autorizam,
assim, o estabelecimento de um sistema simultneo, segundo o qual as
representaes enunciam sua proximidade e seu afastamento, sua
vizinhana e suas distncias -- portanto, a rede que, fora da
cronologia, manifesta seu parentesco e restitui num espao permanente
suas relaes de ordem. Por essa forma pode-se delinear o quadro das
identidades e das diferenas.       nessa regio que se encontra a
histria natural -- cincia dos caracteres que articulam a continuidade
da natureza e sua imbricao. Nessa regio tambm se encontra a teoria
da moeda e do valor -- cincia dos signos que autorizam a troca e
permitem estabelecer equivalncias entre as necessidades ou os desejos
dos homens. A, enfim, se aloja a Gramtica geral, cincia dos signos
pelos quais os homens rea- grupam a singularidade de suas percepes e
recortam o movimento contnuo de seus pensamentos. Apesar das suas
diferenas, [pg. 101] esses trs domnios s existiram na idade
clssica, na medida em que o espao fundamental do quadro se instaurou
entre o clculo das igualdades e a gnese das representaes.      V-se
que estas trs noes -- mthsis, taxinomia, gnese -- designam menos
domnios separados que uma rede slida de interdependncias que define a
configurao geral do saber na poca clssica. A taxinomia no se ope 
mthsis: aloja-se nela e dela se distingue; pois ela tambm  uma
cincia da ordem -- uma mthsis qualitativa. Entendida, porm, no
sentido estrito, a mthsis  cincia das igualdades, portanto, das
atribuies e dos juzos;  a cincia da verdade; j a taxinomia trata
das identidades e das diferenas;  a cincia das articulaes e das
classes;  o saber dos seres. Da mesma forma, a gnese se aloja no
interior da taxinomia, ou ao menos encontra nela sua possibilidade
primeira. Mas a taxinomia estabelece o quadro das diferenas visveis; a
gnese supe uma srie sucessiva; uma trata os signos na sua
simultaneidade espacial, como uma sintaxe; a outra os reparte num
anlogon do tempo, como uma cronologia. Em relao  mthsis, a
taxinomia funciona como uma ontologia em face de uma apofntica; em face
da gnese, funciona como uma semiologia em face de uma histria. Ela
define, pois, a lei geral dos seres e, ao mesmo tempo, as condies sob
as quais  possvel conhec- los. Da o fato de que a teoria dos signos
na poca clssica tenha podido sustentar ao mesmo tempo uma cincia de
feio dogmtica que se apresentava como o conhecimento da prpria
natureza, e uma filosofia da representao que, no decurso do tempo, se
tornou cada vez mais nominalista e cada vez mais ctica. Da tambm o
fato de que semelhante disposio tenha desaparecido a ponto de as eras
posteriores perderem at a memria de sua existncia:  que, aps a
crtica kantiana e tudo [pg. 102] o que se passou na cultura ocidental
do fim do sculo XVIII, uma diviso de um novo tipo se instaurou: de um
lado, a mthsis se reagrupou, constituindo uma apofntica e uma
ontologia;  ela que at nossos dias reinou sobre as disciplinas
formais; de outro lado, a histria e a semiologia (esta absorvida, de
resto, por aquela) se reuniram nessas disciplinas da interpretao que
estenderam seu poder de Schleiermacher a Nietzsche e a Freud.      Em
todo o caso, a epistm clssica pode se definir, na sua mais geral
disposio, pelo sistema articulado de uma mthsis, de uma taxinomia e
de uma anlise gentica. As cincias trazem sempre consigo o projeto
mesmo longnquo de uma exaustiva colocao em ordem: apontam sempre para
a descoberta de elementos simples e de sua composio progressiva; e, no
meio deles, elas formam quadro, exposio de conhecimentos, num sistema
contemporneo de si prprio. O centro do saber, nos sculos XVII e
XVIII,  o quadro. Quanto aos grandes debates que ocuparam a opinio,
alojam-se muito naturalmente nas dobras dessa organizao.      Pode-se
perfeitamente escrever uma histria do pensamento na poca clssica,
tomando esses debates como pontos de partida ou como temas. Mas no se
far ento mais que a histria das opinies, isto , das escolhas
operadas segundo os indivduos, os meios, os grupos sociais; e  todo um
mtodo de inquirio que est implicado. Se se quiser empreender uma
anlise arqueolgica do prprio saber, ento no so esses debates
clebres que devem servir de fio condutor e articular o propsito. 
preciso reconstituir o sistema geral de pensamento, cuja rede, em sua
positividade, torna possvel um jogo de opinies simultneas e
aparentemente contraditrias.  essa rede que define as condies de
possibilidade de um debate ou de um problema,  ela a portadora da
historicidade do saber. Se o mundo ocidental debateu-se [pg. 103] para
saber se a vida era apenas movimento ou se a natureza era bastante
ordenada para provar Deus, no  porque um problema fora aberto; 
porque, aps ter dispersado o crculo indefinido dos signos e das
semelhanas, e antes de organizar as sries da causalidade e da
histria, a epistm da cultura ocidental abriu um espao em quadro que
ela no cessou de percorrer desde as formas calculveis da ordem at a
anlise das mais complexas representaes. E desse percurso, percebe-se
o sulco na superfcie histrica dos temas, dos debates, dos problemas e
das preferncias de opinio. Os conhecimentos atravessaram de ponta a
ponta um "espao de saber" que havia sido disposto de uma s vez, no
sculo XVII, e que s devia ser encerrado 150 anos mais tarde.
Desse espao em quadro, cumpre empreender agora a anlise, l onde ele
aparece sob sua mais clara forma, isto , na teoria da linguagem, da
classificao e da moeda.      Objetar-se- talvez que o simples fato de
querer analisar, ao mesmo tempo e num s movimento, a gramtica geral, a
histria natural e a economia, reportando-as a uma teoria geral dos
signos e da representao, supe uma questo que s pode vir de nosso
sculo. Sem dvida, a idade clssica, no mais que qualquer outra
cultura, pde circunscrever ou nomear o sistema geral de seu saber. Mas
esse sistema foi suficientemente constringente para que as formas
visveis dos conhecimentos nele esboassem por si prprias os seus
parentescos, como se os mtodos, os conceitos, os tipos de anlise, as
experincias adquiridas, os espritos e finalmente os prprios homens se
tivessem deslocado ao sabor de uma rede fundamental que definia a
unidade implcita mas inevitvel do saber. Desses deslocamentos, a
histria mostrou mil exemplos. Trajeto tantas vezes percorrido entre a
teoria do conhecimento, a dos signos e a da gramtica: Port-Royal deu
sua Gramtica em complemento e como que em seqncia [pg. 104] natural
da sua Lgica,  qual se liga por uma comum anlise dos signos;
Condillac, Destutt de Tracy, Gerando articularam, uma com outra, a
decomposio do conhecimento em suas condies ou "elementos" e a
reflexo sobre esses signos de que a linguagem s constitui a aplicao
e o uso mais visveis. Trajeto tambm entre a anlise da representao e
dos signos e a da riqueza; Quesnay, o fisiocrata, escreveu um artigo
"Evidncia" para a Enciclopdia; Condillac e Destutt colocaram na linha
de sua teoria do conhecimento e da linguagem a do comrcio e da economia
que tinha para eles valor de poltica e tambm de moral; sabe-se que
Turgot escreveu o artigo "Etimologia" da Enciclopdia e o primeiro
paralelo sistemtico entre a moeda e as palavras; que Adam Smith
escreveu, alm de sua grande obra econmica, um ensaio sobre a origem
das lnguas. Trajeto entre a teoria das classificaes naturais e as da
linguagem: Adanson no pretendeu somente criar uma nomenclatura ao mesmo
tempo artificial e coerente no domnio da botnica; tinha em vista (e
aplicou-a em parte) toda uma reorganizao da escrita em funo dos
dados fonticos da linguagem; Rousseau deixou, entre suas obras
pstumas, elementos de botnica e um tratado sobre a origem das lnguas.
Assim se delineava, como em pontilhado, a grande rede do saber emprico:
a das ordens no-quantitativas. E talvez a unidade recuada, mas
insistente de uma Taxinomia universalis aparea com toda a clareza em
Lineu, quando ele projeta encontrar, em todos os domnios concretos da
natureza ou da sociedade, as mesmas distribuies e a mesma ordem22. O
limite do saber seria a transparncia perfeita das representaes nos
signos que as ordenam. [pg. 105] 22      Lineu. Philosophie botanique,
 155 e 256. CAPTULO IV FALAR                            I. Crtica e
comentrio      A existncia da linguagem na idade clssica  a um tempo
soberana e discreta.      Soberana, pois que as palavras receberam a
tarefa e o poder de "representar o pensamento". Mas representar no quer
dizer aqui traduzir, dar uma verso visvel, fabricar um duplo material
que possa, na vertente externa do corpo, reproduzir o pensamento em sua
exatido. Representar deve-se entender no sentido estrito: a linguagem
representa o pensamento como o pensamento se representa a si mesmo. No
h, para constituir a linguagem ou para anim-la por dentro, um ato
essencial e primitivo de significao, mas to-somente, no corao da
representao, este poder que ela detm de se representar a si mesma,
isto , de se analisar em se justapondo, parte por parte, sob o olhar da
reflexo e de se delegar, ela prpria, num substituto que a prolongue.
Na idade clssica, nada  dado que no seja dado  representao; mas,
por isso mesmo, nenhum signo surge, nenhuma fala se enuncia, [pg. 107]
nenhuma palavra ou nenhuma proposio jamais visa a algum contedo seno
pelo jogo de uma representao que se pe  distncia de si, se desdobra
e se reflete numa outra representao que lhe  equivalente. As
representaes no se enrazam num mundo do qual tomariam emprestado seu
sentido; abrem-se por si mesmas para um espao que lhes  prprio e cuja
nervura interna d lugar ao sentido. E a linguagem est a, nessa
distncia que a representao estabelece consigo mesma. As palavras no
formam, pois, a tnue pelcula que duplica o pensamento do lado de sua
fachada; elas o lembram, o indicam, mas primeiramente em direo ao
interior, em meio a todas estas representaes que representam outras.
Muito mais do que se cr, a linguagem clssica est prxima do
pensamento que ela  encarregada de manifestar; no lhe , porm,
paralela; est presa na sua rede e tecida na trama mesma que ele
desenvolve. No  efeito exterior do pensamento, mas o prprio
pensamento.      E, desse modo, ela se faz invisvel ou quase.
Tornou-se, em todo o caso, to transparente  representao que seu ser
cessa de constituir problema. O Renascimento detinha-se diante do fato
bruto de que havia linguagem: na espessura do mundo, um grafismo
misturado s coisas ou correndo por sob elas; siglas depositadas nos
manuscritos ou nas folhas dos livros. E todas essas marcas insistentes
demandavam uma linguagem segunda -- a do comentrio, da exegese, da
erudio -- para fazer falar e tornar enfim mvel a linguagem que nelas
dormitava; o ser da linguagem precedia, como que com muda obstinao, o
que nela se podia ler e as palavras com as quais se fazia com que ele
ressoasse. A partir do sculo XVII,  essa existncia macia e
intrigante da linguagem que se acha elidida. No aparece mais encoberta
no enigma da marca: no aparece ainda desenvolvida na teoria [pg. 108]
da significao. Em ltima anlise, poder-se-ia dizer que a linguagem
clssica no existe. Mas que funciona: toda a sua existncia assume
lugar no seu papel representativo, a ele se limita com exatido e acaba
por nele esgotar-se. A linguagem no tem mais outro lugar seno a
representao, nem outro valor seno em si mesma: nesse vo que ela tem
poder de compor.      Com isso, a linguagem clssica descobre certa
relao consigo mesma que at ento no fora nem possvel nem mesmo
concebvel. Em relao a si mesma, a linguagem do sculo XVI estava numa
postura de perptuo comentrio: ora, este s pode exercer-se se houver
linguagem -- linguagem que preexista silenciosamente ao discurso pelo
qual se tenta faz-la falar; para comentar,  preciso a antecedncia
absoluta do texto; e inversamente, se o mundo  um entrelaamento de
marcas e de palavras, como falar dele seno sob a forma do comentrio? A
partir da idade clssica, a linguagem se desenvolve no interior da
representao e nesse desdobramento de si mesma que a escava. Doravante,
o Texto primeiro se apaga e, com ele, todo o fundo inesgotvel de
palavras cujo ser mudo estava inscrito nas coisas; s permanece a
representao, desenrolando-se nos signos verbais que a manifestam e
tornando-se assim discurso. O enigma de uma palavra que uma segunda
linguagem deve interpretar foi substitudo pela discursividade essencial
da representao: possibilidade aberta, ainda neutra e indiferente, mas
que o discurso ter por tarefa concluir e fixar. Ora, quando esse
discurso se torna, por sua vez, objeto de linguagem, no  interrogado
como se dissesse alguma coisa sem o dizer, como se fosse uma linguagem
retida em si mesma e uma palavra fechada; no se busca mais desvelar o
grande propsito enigmtico que est oculto sob seus signos;
pergunta-se-lhe [pg. 109] como ele funciona: que representaes ele
designa, que elementos recorta e recolhe, como analisa e compe, que
jogo de substituies lhe permite assegurar seu papel de representao.
O comentrio cedeu lugar  critica.      Essa relao nova que a
linguagem instaura para consigo mesma no  nem simples nem unilateral.
Aparentemente a crtica se ope ao comentrio como a anlise de uma
forma visvel  descoberta de um contedo oculto. Mas como essa forma 
a de uma representao, a crtica s pode analisar a linguagem em termos
de verdade, de exatido, de propriedade ou de valor expressivo. Da o
papel misto da crtica e a ambigidade de que jamais pde desfazer-se.
Ela interroga a linguagem como se esta fosse pura funo, conjunto de
mecanismos, grande jogo autnomo dos signos; mas no pode, ao mesmo
tempo, deixar de lhe apresentar a questo de sua verdade ou de sua
mentira, de sua transparncia ou de sua opacidade, portanto do modo de
presena daquilo que ela diz nas palavras pelas quais o representa.  a
partir dessa dupla necessidade fundamental que a oposio do fundo e da
forma surgiu pouco a pouco e ocupou finalmente o lugar que conhecemos.
Mas essa oposio, sem dvida, s foi consolidada tardiamente, quando,
no sculo XIX, a relao crtica, por sua vez, tornou-se frgil. Na
poca clssica, a crtica se exerce, sem dissociao e como que em
bloco, sobre o papel representativo da linguagem. Ela assume, ento,
quatro formas distintas ainda que solidrias e articuladas uma  outra.
Desenvolve-se primeiro na ordem reflexiva, como uma crtica das
palavras: impossibilidade de construir uma cincia ou uma filosofia com
o vocabulrio recebido; denncia dos termos gerais que confundem o que 
distinto na representao e dos termos abstratos que separam o que deve
permanecer solidrio; necessidade de constituir o tesouro de uma [pg.
110] lngua perfeitamente analtica. Manifesta-se tambm na ordem
gramatical como uma anlise dos valores representativos da sintaxe, da
ordem das palavras, da construo das frases: ser uma lngua mais
aperfeioada quando dispe de declinaes ou de um sistema de
preposies? Ser prefervel que a ordem das palavras seja livre ou
rigorosamente determinada? Que regime dos tempos melhor exprime as
relaes de sucesso? A crtica se d tambm seu espao no exame das
formas da retrica: anlise das figuras, isto , dos tipos de discursos
com o valor expressivo de cada um, anlise dos tropos, isto , das
diferentes relaes que as palavras podem manter com um mesmo contedo
representativo (designao pela parte ou pelo todo, pelo essencial ou
pelo acessrio, pelo evento ou pela circunstncia, pela prpria coisa ou
pelos seus anlogos). Enfim a crtica, perante a linguagem existente e
j escrita, se d por tarefa definir a relao que ela mantm com o que
representa:  dessa maneira que a exege- se dos textos religiosos
incumbiu-se, a partir do sculo XVII, de mtodos crticos: com efeito,
j no se tratava mais de re-dizer o que j havia sido dito neles, mas
de definir atravs de que figuras e imagens, seguindo que ordem, para
que fins expressivos e para dizer qual verdade, tal discurso fora
sustentado por Deus ou pelos Profetas sob a forma que nos foi
transmitida.      Tal , na sua diversidade, a dimenso crtica que se
instaura necessariamente, quando a linguagem se interroga a si mesma a
partir de sua funo. Desde a idade clssica, comentrio e crtica
opem-se profundamente. Falando da linguagem em termos de representaes
e de verdade, a crtica a julga e a profana. Mantendo a linguagem na
irrupo de seu ser e questionando-a em direo de seu segredo, o
comentrio se detm perante o carter ngreme do texto prvio e d-se
[pg. 111] a tarefa impossvel, sempre renovada, de repetir em si seu
nascimento: sacraliza-o. Essas duas maneiras de a linguagem fundar uma
relao consigo mesma vo entrar doravante numa rivalidade de que ainda
no samos. E que talvez se refora dia a dia.  que a literatura,
objeto privilegiado da crtica, no cessou, desde Mallarm, de se
aproximar daquilo que  a linguagem no seu ser mesmo e, com isso, ela
solicita uma linguagem segunda que no seja mais em forma de crtica mas
de comentrio. E, com efeito, todas as linguagens crticas, desde o
sculo XIX, se impregnaram de exegese, um pouco como as exegeses da
poca clssica estavam impregnadas de mtodos crticos. Contudo,
enquanto a dependncia da linguagem relativamente  representao no
for desfeita em nossa cultura ou ao menos contornada, todas as
linguagens segundas estaro presas na alternativa da crtica ou do
comentrio. E proliferaro ao infinito na sua indeciso.
II. A gramtica geral          Uma vez elidida a existncia da
linguagem, subsiste na representao apenas seu funcionamento: sua
natureza e suas virtudes de discurso. Este no  mais do que a prpria
representao, ela mesma representada por signos verbais. Mas qual ,
pois, a particularidade desses signos, e esse estranho poder que lhes
permite, melhor que todos os outros, assinalar a representao,
analis-la e recomp-la? Dentre todos os sistemas de signo qual  o
prprio da linguagem?          Ao primeiro exame,  possvel definir as
palavras por seu carter arbitrrio ou coletivo. Na sua raiz primeira, a
linguagem  feita, como diz Hobbes, de um sistema de sinais que os
indivduos escolheram, primeiramente, para si prprios: [pg. 112] por
essas marcas, podem eles recordar as representaes, lig-las,
dissoci-las e operar sobre elas. So esses sinais que uma conveno ou
uma violncia impuseram  coletividade1; mas, de toda maneira, o sentido
das palavras s pertence  representao de cada um e, conquanto seja
aceite por todos, no tem outra existncia seno no pensamento dos
indivduos tomados um a um: " das idias daquele que fala", diz Locke,
"que as palavras so signos, e ningum as pode imediatamente aplicar
como signos a outra coisa seno s idias que ele prprio tem no
esprito"2.O que distingue a linguagem de todos os outros signos e lhe
permite desempenhar na representao um papel decisivo no  tanto o
fato de ser individual ou coletiva, natural ou arbitrria. Mas, sim, o
fato de que ela analisa a representao segundo uma ordem
necessariamente sucessiva: os sons, com efeito, s podem ser articulados
um a um; a linguagem no pode representar o pensamento, de imediato, na
sua totalidade; precisa disp-lo parte por parte segundo uma ordem
linear. Ora, esta  estranha  representao. Certamente os pensamentos
se sucedem no tempo, mas cada um forma uma unidade, quer se admita com
Condillac3 que todos os 1     Hobbes. Logique, loc. cit., pp. 607-8. 2
Locke. Essai sur l'entendement humain. Trad. francesa de Coste. 2 ed.
Amsterdam, 1729, pp. 320-1. 3     Condillac. Grammaire. In: Oeuvres, t.
V, pp. 39-40. elementos de uma representao so dados num instante e
que somente a reflexo pode desenrol-los um a um, quer se admita com
Destutt de Tracy que eles se sucedem com uma rapidez to grande que no
 praticamente possvel observ-la nem reter sua ordem4. So essas
representaes, assim cerradas em si mesmas, que  preciso desenrolar
nas proposies: para meu olhar, "o fulgor [pg. 113] est no interior
da rosa"; no meu discurso, no posso evitar que a preceda ou suceda5. Se
o esprito tivesse poder de pronunciar as idias "como as percebe", no
h nenhuma dvida de que "as pronunciaria todas ao mesmo tempo"6. Mas 
isso justamente que no  possvel, pois, se "o pensamento  uma
operao simples", "sua enunciao  uma operao sucessiva"7. A reside
o que  prprio da linguagem, o que a distingue, a um tempo, da
representao (de que, no entanto e por sua vez, ela no  seno a
representao) e dos signos (aos quais pertence sem outro privilgio
singular). Ela no se ope ao pensamento como o exterior ao interior, ou
a expresso  reflexo; no se ope aos outros signos -- gestos,
pantomimas, verses, pinturas, emblemas8 -- como o arbitrrio ou o
coletivo ao natural e ao singular. Ope-se, porm, a tudo isso, como o
sucessivo ao contemporneo. Ela est para o pensamento e para os signos
como a lgebra para a geometria: substitui a comparao simultnea das
partes (ou das grandezas) por uma ordem cujos graus se devem percorrer
uns aps outros.  nesse sentido estrito que a linguagem  anlise do
pensamento: no simples repartio, mas instaurao profunda da ordem no
espao.           a que se situa esse domnio epistemolgico novo que
a idade clssica chamou de "gramtica geral". Seria contra-senso ver
nela somente a pura e simples aplicao de uma lgica  teoria da
linguagem. Contra-senso igualmente, porm, querer decifr-la como a
prefigurao de uma lingstica. A [pg. 114] Gramtica Geral  o estudo
da ordem verbal na sua relao com a simultaneidade que ela 
encarregada de representar. Por objeto prprio, ela no tem, pois, nem o
pensamento nem a lngua: mas o discurso entendido como seqncia de
signos 4     Destutt de Tracy. lments d'idologie. Paris, ano IX, t.
I. 5     U. Domergue. Grammaire gnrale analytique. Paris, ano VII, t.
I, pp. 10-1. 6     Condillac. Grammaire. In: Oeuvres, t. V, p. 336. 7
Abade Sicard. lments de grammaire gnrale, 3 ed., Paris, 1808, t.
II, p. 113. 8     Cf. Destutt de Tracy. lments d'idologie, t. I, pp.
261-6. verbais. Essa seqncia  artificial em relao  simultaneidade
das representaes e, nessa medida, a linguagem se ope ao pensamento
como o refletido ao imediato. E, contudo, essa seqncia no  a mesma
em todas as lnguas: algumas colocam a ao no meio da frase; outras, no
final; algumas nomeiam primeiro o objeto principal da representao,
outras, as circunstncias acessrias; como observa a Enciclopdia, o que
torna as lnguas estrangeiras opacas umas s outras e to difceis de
traduzir, mais que a diferena de palavras,  a incompatibilidade de sua
sucesso9. Em relao  ordem evidente, necessria, universal, que a
cincia e particularmente a lgebra introduzem na representao, a
linguagem  espontnea e irrefletida;  como que natural. Conforme o
ponto de vista com que a consideramos, ela  tanto uma representao j
analisada, quanto uma reflexo em estado selvagem. Na verdade,  o liame
concreto entre a representao e a reflexo. No  tanto o instrumento
de comunicao dos homens entre si, como o caminho pelo qual,
necessariamente, a representao comunica com a reflexo. Eis por que a
Gramtica geral assumiu tanta importncia para a filosofia no decurso do
sculo XVIII: ela era, num s movimento, a forma espontnea da cincia,
como uma lgica incontrolada do esprito10 e a primeira decomposio
refletida do pensamento: uma das mais primitivas rupturas com o
imediato. Constitua como que uma filosofia inerente ao esprito --
"qual a [pg. 115] metafsica", diz Adam Smith, "no foi indispensvel
para formar o menor dos adjetivos"11 -- e aquilo que toda filosofia
devia retomar para reencontrar, atravs de tantas escolhas diversas, a
ordem necessria e evidente da representao. Forma inicial de toda
reflexo, tema primeiro de toda crtica: assim  a linguagem.  essa
coisa ambgua, to vasta quanto o conhecimento, mas sempre interior 
representao, que a Gramtica geral toma por objeto.          Mas 
preciso, desde logo, tirar um certo nmero de conseqncias.          1.
A primeira  que se v bem como se distribuem na poca clssica as
cincias da linguagem: de um lado, a Retrica, que trata das figuras e
dos tropos, isto , da maneira como a linguagem se espacializa nos
signos verbais; de outro, a Gramtica, que trata da articulao e da
ordem, isto , da maneira como a anlise da 9     Artigo "Langue". In:
Encyclopdie. 10      Condillac. Grammaire. In: Oeuvres, t. V, pp. 4-5 e
67-73. 11      Adam Smith. Considrations sur l'origine et la formation
des langues. Trad. francesa, 1860, p. representao se dispe segundo
uma srie sucessiva. A Retrica define a espacialidade da representao,
tal como ela nasce com a linguagem; a Gramtica define para cada lngua
a ordem que reparte no tempo essa espacialidade.  por isso que, como se
ver mais adiante, a Gramtica supe a natureza retrica das linguagens,
mesmo das mais primitivas e das mais espontneas.        2. Por outro
lado, a Gramtica, como reflexo sobre a linguagem em geral, manifesta a
relao que esta mantm com a universalidade. Essa relao pode receber
duas formas, conforme se tome em considerao a possibilidade de uma
Lngua universal ou de um Discurso universal. Na poca clssica o que se
designa por lngua universal no  o falar primitivo, intato e puro,
capaz de restaurar, se fosse reencontrado para alm dos castigos do
esquecimento, o entendimento [pg. 116] anterior a Babel. Trata-se de
uma lngua que seria suscetvel de atribuir a cada representao e a
cada elemento de cada representao o signo pelo qual podem ser marcados
de um modo unvoco; seria capaz tambm de indicar de que maneira os
elementos se compem numa representao e como esto ligados uns aos
outros; possuindo os instrumentos que permitem indicar todas as relaes
eventuais entre os segmentos da representao, ela teria, por isso
mesmo, o poder de percorrer todas as ordens possveis. Ao mesmo tempo
Caracterstica e Combinatria, a Lngua universal no restabelece a
ordem dos tempos antigos: ela inventa signos, uma sintaxe, uma
gramtica, em que toda ordem concebvel deve encontrar seu lugar. Quanto
ao Discurso universal, tambm ele no  o Texto nico que conserva no
enigma de seu segredo a chave desveladora de todo saber; ele  antes a
possibilidade de definir a marcha natural e necessria do esprito,
desde as mais simples representaes at as mais finas anlises ou as
mais complexas combinaes: esse discurso  o saber colocado na ordem
nica que lhe prescreve sua origem. Ele percorre todo o campo dos
conhecimentos, mas de uma forma de certo modo subterrnea, para fazer
surgir sua possibilidade a partir da representao, para mostrar seu
nascimento e pr ao vivo o seu liame natural, linear e universal. Esse
denominador comum, esse fundamento de todos os conhecimentos, essa
origem manifestada em um discurso contnuo  a Ideologia, uma linguagem
que reduplica em toda a sua extenso o fio espontneo do conhecimento:
"O homem por sua 410. natureza tende sempre para o resultado mais
prximo e mais premente. Pensa primeiramente em suas necessidades,
depois em seus prazeres. Ocupa-se de agricultura, de medicina, de
guerra, de poltica prtica, depois de poesia e de artes, antes de
pensar na filosofia; e [pg. 117] quando se volta sobre si mesmo e
comea a refletir, prescreve regras para seu juzo,  a lgica, para
seus discursos,  a gramtica, para seus desejos,  a moral. Julga-se
ento no cume da teoria"; mas apercebe-se de que todas essas operaes
tm "uma fonte comum" e que "esse centro nico de todas as verdades  o
conhecimento de suas faculdades inte- lectuais"12.          A
Caracterstica universal e a Ideologia opem-se como a universalidade da
lngua em geral (ela desdobra todas as ordens possveis na
simultaneidade de um s quadro fundamental) e a universalidade de um
discurso exaustivo (ele reconstitui a gnese nica e vlida para cada um
de todos os conhecimentos possveis em seu encadeamento). Mas seu
projeto e sua comum possibilidade residem num poder que a idade clssica
confere  linguagem: atribuir signos adequados a todas as
representaes, quaisquer que sejam, e estabelecer entre elas todos os
liames possveis. Na medida em que a linguagem pode representar todas as
representaes, ela , de pleno direito, o elemento do universal. Deve
haver uma linguagem, ao menos possvel, que recolha entre suas palavras
a totalidade do mundo e inversamente, o mundo, como totalidade do
representvel, deve poder tornar-se, em seu conjunto, uma Enciclopdia.
E o grande sonho de Charles Bonnet atinge aqui o que  a linguagem em
seu liame e em sua dependncia relativamente  representao: "Apraz-me
considerar a multido inumervel dos Mundos como outros tantos livros
cuja coleo compe a imensa Biblioteca do Universo ou a verdadeira
Enciclopdia universal. Concebo que a gradao maravilhosa que h entre
esses diferentes mundos facilita s inteligncias superiores, s quais
foi dado [pg. 118] percorr-los, ou melhor, l-los, a aquisio de
verdades de todo gnero que a se encerram e confere ao seu conhecimento
essa ordem e esse encadeamento que constituem sua principal beleza. Mas
esses enciclopedistas celestes no possuem todos no mesmo grau a
Enciclopdia do Universo; uns dela s possuem alguns ramos; outros
possuem um nmero maior, outros a apreendem mais ainda; todos, 12
Destutt de Tracy. "Prefcio". In: lments d'idologie, t.1, p. 2.
porm, tm a eternidade para crescer e aperfeioar seus conhecimentos e
desenvolver todas as suas faculdades."13 Sobre esse fundo de uma
Enciclopdia absoluta, os humanos constituem formas intermedirias de
universalidade composta e limitada: Enciclopdias alfabticas que alojam
a maior quantidade possvel de conhecimentos na ordem arbitrria das
letras; pasigrafias que permitem transcrever segundo um nico e mesmo
sistema de figuras todas as lnguas do mundo14, lxicos polivalentes que
estabelecem as sinonmias entre um nmero mais ou menos considervel de
lnguas; enfim, as enciclopdias racionais que pretendem "expor tanto
quanto possvel a ordem e o encadeamento dos conhecimentos humanos"
examinando "sua genealogia e sua filiao, as causas que as fizeram
nascer e os caracteres que as distinguem"15. Qualquer que tenha sido o
carter parcial de todos esses projetos, quaisquer que tenham sido as
circunstncias empricas de seu empreendimento, o fundamento de sua
possibilidade na epistm clssica est em que, se o ser da linguagem
era inteiramente reduzido ao seu funcionamento na representao, [pg.
119] esta, em contrapartida, s tinha relao com o universal por
intermdio da linguagem.          3. Conhecimento e linguagem esto
estreitamente entrecruzados. Tm, na representao, mesma origem e mesmo
princpio de funcionamento; apiam-se um ao outro, completam-se e se
criticam incessantemente. Em sua forma mais geral, conhecer e falar
consistem primeiramente em analisar a simultaneidade da representao,
em distinguir-lhe os elementos, em estabelecer as relaes que os
combinam, as sucesses possveis segundo as quais podemos
desenvolv-los:  num mesmo movimento que o esprito fala e conhece, "
pelos mesmos procedimentos que se aprende a falar e que se descobrem ou
os princpios do sistema do mundo ou aqueles das operaes do esprito
humano, isto , tudo o que h de sublime nos nossos conhecimentos"16.
Mas a linguagem s  conhecimento sob uma forma irrefletida; impe-se do
exterior aos indivduos que ela guia, quer queiram quer no, em direo
a noes concretas ou abstratas, exatas ou pouco fundadas; o 13      Ch.
Bonnet. Contemplations de la nature. In: Oeuvres compltes, t. IV, p.
136, nota. 14   Cf. Destutt de Tracy. Mmoires de l'Acadmie des
Sciences morales etpolitiques, t. III, p. 535. 15      D'Alembert.
"Discours prliminaire". In: Encyclopdie. 16      Destutt de Tracy.
lments d'idologie, t.1, p. 24. conhecimento, em contrapartida,  como
uma linguagem de que cada palavra tivesse sido examinada e cada relao
verificada. Saber  falar como se deve e como o prescreve o procedimento
certo do esprito; falar  saber como se pode e segundo o modelo que
impem aqueles com quem se partilha o nascimento. As cincias so
lnguas bem-feitas na mesma medida em que as lnguas so cincias
incultas. Toda lngua deve, pois, ser refeita: isto , explicada e
julgada a partir dessa ordem analtica que nenhuma dentre elas segue
exatamente; e reajustada eventualmente para que a cadeia de
conhecimentos possa aparecer com toda a clareza, sem sombra nem lacuna.
Assim, pertence  natureza mesma [pg. 120] da gramtica ser
prescritiva, no, de modo algum, porque pretendesse impor as normas de
uma bela linguagem, fiel s regras do gosto, mas porque ela refere a
possibilidade radical de falar  colocao em ordem da representao.
Destutt de Tracy observaria um dia que os melhores tratados de Lgica,
no sculo XVIII, foram escritos por gramticos:  que as prescries da
gramtica eram de ordem analtica, no esttica.      E essa dependncia
da lngua relativamente ao saber libera todo um campo histrico que no
existira nas pocas precedentes. Algo assim como uma histria do
conhecimento torna-se possvel.  que, se a lngua  uma cincia
espontnea, obscura a si mesma e inbil -- em contrapartida 
aperfeioada pelos conhecimentos que no se podem depositar em suas
palavras sem nelas deixar seu vestgio e como que o lugar vazio de seu
contedo. As lnguas, saber imperfeito, so a memria fiel de seu
aperfeioamento. Induzem em erro, mas registram o que se aprendeu. Em
sua ordem desordenada, fazem nascer falsas idias; mas as idias
verdadeiras nelas depositam a marca indelvel de uma ordem que o acaso
somente no poderia dispor. O que nos deixam as civilizaes e os povos
como monumentos de seu pensamento no so tanto os textos, mas sim os
vocabulrios e as sintaxes, os sons de suas lnguas mais que as palavras
que pronunciaram, seus discursos menos que o que os tornou possveis: a
discursividade de sua linguagem. "A lngua de um povo fornece seu
vocabulrio e seu vocabulrio  uma bblia bastante fiel de todos os
conhecimentos desse povo; apenas a comparao do vocabulrio de uma
nao em diferentes tempos  suficiente para se formar uma idia de seus
progressos. Cada cincia tem seu nome, cada noo na cincia tem o seu,
tudo o que  conhecido na natureza est designado, assim como tudo o
[pg. 121] que se inventa nas artes, bem como os fenmenos, as manobras
e os instrumentos."17 Da a possibilidade de fazer uma histria da
liberdade e da escravido a partir das lnguas18, ou ainda uma histria
das opinies, dos preconceitos, das supersties, das crenas de toda
ordem cujos escritos testemunham sempre pior que as prprias palavras19.
Da tambm o projeto de fazer uma enciclopdia "das cincias e das
artes" que no seguisse o encadeamento dos prprios conhecimentos, mas
se alojasse na forma da linguagem, no interior do espao aberto nas
palavras;  a que os tempos futuros buscaro necessariamente o que
soubemos ou pensamos, pois as palavras, em sua rude repartio, esto
distribudas nessa linha mediana pela qual a cincia se emparelha 
percepo, e a reflexo s imagens. Nelas, o que se imagina torna-se o
que se sabe e, em contrapartida, o que se sabe toma-se o que se
representa cotidianamente. A velha relao com o texto, pela qual o
Renascimento definia a erudio, est agora transformada: tornou-se, na
idade clssica, a relao com o puro elemento da lngua.          V-se
assim aclarar-se o elemento luminoso no qual comunicam, em pleno
direito, linguagem e conhecimento, discurso bem-feito e saber, lngua
universal e anlise do pensamento, histria dos homens e cincias da
linguagem. Mesmo quando era destinado  publicao, o saber do
Renascimento [pg. 122] se dispunha segundo um espao cerrado. A
"Academia" era um crculo fechado, que projetava na superfcie das
configuraes sociais a forma essencialmente secreta do saber.  que
esse saber tinha por tarefa primeira fazer falar siglas mudas: visava
reconhecer- lhes as formas, interpret-las e retranscrev-las em outros
traos que, por sua vez, deviam ser decifrados; de tal sorte que nem
mesmo a descoberta do segredo escapava a essa ardilosa disposio que a
tornava a um tempo to difcil e to preciosa. Na idade clssica,
conhecer e saber se imbricam na mesma trama: para o saber e para a
linguagem, trata-se de atribuir  representao signos pelos quais seja
possvel desdobr-la segundo uma ordem necessria e visvel. Quando era
enunciado, o saber do sculo XVI era um segredo, mas partilhado. Quando
 oculto, o dos sculos XVII e XVIII  um discurso por sobre o qual se
colocou um vu.  17      Diderot. Artigo "Encyclopdie". In:
Encyclopdie, t. V, p. 637. 18      Rousseau. Essai sur l'origine des
langues. In: Oeuvres. Paris, 1826, t. XIII, pp. 220-1. 19   Cf.
Michaelis. De l'influence des opinions sur le langage (1759). Trad.
francesa. Paris, 1762: sabe-se, apenas pela palavra 5a, que os gregos
identificam a glria e a opinio; e pela expresso das liebe Gewitter,
que os germnicos acreditavam nas virtudes fecundantes da que  prprio
 mais originria natureza da cincia entrar no sistema das comunicaes
verbais20 e  da linguagem ser conhecimento desde sua primeira palavra.
Falar, esclarecer e saber so, no sentido estrito do termo, da mesma
ordem. O interesse que a idade clssica confere  cincia, a publicidade
de seus debates, seu carter fortemente exotrico, sua abertura ao
profano, a astronomia fontenellizada, Newton lido por Voltaire, tudo
isso certamente no  mais que um fenmeno sociolgico. No provocou a
menor alterao na histria do pensamento, no modificou por pouco que
fosse [pg. 123] o devir do saber. Nada explica, salvo certamente ao
nvel doxogrfico em que, com efeito, deve ser situado; sua condio de
possibilidade, porm, est a nesta dependncia recproca entre o saber
e a linguagem. O sculo XIX, mais tarde, a desfar e lhe ocorrer deixar
em face um da outra, um saber fechado sobre si mesmo e uma pura
linguagem tornada, em seu ser e sua funo, enigmtica -- qualquer coisa
a que se chama, desde essa poca, Literatura. Entre       os   dois
desenvolver-se-o,   ao   infinito,   as   linguagens intermedirias,
derivadas ou, se se quiser, decadas, do saber assim como das obras.
4. Porque se tornou anlise e ordem, a linguagem estabelece com o tempo
relaes at ento inditas. O sculo XVI admitia que as lnguas se
sucediam na histria e podiam engendrar-se umas s outras. As mais
antigas eram as lnguas mes. De todas a mais arcaica, pois que a lngua
do Eterno quando se dirigia aos homens, o hebreu passava por ter dado
nascimento ao siraco e ao rabe; depois vinha o grego, do qual saram o
copta e o egpcio; o latim tinha na sua filiao o italiano, o espanhol
e o francs; enfim, do "teutnico" derivavam o alemo, o ingls e o
flamengo21. A partir do sculo XVII, a relao da linguagem com o tempo
se inverte: este no deposita mais as falas por etapas na histria do
mundo; so as linguagens que desenrolam as representaes e as palavras
segundo uma sucesso cuja lei elas mesmas definem.  por essa ordem
interna e pelo lugar que reserva s palavras que cada lngua define sua
especificidade. E no mais pelo seu lugar numa tempestade, pp. 24 e 40.
20    Considera-se (cf., por exemplo, Warburton. Essai sur les
hi-roglyphes) que o saber dos antigos e sobretudo dos egpcios no foi
primeiramente secreto e depois pblico, mas que, primeiro construdo em
comum, foi em seguida confiscado, mascarado e desfigurado pelos padres.
O esoterismo, longe de ser a forma primeira do saber,  somente sua
perverso. 21   E. Guichard. Harmonie tymologique, 1606. Cf.
classificaes do mesmo tipo em Scaliger. Diatribe de Europaeorum
linguis, ou Wilkins. An Essay towards Real Character. Londres, srie
histrica. O tempo  para a linguagem seu modo interior de anlise; no
seu lugar de nascimento. [pg. 124] Da o pouco interesse que a idade
clssica conferiu  filiao cronolgica, a ponto de negar, contra toda
"evidncia" --  da nossa que se trata -- o parentesco do italiano ou do
francs com o latim22. A tais sries, que existiam no sculo XVI e
reaparecero no sculo XIX, substituem-se tipologias. E so as da ordem.
H o grupo de lnguas que colocam primeiro o sujeito de quem se fala;
depois, a ao que  empreendida ou sofrida por ele; enfim, o agente
sobre o qual ele a exerce: testemunham isso o francs, o ingls, o
espanhol. Do lado oposto, o grupo de lnguas que fazem "preceder ora a
ao, ora o objeto, ora a modificao ou a circunstncia"; o latim, por
exemplo, ou o "esclavo", nos quais a funo da palavra no  indicada
por seu lugar mas por sua flexo. Enfim, o terceiro grupo  formado
pelas lnguas mistas (como o grego ou o teutnico), "que tm algo dos
dois outros, possuindo um artigo e casos"23. Mas  preciso compreender
bem que no  a presena ou a ausncia de flexes que define para cada
lngua a ordem possvel ou necessria de suas palavras.  a ordem como
anlise e alinhamento sucessivo das representaes que constitui o
elemento prvio e prescreve utilizar declinaes ou artigos. As lnguas
que seguem a ordem "da imaginao e do interesse" no determinam lugar
constante para as palavras: devem marc-las por flexes (so as lnguas
"transpositivas"). Se, em contrapartida, seguem a ordem uniforme da
reflexo, basta-lhes indicar por um artigo o nmero e o gnero dos
substantivos; o lugar na ordenao analtica tem em si [pg. 125] mesmo
um valor funcional: so as linguagens "anlogas"24. As lnguas se
aparentam e se distinguem no quadro dos tipos possveis de sucesso.
Quadro que  simultneo, mas que sugere quais foram as lnguas mais
antigas: pode-se admitir, com efeito, que a ordem mais espontnea (a das
imagens e das paixes) deve ter precedido a mais reflexiva (a da
lgica): a datao externa  comandada pelas formas internas da anlise
e da ordem. O tempo tornou-se interior  linguagem. 1668, pp. 3 ss. 22
Le Blan. Thorie nouvelle de la parole. Paris, 1750. O latim s teria
transmitido ao italiano, ao espanhol e ao francs "a herana de algumas
palavras". 23      Abade Girard. Les vrais prncipes de langue
franaise. Paris, 1747, t.I, pp. 22-5. 24   Sobre esse problema e as
discusses que levantou, cf. Bauze. Grammaire gnrale. Paris, 1767;
abade Batteux. Nouvel examen du pr-jug de l'inversion. Paris, 1767;
abade d'Olivet.          Quanto  prpria histria das lnguas, no 
mais que eroso ou acidente, introduo, encontro e mistura de elementos
diversos; no tem lei, nem movimento, nem necessidade prprios. Como a
lngua grega, por exemplo, se formou? "Foram mercadores da Fencia,
aventureiros da Frgia, da Macednia e da Ilria, glatas, citas, bandos
de exilados ou de fugitivos que carregaram a base primitiva da lngua
grega de tantas espcies de partculas inumerveis e de tantos
dialetos."25 Quanto ao francs,  constitudo de nomes latinos e
gticos, de formas de expresso e de construes gaulesas, de artigos e
nmeros rabes, de palavras tomadas de emprstimo aos ingleses e aos
italianos, por ocasio de viagens, guerras ou convenes de comrcio26.
 que as lnguas evoluem por efeito das migraes, das vitrias e das
derrotas, das modas, das trocas; no, porm, por fora de uma
historicidade que por si mesmas deteriam. No obedecem a qualquer
princpio interno de desenvolvimento; so elas que desenvolvem ao longo
de uma linha as representaes [pg. 126] e seus elementos. Se h para
as lnguas um tempo que  positivo, no se deve busc-lo no exterior, do
lado da histria, mas na ordenao das palavras, no mago do discurso.
Pode-se circunscrever agora o campo epistemolgico da Gramtica geral,
que surgiu na segunda metade do sculo XVII e desvaneceu-se nos
primeiros anos do sculo seguinte. Gramtica geral no  gramtica
comparada: no toma por objeto, no utiliza como mtodo as aproximaes
entre as lnguas.  que sua generalidade no consiste em encontrar leis
propriamente gramaticais que seriam comuns a todos os domnios
lingsticos e fariam aparecer, numa unidade ideal e constringente, a
estrutura de toda lngua possvel; se ela  geral,  na medida em que
pretende fazer surgir, por sob as regras da gramtica, mas ao nvel do
seu fundamento, a funo representativa do discurso -- quer seja a
funo vertical que designa um representado, ou a horizontal que o liga
do mesmo modo que o pensamento. Porquanto faz aparecer a linguagem como
uma representao que articula outra, ela , de pleno direito, "geral":
 do desdobramento interior da representao que ela trata. Visto,
porm, que essa articulao pode fazer-se de muitas maneiras diferentes,
Remarques sur la langue franaise. Paris, 1771. 25      Abade Pluche. La
mcanique des langues. Reed. de 1811, p. 26. 26      Id., ibid., p. 23
haver, paradoxalmente, diversas gramticas gerais: a do francs, do
ingls, do latim, do alemo etc.27. A gramtica geral no visa a definir
as leis de todas as lnguas, mas a tratar, por etapas, cada lngua
particular, como um modo de articulao do pensamento sobre si mesmo. Em
toda lngua tomada isoladamente, a representao se prov [pg. 127] de
"caracteres". A gramtica geral definir o sistema de identidades e de
diferenas que esses caracteres espontneos supem e utilizam.
Estabelecer a taxinomia de cada lngua. Isto , aquilo que funda em
cada uma delas a possibilidade de sustentar um discurso.       Da as
duas direes que ela necessariamente assume. Visto que o discurso liga
suas partes como a representao seus elementos, a gramtica geral
dever estudar o funcionamento representativo das palavras umas em
relao s outras: o que supe, de incio, uma anlise do liame que
vincula as palavras conjuntamente (teoria da proposio e singularmente
do verbo), depois uma anlise dos diversos tipos de palavras e da
maneira como elas determinam a representao e se distinguem entre si
(teoria da articulao). Todavia, j que o discurso no  simplesmente
um conjunto representativo mas uma representao reduplicada que designa
uma outra -- aquela mesma que ela representa --, a gramtica geral deve
estudar a maneira pela qual as palavras designam o que elas dizem,
primeiramente no seu valor primitivo (teoria da origem e da raiz),
depois, na sua capacidade permanente de desvio, de extenso, de
reorganizao (teoria do espao retrico e da derivao).
III. A teoria do verbo       A proposio  para a linguagem o que a
representao  para o pensamento: sua forma, ao mesmo tempo mais geral
e mais elementar, porquanto, desde que a decomponhamos, no
reencontraremos mais o discurso, mas seus elementos como tantos
materiais dispersos. Abaixo da proposio, por certo, encontram-se
palavras, mas no  nelas que a [pg. 128] linguagem se completa. 
verdade que originariamente o homem s emitia simples gritos, mas estes
somente comearam a ser linguagem no dia em que encerraram -- ainda que
no interior de seus 27   Cf. por exemplo, Buffier. Grammaire franaise.
Paris, 1723, nova ed.  por isso que, no fim do sculo XVIII,
preferir-se- a expresso "gramtica filosfica" a gramtica geral, que
"seria monosslabos -- uma relao que era da ordem da proposio. O
urro do primitivo que se debate s se torna palavra verdadeira se no
for mais a expresso lateral de seu sofrimento e se valer por um juzo
ou uma declarao do tipo: "eu sufoco"28. O que erige a palavra como
palavra e a ergue acima dos gritos e dos rudos  a proposio nela
oculta. Se o selvagem de Aveyron no chegou a falar  porque as palavras
permaneceram para ele como as marcas sonoras das coisas e das impresses
que elas causavam em seu esprito; no haviam recebido valor de
proposio. Ele poderia, decerto, pronunciar a palavra "leite" diante da
tigela que se lhe oferecia: isso no passava da "expresso confusa desse
lquido alimentar, do vaso que o continha e do desejo de que era o
objeto"29; jamais a palavra se tornou signo representativo da coisa,
pois jamais ele quis dizer que o leite estava quente, ou pronto, ou
esperado.  a proposio, com efeito, que destaca o signo sonoro de seus
valores imediatos de expresso e o instaura soberanamente na sua
possibilidade lingstica. Para o pensamento clssico, a linguagem
comea onde houver no expresso, mas discurso. Quando se diz "no", no
se traduz a recusa por um grito; resume-se numa palavra "uma proposio
inteira:... eu no sinto isso, ou eu no creio nisso"30.          "Vamos
direto  proposio, objeto essencial da gramtica."31 Nela todas as
funes da linguagem so reconduzidas [pg. 129] aos trs nicos
elementos que so indispensveis para formar uma proposio: o sujeito,
o atributo e seu liame. O sujeito e o atributo so ainda da mesma
natureza, pois que a proposio afirma que um  idntico ou pertence ao
outro: eles podem, pois, sob certas condies, trocar suas funes. A
nica diferena, mas decisiva,  a que manifesta a irredutibilidade do
verbo: "em toda proposio", diz Hobbes32, "h trs coisas a considerar:
saber os dois nomes, sujeito e predicado e o liame ou a cpula. Os dois
nomes despertam no esprito a idia de uma nica e mesma coisa, mas a
cpula fez nascer a idia da aquela de todas as lnguas"; D. Thibault.
Grammaire philosophique. Paris, 1802, t. I, pp. 6-7. 28      Destutt de
Tracy. lments d'idologie, t. II, p. 87. 29  J. Itard. Rapport sur les
nouveaux dveloppements de Victor de 1'Aveyron, 1806. Reed. In L.
Malson. Les enfants sauvages. Paris, 1964,p.209. 30      Destutt de
Tracy. lments d'idologie, t. II, p. 60. 31      U. Domergue.
Grammaire gnrale analytique, p. 34. 32      Hobbes. Logique, loc.
cit., p. 620. causa pela qual estes nomes foram impostos a esta coisa".
O verbo  a condio indispensvel a todo discurso: e onde ele no
existir, ao menos de modo virtual, no  possvel dizer que h
linguagem. As proposies nominais guardam todas a presena invisvel de
um verbo, e Adam Smith33 pensa que, sob sua forma primitiva, a linguagem
era composta s de verbos impessoais (do tipo: "chove" ou "troveja"), e
que a partir desse ncleo verbal todas as outras partes do discurso se
foram destacando como outras tantas precises derivadas e secundrias. O
limiar da linguagem est onde surge o verbo.  preciso, portanto, tratar
esse verbo como um ser misto, ao mesmo tempo palavra entre as palavras,
preso s mesmas regras, obedecendo como elas s leis de regncia e de
concordncia; e depois, em recuo em relao a elas todas, numa regio
que no  aquela do falado mas aquela donde se fala. Ele est na orla do
discurso, na juntura entre aquilo que  dito e aquilo que se diz,
exatamente l onde os signos esto em via de se tornar linguagem. [pg.
130]           nessa funo que  preciso interrog-lo -- despojando-o
daquilo que no cessou de o sobrecarregar e de o obscurecer. No se
deter com Aristteles no fato de que o verbo significa os tempos (muitas
outras palavras, advrbios, adjetivos, nomes, podem carregar
significaes temporais). No se deter tampouco, como o fazia Scaliger,
no fato de que ele exprime aes ou paixes, enquanto os nomes designam
coisas, e permanentes (pois h justamente este prprio nome "ao"). No
atribuir importncia, como o fazia Buxtorf, s diferentes pessoas do
verbo, pois certos pronomes tambm tm a propriedade de as designar.
Trazer porm, de imediato,  plena luz, aquilo que o constitui: o verbo
afirma, isto , indica "que o discurso, onde essa palavra  empregada, 
o discurso de um homem que no somente concebe os nomes, mas os
julga"34. H proposio -- e discurso -- quando se afirma entre duas
coisas um liame de atribuio, quando se diz que isto  aquilo35. A
espcie inteira do verbo se reduz ao nico que significa: ser. Todos os
outros se servem secretamente dessa funo nica, mas a recobriram com
determinaes que a ocultam: acrescentaram-se-lhe atributos e, em vez de
se dizer "eu sou cantante", diz- se "eu canto"; acrescentaram-se-lhe
indicaes de tempo e, no lugar de se dizer 33      Adam Smith.
Considrations sur l'origine et la formation des langues, p. 421. 34
Logique de Port-Royal, pp. 106-7. 35      Condillac. Grammaire, p. 115.
"outrora eu sou cantante", diz-se "eu cantava"; enfim, certas lnguas
integraram aos verbos o prprio sujeito e  assim que os latinos no
dizem ego vivit, mas vivo. Tudo isso no passa de depsito e
sedimentao em torno e acima de uma funo verbal absolutamente tnue
mas essencial, "h apenas o verbo ser... que se manteve nessa
simplicidade"36. A essncia inteira da linguagem se concentra nessa
palavra singular. Sem ela tudo teria [pg. 131] permanecido silencioso,
e os homens, como alguns animais, poderiam certamente fazer uso de sua
voz, mas nenhum desses gritos lanados na floresta jamais teria
articulado a grande cadeia da linguagem.          Na poca clssica, o
ser bruto da linguagem -- essa massa de signos depositados no mundo para
a exercitar nossa interrogao -- desvaneceu-se, mas a linguagem
estabeleceu com o ser novas relaes, mais difceis de apreender,
porquanto  por uma palavra que a linguagem o enuncia e o atinge; do
interior de si mesma, ela o afirma; e, contudo, ela no poderia existir
como linguagem se essa palavra, por si s, no sustentasse de antemo
todo discurso possvel. Sem uma forma de designar o ser, no h
linguagem; mas sem linguagem, no h verbo ser, o qual  apenas uma
parte dela. Essa simples palavra  o ser representado na linguagem; mas
 tambm o ser representativo da linguagem -- o que, permitindo- lhe
afirmar o que ela diz, a torna suscetvel de verdade ou de erro. Nisso 
diferente de todos os signos que podem ser conformes, fiis, ajustados
ou no ao que eles designam, mas que jamais so verdadeiros ou falsos. A
linguagem  toda ela discurso, em virtude desse singular poder de uma
palavra que passa por sobre o sistema dos signos em direo ao ser
daquilo que  significado.          Mas donde vem esse poder? E que
sentido  esse que, transbordando as palavras, funda a proposio? Os
gramticos de Port-Royal diziam que o sentido do verbo ser era afirmar.
O que indicava bem em que regio da linguagem estava seu privilgio
absoluto, mas no em que ele consistia. No se deve compreender que o
verbo ser contm a idia de afirmao, [pg. 132] pois esta mesma
palavra afirmao e o vocbulo sim a contm igualmente37; portanto, 
antes a afirmao da idia que se acha assegurada por ele. Mas afirmar
uma idia  enunciar sua 36   Logique de Port-Royal, p. 107. Cf.
Condillac. Grammaire, pp. 132-4. Em L `origine des connaissances, a
histria do verbo  analisada de modo um pouco diferente, mas no sua
funo. D. Thibault. Grammaire philosophique. Paris, 1802, t. I, p.
216. 37      Cf. Logique de Port-Royal, p. 107 e abade Girard. Les vrais
principes de la langue franaise, existncia? --  o que pensa Bauze,
que a encontra uma razo para que o verbo tenha recolhido em sua forma
as variaes do tempo: pois a essncia das coisas no muda, somente sua
existncia aparece e desaparece, somente ela tem um passado e um
futuro38. Sobre isso, observa Condillac que, se a existncia pode ser
retirada das coisas,  porque ela no  nada mais que um atributo e
porque o verbo pode afirmar a morte tanto quanto a existncia. A nica
coisa que o verbo afirma  a coexistncia de duas representaes: por
exemplo, a do verde e da rvore, a do homem e da existncia ou da morte;
 por isso que o tempo dos verbos no indica aquele em que as coisas
existiram no absoluto, mas um sistema relativo de anterioridade ou de
simultaneidade das coisas entre si39. A coexistncia, com efeito, no 
um atributo da prpria coisa, mas tambm no  nada mais que uma forma
de representao: dizer que o verde e a rvore coexistem  dizer que
esto ligados em todas ou na maioria das impresses que recebo.
Assim  que o verbo ser teria essencialmente por funo reportar toda
linguagem  representao que ele designa. O ser em direo ao qual ele
transborda os signos no  nem mais nem menos que o ser do pensamento.
Comparando a linguagem a um quadro, um gramtico do fim do sculo XVIII
define os nomes como formas, os adjetivos como cores e o verbo como a
prpria tela onde elas aparecem. Tela invisvel, [pg. 133] inteiramente
recoberta pelo brilho e o desenho das palavras, mas que fornece 
linguagem o lugar onde fazer valer sua pintura; o que o verbo designa 
finalmente o carter representativo da linguagem, o fato de que ela tem
seu lugar no pensamento e de que a nica palavra capaz de transpor o
limite dos signos e fund-los na verdade no atinge jamais seno a
prpria representao. De sorte que a funo do verbo se acha
identificada com o modo de existncia da linguagem, que ela percorre em
toda a sua extenso: falar , ao mesmo tempo, representar por signos e
conferir a signos uma forma sinttica comandada pelo verbo. Como o diz
Destutt, o verbo  a atribuio, o suporte e a forma de todos os
atributos: "O verbo ser acha-se em todas as proposies porque no se
pode dizer que uma coisa  de tal maneira sem dizer com isto que ela
... Mas esta palavra , p. 56. 38      Bauze. Grammaire gnrale, t.
I, pp. 426 ss. 39      Condillac. Grammaire, pp. 185-6. que est em
todas as proposies, nelas faz parte sempre do atributo, delas  sempre
o comeo e a base, o atributo geral e comum."40          V-se de que
modo, atingindo esse ponto de generalidade, a funo do verbo no ter
seno que dissociar-se, desde que venha a desaparecer o domnio unitrio
da gramtica geral. Quando for liberada a dimenso do gramatical puro, a
proposio no ser mais que uma unidade de sintaxe. O verbo a figurar
em meio s outras palavras com seu sistema prprio de concordncia, de
flexes e de regncia. E, no outro extremo, o poder de manifestao da
linguagem reaparecer numa questo autnoma, mais arcaica que a
gramtica. E, durante todo o sculo XIX, a linguagem ser interrogada na
sua natureza enigmtica de verbo: l onde ele est mais prximo do ser,
mais capaz de nome-lo, de transmitir ou de fazer cintilar seu sentido
fundamental, de torn-lo absolutamente [pg. 134] manifesto. De Hegel a
Mallarm, esse espanto diante das relaes entre o ser e a linguagem
contrabalanar a reintroduo do verbo na ordem homognea das funes
gramaticais.                                        IV. A articulao
O verbo ser, misto de atribuio e de afirmao, cruzamento do discurso
com a possibilidade primeira e radical de falar, define a primeira
invariante da proposio, e a mais fundamental. Ao lado dele, de uma
parte e de outra, elementos: partes do discurso ou da "orao". Essas
regies so ainda indiferentes e determinadas apenas pela figura tnue,
quase imperceptvel e central que designa o ser; funcionam, em torno
desse "julgador", como a coisa a julgar -- o judicande, e a coisa
julgada -- o judicat41. Como pode esse puro esboo da proposio
transformar-se em frases distintas? Como pode o discurso enunciar todo o
contedo de uma representao?          Porque ele  feito de palavras
que nomeiam, parte por parte, o que  dado  representao.          A
palavra designa, o que quer dizer que, em sua natureza,  nome. Nome
prprio, pois que aponta para tal representao e mais nenhuma. Assim 
que, em 40      Destutt de Tracy. lments d'idologie, t. II, p. 64. 41
U. Domergue. Grammaire gnrale analytique, p. 11. face da uniformidade
do verbo -- que nunca  mais que o enunciado universal da atribuio --
os nomes pululam e ao infinito. Deveria haver tantos nomes quantas
coisas a nomear. Mas ento cada nome seria to fortemente vinculado 
nica representao que ele designa, que no se poderia sequer formular
a menor atribuio; e a linguagem recairia abaixo de si mesma: "Se
tivssemos por substantivos somente nomes prprios, [pg. 135] seria
preciso multiplic-los ao infinito. Essas palavras, cuja multido
sobrecarregaria a memria, no poriam ordem alguma nos objetos de nossos
conhecimentos, nem, por conseguinte, em nossas idias, e todos os nossos
discursos estariam na maior confuso."42 Os nomes podem funcionar na
frase e permitir a atribuio somente se um dos dois (o atributo ao
menos) designar algum elemento comum a vrias representaes. A
generalidade do nome  to necessria s partes do discurso quanto a
designao do ser  forma da proposio.          Essa generalidade pode
ser adquirida de duas maneiras. Ou por uma articulao horizontal,
agrupando os indivduos que tm entre si certas identidades, separando
aqueles que so diferentes; forma ela ento uma generalizao sucessiva
de grupos cada vez mais amplos (e cada vez menos numerosos); pode tambm
subdividi-los quase ao infinito por distines novas e atingir assim o
nome prprio do qual partiu43; toda a ordem das coordenaes e das
subordinaes se acha recoberta pela linguagem e cada um desses pontos
a figura com seu nome; do indivduo  espcie, desta em seguida ao
gnero e  classe, a linguagem se articula exatamente sobre o domnio
das generalidades crescentes; so os substantivos que manifestam na
linguagem essa funo taxinmica: diz-se um animal, um quadrpede, um
co, um co-d'gua44. Ou ento por uma articulao vertical -- ligada 
primeira, pois elas so indispensveis uma  outra; essa segunda
articulao distingue as coisas que subsistem por si mesmas e aquelas --
modificaes, traos, acidentes, ou caracteres -- que [pg. 136] jamais
se podem encontrar em estado independente: em profundidade, as
substncias, na superfcie, as qualidades; esse 42      Condillac.
Grammaire, p. 152. 43      Condillac. Grammaire, p. 155. 44   Id.,
ibid., p. 153. Cf. igualmente A. Smith. Considrations sur l `origine et
la formation des langues, pp. 408-10. corte -- essa metafsica, como
dizia Adam Smith45 --  manifestado no discurso pela presena de
adjetivos que designam na representao tudo o que no pode subsistir
por si. A articulao primeira da linguagem (se se puser de parte o
verbo ser, que  condio tanto quanto parte do discurso) faz-se, pois,
segundo dois eixos ortogonais: um que vai do indivduo singular ao
geral; outro que vai da substncia  qualidade. No seu cruzamento reside
o nome comum; numa extremidade, o nome prprio, na outra, o adjetivo.
Mas esses dois tipos de representao s distinguem as palavras entre si
na medida exata em que a representao  analisada segundo esse mesmo
modelo. Como o dizem os autores de Port-Royal: as palavras "que
significam as coisas se chamam nomes substantivos, como terra, sol.
Aquelas que significam os modos, marcando ao mesmo tempo o sujeito ao
qual convm se chamam adjetivos, como bom, justo, redondo"46. Entre a
articulao da linguagem e a da representao h, contudo, um jogo.
Quando se fala de "brancura",  certamente uma qualidade que se designa,
mas  designada por um substantivo: quando se fala dos "humanos",
utiliza-se um adjetivo para designar indivduos que subsistem por si
mesmos. Esse desnvel no indica que a linguagem obedea a outras leis
alm da representao: mas, ao contrrio, que ela tem, consigo mesma e
na sua espessura prpria, relaes que so idnticas s da
representao. Com efeito, no  ela uma representao desdobrada e no
tem ela o poder de combinar, com os elementos da representao, uma
representao [pg. 137] distinta da primeira, embora no tenha por
funo e sentido seno represent-la? Se o discurso se apropria do
adjetivo que designa uma modificao e f-lo valer no interior da frase
como a substncia mesma da proposio, ento o adjetivo torna-se
substantivo; o nome, ao contrrio, que se comporta na frase como um
acidente, torna-se, por seu turno, adjetivo, mesmo designando, como que
pelo passado, substncias. "Porque a substncia  o que subsiste por si
mesmo, chamou-se substantivos a todas as palavras que subsistem por si
mesmas no discurso, ainda quando signifiquem acidentes. E, ao contrrio,
chamou-se adjetivos quelas que significam substncia, quando, em sua
maneira de 45      A. Smith, loc. cit., p. 410. 46      Logique de
Port-Royal, p. 101. significar, devem estar unidas a outros nomes no
discurso."47 Os elementos da proposio tm entre si relaes idnticas
s da representao; mas essa identidade no  assegurada ponto por
ponto, de sorte que toda substncia seria designada por um substantivo e
todo acidente por um adjetivo. Trata-se de uma identidade global e de
natureza: a proposio  uma representao; articula-se segundo os
mesmos modos que ela; mas compete-lhe poder articular, de uma forma ou
de outra, a representao que ela transforma em discurso. Ela , em si
mesma, uma representao que articula outra, com uma possibilidade de
desnvel que constitui ao mesmo tempo a liberdade do discurso e a
diferena das lnguas.          Tal  a primeira camada de articulao:
a mais superficial, em todo o caso, a mais aparente. Desde logo, tudo
pode tornar-se discurso. Mas numa linguagem ainda pouco diferenciada:
para religar os nomes, s se dispe ainda da monotonia do verbo ser e de
sua funo atributiva. Ora, os elementos da representao se articulam
segundo toda uma rede de [pg. 138] relaes complexas (sucesso,
subordinao, conseqncia) que  necessrio fazer passar para a
linguagem a fim de que esta se torne realmente representativa. Da todas
as palavras, slabas, letras mesmo que, circulando entre os nomes e os
verbos, devem designar essas idias a que Port-Royal chamava
"acessrias"48; so necessrias preposies e conjunes; so
necessrios signos de sintaxe que indiquem as relaes de identidade ou
de concordncia e as de dependncia ou de regncia49: marcas de plural e
de gnero, casos de declinaes; so necessrias, enfim, palavras que
reportem os nomes comuns aos indivduos que eles designam -- esses
artigos ou esses demonstrativos a que Lemercier chamava
"concretizadores" ou "desabstradores"50. Uma tal poeira de palavras
constitui uma articulao inferior  unidade do nome (substantivo ou
adjetivo) tal como  requerida pela forma nua da proposio: nenhuma
delas detm, no seu ntimo e em estado isolado, um contedo
representativo que seja fixo e determinado; s recobrem uma idia --
mesmo acessria -- uma vez ligadas a outras palavras; enquanto os nomes
e os verbos so "significativos absolutos", elas s tm 47      Logique
de Port-Royal, pp. 59-60. 48      Ibid., p. 101. 49      Duclos.
Commentaire  la "Grammaire de Port-Royal". Paris, 1754, p.213. 50
J.-B. Lemercier. Lettre sur la possibilite de faire de la grammaire un
Art-Science. Paris, 1806, pp. 63-5. significao de um modo relativo51.
 certo que se dirigem  representao; s existem na medida em que
essa, analisando-se, deixa ver a rede interior dessas relaes; mas elas
prprias s tm valor pelo conjunto gramatical de que fazem parte.
Estabelecem na linguagem uma articulao nova e de natureza mista, ao
[pg. 139] mesmo tempo representativa e gramatical, sem que nenhuma
dessas duas ordens possa ajustar-se exatamente  outra.          Eis que
a frase se povoa de elementos sintticos que so de um recorte mais fino
que as figuras amplas da proposio. Esse novo recorte coloca a
gramtica geral perante a necessidade de uma escolha: ou prosseguir a
anlise por sob a unidade nominal, e fazer surgir, antes da
significao, os elementos insignificantes de que  construda, ou ento
reduzir, por um processo regressivo, essa unidade nominal,
reconhecer-lhe medidas mais restritas e encontrar sua eficcia
representativa abaixo das palavras completas, nas partculas, nas
slabas e at nas prprias letras. Essas possibilidades so oferecidas
-- mais: so prescritas -- desde o momento em que a teoria das lnguas
se d por objeto o discurso e a anlise de seus valores representativos.
Elas definem o ponto de heresia que divide a gramtica do sculo XVIII.
"Suporemos", diz Harris, "que toda significao , como o corpo,
divisvel numa infinidade de outras significaes, divisveis, elas
mesmas, ao infinito? Seria um absurdo;  preciso pois, necessariamente,
admitir que h sons significativos dos quais nenhuma parte pode, por si
mesma, ter significao."52 A significao desaparece desde que so
dissociados ou suspensos os valores representativos das palavras:
aparecem, em sua independncia, materiais que no se articulam com o
pensamento e cujos liames no se podem reduzir aos do discurso. H uma
"mecnica" prpria s concordncias, s regncias, s flexes, s
slabas e aos sons e, essa mecnica, nenhum valor representativo pode
explicar.  preciso tratar a lngua como essas mquinas que, pouco a
pouco, se aperfeioam53: em sua forma mais simples, a frase  [pg. 140]
composta apenas de um sujeito, de um verbo, de um atributo; e toda
adio de sentido exige uma proposio nova e inteira; assim as 51
Harris. Herms, pp. 30-1. Cf. tambm A. Smith. Considrations sur
l'origine des langues, pp. 408-9. 52      Harris. Herms, p. 57. 53
A. Smith. Considrations sur l'origine des langues, pp. 430-1. mais
rudimentares mquinas supem princpios de movimento que diferem para
cada um de seus rgos. Mas, quando elas se aperfeioam, submetem a um
s e mesmo princpio todos os seus rgos que, desse princpio, no so
ento mais do que intermedirios, meios de transformao, pontos de
aplicao; do mesmo modo, aperfeioando-se, as lnguas fazem passar o
sentido de uma proposio por rgos gramaticais que no tm, eles
mesmos, valor representativo, mas cujo papel  precis-lo, religar seus
elementos, indicar suas determinaes atuais. Numa frase, e num s
movimento, podem-se marcar relaes de tempo, de conseqncia, de
possesso, de localizao, que entram realmente na srie
sujeito-verbo-atributo, mas no podem ser demarcadas por uma distino
to vasta. Da a importncia assumida, desde Bauze54, pelas teorias do
complemento, da subordinao. Da tambm o papel crescente da sintaxe;
na poca de Port-Royal, esta era identificada com a construo e a ordem
das palavras, portanto, com o desenrolar interior da proposio55; com
Sicard, ela tornou-se independente:  ela "que comanda para cada palavra
sua forma prpria"56. E assim se esboa a autonomia do gramatical, tal
como ser definida, bem no fim do sculo, por Sylvestre de Saci, quando,
pela primeira vez, junto com Sicard, distingue a anlise lgica da
proposio e a gramatical, da frase57. [pg. 141]          Compreende-se
por que anlises desse gnero permaneceram suspensas enquanto o discurso
foi o objeto da gramtica; desde que se atingisse uma camada de
articulao onde os valores representativos se pulverizassem, passava-se
para o outro lado da gramtica, l onde ela no tinha mais controle, num
domnio que era o do uso e da histria -- a sintaxe, no sculo XVIII,
era considerada como o lugar do arbitrrio, onde se desenvolviam, em sua
fantasia, os hbitos de cada povo58.          Em todo o caso, elas no
podiam ser, no sculo XVIII, nada mais que possibilidades abstratas, no
prefiguraes do que viria a ser a filologia, mas ramo no-privilegiado
de uma escolha. De outro lado, a partir do mesmo ponto de heresia, 54
Bauze emprega pela primeira vez o termo "complemento". Grammaire
gnrale. 55      Logique de Port-Royal, pp. 117 ss. 56      Abade
Sicard. lments de la grammaire gnrale, t. II, p. 2. 57   Sylvestre
de Saci. Prncipes de la grammaire gnrale, 1799. Cf. tambm U.
Domergue. Grammaire gnrale analytique, pp. 29-30. 58      Cf. por
exemplo, abade Girard. Les vrais prncipes de la langue franaise.
Paris, 1747, pp. 82- 3. v-se desenvolver-se uma reflexo que, para ns
e para a cincia da linguagem que construmos desde o sculo XIX, 
desprovida de valor, mas que permitia ento manter toda a anlise dos
signos verbais no interior do discurso. E que, por esse recobrimento
exato, fazia parte das figuras positivas do saber. Buscava-se a obscura
funo nominal que se julgava investida e oculta nessas palavras, nessas
slabas, nessas flexes, nessas letras que a anlise demasiado frouxa da
proposio deixava passar atravs de seu crivo.  que afinal, como
observavam os autores de Port- Royal, todas as partculas de ligao tm
realmente um certo contedo, pois que representam a maneira pela qual os
objetos so ligados e aquela pela qual eles se encadeiam em nossas
representaes59. No se pode supor que foram nomes como todos os
outros? Porm, em vez de substiturem os objetos, eles teriam tomado o
lugar dos gestos com que os homens os indicavam ou simulavam [pg. 142]
seus liames e sua sucesso60. So essas palavras que, ou perderam pouco
a pouco seu sentido prprio (este, com efeito, no era sempre visvel,
j que ligado aos gestos, ao corpo e  situao do locutor), ou ento se
incorporavam s outras palavras em que encontravam um suporte estvel e
a que forneciam, em troca, todo um sistema de modificaes61. De sorte
que todas as palavras, quaisquer que sejam, so nomes adormecidos: os
verbos juntaram nomes adjetivos ao verbo ser; as conjunes e as
preposies so os nomes de gestos doravante imveis; as declinaes e
as conjugaes nada mais so que nomes absorvidos. As palavras, agora,
podem se abrir e liberar o vo de todos os nomes que nelas se
depositaram. Como dizia Le Bel, a ttulo de princpio fundamental da
anlise, "no h reunio cujas partes no tenham existido separadamente
antes de serem reunidas"62, o que lhe permitia reduzir todas as palavras
a elementos silbicos em que reapareciam enfim os velhos nomes
esquecidos -- os nicos vocbulos que tiveram a possibilidade de existir
ao lado do verbo ser: Romulus, por exemplo63, vem de Roma e moliri
(construir); e Roma vem de Ro, que designava a fora (Robur) e de Ma,
que indicava a grandeza 59      Logique de Port-Royal, p. 59. 60
Batteux. Nouvel examen du prjug de l `inversion, pp. 23-4. 61
Id., ibid., pp.24-8. 62      Le Bel. Anatomie de la langue latine.
Paris, 1764, p. 24. 63      Id., ibid.,p. 8. (magnus). Do mesmo modo,
Thibault descobre em "abandonner" ["abandonar"] trs significaes
latentes: a, que "apresenta a idia da tendncia ou da destinao de uma
coisa em direo a outra coisa qualquer"; ban, que "d a idia da
totalidade do corpo social", e do que indica "o ato pelo qual se
renuncia a alguma coisa"64. [pg. 143]          E se  preciso no ficar
nas slabas, ir at as prprias letras, recolher-se-o ainda       os
valores    de    uma     nomeao       rudimentar. Nisso   empenhou-se
maravilhosamente Court de Gbelin, para sua maior glria, e a mais
perecvel; "o toque labial, o mais fcil de acionar, o mais suave, o
mais gracioso, servia para designar os primeiros seres que o homem
conhece, aqueles que o cercam e a quem deve tudo" (papai, mame, beijo).
Em contrapartida, "os dentes so to firmes quan- to os lbios so
mveis e flexveis; as entoaes que deles provm so fortes, sonoras,
ruidosas...  pelo toque dental que se atroa, que se retumba, que se
espanta; por ele, designam-se os tambores, os timbales, as trombetas".
Isoladas, as vogais podem, por sua vez, manifestar o segredo dos nomes
milenares em que o uso os encerrou: A para a posse (haver), E para a
existncia, I para o poderio, O para o espanto (os olhos que se
arredondam), U para umidade, portanto para o humor65. E talvez, nos
recnditos mais antigos de nossa histria, consoantes e vogais,
distinguidas apenas como dois grupos ainda confusos, formassem como que
dois nicos nomes que teriam articulado a linguagem humana: as vogais
cantantes diziam as paixes; as rudes consoantes, as necessidades66.
Pode-se ainda distinguir o falar spero do Norte -- floresta das
guturais, da fome e do frio -- ou as lnguas meridionais, todas de
vogais, nascidas do matinal encontro de pastores, quando "saam do puro
cristal das fontes os primeiros fogos do amor".          Em toda a sua
espessura e at os mais arcaicos sons que pela primeira vez a arrancaram
ao grito, a linguagem conserva sua funo representativa: em cada uma de
suas articulaes, [pg. 144] desde os tempos mais remotos, ela sempre
nomeou. Em si mesma,  to-somente um imenso sussurro de denominaes
que se sobrepem, se comprimem, se ocultam e, entretanto, se mantm para
permitir 64      D. Thibault. Grammaire philosophique. Paris, 1802, pp.
172-3. 65      Court de Gbelin. Histoire naturelle de la parole, 1816,
pp. 98-104. 66      Rousseau. Essai sur 1'origine des langues. In:
Oeuvres, 1826, t. XIII, pp. 144-51 e 188-92. analisar ou compor as mais
complexas representaes. No interior das frases, ali mesmo onde a
significao parece ter um apoio mudo em slabas insignificantes, h
sempre uma nomeao adormecida, uma forma que guarda fechado entre suas
paredes sonoras o reflexo de uma representao invisvel e todavia
inapagvel. Para a filologia do sculo XIX, semelhantes anlises
permaneceram, no sentido estrito do termo, "letra morta". No, porm,
para toda uma experincia da linguagem -- primeiramente esotrica e
mstica, na poca de Saint-Marc, de Reveroni, de Fabre d'Olivet,
d'Oegger, depois literria, quando o enigma da palavra ressurge em seu
ser macio, com Mallarm, Roussel, Leiris ou Ponge. A idia de que,
destruindo as palavras, no so nem rudos nem puros elementos
arbitrrios que se reencontram, mas outras palavras que, pulverizadas
por sua vez, liberam outras -- essa idia  ao mesmo tempo o negativo de
toda a cincia moderna das lnguas e o mito no qual transcrevemos os
mais obscuros poderes da linguagem, e os mais reais. Sem dvida, porque
arbitrria e porque se pode definir sob que condio  significante, 
que a linguagem pode tornar-se objeto de cincia. Mas  porque ela
jamais cessou de falar aqum de si mesma, porque valores inesgotveis a
penetram to longe quanto se pode atingir, que dela podemos falar nesse
murmrio ao infinito em que viceja a literatura. Na poca clssica,
porm, a relao no era a mesma; as duas figuras se recobriam
exatamente: para que a linguagem fosse inteiramente compreendida na
forma geral da proposio, era necessrio que cada palavra, na menor de
suas parcelas, fosse uma nomeao meticulosa. [pg. 145]
V. A designao      E, contudo, a teoria da "nomeao generalizada"
descobre no extremo da linguagem uma certa relao com as coisas, que 
de uma natureza totalmente diferente do que a forma proposicional. Se,
no fundo de si mesma, a linguagem tem por funo nomear, isto ,
suscitar uma representao ou como que mostr-la com o dedo, ela 
indicao e no juzo. Liga-se s coisas por uma marca, uma nota, uma
figura associada, um gesto que designa: nada que seja redutvel a uma
relao de predicao. O princpio da nomeao primeira e da origem das
palavras contrabalana a primazia formal do juzo. Como se, de um lado e
outro da linguagem, desdobrada em todas as suas articulaes, houvesse o
ser em seu papel verbal de atribuio e a origem no seu papel de
designao primeira. Esta permite substituir por um signo aquilo que 
indicado, aquele, ligar um contedo a outro. Encontram-se assim, em sua
oposio, mas tambm em sua mtua dependncia, as duas funes de liame
e de substituio que foram dadas ao signo em geral com seu poder de
analisar a representao.          Reconduzir  luz a origem da
linguagem  reencontrar o momento primitivo em que ela era pura
designao. E com isso se deve, ao mesmo tempo, explicar seu carter
arbitrrio (porquanto o que designa pode ser to diferente daquilo que
mostra quanto um gesto do objeto para o qual tende) e sua relao
profunda com o que ela nomeia (pois tal slaba ou tal palavra sempre
foram escolhidas para designar tal coisa).  primeira exigncia responde
a anlise da linguagem de ao,  segunda, o estudo das razes. Elas no
se opem, porm, como no Crtilo a explicao pela "natureza" e a
explicao pela "lei"; so, ao contrrio, absolutamente indispensveis
uma  outra, pois que a primeira explica a substituio do designado
[pg. 146] pelo signo e a segunda justifica o poder permanente de
designao desse signo.          A linguagem de ao,  o corpo que a
fala; e contudo no  dada logo de incio. O que a natureza permite 
apenas que, nas diversas situaes em que se encontra, o homem faa
gestos; seu rosto  agitado por movimentos; ele emite gritos
inarticulados -- isto , que no so "desferidos nem com a lngua nem
com os lbios"67. Tudo isso no  ainda nem linguagem nem mesmo signo,
mas efeito e seqncia de nossa animalidade. Esta manifesta agitao tem
a seu favor, entretanto, ser universal, visto s depender da conformao
de nossos rgos. Da a possibilidade que o homem tem de notar a
identidade dela em si mesmo e em seus companheiros. Pode, portanto,
associar ao grito que ouve do outro, ao trejeito que percebe em seu
rosto, as mesmas representaes que, tantas vezes, duplicaram seus
prprios gritos e seus prprios movimentos. Pode receber essa mmica
como a marca e o substituto do pensamento do outro. Como um signo. Tem
incio a compreenso. Ele pode, em troca, utilizar essa mmica tornada
signo para suscitar em seus parceiros a idia que ele prprio
experimenta, as sensaes, as necessidades, as dores que ordinariamente
so associadas a tais gestos e a tais sons: grito lanado de 67
Condillac. Grammaire, p. 8. propsito perante o outro e em direo a um
objeto, pura interjeio68. Com esse uso combinado do signo (expresso
j), algo como uma linguagem est em via de nascer.         V-se, por
essas anlises comuns a Condillac e a Destutt, que a linguagem de ao
religa bem, mediante uma gnese, [pg. 147] a linguagem  natureza.
Mais, porm, para dela separ-la que para a a enraizar. Para marcar sua
diferena indelvel para com o grito e fundar o que constitui seu
artifcio. Enquanto for simples prolongamento do corpo, a ao no tem
nenhum poder para falar: no  linguagem. Torna-se linguagem, mas ao
cabo de operaes definidas e complexas: notao de uma analogia de
relaes (o grito do outro  em relao quilo que ele experimenta -- a
incgnita -- o que o meu  em relao ao meu apetite ou ao meu susto);
inverso do tempo e uso voluntrio do signo antes da representao que
ele designa (antes de experimentar uma sensao de fome bastante forte
para me fazer gritar, emito o grito que lhe  associado); enfim,
propsito de fazer nascer no outro a representao correspondente ao
grito ou ao gesto (mas com a particularidade de que, emitindo um grito,
no fao nascer nem pretendo fazer nascer a sensao da fome, mas a
representao da relao entre esse signo e meu prprio desejo de
comer). A linguagem s  possvel com base nessa imbricao. No repousa
sobre um movimento natural de compreenso ou de expresso, mas sobre as
relaes reversveis e analisveis dos signos e das representaes. No
h linguagem quando a representao se exterioriza, mas sim, quando de
uma forma combinada, ela destaca de si um signo e se faz por ele
representar. Portanto, no  a ttulo de sujeito falante, nem do
interior de uma linguagem j feita, que o homem descobre em torno de si
signos, que seriam como outras tantas palavras mudas a serem decifradas
e tornadas novamente audveis;  porque a representao se prov de
signos que as palavras podem nascer e com elas toda uma linguagem que 
to-somente a organizao ulterior de signos sonoros. Apesar do seu
nome, a "linguagem de ao" faz surgir a irredutvel rede de signo que
separa a linguagem da ao. [pg. 148]         Com isso, ela funda na
natureza o seu artifcio.  que os elementos de que essa linguagem de
ao  composta (sons, gestos, trejeitos) so propostos sucessivamente
pela natureza e contudo no tm, na sua maioria, nenhuma identidade de
contedo 68      Todas as partes do discurso no seriam ento mais que
os fragmentos decompostos e com o que eles designam, mas, sobretudo,
relaes de simultaneidade ou de sucesso. O grito no se assemelha ao
medo, nem a mo estendida  sensao de fome. Uma vez combinados, esses
signos ficaro sem "fantasia e sem capricho"69, pois que foram de uma
vez por todas instaurados pela natureza; mas no exprimem a natureza
daquilo que designam, pois no so  sua imagem. E, a partir da, os
homens podero estabelecer uma linguagem convencional: dispem agora de
suficientes signos marcando as coisas para fixarem novos que analisam e
combinam os primeiros. No Discours sur l `origine de l `ingalit70,
Rousseau salientava que nenhuma lngua pode repousar sobre um acordo
entre os homens, pois que este j supe uma linguagem estabelecida,
reconhecida e praticada;  preciso, portanto, imagin-la recebida e no
construda pelos homens. De fato, a linguagem de ao confirma essa
necessidade e torna intil essa hiptese. O homem recebe da natureza
aquilo com que fazer signos e estes signos lhe servem primeiramente para
se entender com os outros homens a fim de escolher aqueles que sero
retidos, os valores que se lhes reconhecer, as regras de seu uso; e
servem, em seguida, para formar novos signos segundo o modelo dos
primeiros. A primeira forma de acordo consiste em escolher os signos
sonoros (mais fceis de recolher a distncia e os nicos utilizveis de
noite), a segunda, em compor, para designar representaes vizinhas.
[pg. 149] Assim se constitui a linguagem propriamente dita, por uma
srie de analogias que prolongam lateralmente a linguagem de ao ou,
pelo menos, sua parte sonora: assemelha-se a ela e " essa semelhana
que facilitar sua inteligncia. Chama-se-lhe analogia... Vedes que a
analogia que nos constitui a lei no nos permite escolher os signos ao
acaso ou arbitrariamente"71.          A gnese da linguagem a partir da
linguagem de ao escapa inteiramente  alternativa entre a imitao
natural e a conveno arbitrria. L onde h natureza -- nos signos que
nascem espontaneamente atravs de nosso corpo -- no h nenhuma
semelhana; e l onde h utilizao das semelhanas, j foi estabelecido
o acordo voluntrio entre os homens. A natureza justape as diferenas e
as liga  fora; a combinados dessa interjeio inicial. Destutt de
Tracy. lments d'idologie, t. II, p. 75. 69      Condillac. Grammaire,
p. 10. 70      Rousseau. Discours sur l'origine de l'ingalit. Cf.
Condillac. Grammaire, p. 27, n. 1. 71      Condillac. Grammaire, pp.
11-2. reflexo descobre as semelhanas, as analisa e as desenvolve. O
primeiro tempo permite o artifcio, mas com um material imposto de
maneira idntica a todos os homens; o segundo exclui o arbitrrio mas
abre  anlise vias que no sero exa- tamente passveis de sobreposio
para todos os homens e para todos os povos. A lei de natureza  a
diferena das palavras e das coisas -- a diviso vertical entre a
linguagem e aquilo que, por sob ela, lhe cumpre designar; a regra das
convenes  a semelhana das palavras entre si, a grande rede
horizontal que forma as palavras umas a partir das outras e as propaga
ao infinito.          Compreende-se ento por que a teoria das razes de
modo algum contradiz a anlise da linguagem de ao, mas nela vem muito
exatamente alojar-se. As razes so palavras rudimentares que se
encontram, idnticas, num grande nmero de lnguas -- em todas talvez;
foram impostas pela natureza [pg. 150] como gritos involuntrios e
utilizados espontaneamente pela linguagem de ao.  a que os homens
foram busc-las para faz-las figurar nas suas lnguas convencionais. E
se todos os povos, em todos os climas, escolheram, entre o material da
linguagem de ao, essas sonoridades elementares,  porque nelas
descobriram, de uma forma porm secundria e refletida, uma semelhana
com o objeto que designavam, ou a possibilidade de aplic-la a um objeto
anlogo. A semelhana da raiz com o que ela nomeia s adquire seu valor
de signo verbal mediante a conveno que uniu os homens e regulou numa
lngua sua linguagem de ao.  assim que, do interior da representao,
os signos se renem  natureza mesma daquilo que designam e que se
impe, de modo idntico, a todas as lnguas, tesouro primitivo dos
vocbulos.          As razes podem formar-se de vrias maneiras. Por
onomatopia certamente, que no  expresso espontnea, mas articulao
voluntria de um signo semelhante: "Fazer com a voz o mesmo rudo que
faz o objeto que se quer nomear."72 Por utilizao de uma semelhana
experimentada nas sensaes: "A impresso da cor vermelha, que  viva,
rpida, dura  vista, ser muito bem traduzida pelo som r, que causa uma
impresso anloga no ouvido."73 Impondo aos rgos da voz movimentos
anlogos aos que se tem o propsito de significar: "de sorte que o som
que resulta da forma e do movimento natural do rgo posto nesse estado
torna-se o nome do 72      De Brosses. Trait de la formation mcanique
des langues. Paris, 1765, p. 9. 73      Abade Copineau. Essai
synthtique sur 1'origine et la formation des langues. Paris, 1774, pp.
objeto": a garganta raspa para designar a frico de um corpo contra
outro, abre-se inteiramente para indicar [pg. 151] uma superfcie
cncava74. Enfim, utilizando, para designar um rgo, os sons que ele
produz naturalmente: a articulao ghen deu seu nome  garganta, donde
ela provm, e usam-se dentais (d e t) para designar os dentes75. Com
essas articulaes convencionais da semelhana, cada lngua pode se
prover do seu jogo de razes primitivas. Jogo restrito, pois que elas
so quase todas monossilbicas e existem em muito pequeno nmero -- 200
para a lngua hebraica, segundo as estimativas de Bergier76; ainda mais
restrito se se lembrar que so (por causa dessas relaes de semelhana
que instituem) comuns  maioria das lnguas: De Brosses pensa que, para
todos os dialetos da Europa e do Oriente, elas no preen- chem, todas
juntas, "uma pgina de papel de cartas". Mas  a partir delas que cada
lngua, em sua particularidade, vem a se formar: "Seu desenvolvimento 
prodigioso. Tal como uma semente de olmo produz uma grande rvore que,
lanando novos rebentos de cada raiz, produz, com o tempo, uma
verdadeira floresta"77.           A linguagem pode desenrolar-se agora
na sua genealogia.  ela que De Brosses queria expor num espao de
filiaes contnuas a que ele chamava "Arquelogo universal"78. No alto
desse espao escrever-se-iam as razes -- bem pouco numerosas -- que as
lnguas da Europa e do Oriente utilizam; sob cada uma, colocar-se-iam as
palavras mais complicadas que delas derivam, cuidando, porm, de colocar
primeiramente [pg. 152] as mais prximas delas e de seguir uma ordem
bastante cerrada, para que haja entre as palavras sucessivas a menor
distncia possvel. Constituir-se-iam       assim     sries   perfeitas
e   exaustivas,   cadeias absolutamente contnuas, em que as rupturas,
se existissem, indicariam incidentalmente o lugar de uma palavra, de um
dialeto ou de uma lngua hoje desaparecidos79. Uma vez constituda essa
grande superfcie sem costura, ter-se-ia 34-5. [Observe-se que, na
lngua francesa, "vermelho" comea com r. rouge (N. do T.).] 74      De
Brosses. Trait de la formation mcanique des langues, pp. 16-8. 75
Id., ibid., t. I, p. 14. 76      Bergier. Les lments primitifs des
langues. Paris, 1764, pp. 7-8. 77      De Brosses. Trait de la
formation mcanique des langues, t. I, p. 18. 78      Id., ibid., p. II,
pp. 490-9. 79      "Prefcio". In: De Brosses, op. cit., t. I, p. L. um
espao em duas dimenses que se poderia percorrer em abscissas ou em
ordenadas: na vertical, ter-se-ia a filiao completa de cada raiz, na
horizontal, as palavras que so utilizadas por determinada lngua;
quanto mais nos afastssemos das razes primitivas, mais complicadas e,
sem dvida, mais recentes, seriam as lnguas definidas por uma linha
transversal, mas, ao mesmo tempo, mais eficcia e finura teriam as
palavras para a anlise das representaes. Assim o espao histrico e o
quadriculado do pensamento estariam exatamente superpostos.
Essa procura das razes pode afigurar-se um retorno  histria e 
teoria das lnguas-mes que o classicismo, por um instante, parecera
manter em suspenso. Na realidade, a anlise das razes no recoloca a
linguagem numa histria que fosse como que seu meio de nascimento e de
transformao. Antes, faz da histria o percurso, por etapas sucessivas,
do recorte simultneo da representao e das palavras. A linguagem, na
poca clssica, no  um fragmento de histria que autoriza, em tal ou
qual momento, um modo definido de pensamento e de reflexo;  um espao
de anlise sobre o qual o tempo e o saber dos homens desenrolam seu
percurso. E encontrar-se-ia bem facilmente a prova de que a linguagem
no se tornou -- ou no voltou a tornar-se -- pela [pg. 153] teoria das
razes, um ser histrico, na maneira como, no sculo XVIII, se
procuraram as etimologias. No se tomava como fio condutor o estudo das
transformaes materiais da palavra, mas a constncia das significaes.
Essa procura tinha dois aspectos: definio da raiz, isoladamente das
desinncias e dos prefixos. Definir a raiz  fazer uma etimologia. Arte
que tem suas regras codificadas80;  preciso despojar a palavra de todos
os traos que nela depositaram as combinaes e as flexes; chegar a um
elemento monossilbico; seguir esse elemento em todo o passado da lngua
atravs das antigas "cartas e glossrios"; remontar a outras lnguas
mais primitivas. E, ao longo de todo esse veio,  preciso certamente
admitir que o monosslabo se transforma: todas as vogais podem
substituir-se umas s outras na histria de uma raiz, pois as vogais so
a prpria voz que  sem descontinuidade e sem ruptura; as consoantes, em
contrapartida, se modificam segundo vias privilegiadas: guturais,
linguais, palatais, dentais, labiais, nasais formam famlias de
consoantes homfonas, no interior das 80      Cf. sobretudo Turgot,
artigo "tymologie". In: Encyclopdie. quais se fazem preferencialmente,
mas sem nenhuma obrigao, as mudanas de pronncia81. A nica constante
indelvel que assegura a continuidade da raiz ao longo de toda a sua
histria  a unidade de sentido: regio representativa que persiste
indefinidamente.  que "nada talvez pode limitar as indues e tudo lhes
pode servir de fundamento desde a semelhana [pg. 154] total at as
semelhanas mais leves": o sentido das palavras  "a luz mais segura que
se possa consultar"82.                                           VI. A
derivao          Como ocorre que as palavras que, em sua essncia
primeira so nomes e designaes e que se articulam do modo como se
analisa a prpria representao, possam afastar-se irresistivelmente de
sua significao de origem, adquirir um sentido vizinho, mais amplo ou
mais limitado? Mudar no somente de forma, mas de extenso? Adquirir
novas sonoridades e tambm novos contedos de sorte tal que, a partir de
um equipamento provavelmente idntico de razes, as diversas lnguas
formam sonoridades diferentes e, alm disso, palavras cujo sentido no
coincide?          As modificaes de forma no tm regra, so quase
indefinidas e jamais estveis. Todas as suas causas so externas:
facilidade de pronncia, modos, hbitos, clima -- o frio favorece "o
silvo labial", o calor, "as aspiraes guturais"83. Em contrapartida, as
alteraes de sentido, porque limitadas a ponto de autorizarem uma
cincia etimolgica, se no absolutamente certa, ao menos "provvel"84
-- obedecem a princpios que se podem assinalar. Esses princpios que
fomentam a histria interior das lnguas so todos de ordem espacial.
Uns concernem  semelhana visvel ou  vizinhana das coisas entre si;
outros concernem ao lugar onde se depositam [pg. 155] a linguagem e a
forma segundo a qual ela se conserva. As figuras e a escrita.
Conhecem-se dois grandes tipos de escrita: a que retraa o sentido das
81   So essas, com algumas variantes acessrias, as nicas leis de
variaes fonticas reconhecidas por De Brosses. De la formation
mcani-que des langues, pp. 108-23. Bergier. lments primitifs des
langues, pp. 45-62. Court de Gbelin. Histoire naturelle de la parole,
pp. 59-64. Turgot. Artigo "tymologie". 82      Turgot. Artigo
"tymologie". In: Encyclopdie. Cf. De Brosses, p. 420. 83      De
Brosses. Trait de la formation mcanique des langues, t. I, pp. 66-7.
84      Turgot. Artigo "tymologie". In: Encyclopdie. palavras; a que
analisa e restitui os sons. Entre elas h uma diviso rigorosa, seja
porque se admita que a segunda prevaleceu, em certos povos, sobre a
primeira, em conseqncia de um verdadeiro "golpe de gnio"85, seja
porque se admita, to diferentes so uma da outra, que apareceram quase
simultaneamente, a primeira nos povos desenhadores, a segunda nos povos
cantores86. Representar graficamente o sentido das palavras , na
origem, fazer o desenho exato da coisa que ele designa: na verdade,
quase no  uma escrita, quando muito uma reproduo pictrica, graas 
qual s se podem transcrever as narrativas mais concretas. Segundo
Warburton, os mexicanos s conheciam esse processo87. A escrita
verdadeira comeou quando se ps a representar no mais a prpria coisa,
mas um dos elementos que a constituem, ou ento uma das circunstncias
habituais que a marcam, ou ainda uma outra coisa a que ela se assemelha.
Da trs tcnicas: a escrita curiolgica dos egpcios, a mais grosseira,
que utiliza "a principal circunstncia de um assunto para ocupar o lugar
de tudo" (um arco para uma batalha, uma escada para o cerco das
cidades); depois, os hierglifos "trpicos", um pouco mais
aperfeioados, que utilizam uma circunstncia notvel (por ser Deus
todo-poderoso, saber tudo e poder vigiar os homens, ser representado
por um olho); enfim, a escrita simblica, que se serve de semelhanas
mais ou menos ocultas (o sol que se levanta  figurado pela cabea de um
crocodilo, cujos olhos redondos afloram exatamente  [pg. 156]
superfcie da gua)88. Reconhecem-se a as trs grandes figuras da
retrica: sindoque, metonmia, catacrese. E  seguindo a nervura que
elas prescrevem que essas linguagens duplicadas por uma escrita
simblica vo poder evoluir. Elas se investem, pouco a pouco, de poderes
poticos; as primeiras nomeaes tornam-se o ponto de partida de longas
metforas: estas se complicam progressivamente e logo esto to longe de
seu ponto de origem que se torna difcil reencontr-lo. Assim nascem as
supersties que deixam crer que o sol  um crocodilo ou Deus um grande
olho que vigia o mundo; assim nascem igualmente os saberes esotricos
entre aqueles (os sacerdotes) que se transmitem metforas de gerao em
gerao; assim nascem as alegorias do 85      Duclos. Remarques sur la
grammaire gnrale, pp. 43-4. 86      Destutt de Tracy. lments
d'idologie, t. II, pp. 307-12. 87      Warburton. Essai sur les
hiroglyphes des egyptiens. Trad. francesa. Paris, 1744, p. 15. 88
Id., ibid., pp. 9-23. discurso (to freqentes nas mais arcaicas
literaturas) e tambm a iluso de que o saber consiste em conhecer as
semelhanas.          Mas a histria da linguagem dotada de uma escrita
figurada  logo interrompida.  que com ela  pouco possvel realizar
progressos. Os signos no se multiplicam com a anlise meticulosa das
representaes, mas com as mais longnquas analogias: de sorte que a
imaginao dos povos  mais favorecida que sua reflexo. Credulidade,
no cincia. Ademais, o conhecimento necessita de duas aprendizagens: a
das palavras primeiro (como para todas as linguagens), em seguida a das
siglas, que no tm relao com a pronncia das palavras; uma vida
humana no  demasiado longa para essa dupla educao; e se, alm disso,
se teve o ensejo de fazer alguma descoberta, no se dispe de signos
para transmiti-la. Inversamente, um signo transmitido, porque no mantm
relao intrnseca com a palavra que ele figura, permanece sempre
duvidoso: de poca em poca nunca se pode estar seguro de que [pg. 157]
o mesmo som habita a mesma figura. As novidades so portanto impossveis
e as tradies comprometidas. De maneira que o nico cuidado dos sbios
est em guardar "um respeito supersticioso" para com as luzes recebidas
dos ancestrais e para com as instituies que conservam sua herana:
"Eles sentem que toda mudana nos costumes acarreta mudana na lngua e
que toda mudana na lngua confunde e aniquila toda a sua cincia."89
Quando um povo possui somente uma escrita figurada, sua poltica deve
excluir a histria ou, pelo menos, toda histria que no fosse pura e
simples conservao.  a, nesta relao do espao com a linguagem, que
se situa, segundo Volney90, a diferena essencial entre o Oriente e o
Ocidente. Como se a disposio espacial da linguagem prescrevesse a lei
do tempo; como se a lngua no chegasse aos homens atravs da histria,
mas que inversamente eles s acedessem  histria atravs do sistema de
seus signos.  nesse lao da representao, das palavras e do espao (as
palavras representando o espao da representao, e representando-se por
sua vez, no tempo) que se forma, silenciosamente, o destino dos povos.
De fato, com a escrita alfabtica, a histria dos homens muda
inteiramente. Eles transcrevem no espao no suas idias mas os sons e,
destes, extraem os 89      Destutt de Tracy. lments d'idologie, t.
II, pp. 284-300. 90      Volney. Les ruines. Paris, 1791, cap. XIV.
elementos comuns para formar um pequeno nmero de signos nicos, cuja
com- binao permitir formar todas as slabas e todas as palavras
possveis. Enquanto a escrita simblica, pretendendo espacializar as
prprias representaes, segue a lei confusa das similitudes e faz
deslizar a linguagem para fora das formas do pensamento refletido, a
escrita alfabtica, renunciando a desenhar a representao, transpe na
anlise dos sons as regras [pg. 158] que valem para a prpria razo. De
maneira que as letras, embora no representem idias, combinam-se entre
si como as idias, e as idias se ligam e se desligam como as letras do
alfabeto91. A ruptura do paralelismo exato entre representao e
grafismo permite alojar a totalidade da lin- guagem, mesmo escrita, no
domnio geral da anlise, e apoiar, um sobre outro, o progresso da
escrita e o progresso do pensamento92. Os mesmos signos grficos podero
decompor todas as palavras novas e transmitir, sem receio de
esquecimento, cada descoberta, desde que tenha sido feita; poder-se-
utilizar o mesmo alfabeto para transcrever diferentes lnguas e assim
transmitir a um povo as idias de outro. Sendo muito fcil a
aprendizagem desse alfabeto por causa do pequeno nmero de seus
elementos, cada qual poder consagrar  reflexo e  anlise das idias
o tempo que os outros povos desperdiam para aprender as letras. E assim
 que no interior da linguagem, exatamente nessa dobra das palavras onde
a anlise e o espao se juntam, nasce a possibilidade primeira mas
indefinida do progresso. Na sua raiz, o progresso, tal como  definido
no sculo XVIII, no  um movimento interior  histria,  o resultado
de uma relao fundamental entre o espao e a linguagem: "Os signos
arbitrrios da linguagem e da escrita do aos homens o meio de assegurar
a posse de suas idias e de comunic-las aos outros, assim como uma
herana sempre avolumada das descobertas de cada sculo; e o gnero
humano, considerado desde sua origem, aparece aos olhos de um filsofo
como um todo imenso que tem, ele prprio, como cada indivduo, sua
infncia [pg. 159] e seus progressos."93 A linguagem confere  perptua
ruptura do tempo a continuidade do espao, e  na medida em que analisa,
articula e recorta a representao, que ela tem o poder de ligar atravs
do tempo o conhecimento das coisas. Com a linguagem, a monotonia 91
Condillac. Grammaire, cap. II. 92      Adam Smith. Considrations sur l
`origine et la formation des langues, p. 424. 93      Turgot. Tableau
des progrs successifs de l'esprit humain, 1750. In: Oeuvres. Ed.
Schelle, p. confusa do espao se fragmenta, enquanto se unifica a
diversidade das sucesses. Resta, contudo, um ltimo problema. Pois a
escrita  realmente o suporte e a guardi sempre vigilante dessas
anlises progressivamente mais finas. No , porm, seu princpio. Nem o
movimento primeiro. Este  um deslizar comum  ateno, aos signos e s
palavras. Numa representao, o esprito pode se vincular e vincular um
signo verbal a um elemento que dela faz parte, a uma circunstncia que a
acompanha, a uma outra coisa, ausente, que lhe  semelhante e que, por
causa dela, retorna  memria94. Foi realmente assim que a linguagem se
desenvolveu e, pouco a pouco, prosseguiu seu desvio a partir das
designaes primeiras. Na origem tudo tinha um nome -- nome prprio ou
singular. Depois o nome vinculou-se a um nico elemento dessa coisa e se
aplicou a todos os outros indivduos que o continham igualmente: no 
mais a tal carvalho que se deu o nome de rvore, mas a tudo o que
continha ao menos tronco e galhos. O nome vinculou-se tambm a uma
circunstncia marcante: a noite no designou o fim deste dia, mas a
faixa de obscuridade que separa todos os poentes de todas as auroras.
Vinculou-se enfim a analogias: chamou-se folha a tudo o que fosse fino e
leve como uma folha de rvore95. A anlise progressiva [pg. 160] e a
articulao mais desenvolvida da linguagem, que permitem dar um s nome
a vrias coisas, efetuaram-se seguindo o fio destas figuras fundamentais
que a retrica conhece bem: sindoque, metonmia e catacrese (ou
metfora, se a analogia  menos imediatamente sensvel).  que elas no
so o efeito de um refinamento de estilo; traem, ao contrrio, a
mobilidade prpria a toda linguagem desde que espontnea: "Compem-se
mais figuras num dia de compra no Mercado do que em vrios dias de
assemblias acadmicas.96"  bem provvel que essa mobilidade fosse
mesmo muito maior na origem do que hoje: em nossos dias, a anlise  to
fina, o crivo to cerrado, as relaes de coordenao e de subordinao
to bem estabelecidas, que as palavras quase no tm ocasio de mover-se
de seu lugar. Mas nos primrdios da humanidade, quando as palavras eram
raras, quando as representaes eram ainda confusas e mal analisadas,
quando as 215. 94      Condillac. Essai sur l'origine des connaissances.
In: Oeuvres, t. I, pp. 75-87. 95      Du Marsais. Trait des tropes,
1811, pp. 150-1. 96      Id., ibid., p. 2. paixes as modificavam ou as
fundavam simultaneamente, as palavras tinham um grande poder de
deslocamento. Pode-se mesmo dizer que as palavras foram figuradas antes
de serem prprias: isto , bastava-lhes terem seu estatuto de nomes
singulares para j se expandirem sobre as representaes por fora de
uma retrica espontnea. Como diz Rousseau, falou-se dos gigantes, sem
dvida, antes de se designarem os homens97. Designaram-se primeiramente
os barcos por suas velas, e a alma, a "Psique", recebeu primitivamente a
figura de uma borboleta98.          De sorte que, no mago da linguagem
falada como da escrita, o que se descobre  o espao retrico das
palavras: esta [pg. 161] liberdade que o signo tem de vir colocar-se,
segundo a anlise da representao, sobre um elemento interno, sobre um
ponto de sua vizinhana, sobre uma figura anloga. E se as lnguas tm a
diversidade que constatamos, se, a partir de designaes primitivas que,
sem dvida, foram comuns por causa da universalidade da natureza humana,
no cessaram de se desenvolver segundo formas diferentes, se tiveram
cada qual sua histria, seus modos, seus hbitos, seus esquecimentos, 
porque as palavras tm seu lugar no no tempo, mas num espao onde podem
encontrar o seu local de origem, deslocar-se, voltar-se sobre si mesmas,
e desenvolver lentamente toda uma curva: um espao tropolgico.
Atinge-se, assim, aquilo mesmo que servira de ponto de partida para a
reflexo sobre a linguagem. Entre todos os signos, a linguagem tinha a
propriedade de ser sucessiva: no porque ela prpria tivesse pertencido
a uma cronologia, mas porque estendia em sonoridades sucessivas a
simultaneidade da representao. Mas essa sucesso, que analisa e faz
surgir uns aps outros elementos descontnuos, percorre o espao que a
representao oferece ao olhar do esprito. De sorte que a linguagem no
faz mais que colocar numa ordem linear as disperses representadas. A
proposio desdobra e faz ouvir a largura que a retrica torna sensvel
ao olhar. Sem esse espao tropolgico, a linguagem no seria formada de
todos esses nomes comuns que permitem estabelecer uma relao de
atribuio. E, sem essa anlise das palavras, as figuras teriam
permanecido mudas, instantneas e, apenas distinguidas na incandescncia
do instante, logo cairiam numa noite em que nem sequer existe tempo. 97
Rousseau. Essai sur l'origine des langues, pp. 152-3. 98      De
Brosses. Trait de la pronunciation mcanique, p. 267.      Desde a
teoria da proposio at a da derivao, toda a reflexo clssica da
linguagem -- tudo isso a que se chamou "gramtica geral" -- no  mais
que o denso comentrio desta simples frase: "A linguagem analisa." Nisto
 que foi abalada, [pg. 162] no sculo XVII, toda a experincia
ocidental da linguagem -- ela, que at ento sempre acreditara que a
linguagem falava.                    VII. O quadriltero da linguagem
Algumas observaes para terminar. As quatro teorias -- da proposio,
da articulao, da designao e da derivao -- formam como que os
segmentos de um quadriltero. Opem-se duas a duas e duas a duas se
apiam. A articulao  o que d contedo  pura forma verbal, vazia
ainda, da proposio; preenche-a, mas a ela se ope como uma nomeao
que diferencia as coisas se ope  atribuio que as religa. A teoria da
designao manifesta o ponto de ligao de todas as formas nominais que
a articulao recorta; mas ope-se a esta como a designao instantnea,
gestual, perpendicular se ope ao recorte das generalidades. A teoria da
derivao mostra o movimento contnuo das palavras a partir de sua
origem, mas o desvio na superfcie da representao se ope ao liame
nico e estvel que liga uma raiz a uma representao. Enfim, a
derivao retorna  proposio, pois que sem ela a designao
permaneceria dobrada sobre si prpria e no poderia adquirir essa
generalidade que autoriza um lao de atribuio; contudo a derivao se
faz segundo uma figura espacial, enquanto a proposio se desenrola
segundo uma ordem sucessiva.       preciso notar que, entre os vrtices
opostos desse retngulo, existem como que relaes diagonais. Primeiro
entre articulao e derivao: se pode haver uma linguagem articulada,
com palavras que se justapem, ou se encaixam ou se ordenam umas s
outras,  na medida em que, a partir de seu valor de origem e do ato
simples de designao que as [pg. 163] fundou, as palavras no cessaram
de derivar, adquirindo uma extenso varivel; da um eixo que atravessa
todo o quadriltero da linguagem;  ao longo dessa linha que se fixa o
estado de uma lngua: suas capacidades de articulao so prescritas
pelo ponto de derivao ao qual ela chegou; a se definem, ao mesmo
tempo, sua postura histrica e seu poder de discriminao. A outra
diagonal vai da proposio  origem, isto , da afirmao envolvida em
todo ato de julgar  designao implicada em todo ato de nomear;  ao
longo desse eixo que se estabelece a relao das palavras com o que
representam: mostra-se a que as palavras jamais dizem seno o ser da
representao, mas nomeiam sempre algo de representado. A primeira
diagonal marca o progresso da linguagem em seu poder de especificao; a
segunda, o enredamento indefinido entre a linguagem e a representao --
o desdobramento que faz com que o signo verbal represente sempre uma
representao. Nesta ltima linha, a palavra funciona como substituto
(com seu poder de representar); na primeira, como elemento (com seu
poder de compor e de decompor).      No ponto de cruzamento dessas duas
diagonais, no centro do quadriltero, ali onde o desdobramento da
representao se descobre como anlise e onde o substituto tem o poder
de repartir, ali onde se alojam, por conseguinte, a possibili- dade e o
princpio de uma taxinomia geral da representao, ali h o nome. Nomear
, ao mesmo tempo, dar a representao verbal de uma representao e
coloc-la num quadro geral. Toda a teoria clssica da linguagem se
organiza em torno desse ser privilegiado e central. Nele se cruzam todas
as funes da linguagem, pois  por ele que as representaes podem vir
a figurar numa proposio. Portanto,  por ele tambm que o discurso se
articula com o conhecimento.  claro que s o juzo pode ser verdadeiro
ou falso. Porm, se [pg. 164] todos os nomes fossem exatos, se a
anlise em que repousam fosse perfeitamente refletida, se a lngua fosse
"bem-feita", no haveria nenhuma dificuldade para pronunciar juzos
verdadeiros, e o erro, no caso em que ocorresse, seria to fcil de
desvendar e to evidente quanto num clculo algbrico. Mas a imperfeio
da anlise e todos os desvios da derivao impuseram nomes a anlises, a
abstraes ou a combinaes ilegtimas. O que no teria inconveniente
(como emprestar um nome aos monstros da fbula), se a palavra no se
apresentasse como representao de uma representao: de sorte que no
se pode pensar uma palavra -- por mais abstrata, geral e vazia que seja
-- sem afirmar a possibilidade daquilo que ela representa.  por isso
que, no meio do quadriltero da linguagem, o nome aparece a um tempo
como o ponto para o qual convergem todas as estruturas da lngua ( sua
figura mais ntima, a mais bem protegida, o puro resultado interior de
todas as suas convenes, de todas as suas regras, de toda a sua
histria) e como o ponto a partir do qual toda a linguagem pode entrar
numa relao com a verdade pela qual ser julgada.      A se trava toda
a experincia clssica da linguagem: o carter reversvel da anlise
gramatical que , num s movimento, cincia e prescrio, estudo das
palavras e regra para constru-las, utiliz-las, reform-las na sua
funo representativa; o nominalismo fundamental da filosofia desde
Hobes at a Ideologia, nominalismo que no  separvel de uma crtica da
linguagem e de toda essa desconfiana em relao s palavras gerais e
abstratas que se encontra em Malebranche, em Berkeley, em Condillac e em
Hume; a grande utopia de uma linguagem perfeitamente transparente em que
as prprias coisas seriam nomeadas sem confuso, quer por um sistema
totalmente arbitrrio mas exatamente refletido (lngua artificial),
[pg. 165] quer por uma linguagem to natural que traduzisse o
pensamento como o rosto quando exprime uma paixo ( com essa linguagem
feita de signos imediatos que Rousseau sonhou no primeiro de seus
Dilogos). Pode-se dizer que  o Nome que organiza todo o discurso
clssico; falar ou escrever no  dizer as coisas ou se exprimir, no 
jogar com a linguagem,  encaminhar-se em direo ao ato soberano de
nomeao,  ir, atravs da linguagem, at o lugar onde as coisas e as
palavras se ligam em sua essncia comum, e que permite dar-lhes um nome.
Mas, uma vez enunciado esse nome, toda a linguagem que a ele conduziu ou
que se atravessou para atingi-lo, nele se reabsorve e se desvanece. De
sorte que, em sua essncia profunda, o discurso clssico tende sempre a
esse limite; mas s subsiste se o recuar. Ele caminha no adiamento
incessantemente mantido do Nome.  por isso que, em sua possibilidade
mesma, est ligado  retrica, isto , a todo esse espao que rodeia o
nome, f-lo oscilar em torno daquilo que ele representa, deixa aparecer
os elementos ou a vizinhana ou as analogias daquilo que ele nomeia. As
figuras que o discurso atravessa asseguram o retardamento do nome, que
vem no ltimo momento preench-las e aboli-las. O nome  o termo do
discurso. E talvez toda a literatura clssica resida nesse espao, nesse
movimento para atingir um nome sempre temvel porque mata, ao mesmo
tempo que esgota, a possibilidade de falar.  esse movimento que
conduziu a experincia da linguagem desde a confisso to discreta da
Princesse de Clves at a imediata violncia de Juliette. Aqui, a
nomeao se oferece enfim na sua mais simples nudez, e as figuras da
retrica, que at ento a mantinham em suspenso, oscilam e se tornam as
figuras indefinidas do desejo que os mesmos nomes sempre repetidos se
exaurem em percorrer, sem que jamais lhes seja dado atingir-lhes o
limite. [pg. 166]      Toda a literatura clssica se aloja no movimento
que vai da figura do nome ao prprio nome, passando da tarefa de nomear
ainda a mesma coisa por novas figuras ( o preciosismo)  de nomear por
palavras enfim precisas o que jamais o fora ou permanecera adormecido
nas dobras de longnquas palavras: tais como esses segredos da alma,
essas impresses nascidas no limite das coisas e do corpo, para as quais
a linguagem da Cinquime promenade tornou-se espontaneamente lmpida. O
romantismo acreditar ter rompido com a era precedente, porque ter
aprendido a nomear as coisas por seu nome. Na verdade, todo o
classicismo tendia a isso: Hugo cumpriu a promessa de Voiture. Mas por
isso mesmo o nome deixa de ser a recompensa da linguagem; torna-se sua
enigmtica matria. O nico momento -- intolervel e por longo tempo
enterrado no segredo -- em que o nome foi ao mesmo tempo realizao e
substncia da linguagem, promessa e matria bruta, deu-se quando, com
Sade, foi ele atravessado em toda a sua extenso pelo desejo, do qual
era o lugar de apario, a saciedade e o indefinido recomeo. Da o fato
de que a obra de Sade desempenhe em nossa cultura o papel de um
incessante murmrio primordial. Com essa violncia do nome enfim
pronunciado por si mesmo, a linguagem emerge na sua brutalidade de
coisa; as outras "partes da orao", por sua vez, ganham autonomia,
escapam  soberania do nome, deixam de formar em torno dele uma ronda
acessria de ornamentos. E, visto que no h mais beleza singular em
"reter" a linguagem em torno e  margem do nome, em faz-la mostrar o
que ela no diz, haver um discurso no-discursivo, cujo papel
consistir em manifestar a linguagem em seu ser bruto.  a esse ser
prprio da linguagem que o sculo XIX chamar o Verbo (por oposio ao
"verbo" dos clssicos, cuja funo  vincular, discreta mas
continuamente, [pg. 167] a linguagem ao ser da representao). E o
discurso que detm esse ser e o libera para ele prprio  a literatura.
Em torno desse privilgio clssico do nome, os segmentos tericos
(proposio, articulao, designao e derivao) definem a moldura do
que foi ento a experincia da linguagem. Analisando-os passo a passo,
no se tratava de fazer uma histria das concepes gramaticais dos
sculos XVII e XVIII, nem de estabelecer o perfil geral daquilo que os
homens puderam pensar a propsito da linguagem. Tratava-se de determinar
sob que condies a linguagem podia tornar-se objeto de um saber e entre
que limites se desdobrava esse domnio epistemolgico. No calcular o
denominador comum das opinies, mas definir a partir de que era possvel
haver opinies -- tais ou quais -- sobre a linguagem.  por isso que
esse retngulo desenha mais uma periferia que uma largura interior, e
mostra de que modo a linguagem se imbrica com o que lhe  exterior e
indispensvel. Viu-se que s havia linguagem em virtude da proposio:
sem a presena, ao menos implcita, do verbo ser e da relao de
atribuio que ele autoriza, no se est lidando com linguagem mas com
signos iguais aos outros. A forma proposicional estabelece como condio
da linguagem a afirmao de uma relao de identidade ou de diferena:
s se fala na medida em que essa relao  possvel. Mas os outros trs
segmentos tericos envolvem uma exigncia totalmente diversa: para que
haja derivao das palavras a partir de sua origem, para que j haja
pertena originria de uma raiz  sua significao, para que haja,
enfim, um recorte articulado das representaes,  preciso haver, desde
a mais imediata experincia, um rumor analgico das coisas, semelhanas
que se do de incio. Se tudo fosse absoluta diversidade, o pensamento
seria votado  singularidade, e, como a esttua de Condillac antes de
ter comeado a se lembrar e a comparar, seria ele votado [pg. 168] 
disperso absoluta e  absoluta monotonia. No haveria nem memria nem
imaginao possveis, nem, por conseqncia, reflexo. E seria
impossvel comparar as coisas entre si, definir-lhes os traos idnticos
e fundar um nome comum. No haveria linguagem. Se a linguagem existe 
que, por sob identidades e diferenas, h o fundo das continuidades, das
semelhanas, das repeties, dos entrecruzamentos naturais. A
semelhana, que  excluda do saber desde o comeo do sculo XVII,
constitui sempre a orla exterior da linguagem: o anel que contorna o
domnio daquilo que se pode analisar, pr em ordem e conhecer.  o
murmrio que o discurso dissipa, mas sem o qual ele no poderia falar.
Pode-se apreender agora qual seja a unidade slida e cerrada da
linguagem na experincia clssica.  ela que, pelo jogo de uma
designao articulada, faz entrar a semelhana na relao proposicional.
Quer dizer, num sistema de identidades e de diferenas, tal como 
fundado pelo verbo ser e manifestado pela rede dos nomes. A tarefa
fundamental do "discurso" clssico consiste em atribuir um nome s
coisas e com esse nome nomear o seu ser. Durante dois sculos, o
discurso ocidental foi o lugar da ontologia. Quando ele nomeava o ser de
toda representao em geral, era filosofia: teoria do conhecimento e
anlise das idias. Quando atribua a cada coisa representada o nome que
convinha e, sobre todo o campo da representao, dispunha a rede de uma
lngua bem-feita, era cincia -- nomenclatura e taxinomia. [pg. 169]
CAPTULO V CLASSIFICAR                      I. O que dizem os
historiadores      As histrias das idias ou das cincias -- aqui
designadas somente pelo seu perfil mdio -- imputam ao sculo XVII, e
sobretudo ao sculo XVIII, uma curiosidade nova: aquela que os fez, se
no descobrir, pelo menos dar uma amplitude e uma preciso at ento
insuspeitadas s cincias da vida. A esse fenmeno atribuem-se
tradicionalmente um certo nmero de causas e vrias manifestaes
essenciais.      Do lado das origens ou dos motivos, colocam-se os
privilgios novos da observao: os poderes que lhe seriam atribudos
desde Bacon e os aperfeioamentos tcnicos que lhe teria ocasionado a
inveno do microscpio. Arrola-se a igualmente o prestgio ento
recente das cincias fsicas, que forneciam um modelo de racionalidade;
desde que foi possvel, pela experimentao e pela teoria, analisar as
leis do movimento ou as do reflexo do raio luminoso, no seria normal
buscar, por experincias, observaes ou clculos, as leis que poderiam
organizar o domnio mais complexo, mas vizinho, [pg. 171] dos seres
vivos? O mecanismo cartesiano, que constituiu mais tarde um obstculo,
teria sido primeiro como que o instrumento de uma transferncia, e teria
conduzido, um pouco  sua revelia, da racionalidade mecnica 
descoberta desta outra racionalidade que  a do ser vivo. Os
historiadores das idias colocam um tanto confusamente, ainda do lado
das causas, preocupaes diversas: o interesse econmico pela
agricultura, de que a Fisiocracia foi um testemunho, mas tambm os
primeiros esforos de uma agronomia; a meio caminho entre a economia e a
teoria, a curiosidade pelas plantas e pelos animais exticos que se
tenta aclimatar e dos quais as grandes viagens de pesquisa ou de
explorao -- a de Tournefort ao Oriente Mdio, a de Adanson ao Senegal
-- trazem descries, gravuras e espcimes: e sobretudo ainda, a
valorizao tica da natureza, com todo esse movimento a princpio
ambguo, pelo qual se "investem" -- quer se seja aristocrata ou burgus
-- dinheiro e sentimento numa terra que, por longo tempo, as pocas
precedentes haviam abandonado. No corao do sculo XVIII, Rousseau
herboriza.      No registro das manifestaes, os historiadores
assinalam, em seguida, as formas variadas que assumiram essas cincias
novas da vida e o "esprito", por assim dizer, que as dirigiu. Elas
teriam sido mecanicistas, de incio, sob a influncia de Descartes, e
at o fim do sculo XVII; os primeiros esforos de uma qumica apenas
esboada as teriam ento marcado, mas, durante todo o sculo XVIII, os
temas vitalistas teriam assumido ou reassumido seu privilgio, para se
formularem, enfim, numa teoria unitria -- esse vitalismo que, sob
formas um pouco diferentes, Bordeu e Barthez professam em Montpellier,
Blumenbach, na Alemanha, Diderot e depois Bichat, em Paris. Sob esses
diferentes regimes tericos, questes quase sempre as mesmas teriam sido
colocadas, [pg. 172] recebendo a cada vez solues diferentes:
possibilidade de classificar os seres vivos -- s uns, como Lineu,
sustentando que toda a natureza pode entrar numa taxinomia; outros, como
Buffon, que ela  demasiado diversa e demasiado rica para ajustar-se a
um quadro to rgido; processo da gerao para aqueles, mais
mecanicistas, que so partidrios da pr- formao, e outros que crem
num desenvolvimento especfico dos germens; anlise dos funcionamentos
(a circulao, aps Harvey, a sensao, a motricidade e, no final do
sculo, a respirao).      Atravs desses problemas e das discusses
que eles suscitam, torna-se um jogo para os historiadores reconstituir
os grandes debates que, como se diz, dividiram a opinio e as paixes
dos homens, assim como seu raciocnio. Cr-se assim reencontrar
vestgios de um conflito maior entre uma teologia que aloja, sob cada
forma e em todos os movimentos, a providncia de Deus, a simplicidade, o
mistrio e a solicitude de suas vias e uma cincia que j busca definir
a autonomia da natureza. Depara-se tambm com a contradio entre uma
cincia demasiado arraigada ao velho primado da astronomia, da mecnica
e da ptica e uma outra que j suspeita sobre o que pode haver de
irredutvel e de especfico nos domnios da vida. Enfim, os
historiadores vem delinear-se, como que sob seus olhos, a oposio
entre os que crem na imobilidade da natureza --  maneira de Tournefort
e sobretudo Lineu -- e os que, como Bonnet, Benot de Maillet e Diderot,
j pressentem a grande potncia criadora da vida, seu inesgotvel poder
de transformao, sua plasticidade e esse fluxo no qual ela envolve
todas as suas produ- es, inclusive ns mesmos, num tempo de que
ningum  senhor. Bem antes de Darwin e bem antes de Lamarck, o grande
debate do evolucionismo teria sido aberto pelo Telliamed, [pg. 173] a
Palingnesie e o Rve de D'Alembert. O mecanicismo e a teologia,
apoiados um no outro ou contestando-se incessantemente, manteriam a
idade clssica o mais prximo possvel de sua origem -- do lado de
Descartes e de Malebranche; do outro lado, a irreligio e toda uma
intuio confusa da vida, por sua vez em conflito (como em Bonnet) ou em
cumplicidade (como em Diderot), a atrairiam em direo ao seu mais
prximo futuro: em direo ao sculo XIX, que se supe ter fornecido s
tentativas ainda obscuras e amarradas do sculo XVIII sua realizao
positiva e racional numa cincia da vida, que no teve necessidade de
sacrificar a racionalidade para manter, no mais vivo de sua conscincia,
a especificidade do ser vivo e esse calor um pouco subterrneo que
circula entre ele -- objeto de nosso conhecimento -- e ns, que estamos
a para conhec-lo.      Intil voltar aos pressupostos de tal mtodo.
Basta mostrar aqui suas conseqncias: a dificuldade de apreender a rede
capaz de ligar, umas s outras, pesquisas to diversas como as
tentativas de taxinomia e as observaes microscpicas; a necessidade de
registrar como fatos de observao os conflitos entre os fixistas e os
que no o so, ou entre os partidrios do mtodo e os partidrios do
sistema; a obrigao de dividir o saber em duas tramas que se imbricam,
embora estranhas uma  outra: a primeira, definida pelo saber j
acumulado (a herana aristotlica ou escolstica, o peso do
cartesianismo, o prestgio de Newton), a segunda, pelo que ainda se
ignorava (a evoluo, a especificidade da vida, a noo de organismo);
e, sobretudo, a aplicao de catego- rias que so rigorosamente
anacrnicas em relao a esse saber. De todas, a mais importante 
evidentemente a de vida. Pretende-se fazer histrias da biologia no
sculo XVIII; mas no se tem em conta que a biologia no existia e que a
[pg. 174] repartio do saber que nos  familiar h mais de 150 anos
no pode valer para um perodo anterior. E que, se a biologia era
desconhecida, o era por uma razo bem simples:  que a prpria vida no
existia. Existiam apenas seres vivos e que apareciam atravs de um crivo
do saber constitudo pela histria natural.
II. A histria natural      Como pde a idade clssica definir esse
domnio da "histria natural", cuja evidncia hoje e cuja unidade mesma
nos parecem to longnquas e como que j confusas? Que campo  esse em
que a natureza apareceu prxima de si mesma o bastante para que os
indivduos que ela envolve pudessem ser classificados, e suficientemente
afastada de si, para que o devessem ser pela anlise e pela reflexo?
Tem-se a impresso -- e diz-se com muita freqncia -- que a histria da
natureza deve seu aparecimento ao malogro do mecanicismo cartesiano.
Quando finalmente se revelou impossvel fazer entrar o mundo inteiro nas
leis do movimento retilneo, quando a complexidade do vegetal e do
animal resistiu suficientemente s formas simples da substncia extensa,
ento foi necessrio que a natureza se mani- festasse em sua estranha
riqueza; e a minuciosa observao dos seres vivos teria nascido nessas
plagas, de onde o cartesianismo acabava de se retirar. Infelizmente as
coisas no se passam com essa simplicidade. Pode ser -- e isto ainda
estaria por examinar -- que uma cincia nasa de outra; jamais, porm,
uma cincia pode nascer da ausncia de outra, nem do fracasso, nem mesmo
do obstculo encontrado por outra. De fato, a possibilidade da histria
natural, com Ray, Jonston, [pg. 175] Christophe Knaut,  contempornea
do cartesianismo e no do seu fracasso. A mesma epistm autorizou tanto
a mecnica, desde Descartes at D'Alembert quanto a histria natural de
Tournefort a Daubenton.      Para que a histria natural aparecesse, no
foi preciso que a natureza se adensasse, se obscurecesse e multiplicasse
seus mecanismos, at adquirir o peso opaco de uma histria que apenas se
pode delinear e descrever, sem se poder medir, calcular nem explicar:
foi preciso -- e muito ao contrrio -- que a Histria se tornasse
Natural. O que existia no sculo XVI e at meados do sculo XVII eram
histrias: Belon escrevera uma Histria da natureza das aves; Duret, uma
Histria admirvel das plantas; Aldrovandi, uma Histria das serpentes e
dos drages. Em 1657, Jonston publica uma Histria natural dos
quadrpedes. Certamente essa data de nascimento no  rigorosa1; est
aqui somente para simbolizar uma referncia e assinalar de longe o
enigma aparente de um acontecimento. Esse acontecimento  a sbita
decantao, no domnio da Histria, de duas ordens, doravante
diferentes, de conhecimento. At Aldrovandi, a Histria era o tecido
inextrincvel e perfeitamente unitrio daquilo que se v das coisas e de
todos os signos que foram nelas descober- tos ou nelas depositados:
fazer a histria de uma planta ou de um animal era tanto dizer quais so
seus elementos ou seus rgos, quanto as semelhanas que se lhe podem
encontrar, as virtudes que se lhe atribuem, as lendas e as histrias com
que se misturou, os brases onde figura, os medicamentos que se fabricam
com sua substncia, os alimentos que ele fornece, o que os antigos
relatam dele, o que os viajantes dele podem dizer. A histria de um ser
vivo era esse ser mesmo, no [pg. 176] interior de toda a rede semntica
que o ligava ao mundo. A diviso, para ns evidente, entre o que vemos,
o que os outros observaram e transmitiram, o que os outros enfim
imaginam ou em que crem ingenuamente, a grande tripartio,
aparentemente to simples e to imediata, entre a Observao, o
Documento e a Fbula no existia. E no porque a cincia hesitasse entre
uma vocao racional e todo um peso de tradio ingnua, mas por uma
razo bem mais precisa e bem mais constringente  que os signos faziam
parte das coisas, ao passo que no sculo XVII eles se tornam modos da
representao.         Quando Jonston escreveu sua Histria natural dos
quadrpedes, saberia ele a respeito mais que Aldrovandi, meio sculo
antes? No muito, afirmam os historiadores. Mas a questo no est a
ou, se se quiser coloc-la nesses termos,  preciso responder que
Jonston sabe a respeito muito menos que Aldrovandi. Este, a propsito de
todo animal estudado, desenvolvia, e no mesmo nvel, a descrio de sua
anatomia e as maneiras de captur-lo; sua utilizao alegrica e seu
modo de gerao; seu habitat e os templos de suas lendas; sua nutrio e
a melhor maneira de torn-lo saboroso. Jonston subdivide seu captulo
sobre o cavalo em 12 rubricas: nome, partes anatmicas, habitao,
idades, gerao, vozes, movimentos, simpatia e 1     J. Ray, em 1686,
escreveu ainda uma Historia plantarum generalis. antipatia, utilizaes,
usos medicinais2. Nada disso faltava em Aldrovandi, mas havia muito
mais. E a diferena essencial reside nessa falta. Toda a semntica
animal ruiu como uma parte morta e intil. As palavras que eram
entrelaadas ao animal foram desligadas e subtradas: e o ser vivo, em
sua anatomia, em sua forma, em seus costumes, em seu nascimento e em sua
morte, aparece [pg. 177] como que nu. A histria natural encontra seu
lugar nessa distncia agora aberta entre as coisas e as palavras --
distncia silenciosa, isenta de toda sedimentao verbal e, contudo,
articulada segundo os elementos da representao, aqueles mesmos que, de
pleno direito, podero ser nomeados. As coisas beiram as margens do
discurso, porque aparecem no mago da representao. Portanto, no  no
momento em que se renuncia a calcular que se comea enfim a observar. Na
constituio da histria natural, com o clima emprico em que se
desenvolve, no se deve ver a experincia forando, bem ou mal, o acesso
de um conhecimento que espreitava alhures a verdade da natureza; a
histria natural -- eis por que ela apareceu precisamente nesse momento
--  o espao aberto na representao por uma anlise que se antecipa 
possibilidade de nomear;  a possibilidade de ver o que se poder dizer,
mas que no se poderia dizer depois, nem ver, a distncia, se as coisas
e as palavras, distintas umas das outras, no se comunicassem, desde o
incio, numa representao. A ordem descritiva que Lineu, bem aps
Jonston, propor  histria natural  muito caracterstica. Segundo ele,
todo captulo concernente a um animal qualquer deve ter os seguintes
passos: nome, teoria, gnero, espcie, atributos, uso e, para terminar,
Litteraria. Toda a linguagem depositada pelo tempo sobre as coisas 
repelida ao ltimo limite, como um suplemento em que o discurso se
relatasse a si mesmo e relatasse as descobertas, as tradies, as
crenas, as figuras poticas. Antes dessa linguagem da linguagem,  a
prpria coisa que aparece nos seus caracteres prprios, mas no interior
dessa realidade que, desde o incio, foi recortada pelo nome. A
instaurao, na idade clssica, de uma cincia natural no  o efeito
direto ou indireto da transferncia de uma racionalidade formada alhures
(a propsito da geometria ou da mecnica).  uma formao distinta,
tendo sua arqueologia prpria, ainda que [pg. 178] ligada (mas segundo
o modo da correlao e da simultaneidade)  teoria geral dos signos e ao
projeto de mthsis universal. 2     Jonston. Historia naturelis de
quadripedidus. Amsterdam, 1657, pp.1-11.      A velha palavra histria
muda ento de valor e reencontra talvez uma de suas significaes
arcaicas. Em todo o caso, se  verdade que o historiador, no pensamento
grego, foi realmente aquele que v e que narra a partir de seu olhar,
nem sempre foi assim em nossa cultura. Foi, alis, bem tarde, no limiar
da idade clssica, que ele tomou ou retomou esse papel. At meados do
sculo XVII, o historiador tinha por tarefa estabelecer a grande
compilao dos documentos e dos signos -- de tudo o que, atravs do
mundo, podia constituir como que uma marca. Era ele o encarregado de
restituir linguagem a todas as palavras encobertas. Sua existncia se
definia menos pelo olhar que pela repetio, por uma palavra segunda que
pronunciava de novo tantas palavras ensurdecidas. A idade clssica
confere  histria um sentido totalmente diferente: o de pousar pela
primeira vez um olhar minucioso sobre as coisas e de transcrever, em
seguida, o que ele recolhe em palavras lisas, neutralizadas e fiis.
Compreende-se que, nessa "purificao", a primeira forma de histria que
se constituiu tenha sido a histria da natureza. Pois, para
construir-se, ela tem necessidade apenas de palavras aplicadas sem
intermedirio s coisas mesmas. Os documentos dessa histria nova no
so outras palavras, textos ou arquivos, mas espaos claros onde as
coisas se justapem: herbrios, colees, jardins; o lugar dessa
histria  um retngulo intemporal, onde, despojados de todo comentrio,
de toda linguagem circundante, os seres se apresentam uns ao lado dos
outros, com suas superfcies visveis, aproximados segundo seus traos
comuns e, com isso, j virtualmente analisados e portadores apenas de
seu nome. Diz-se freqentemente que a constituio dos jardins botnicos
e das colees zoolgicas traduzia uma nova curiosidade para com [pg.
179] as plantas e os animais exticos. De fato, j desde muito eles
haviam suscitado interesse. O que mudou foi o espao em que podem ser
vistos e donde podem ser descritos. No Renascimento, a estranheza animal
era um espetculo; figurava nas festas, nos torneios, nos combates
fictcios ou reais, nas reconstituies lendrias, onde quer que o
bestirio desdobrasse suas fbulas sem idade. O gabinete de histria
natural e o jardim, tal como so organizados na idade clssica,
substituem o desfile circular do "mostrurio" pela exposio das coisas
em "quadro". O que se esgueirou entre esses teatros e esse catlogo no
foi o desejo de saber, mas um novo modo de vincular as coisas ao mesmo
tempo ao olhar e ao discurso. Uma nova maneira de fazer histria.
Sabe-se da importncia metodolgica que assumiram esses espaos e essas
distribuies "naturais" para a classificao, nos fins do sculo XVIII,
das palavras, das lnguas, das razes, dos documentos, dos arquivos, em
suma, para a constituio de todo um ambiente de histria (no sentido
agora familiar da palavra), em que o sculo XIX reencontrar, aps esse
puro quadro das coisas, a possibilidade renovada de falar sobre
palavras. E de falar sobre elas no mais no estilo do comentrio, mas
segundo um modo que se considerar to positivo, to objetivo quanto o
da histria natural.       A conservao cada vez mais completa do
escrito, a instaurao de arquivos, sua classificao, a reorganizao
das bibliotecas, o estabelecimento de catlogos, de repertrios, de
inventrios representam, no fim da idade clssica, mais que uma
sensibilidade nova ao tempo, ao seu passado,  espessura da histria,
uma forma de introduzir na linguagem j depositada e nos vestgios por
ela deixados uma ordem que  do mesmo tipo da que se estabelece entre os
seres vivos. E  nesse tempo classificado, nesse devir quadriculado e
espacializado [pg. 180] que os historiadores do sculo XIX se
empenharo em escrever uma histria enfim "verdadeira" -- isto ,
liberada da racionalidade clssica, de sua ordenao e de sua teodicia,
uma histria restituda  violncia irruptiva do tempo.
III. A estrutura       Assim disposta e entendida, a histria natural
tem por condio de possibilidade o pertencer comum das coisas e da
linguagem  representao; mas s existe como tarefa, na medida em que
coisas e linguagem se acham separadas. De- ver, pois, reduzir essa
distncia, para conduzir a linguagem o mais prximo possvel do olhar e,
as coisas olhadas, o mais prximo possvel das palavras. A histria
natural no  nada mais que a nomeao do visvel. Da sua aparente
simplicidade e esse modo de proceder que, de longe, parece ingnuo, por
ser to simples e imposto pela evidncia das coisas. Tem-se a impresso
de que, com Tournefort, com Lineu ou Buffon, se comeou enfim a dizer o
que desde sempre fora visvel mas permanecera mudo ante uma espcie de
distrao invencvel dos olhares. De fato, no foi uma desateno
milenar que subitamente se dissipou, mas um campo novo de visibilidade
que se constituiu em toda a sua espessura.          A histria natural
no se tornou possvel porque se olhou melhor e mais de perto. Em
sentido estrito, pode-se dizer que a idade clssica se esforou, se no
por ver o menos possvel, pelo menos por restringir voluntariamente o
campo de sua experincia. A observao, a partir do sculo XVII,  um
conhecimento sensvel combinado com condies sistematicamente
negativas. Excluso, sem dvida, de ouvir-dizer; mas excluso tambm do
gosto e do sabor, porque com [pg. 181] sua incerteza, com sua
variabilidade, no permitem uma anlise em elementos distintos que seja
universalmente aceitvel. Limitao muito estreita do tato na designao
de algumas oposies bastante evidentes (como as do liso e do rugoso);
privilgio quase exclusivo da vista, que  o sentido da evidncia e da
extenso, e, por conseqncia, de uma anlise partes extra partes
admitida por todo o mundo: o cego do sculo XVIII pode perfeitamente ser
gemetra, no ser naturalista3. E, ainda, nem tudo o que se oferece ao
olhar  utilizvel: as cores, em particular, quase no podem fundar
comparaes teis. O campo de visibilidade onde a observao vai assumir
seus poderes no passa do resduo dessas excluses: uma visibilidade
que, alm de liberada de qualquer outra carga sensvel,  parda. Esse
campo, muito mais que o acolhimento enfim atento s prprias coisas,
define a condio de possibilidade da histria natural e do aparecimento
de seus objetos filtrados: linhas, superfcies, formas, relevos.
Dir-se- talvez que o uso do microscpio compensa essas restries; e
que, se a experincia sensvel se estreitava do lado de suas mais
duvidosas margens, estendia-se em direo aos objetivos novos de uma
observao tecnicamente controlada. De fato,  o mesmo conjunto de
condies negativas que limitou o domnio da experincia e tornou
possvel a utilizao de instrumentos de ptica. Para tentar melhor
observar atravs de uma lente,  preciso renunciar a conhecer pelos
outros sentidos ou pelo "ouvir-dizer". Uma mudana de escala ao nvel do
olhar deve ter mais valor que as correlaes entre os diversos
testemunhos que podem trazer [pg. 182] as impresses, as leituras ou as
lies. Se o encaixe indefinido do visvel em sua prpria extenso se
oferece melhor ao olhar pelo 3     Diderot. Lettre sur les aveugles. Cf.
Lineu. "Devem-se rejeitar... todas as notas acidentais que microscpio,
no  por isso superado. E a melhor prova est, sem dvida, em que os
instrumentos de ptica foram utilizados sobretudo para resolver os
problemas da gerao: isto , para descobrir de que modo as formas, as
disposies, as propores caractersticas dos indivduos adultos e de
sua espcie podem transmitir-se atravs das idades, conservando sua
rigorosa identidade. O microscpio no foi requerido para ultrapassar os
limites do domnio fundamental da visibilidade, mas para resolver um dos
problemas que ele levantava -- a manuteno, no curso das geraes, das
formas visveis. O uso do microscpio fundou-se numa relao no-
instrumental entre as coisas e os olhos. Relao que define a histria
natural. No dizia Lineu que os Naturalia, em oposio aos Coelestia e
aos Elementa, eram destinados a se oferecer diretamente aos sentidos?4 E
Tournefort pensava que, para conhecer as plantas, "antes que escrutar
cada uma de suas variaes com um escrpulo religioso", valia mais
analis-las "tais como caem sob os olhos"5.          Observar , pois,
contentar-se com ver. Ver sistematicamente pouca coisa. Ver aquilo que,
na riqueza um pouco confusa da representao, pode ser analisado,
reconhecido por todos e receber, assim, um nome que cada qual poder
entender: "Todas as similitudes obscuras", diz Lineu, "s so
introduzidas [pg. 183] para desprestgio da arte"6. Desenvolvidas elas
prprias, esvaziadas de todas as semelhanas, depuradas at mesmo de
suas cores, as representaes visuais vo enfim oferecer  histria
natural o que constitui seu objeto prprio: aquilo mesmo que ela far
passar para essa lngua bem-feita que ela pretende construir. Esse
objeto  a extenso de que so constitudos os seres da natureza --
extenso que pode ser afetada por quatro variveis. E somente por quatro
variveis: forma dos elementos, quantidade desses elementos, maneira
como eles se distribuem no espao uns em relao aos outros, grandeza
relativa de cada um. Como dizia Lineu, num texto capital, "toda nota
deve ser tirada do numero, da figura, da proporo, da situao"7. no
existam na Planta nem para o olho, nem para o tato." (Philosophie
botanique, p. 258.) 4     Lineu. Systema naturae, p. 214. Sobre a
utilidade limitada do microscpio, cf. ibid., pp. 220-1 5  Tournefort.
Isagoge in rem herbariam, 1719. Traduo in Becker-Tournefort. Paris,
1956, p. 295. Buffon reprova o mtodo de Lineu por repousar sobre
caracteres to tnues que obriga a utilizar o microscpio. De um
naturalista a outro, a reprovao, por se servir de um instrumento de
ptica, tem valor de objeo terica. 6     Lineu. Philosophie
botanique,  299. 7     Id., ibid.,  167, cf. tambm 327 Por exemplo,
quando se estudarem os rgos sexuais planta ser suficiente, mas
indispensvel, enumerar estames e pistilo (ou eventualmente constatar
sua ausncia), definir a forma que eles mostram, segundo qual figura
geomtrica so distribudos na flor (circulo, hexgono, tringulo), qual
o seu tamanho em relao aos outros rgos. Essas quatro variveis, que
se podem aplicar da mesma forma s cinco partes da planta -- razes,
caules, folhas, flores, frutos -- especificam a extenso que se oferece
 representao, o bastante para que seja possvel articul-la numa
descrio aceitvel por todos: perante o mesmo indivduo, cada qual
poder fazer a mesma descrio; e, inversamente, a partir de tal
descrio, cada um poder reconhecer os indivduos que a ela
correspondem. Nessa articulao fundamental do visvel, o primeiro
afrontamento entre a linguagem e as coisas poder estabelecer-se de uma
forma que exclui toda incerteza.         Cada parte visivelmente
distinta de uma planta ou de um animal , portanto, descritvel na
medida em que pode tomar [pg. 184] quatro sries de valores. Esses
quatro valores, que afetam um rgo ou elemento qualquer e o determinam,
 o que os botnicos denominam sua estrutura. "Por estruturas das partes
das plantas entende-se a composio e a reunio das peas que formam seu
corpo."8 Ela permite descrever logo o que se v e de duas maneiras que
no so nem contraditrias nem exclusivas. O nmero e a grandeza podem
sempre ser assinalados por um clculo ou por uma medida; podemos, pois,
exprimi-los em termos quantitativos. Em contrapartida, as formas e as
disposies devem ser descritas por outros procedimen- tos: quer pela
identificao a formas geomtricas, quer por analogias que devem ser,
todas elas, "da maior evidncia"9.  assim que se podem descrever certas
formas bastante complexas a partir de sua semelhana muito visvel com o
corpo humano, que serve como que de reserva aos modelos da visibilidade
e constituiu espontaneamente juntura entre o que se pode ver e o que se
pode dizer10.         Limitando e filtrando o visvel, a estrutura lhe
permite transcrever-se na linguagem. Por ela, a visibilidade do animal
ou da planta passa por inteiro para o 8     Tournefort. lments de
botanique, p. 558. 9     Lineu. Philosophie botanique,  299. 10   Lineu
(Philosophie botanique,  331) enumera as partes do corpo humano que
podem servir de arqutipos, quer para as dimenses, quer sobretudo para
as formas: cabelos, unhas, polegares, palmas, olho, orelha, dedo,
umbigo, pnis, vulva, mama. discurso que a recolhe. E, no final, talvez
lhe ocorra restituir-se ela prpria ao olhar, atravs das palavras, como
nesses caligramas botnicos com que sonhava Lineu11. Ele queria que a
ordem da descrio, sua repartio em pargrafos e at seus mdulos
tipogrficos reproduzissem a figura da prpria planta. Que o [pg. 185]
texto, nas suas variveis de forma, de disposio e de quantidade,
tivesse uma estrutura vegetal. " belo seguir a natureza: passar da Raiz
aos Caules, aos Pecolos, s Folhas, aos Pednculos, s Flores." Era
preciso que se separasse a descrio em tantas alneas quantas so as
partes da planta, que se imprimisse em caracteres maisculos o que
concerne s partes principais, em minsculos, a anlise das "partes das
partes". Acrescentar-se-ia o que se conhece ainda da planta  maneira de
um desenhista que complete seu esboo por jogos de sombra e de luz: "O
bosquejo conter exatamente toda a histria da planta, assim como seus
nomes, sua estrutura, seu conjunto exterior, sua natureza, seu uso."
Transposta na linguagem, a planta vem nela gravar-se e, sob os olhos do
leitor, recompe sua pura forma. O livro torna-se o herbrio das
estruturas. E no se diga tratar-se de devaneio de um partidrio do
sistema que no representa a histria natural em toda a sua extenso. Em
Buffon, que foi adversrio constante de Lineu, a mesma estrutura existe
e desempenha o mesmo papel: "O mtodo de investigao se exercer sobre
a forma, sobre a grandeza, sobre as diferentes partes, sobre seu nmero,
sobre sua posio, sobre a substncia mesma da coisa."12 Buffon e Lineu
estabelecem o mesmo crivo; seu olhar ocupa sobre as coisas a mesma
superfcie de contato; os mesmos vos negros configuram o invisvel; as
mesmas plagas, claras e distintas, oferecem-se s palavras.
Pela estrutura, aquilo que a representao fornece confusamente e na
forma da simultaneidade acha-se assim analisado e oferecido ao
desdobramento linear da linguagem. Com efeito, a descrio est para o
objeto que se olha como a proposio est para a representao que ela
exprime: constitui [pg. 186] sua colocao em srie, elementos aps
elementos. Recorde-se, porm, que a linguagem sob sua forma emprica
implicava uma teoria da proposio e outra da articulao. Em si mesma,
a proposio permanecia vazia; quanto  articulao, s constitua
verdadeiramente 11      Id., ibid., pp. 328-9. 12      Buffon. Manire
de traiter l `histoire naturelle. In: Oeuvres completes, t. I,p. 21.
discurso sob a condio de ser ligada pela funo aparente ou secreta do
verbo ser. A histria natural  uma cincia, isto , uma lngua, mas
fundada e bem-feita: seu desdobramento proposicional , de pleno
direito, uma articulao; a colocao em srie linear dos elementos
recorta a representao segundo um modo que  evidente e universal.
Enquanto uma mesma representao pode dar lugar a um nmero considervel
de proposies, pois os nomes que a preenchem a articulam segundo modos
diferentes, um nico e mesmo animal, uma nica e mesma planta sero
descritos da mesma forma, na medida em que da representao  linguagem
reina a estrutura. A teoria da estrutura, que percorre, em toda a sua
extenso, a histria natural na idade clssica superpe, numa nica e
mesma funo, os papis que, na linguagem, desempenham a proposio e a
articulao.          E  por a que ela liga a possibilidade de uma
histria natural  mthsis. Com efeito, ela remete todo o campo do
visvel a um sistema de variveis, cujos valores podem todos ser
assinalados, se no por uma quantidade, ao menos por uma descrio
perfeitamente clara e sempre finita. Pode-se, por conseguinte,
estabelecer entre os seres naturais o sistema das identidades e a ordem
das diferenas. Adanson estimava que um dia se poderia tratar a Botnica
como uma cincia rigorosamente matemtica e que seria lcito
formular-lhe problemas como se faz em lgebra ou em geometria:
"encontrar o ponto mais sensvel que estabelece a linha de separao ou
de discusso entre a famlia das escabiosas e a das madressilvas"; [pg.
187] ou, ainda, encontrar um gnero de plantas conhecido (natural ou
artificial, no importa) que est justamente no meio-termo entre a
famlia das Apocinceas e a das Boraginceas13. A grande proliferao
dos seres na superfcie do globo pode entrar, graas  estrutura, ao
mesmo tempo na sucesso de uma linguagem descritiva e no campo de uma
mthsis que seria cincia geral da ordem. E essa relao constitutiva,
to complexa, instaura-se na simplicidade aparente de um visvel
descrito.          Tudo isso  de grande importncia para a definio da
histria natural quanto ao seu objeto. Este  dado por superfcies e
linhas, no por funcionamentos ou invisveis tecidos. Vem-se menos a
planta e o animal em sua unidade orgnica que pelo recorte visvel de
seus rgos. Eles so patas e cascos, flores e frutos, antes de 13
Adanson. "Prefcio". In: Famille des plantes, I, p. CCI. serem
respirao ou lquidos internos. A histria natural percorre um espao
de variveis visveis, simultneas, concomitantes, sem relao interna
de subordinao ou de organizao. Nos sculos XVII e XVIII, a anatomia
perdeu o papel diretivo que tinha no Renascimento e que reencontrar na
poca de Cuvier; no que nesse nterim a curiosidade tenha diminudo,
nem o saber regredido, mas sim que a disposio fundamental do visvel e
do enuncivel no passa mais pela espessura do corpo. Da o primado
epistemolgico da botnica:  que o espao comum s palavras e s coisas
constitua para as plantas uma grade muito mais acolhedora, muito menos
"negra" que para os animais; na medida em que muitos rgos
constitutivos so visveis na planta e no o so nos animais, o
conhecimento taxinmico a partir de variveis imediatamente perceptveis
foi mais rico e mais coerente na ordem botnica que na ordem zoolgica.
 [pg. 188] preciso, pois, inverter o que se diz ordinariamente: no 
porque nos sculos XVII e XVIII houve interesse pela botnica que se
conduziu o exame para os mtodos de classificao. Mas porque no se
podia saber e dizer seno num espao taxinmico de visibilidade  que o
conhecimento das plantas devia realmente ter primazia sobre o dos
animais.      Jardins botnicos e gabinetes de histria natural eram, ao
nvel das instituies, os correlates necessrios desse recorte. E sua
importncia para a cultura clssica no lhes vem essencialmente do que
eles permitem ver, mas do que escondem e do que, por essa obliterao,
eles deixam surgir: disfaram a anatomia e o funcionamento, ocultam o
organismo, para suscitar, ante os olhos que esperam sua verdade, o
visvel relevo das formas, com seus elementos, seu modo de disperso e
suas medidas. So o livro ordenado das estruturas, o espao onde se
combinam os caracteres e onde se desdobram as classificaes. Um dia, no
final do sculo XVIII, Cuvier saquear os frascos do Museu, quebr-los-
e dissecar toda a grande conserva clssica da visibilidade animal. Esse
gesto iconoclasta, ao qual Lamarck jamais se decidir, no traduz uma
curiosidade nova por um segredo a cujo propsito no se teria tido nem a
preocupao, nem a coragem, nem a possibilidade de conhecer. Trata-se,
muito mais seriamente, de uma mutao no espao natural da cultura
ocidental: o fim da histria, no sentido de Tournefort, de Lineu, de
Buffon, de Adanson, no sentido igualmente em que Boissier de Sauvages a
entendia quando opunha o conhecimento histrico do visvel ao filosfico
do invisvel, do oculto e das causas14; e ser tambm o comeo do que,
substituindo a anatomia [pg. 189]  classificao, o organismo 
estrutura, a subordinao interna ao carter visvel, a srie ao quadro,
permite precipitar no velho mundo plano e gravado em branco e preto, de
animais e de plantas, toda uma massa profunda de tempo  qual se dar o
nome renovado de histria.                                         IV. O
carter          A estrutura  essa designao do visvel que, por uma
espcie de triagem pr- lingstica, permite a ele transcrever-se na
linguagem. Mas a descrio assim obtida no  mais que um modo de nome
prprio: deixa a cada ser sua individualidade estrita e no enuncia nem
o quadro a que ele pertence, nem a vizinhana que o cerca, nem o lugar
que ocupa. Ela  pura e simples designao. E, para que a histria
natural se torne linguagem,  preciso que a descrio se torne "nome
comum". Viu- se como, na linguagem espontnea, as primeiras designaes
que concerniam a representaes singulares, aps terem assumido sua
origem na linguagem de ao e nas razes primitivas, adquiriram, pouco a
pouco, por fora da derivao, valores mais gerais. A histria natural,
porm,  uma lngua bem-feita: no deve aceitar a imposio da derivao
e de sua figura; no deve dar crdito a nenhuma etimologia15.  preciso
que ela rena em uma nica e mesma operao o que a linguagem de todos
os dias mantm separado: deve, a um tempo, designar muito precisamente
todos os seres naturais e situ-los ao mesmo tempo num sistema de
identidades e de diferenas que os aproxima e os distingue dos outros. A
histria natural deve assegurar, num [pg. 190] s movimento, uma
designao certa e uma derivao controlada. E, como a teoria da
estrutura superpunha uma  outra a articulao e a proposio, do mesmo
modo a teoria do carter deve identificar os valores designativos e o
espao onde ocorre a sua derivao. "Conhecer as plantas", diz
Tournefort, " saber precisamente os nomes que se lhes deu em relao 
estrutura de algumas de suas partes... A idia do carter, que distingue
14      Boissier de Sauvages. Nosologie mthodique. Trad. francesa.
Lyon, 1772, t. I, pp. 91-2. 15      Lineu. Philosophie botanique,  258.
essencialmente as plantas umas das outras, deve ser invariavelmente
unida ao nome de cada planta."16          O estabelecimento do carter 
ao mesmo tempo fcil e difcil. Fcil, porque a histria natural no tem
de estabelecer um sistema de nomes a partir de representaes difceis
de analisar, mas sim de fund-lo sobre uma linguagem que j se
desenrolou na descrio. Nomear-se- no a partir do que se v mas a
partir dos elementos que a estrutura j fez passar para o interior do
discurso. Trata-se de construir uma linguagem segunda a partir dessa
linguagem primeira, mas certa e universal. Logo, porm, aparece uma
dificuldade maior. Para estabelecer as identidades e as diferenas entre
todos os seres naturais, seria preciso ter em conta cada trao que pde
ser mencionado numa descrio. Tarefa infinita que recuaria o advento da
histria natural para um longnquo inacessvel, se no existissem
tcnicas para contornar a dificuldade e limitar o trabalho de
comparao. Pode-se, a priori, constatar que essas tcnicas so de dois
tipos. Ou se fazem comparaes totais, mas no interior de grupos
empiricamente constitudos, onde o nmero de semelhanas 
manifestamente to elevado que a enumerao das diferenas no demorar
a perfazer-se e assim, pouco a pouco, o estabelecimento das identidades
e das distines poder ser assegurado. [pg. 191] Ou ento se escolhe
um conjunto finito e relativamente limitado de traos, dos quais se
estudaro, em todos os indivduos que se apresentarem, as constncias e
as variaes. Este ltimo procedimento  o que se denominou Sistema. O
outro, Mtodo. Eles se opem como se ope Lineu a Buffon, a Adanson, a
Antoine-Laurent de Jussieu. Como se ope uma concepo rgida e clara da
natureza  percepo fina e imediata de seus parentescos. Como se ope a
idia de uma natureza imvel  de uma continuidade fervilhante dos seres
que se comunicam entre si, se confundem e talvez se transformem uns nos
outros... Contudo, o essencial no est nesse conflito das grandes
intuies da natureza. Est antes na rede de necessidade que nesse ponto
tornou possvel e indispensvel a escolha entre duas maneiras de
constituir a histria natural como uma lngua. Todo o resto no passa de
conseqncia lgica e inevitvel.          O Sistema delimita, entre os
elementos que sua descrio justape com mincia, tais ou quais dentre
eles. Eles definem a estrutura privilegiada e na verdade 16
Tournefort. lments de botanique, pp. 1-2. exclusiva, a propsito da
qual se estudar o conjunto das identidades e das diferenas. Toda
diferena que no recair sobre um desses elementos ser reputada
indiferente. Se, como o faz Lineu, se escolhem por nota caracterstica
"todas as partes diferentes da frutificao"17, uma diferena de folha,
ou de caule, ou de raiz, ou de pecolo dever ser sistematicamente
negligenciada. Do mesmo modo, toda identidade que no for aquela de um
desses elementos no ter valor para a definio do carter. Em
contrapartida, quando, em dois indivduos, esses elementos so
semelhantes, eles recebem uma denominao comum. A estrutura escolhida
para ser o lugar das identidades [pg. 192] e das diferenas pertinentes
 o que se denomina carter. Segundo Lineu, o carter se compor da
"mais cuidadosa descrio da frutificao da primeira espcie. Todas as
outras espcies do gnero so comparadas  primeira, banindo-se todas as
notas discordantes; enfim, aps esse trabalho, o carter se produz"18.
O sistema  arbitrrio em seu ponto de partida, pois que negligencia, de
maneira regulada, toda diferena e toda identidade que no recai sobre a
estrutura privilegiada. Mas nada impede, de direito, que se possa um dia
descobrir, atravs dessa tcnica, um sistema que seria natural; a todas
as diferenas no carter corresponderiam as diferenas de mesmo valor na
estrutura geral da planta; e, inversamente, todos os indivduos ou todas
as espcies reunidas sob um carter comum teriam realmente, em cada uma
de suas partes, a mesma relao de semelhana. Mas s se pode aceder ao
sistema natural, aps se ter estabelecido com certeza um sistema
artificial, ao menos em certos domnios do mundo vegetal ou animal. Eis
por que Lineu no busca estabelecer de imediato um sistema natural
"antes de ser perfeitamente conhecido tudo o que  pertinente"19 para
seu sistema. Por certo, o mtodo natural constitui "o primeiro e ltimo
desejo dos botnicos" e todos os seus "fragmentos devem ser buscados com
o maior cuidado"20, como fez o prprio Lineu nas suas Classes Plantarum;
mas, na falta desse mtodo natural ainda por vir em sua forma certa e
acabada, "os sistemas artificiais so absolutamente 17      Lineu.
Philosophie botanique,  192. 18      Id., ibid., 193 19      Lineu.
Systema naturae,  12. 20      Lineu. Philosophie botanique,  77.
necessrios"21.          Ademais, o sistema  relativo: pode funcionar
com a preciso que se deseje. Se o carter escolhido  formado de [pg.
193] uma estrutura ampla, com um nmero elevado de variveis, as
diferenas aparecero muito breve, desde que se passe de um indivduo a
outro, mesmo quando lhe for totalmente vizinho: o carter est ento
muito prximo da pura e simples descrio22. Se, ao contrrio, a
estrutura privilegiada  estreita e comporta poucas variveis, as
diferenas sero raras e os indivduos sero agrupados em massas
compactas. Escolher-se- o carter em funo da finura da classificao
que se quer obter. Para fundar os gneros, Tournefort escolheu como
carter a combinao entre a flor e o fruto. No como Csalpin, por
serem as partes mais teis da planta, mas porque permitiam uma
combinatria que era numericamente satisfatria: os elementos tomados de
emprstimo s trs outras partes (razes, caules e folhas) eram, com
efeito, ou demasiado numerosos, se tratados em conjunto, ou demasiado
pouco numerosos, se considerados separadamente23. Lineu calculou que os
38 rgos da gerao, comportando cada qual as quatro variveis do
nmero, da figura, da situao e da proposio, autorizavam 5.576
configuraes suficientes para definir os gneros24. Se se quer obter
grupos mais numerosos que os gneros,  preciso apelar para caracteres
mais restritos ("caracteres factcios convencionados entre os
botnicos") como, por exemplo, s os estames ou s o pistilo:
poder-se-o assim distinguir as classes ou as ordens25.          Assim,
o domnio inteiro do reino vegetal ou animal poder ser quadriculado.
Cada grupo poder receber um nome. [pg. 194] De sorte que uma espcie,
sem precisar ser descrita, poder ser designada com a maior preciso
pelos nomes dos diferentes conjuntos nos quais se encaixa. Seu nome
completo atravessa toda a rede dos caracteres, que se estabelece at as
classes mais elevadas. Porm, como observa Lineu, esse nome, por
comodidade, deve ficar em parte "silencioso" (no se 21      Lineu.
Systema naturae,  12. 22      "O carter natural da espcie  a
descrio." (Lineu. Philosophie botanique,  193.) 23      Tournefort.
lments de botanique, p. 27. 24      Lineu. Philosophie botanique, 
167. 25      Lineu. Systme sexuel des vegtaux, p. 21. nomeiam a classe
e a ordem), mas a outra parte deve ser "sonora":  preciso nomear o
gnero, a espcie e a variedade26. A planta, assim reconhecida no seu
carter essencial e designada a partir dele, enunciar, ao mesmo tempo
que aquilo que a designa com preciso, o parentesco que a liga s que se
lhe assemelham e pertencem ao mesmo gnero (portanto,  mesma famlia e
 mesma ordem). Ela ter recebido, a um s tempo, seu nome prprio e
toda a srie (manifesta ou oculta) dos nomes comuns nos quais se aloja.
"O nome genrico , por assim dizer, a moeda de bom quilate de nossa
repblica botnica."27 A histria natural ter cumprido a sua tarefa
fundamental que  "a disposio e a denominao"28.          O Mtodo 
uma outra tcnica para resolver o mesmo problema. Em vez de recortar na
totalidade descrita os elementos -- raros ou numerosos -- que serviro
de caracteres, o mtodo consiste em deduzi-los progressivamente. Deduzir
deve ser aqui tomado no sentido de subtrair. Parte-se --  o que faz
Adanson no exame das plantas do Senegal29 -- de uma [pg. 195] espcie
arbitrariamente escolhida ou dada de incio num encontro casual. Faz-se
a sua descrio completa, parte por parte e fixando todos os valores que
nela tomaram as variveis. Recomea-se esse trabalho para a espcie
seguinte, dada ela tambm pelo arbitrrio da representao; a descrio
deve ser to completa quanto a primeira, apenas com a diferena de que
nada do que tenha sido mencionado na descrio primeira deve ser
repetido na segunda. S so mencionadas as diferenas. Assim para a
terceira em relao s duas outras, e isso indefinidamente. De sorte
que, no fim das contas, todos os traos diferentes de todos os vegetais
tero sido mencionados uma vez, mas nunca mais do que uma vez. E,
agrupando em torno das primeiras descries as que foram feitas em
seguida e que se rarefazem na medida em que se progride, v-se delinear,
atravs do caos primitivo, o quadro geral dos parentescos. O carter que
distingue cada espcie ou cada gnero  o nico trao mencionado sobre o
fundo das identidades silenciosas. De fato, semelhante tcnica seria sem
dvida a mais segura, mas o 26      Lineu. Philosophie botanique,  212.
27      Id., ibid.,  284. 28    Id., ibid.,  151. Essas duas funes,
que so garantidas pelo carter, correspondem exatamente s funes de
designao e de derivao que so asseguradas, na linguagem, pelo nome
comum. 29      Adanson. Histoire naturelle du Sngal. Paris, 1757.
nmero de espcies existentes  tal que no seria possvel chegar ao
termo. Entretanto, o exame das espcies encontradas revela a existncia
de grandes "famlias", isto , de amplos grupos nos quais as espcies e
os gneros tm um nmero considervel de identidades. E to considervel
que eles se assinalam por traos muito numerosos, mesmo para o olhar
menos analtico; a semelhana entre todas as espcies de Rannculos, ou
entre as espcies de Acnitos, aparece imediata- mente aos sentidos.
Neste ponto, para que a tarefa no seja infinita,  preciso inverter o
processo. Admitem-se as grandes famlias que so evidentemente
reconhecidas e cujas primeiras descries definiram, como que s cegas,
os traos gerais. So esses traos comuns que se estabelecem agora de
maneira positiva; depois, cada vez que se encontrar um gnero ou uma
espcie [pg. 196] que manifestamente os apresenta, bastar indicar por
qual diferena eles se distinguem dos outros que lhes servem como que de
circuito natural. O conhecimento de cada espcie poder ser facilmente
adquirido a partir desta caracterizao geral: "Dividiremos cada um dos
trs reinos em vrias famlias que reuniro todos os seres que tm entre
si relaes evidentes, passaremos em revista todos os caracteres gerais
e particulares dos seres contidos nessas famlias"; dessa maneira,
"poderemos estar seguros de reportar todos esses seres s suas famlias
naturais;  assim que, comeando pela fuinha e pelo lobo, pelo co e
pelo urso, conheceremos suficientemente o leo, o tigre, a hiena, que
so animais da mesma famlia"30.          V-se de imediato o que ope
mtodo e sistema. S pode haver um mtodo; pode-se inventar e aplicar um
nmero considervel de sistemas: Adanson definiu 6531. O sistema 
arbitrrio em todo o seu desenrolar, mas uma vez que o sistema de
variveis -- o carter -- foi definido de incio, no  mais possvel
modific-lo, acrescentar-lhe ou retirar-lhe ainda que um s elemento. O
mtodo  imposto de fora, pelas semelhanas globais que aproximam as
coisas; transcreve imediatamente a percepo no discurso; permanece, em
seu ponto de partida, o mais perto possvel da descrio; mas lhe 
sempre possvel trazer ao carter geral que definiu empiricamente as
modificaes que se impem: um trao que se acreditava essencial para um
grupo de plantas ou de animais pode muito bem no ser mais que uma 30
Adanson. Cours d'histoire naturelle, 1772 (edio de 1845), p. 17. 31
Adanson. Familles des plantes. Paris, 1763. particularidade de alguns,
desde que se descubram outros que, sem o possurem, pertencem de maneira
evidente  mesma famlia; o mtodo deve estar sempre pronto a
retificar-se a si mesmo. [pg. 197] Como diz Adanson, o sistema  como
que "a regra da falsa posio no clculo": resulta de uma deciso, mas
deve ser absolutamente coerente; o mtodo, ao contrrio,  "um arranjo
qualquer de objetos ou de fatos aproximados por convenincias ou
semelhanas quaisquer, que se exprime por uma noo geral e aplicvel a
todos esses objetos, sem contudo considerar essa noo fundamental ou
esse princpio como absoluto nem invarivel, nem to geral que no possa
sofrer exceo... O mtodo s difere do sistema pela idia que o autor
vincula a seus princpios, encarando-os como variveis no mtodo e como
absolutos no sistema"32.          Ademais, o sistema s pode reconhecer,
entre as estruturas do animal ou do vegetal, relaes de coordenao:
porque o carter  escolhido, no em razo de sua importncia funcional,
mas em razo de sua eficcia combinatria; nada prova que, na hierarquia
interior do indivduo, tal forma de pistilo, tal disposio dos estames
acarrete tal estrutura; se o germe da Adoxa est entre o clice e a
corola, se no aro os estames esto dispostos entre os pistilos, tudo
isso no so nem mais nem menos que "estruturas singulares"33: sua pouca
importncia s vem de sua raridade, ao passo que a igual diviso do
clice e da corola no tem outro valor seno sua freqncia34.O mtodo,
em contrapartida, porque vai das identidades e das diferenas mais
gerais s que o so menos,  suscetvel de fazer aparecer relaes
verticais de subordinao. Com efeito, permite ver quais so os
caracteres suficientemente importantes para no serem jamais desmentidos
numa dada famlia. Em relao ao sistema, a inverso  muito importante:
os caracteres mais essenciais permitem [pg. 198] distinguir as famlias
mais amplas e mais visivelmente distintas, enquanto para Tournefort ou
Lineu o carter essencial definia o gnero; e bastava  "conveno" dos
naturalistas escolher um carter fictcio para distinguir as classes ou
as ordens. No mtodo, a organizao geral e suas dependncias internas
do-lhe primazia sobre a translao lateral de um equipamento constante
de variveis. 32      Adanson. "Prefcio". In: Familles des plantes, t.
I. 33      Lineu. Philosophie botanique,  105. 34      Id., ibid., 
94.          Apesar dessas diferenas, sistema e mtodo repousam no
mesmo suporte epistemolgico.  possvel defini-lo numa palavra, dizendo
que no saber clssico o conhecimento dos indivduos empricos s pode
ser adquirido sobre o quadro contnuo, ordenado e universal de todas as
diferenas possveis. No sculo XVI, a identidade das plantas e dos
animais era assegurada pela marca positiva (freqentemente visvel mas
por vezes oculta) de que eram portadores: o que, por exemplo, distinguia
as diversas espcies de aves no eram as diferenas que havia entre
elas, mas o fato de que esta caava de noite, aquela vivia sobre a gua,
outra se alimentava de carne viva35. Todo ser trazia uma marca, e a
espcie se media pela extenso de um braso comum. De sorte que cada
espcie se assinalava por si mesma, enunciava sua individualidade,
independentemente de todas as outras: ainda que estas no existissem, os
critrios de definio para as nicas que permanecessem visveis no
seriam por isso modificados. Mas, a partir do sculo XVII, no pode mais
haver signos seno na anlise das representaes segundo as identidades
e as diferenas. Isso quer dizer que toda designao se deve fazer por
certa relao com todas as outras designaes possveis. Conhecer aquilo
que pertence propriamente a um indivduo  ter diante de si a
classificao ou a possibilidade [pg. 199] de classificar o conjunto
dos outros. A identidade e aquilo que a marca se definem pelo resduo
das diferenas. Um animal ou uma planta no  aquilo que  indicado --
ou trado -- pelo estigma que se descobre impresso nele;  aquilo que os
outros no so; s existe em si mesmo no limite daquilo que dele se
distingue. Mtodo e sistema so apenas as duas maneiras de definir as
identidades pela rede geral das diferenas. Mais tarde, a partir de
Cuvier, a identidade das espcies se fixar tambm por um jogo de
diferenas, mas que aparecero sobre o fundo das grandes unidades
orgnicas com seus sistemas internos de dependncia (esqueleto,
respirao, circulao): os invertebrados no sero definidos somente
pela ausncia de vrtebras, mas por um certo modo de respirao, pela
existncia de um tipo de circulao e por toda uma coeso orgnica que
desenha uma unidade positiva. As leis internas do organismo
tornar-se-o, no lugar dos caracteres diferenciais, o objeto das
cincias da natureza. A classificao, como problema fundamental e
constitutivo da histria natural, alojou-se, historicamente e de modo
necessrio, entre uma teoria 35      Cf. P. Belon. Histoire de la nature
des oiseaux. da marca e uma teoria do organismo.
V. O contnuo e a catstrofe          No corao dessa lngua bem-feita
em que se tornou a histria natural, persiste um problema. Poderia
ocorrer que, no final das contas, a transformao da estrutura em
carter nunca fosse possvel e que o nome comum jamais pudesse nascer do
nome prprio. Quem pode garantir que as descries no vo patentear
elementos to diversos de um indivduo para outro e de uma espcie para
outra, que toda tentativa para fundar um nome comum no seria de antemo
arruinada? [pg. 200] Quem pode assegurar que cada estrutura no seja
rigorosamente isolada de toda outra e que no funcione como marca
individual? Para que o mais simples carter possa aparecer,  preciso
que ao menos um elemento da estrutura primeiramente considerada se
repita em outra. Pois a ordem geral das diferenas que permite
estabelecer a disposio das espcies implica um certo jogo de
similitudes. Esse problema  isomorfo daquele que j se encontrou a
propsito da linguagem36: para que um nome comum fosse possvel, era
preciso que houvesse entre as coisas esta semelhana imediata que
permitisse aos elementos significantes circularem ao longo das
representaes, deslizarem  sua superfcie, prenderem-se s suas
similitudes, para formarem, finalmente, designaes coletivas. Mas para
desenhar esse espao retrico onde os nomes pouco a pouco assumiam seu
valor geral, no era necessrio determinar o estatuto dessa semelhana,
nem se ela estava fundada em verdade; bastava que ela emprestasse
bastante fora  imaginao. Entretanto, para a histria natural, lngua
bem-feita, essas analogias da imaginao no podem valer como garantias;
e  preciso que a histria natural encontre o meio de contornar a dvida
radical que a ameaa assim como a qualquer linguagem, dvida essa que
Hume fazia incidir sobre a necessidade da repetio na experincia. Deve
haver continuidade na natureza.          Essa exigncia de uma natureza
contnua no tem inteiramente a mesma forma nos sistemas e nos mtodos.
Para os partidrios do sistema, a continuidade  feita apenas pela
justaposio sem falha das diferentes regies que os caracteres permitem
36      Cf. supra, p. 144. distinguir com clareza; basta uma gradao
ininterrupta dos valores que, no domnio inteiro das espcies, [pg.
201] a estrutura escolhida como carter pode assumir; a partir desse
princpio, evidenciar-se- que todos esses valores sero ocupados por
seres reais, mesmo que ainda desconhecidos. "O sistema indica as
plantas, at aquelas que no mencionou; coisa que jamais pode fazer a
enumerao de um catlogo."37 E sobre essa continuidade de justaposio,
as categorias no sero simplesmente convenes arbitrrias; podero
corresponder (se no forem estabelecidas corretamente) a regies que
existem distintamente sobre essa superfcie ininterrupta da natureza;
sero regies mais vastas, mas to reais quanto os indivduos.  assim
que o sistema sexual permitiu, segundo Lineu, descobrir gneros
indubitavelmente fundados: "Saiba que no  o carter que constituiu o
gnero, mas o gnero que constituiu o carter, que o carter decorre do
gnero, no o gnero do carter."38 Em contrapartida, nos mtodos para
os quais as semelhanas, sob sua forma macia e evidente, so dadas de
incio, a continuidade da natureza no ser este postulado puramente
negativo (ausncia de espao branco) entre as categorias distintas, mas
uma exigncia positiva: toda a natureza forma uma grande trama onde os
seres se assemelham gradualmente, onde os indivduos vizinhos so
infinitamente semelhantes entre si; de sorte que todo corte que no
indique a nfima diferena do indivduo, mas categorias mais amplas, 
sempre irreal. Continuidade de fuso em que toda generalidade  nominal.
Nossas idias gerais, diz Buffon, "so relativas a uma escala contnua
de objetos, da qual s percebemos nitidamente os ncleos e cujas
extremidades fogem e escapam sempre e cada vez mais s nossas
consideraes... Quanto mais aumentarmos o nmero de divises [pg. 202]
das produes naturais, mais nos aproximaremos da verdade, visto que no
existe realmente na natureza seno indivduos e que os gneros, as
ordens, as classes s existem na nossa imaginao"39. E Bonnet dizia, no
mesmo sentido, que "no h saltos na natureza; nela tudo  graduado,
matizado. Se, entre dois seres quaisquer, existisse um vazio, qual seria
a razo da passagem de um ao outro? Portanto no h ser acima e abaixo
do qual no haja outros que se lhe aproximem por alguns 37      Lineu.
Philosophie botanique,  156. 38      Id., ibid.,  169. 39      Buffon.
Discours sur la manire de traiter l'histoire naturelle. In: Oeuvres
compltes, t. I, pp. caracteres e que dele se afastem por outros".
Podemos, pois, sempre descobrir "produes medianas", como o plipo
entre o vegetal e o animal, o esquilo voador entre a ave e o quadrpede,
o macaco entre o quadrpede e o homem. Por conseguinte, nossas
distribuies em espcies e em classes "so puramente nominais"; elas
no representam nada mais que "meios relativos s nossas ne- cessidades
e aos limites de nossos conhecimentos"40.       No sculo XVIII, a
continuidade da natureza  exigida por toda histria natural, isto ,
por todo esforo para instaurar na natureza uma ordem e nela descobrir
categorias gerais, quer sejam elas reais e prescritas por distines
manifestas, quer cmoda e simplesmente demarcadas por nossa imaginao.
S o contnuo pode garantir que a natureza se repita e que a estrutura,
por conseqncia, possa tornar-se carter. Mas essa exigncia logo se
desdobra. Pois, se fosse dado  experincia, no seu movimento
ininterrupto, percorrer exatamente, passo por passo, o contnuo dos
indivduos, das variedades, das espcies, dos gneros, das classes, no
haveria necessidade de constituir uma cincia; as designaes [pg. 203]
descritivas se generalizariam de pleno direito e a linguagem das coisas,
por um movimento espontneo, se constituiria em discurso cientfico. As
identidades da natureza se ofereceriam como que letra por letra 
imaginao e o deslizar espontneo das palavras para dentro desse espao
retrico reproduziria em linhas cheias a identidade dos seres na sua
generalidade crescente. A histria natural tornar-se-ia intil, ou
melhor, j estaria feita pela linguagem cotidiana dos homens; a
gramtica geral seria ao mesmo tempo a taxinomia universal dos seres.
Mas, se uma histria natural perfeitamente distinta da anlise das
palavras  indispensvel,  porque a experincia no nos libera o
contnuo da natureza tal como ele . Oferece-o ao mesmo tempo retalhado
-- pois que h muitas lacunas na srie dos valores efetivamente ocupados
pelas variveis (existem seres possveis cujo valor se constata mas que
jamais se teve ocasio de observar) -- e confuso, porque o espao real,
geogrfico e terrestre onde nos encontramos nos mostra os seres
imbricados uns com os outros numa ordem que, em relao  grande
superfcie das taxinomias, no passa de acaso, desordem ou perturbao.
Lineu observava que, ao associar nos 36 e 39. 40    Ch. Bonnet.
Contemplation de la nature, 1 parte. In: Oeuvres compltes, t. IV, pp.
35-6. mesmos lugares o lernea (que  um animal) e a conferva (que  uma
alga), ou ainda a esponja e o coral, a natureza no rene, como o
desejaria a ordem das classificaes, "as mais perfeitas plantas com os
animais chamados muito imperfeitos, mas combina os animais imperfeitos
com as plantas imperfeitas"41. E Adanson constatava que a natureza "
uma mistura confusa de seres que o acaso parece ter aproximado: aqui, o
ouro est mesclado com outro metal, com uma pedra, com uma terra; ali, a
violeta cresce ao lado do carvalho. Entre essas plantas vagueiam [pg.
204] igualmente o quadrpede, o rptil e o inseto; os peixes se
confundem, por assim dizer, com o elemento aquoso onde nadam e com as
plantas que crescem no fundo das guas... Essa mistura  to geral at e
to multiplicada que parece ser uma das leis da natureza"42.
Ora, essa imbricao  o resultado de uma srie cronolgica de
acontecimentos. Estes tm seu ponto de origem e seu primeiro lugar de
aplicao no nas prprias espcies vivas, mas no espao onde elas se
alojam. Produzem-se na relao entre a Terra e o Sol, no regime dos
climas, nas metamorfoses da crosta terrestre; o que eles atingem
primeiramente so os mares e os continentes,  a superfcie do globo; os
seres vivos s so afetados por contragolpe e de maneira secundria: o
calor os atrai ou os repele, os vulces os destroem; desaparecem com as
terras que desmoronam.  possvel, por exemplo, como supunha Buffon43,
que a terra tenha sido incandescente na origem, antes de arrefecer pouco
a pouco; os animais, habituados a viver nas mais elevadas temperaturas,
reagruparam-se na nica regio atualmente trrida, enquanto as terras
temperadas ou frias se povoavam de espcies que at ento no tinham
tido ocasio de aparecer. Com as revolues na histria da Terra, o
espao taxinmico (onde as vizinhanas so da ordem do Carter e no do
modo de vida) veio a ser repartido num espao concreto que o
transmutava. Bem mais: ele foi, sem dvida, despedaado, e muitas
espcies, vizinhas daquelas que conhecemos ou intermedirias entre
regies taxinmicas que nos so familiares, devem ter-se extinguido, s
deixando atrs de si vestgios difceis de decifrar. Em todo o caso,
essa srie histrica de acontecimentos se ajunta  41      Lineu.
Philosophie botanique. 42      Adanson. Cours d'histoire naturelle, 1772
(ed. Paris, 1845), pp. 4-5. 43      Buffon. Histoire de la Terre.
superfcie dos seres: no lhe pertence propriamente; [pg. 205]
desenrola-se no espao real do mundo, no naquele, analtico, das
classificaes; o que ela pe em questo  o mundo como lugar dos seres
e no os seres enquanto tm a propriedade de serem vivos. Uma
historicidade simbolizada pelas narrativas bblicas afeta diretamente
nosso sistema astronmico, indiretamente a rede taxinmica das espcies;
e, alm da Gnese e do Dilvio,  bem possvel que "nosso globo tenha
sofrido outras revolues que no nos foram reveladas. Ele depende de
todo o sistema astronmico, e as ligaes que unem este globo aos outros
corpos celestes e, em particular, ao Sol e aos cometas podem ter sido a
fonte de muitas revolues, de que para ns no resta nenhum trao
sensvel e das quais talvez os habitantes de mundos vizinhos tenham tido
algum conhecimento"44.          A histria natural supe, pois, para
poder existir como cincia, dois conjuntos: um deles  constitudo pela
rede contnua dos seres; essa continuidade pode tomar diversas formas
espaciais; Charles Bonnet concebe-a ora sob a forma de uma grande escala
linear cujas extremidades so uma muito simples, outra muito complicada,
tendo ao centro uma estreita regio mediana, a nica a nos ser
desvelada, ora sob a forma de um tronco central do qual partiriam, de um
lado, um ramo (o das conchas com os caranguejos e os lagostins como
ramificaes suplementares) e, do outro, a srie dos insetos na qual
entroncam insetos e rs45; Buffon define essa mesma continuidade "como
uma vasta trama ou, antes, um feixe que, de intervalo em intervalo,
lana ramos para o lado, a fim de se reunir a feixes de uma outra
ordem"46; Pallas pensa numa figura polidrica47; J. [pg. 206] Hermann
queria constituir um modelo de trs dimenses, composto de fios que,
partindo todos de um ponto comum, se separam uns dos outros, "se
expandem por um nmero muito grande de ramos laterais" e depois se
renem de novo48. Dessas configuraes espaciais que descrevem, cada
qual  sua maneira, a continuidade taxinmica, se distingue a srie dos
acontecimentos; esta  descontnua e diferente em cada um de seus
episdios, 44      Ch. Bonnet. Palingnsie philosophique. In: Oeuvres,
t. VII, p. 122. 45      Ch. Bonnet. Contemplation de la nature, cap. XX,
pp. 130-8. 46      Buffon. Histoire naturelle des oiseaux, 1770, t. I,
p. 396. 47      Pallas. Elenchus Zoophytorum, 1786. 48      J. Hermann.
Tabulae affinitatum animalium. Estrasburgo, 1783, p.24. mas seu conjunto
s pode desenhar uma linha simples, que  a do tempo (e que no se pode
conceber como reta, quebrada ou circular). Sob sua forma concreta e na
espessura que lhe  prpria, a natureza se aloja inteira entre a
superfcie da taxinomia e a linha das revolues. Os "quadros" que ela
forma sob os olhos dos homens e que o discurso da cincia  encarregado
de percorrer so os fragmentos da grande superfcie das espcies vivas,
de acordo com o que foi repartido, transmutado, imobilizado, entre duas
revolues do tempo.      V-se quanto  superficial opor, como duas
opinies diferentes e que se defrontassem em suas opes fundamentais um
"fixismo" que se contentasse em classificar os seres da natureza num
quadro permanente e uma espcie de "evolucionismo" que acreditasse numa
histria imemorial da natureza e num profundo impulso dos seres atravs
da sua continuidade. A solidez sem lacunas de uma rede de espcies e de
gneros e a srie dos acontecimentos que a confundiram fazem parte, e
num mesmo nvel, do suporte epistemolgico a partir do qual um saber
como a histria natural foi possvel na idade clssica. No se trata de
duas maneiras de perceber a natureza, radicalmente opostas porque
comprometidas com opes filosficas mais antigas e mais fundamentais
que qualquer cincia; trata-se [pg. 207] de duas exigncias simultneas
na rede arqueolgica que define, na idade clssica, o saber da natureza.
Essas duas exigncias, porm, so complementares. Portanto,
irredutveis. A srie temporal no pode integrar-se na gradao dos
seres. As pocas da natureza no prescrevem o tempo interior dos seres e
de sua continuidade; elas ditam as intempries que no cessaram de os
dispersar, de os destruir, de os misturar, de os separar, de os
entrelaar. No h nem pode haver sequer a suspeita de um evolucionismo
ou de um transformismo no pensamento clssico; pois o tempo jamais 
concebido como princpio de desenvolvimento para os seres vivos na sua
organizao interna; s  percebido a ttulo de revoluo possvel no
espao exterior onde eles vivem.                            VI. Monstros
e fsseis      Objetar-se- que houve, muito antes de Lamarck, todo um
pensamento de tipo evolucionista. Que sua importncia foi grande nos
meados do sculo XVIII e at sua suspenso pelo golpe desferido por
Cuvier. Que Bonnet, Maupertuis, Diderot, Robinet, Benot de Maillet
articularam muito claramente a idia de que as formas vivas podem passar
umas s outras, que as espcies atuais so sem dvida o resultado de
transformaes antigas e que todo o mundo vivo se dirige talvez para um
ponto futuro, de sorte que no se poderia assegurar, a propsito de
qualquer forma viva, que est definitivamente adquirida e estabilizada
para sempre. Na realidade, tais anlises so incompatveis com o que
hoje entendemos por pensamento da evoluo. Com efeito, elas tm como
propsito o quadro das identidades e das diferenas na srie dos
acontecimentos sucessivos. E, para pensar a [pg. 208] unidade desse
quadro e dessa srie, s tm  sua disposio dois meios.          Um
consiste em integrar na continuidade dos seres e na sua distribuio em
quadro a srie das sucesses. Todos os seres que a taxinomia disps numa
simultaneidade ininterrupta so ento submetidos ao tempo. No no
sentido de que a srie temporal faria nascer uma multiplicidade de
espcies, que um olhar horizontal poderia em seguida dispor segundo um
quadriculado classificador, mas no sentido de que todos os pontos da
taxinomia so afetados por um ndice temporal, de sorte que a "evoluo"
no  outra coisa seno o deslocamento solidrio e geral da escala,
desde o primeiro at o ltimo de seus elementos. Esse sistema  o de
Charles Bonnet. Ele implica, antes do mais, que a cadeia dos seres,
dirigida por uma srie inumervel de anis para a perfeio absoluta de
Deus, no a alcance atualmente49; que a distncia seja infinita entre
Deus e a menos defeituosa das criaturas; e que, nessa distncia talvez
intransponvel, toda a trama ininterrupta dos seres no cesse de avanar
em direo a uma maior perfeio. Implica tambm que essa "evoluo"
mantenha intacta a relao que existe entre as diferentes espcies; se
uma, em se aperfeioando, atinge o grau de complexidade que antes dela
j possua a do grau imediatamente superior, esta nem por isso 
alcanada, pois, impelida pelo mesmo movimento, ela no pde deixar de
se aperfeioar numa proporo equivalente: "Haver um progresso contnuo
e mais ou menos lento de todas as espcies em direo a uma perfeio
superior, de sorte que todos os graus da escala sero continuamente
variveis numa relao determinada [pg. 209] e constante... O homem,
transportado para uma estncia mais condizente com a eminncia de suas
49      Ch. Bonnet. Contemplation de la nature, 1 parte. In: Oeuvres
compltes, t. IV, pp. 34 ss. faculdades, deixar ao macaco e ao elefante
esse primeiro lugar que ocupava entre os animais de nosso planeta...
Haver Newtons entre os macacos e Vaubans entre os castores. As ostras e
os plipos sero, em relao s mais elevadas espcies, o que so os
pssaros e os quadrpedes em relao ao homem."50 Esse "evolucionismo"
no  uma forma de conceber o aparecimento dos seres uns a partir dos
outros; , na realidade, uma forma de generalizar o princpio de
continuidade e a lei segundo a qual os seres formam uma superfcie sem
interrupo. Acrescenta, num estilo leibniziano51, o contnuo do tempo
ao contnuo do espao e,  infinita multiplicidade dos seres, o infinito
de seu aperfeioamento. No se trata de uma hierarquizao progressiva,
mas do surto constante e global de uma hierarquia totalmente instaurada.
O que supe, finalmente, que o tempo, longe de ser um princpio da
taxinomia, no seja mais que um de seus fatores. E que seja
preestabelecido como todos os outros valores assumidos por todas as
outras variveis.  necessrio, pois, que Bonnet seja pr-formacionista
-- e isso, muito longe do que entendemos, desde o sculo XIX, por
"evolucionismo"; ele  obrigado a supor que as metamorfoses ou as
catstrofes do globo foram dispostas de antemo como ocasies para que a
cadeia infinita dos seres se encaminhe no sentido de um infinito
melhoramento: "Essas evolues foram previstas e inscritas nos germens
dos animais desde o primeiro dia da criao. Pois essas evolues esto
ligadas a revolues em todo o sistema solar, dispostas por [pg. 210]
Deus de antemo." O mundo inteiro foi larva; ei-lo crislida; um dia,
sem dvida, tornar-se- borboleta52. E todas as espcies sero
arrastadas do mesmo modo por essa grande mutao. V-se que semelhante
sistema no  um evolucionismo que comeasse a abalar o velho dogma da
fixidez;  uma taxinomia que envolve, ademais, o tempo. Uma
classificao generalizada.          A outra forma de "evolucionismo"
consiste em conferir ao tempo um papel totalmente oposto. Ele no serve
mais para deslocar, sobre a linha finita ou infinita do aperfeioamento,
o conjunto do quadro classificador, mas para fazer aparecer, umas aps
as outras, todas as pores que, juntas, formaro a rede contnua das
espcies. Ele faz com que as variveis do ser vivo assumam
sucessivamente todos os 50      Ch. Bonnet. Palingnsie philosophique.
In: Oeuvres compltes, t. VII, pp. 149-50. 51   Ch. Bonnet. (Oeuvres
compltes, t. III, p. 173) cita uma carta de Leibniz a Hermann sobre a
cadeia dos seres. 52      Ch. Bonnet. Palingnsie philosophique. In:
Oeuvres compltes, t. VII, p. 193. valores possveis: ele  a instncia
de uma caracterizao que se efetua pouco a pouco e como que elementos
aps elementos. As semelhanas ou as identidades parciais que sustentam
a possibilidade de uma taxinomia seriam ento as marcas patenteadas no
presente de um nico e mesmo ser vivo, persistindo atravs das
metamorfoses da natureza e preenchendo assim todas as possibilidades que
o quadro taxinmico oferece no vazio. Se as aves, observa Benot de
Maillet, tm asas como os peixes tm barbatanas,  porque, na poca do
grande refluxo das primeiras guas, elas foram douradas ressequidas ou
golfinhos transportados para sempre a uma ptria area. "O smen desses
peixes, transportado para pntanos, pode ter dado lugar  primeira
transmigrao da espcie, do mar para a terra. De 100 milhes que
pereceram sem ter logrado adaptar-se, bastou que dois o conseguissem
para dar [pg. 211] origem  espcie."53 Aqui, como em certas formas de
evolucionismo, as mudanas nas condies de vida dos seres vivos parecem
acarretar o aparecimento de espcies novas. Mas o modo de ao do ar, da
gua, do clima, da terra sobre os animais no  o de um meio ambiente
sobre uma funo e sobre os rgos nos quais ela se realiza; os
elementos exteriores s intervm ocasionalmente para fazer aparecer o
carter. E esse aparecimento, se  cronologicamente condicionado por
determinado acontecimento do globo,  tornado a priori possvel pelo
quadro geral das variveis que define todas as formas eventuais do ser
vivo. O quase- evolucionismo do sculo XVIII parece pressagiar tanto a
variao espontnea do carter, tal como se encontrar em Darwin, quanto
a ao positiva do meio ambiente, tal como a descrever Lamarck.
Trata-se, porm, de uma iluso retrospectiva: com efeito, para essa
forma de pensamento, a seqncia do tempo jamais pode desenhar mais do
que a linha ao longo da qual se sucedem todos os valores possveis das
variveis preestabelecidas. E, por conseguinte,  preciso definir um
princpio de modificao interior ao ser vivo capaz de permitir-lhe, por
ocasio de uma peripcia natural, assumir um novo carter.
Est-se ento diante de um novo ponto de escolha: ou supor no ser vivo
uma aptido espontnea para mudar de forma (ou, pelo menos, para
adquirir com as geraes um carter ligeiramente diferente daquele que
fora dado originalmente, de modo que pouco a pouco acabar por tornar-se
irreconhecvel), ou ento atribuir-lhe 53      Benot de Maillet.
Telliamed ou les entretiens d'un philosophe chinois avec un missionnaire
a busca obscura de uma espcie terminal que possuiria os caracteres de
todas as que a precederam, num grau porm mais alto de complexidade e de
perfeio. [pg. 212]          O primeiro sistema  o dos erros ao
infinito -- tal como se encontra em Maupertuis. O quadro das espcies
que a histria natural pode estabelecer teria sido adquirido, pea por
pea, pelo equilbrio, constante na natureza, entre uma memria que
garante o contnuo (manuteno das espcies no tempo e semelhana de uma
com outra) e um pendor para o desvio que assegura, ao mesmo tempo, a
histria, as diferenas e a disperso. Maupertuis supe que as
partculas da matria so dotadas de atividade e de memria. Atradas
umas pelas outras, as menos ativas formam as substncias minerais; as
mais ativas delineiam o corpo mais complexo dos animais. Essas formas,
que so devidas  atrao e ao acaso, desaparecem quando no podem
subsistir. Aquelas que se mantm do nascimento a novos indivduos, cuja
memria conserva os caracteres do casal progenitor. E isso at que um
desvio de partculas -- um acaso -- faa nascer uma nova espcie que,
por sua vez,  mantida pela fora obstinada da lembrana: " fora de
digresses repetidas, teria surgido a diversidade infinita dos
animais."54 Assim, cada vez mais os seres vivos adquirem, por variaes
sucessivas, todos os caracteres que lhes reconhecemos e, se os olharmos
na dimenso do tempo, a superfcie coerente e slida que constituem no
 mais que o resultado fragmentrio de um contnuo muito mais cerrado,
muito mais fino: um contnuo que foi tecido com um nmero incalculvel
de pequenas diferenas esquecidas ou abortadas. As espcies visveis que
se oferecem  nossa anlise foram talhadas sobre o fundo incessante de
monstruosidades que aparecem, cintilam, caem em runa e por vezes se
mantm. E a est o ponto fundamental: a natureza s tem uma histria na
medida em que  [pg. 213] suscetvel do contnuo.  porque ela assume,
um a um, todos os caracteres possveis (cada valor de todas as
variveis) que se apresenta sob a forma da sucesso.          No 
diferente o que ocorre com o sistema inverso do prottipo e da espcie
terminal. Nesse caso, temos de supor, com J.-B. Robinet, que a
continuidade no  garantida pela memria, mas por um projeto. Projeto
de um ser complexo em direo ao qual a natureza se encaminha, partindo
de elementos simples que ela franais. Amsterdam, 1748, p. 142. 54
Maupertuis. Essai sur la formation des corps organiss. Berlim, 1754, p.
41. compe e organiza pouco a pouco: "Primeiro, os elementos se
combinam. Um pequeno nmero de princpios simples serve de base para
todos os corpos"; so eles que presidem exclusivamente  organizao dos
minerais; depois, "a magnificncia da natureza" no cessa de aumentar
"at os seres que vagueiam sobre a superfcie do globo"; "a variao dos
rgos em nmero, em grandeza, em finura, em textura interna, em figura
externa ocasiona espcies que se dividem e se subdividem ao infinito
mediante novas combinaes"55. E assim por diante, at a combinao mais
complexa que conhecemos. De sorte que a continuidade inteira da natureza
se aloja entre um prottipo absolutamente arcaico, enterrado mais
profundamente que toda a histria, e a extrema complicao desse modelo,
tal como se pode observar, ao menos no globo terrestre, na pessoa do ser
humano56. Entre esses dois extremos, h todos os graus possveis de
complexidade e de combinao: como uma imensa srie de tentativas, das
quais algumas persistiram sob a forma de espcies constantes e outras
foram dissipadas. Os monstros no so de uma "natureza" distinta da das
prprias espcies: [pg. 214] "Creiamos que as mais estranhas formas na
aparncia... pertencem necessria e essencialmente ao plano universal do
ser; que so metamorfoses do prottipo to naturais quanto as outras,
embora nos ofeream fenmenos diferentes e sirvam de passagem s formas
vizinhas: que elas preparam e dispem as combinaes que as seguem,
assim como so dispostas por aquelas que as precedem; que contribuem
para a ordem das coisas, longe de perturb-la.  talvez somente por
abundncia de seres que a natureza chega a produzir seres mais regulares
e com uma organizao mais simtrica."57 Em Robinet como em Maupertuis,
a sucesso e a histria so para a natureza apenas meios de percorrer a
trama das variaes infinitas de que ela  suscetvel. No , pois, o
tempo nem a durao que, atravs da diversidade dos meios ambientes,
assegura a continuidade e a especificao dos seres vivos, mas sobre o
fundo contnuo de todas as variaes possveis, o tempo desenha um
percurso em que os climas e a geografia predispem somente regies
privilegiadas e destinadas a se manterem. O contnuo no  o sulco
visvel de uma histria fundamental em que um mesmo princpio vivo se
debateria 55      J.-B. Robinet. De la nature, 3a ed., 1766, pp. 25-8.
56   J.-B. Robinet. Considrations philosophiques sur la gradation
naturelle des formes de l'tre. Paris, 1768, pp. 4-5. 57      Id.,
ibid., p. 198. com um meio ambiental varivel. Pois o contnuo precede o
tempo.  sua condio. E, em relao a ele, a histria s pode
desempenhar um papel negativo: ela predispe e faz subsistir ou ela
negligencia e deixa desaparecer. Disso, duas conseqncias. Primeiro, a
necessidade de fazer intervir os monstros -- que so como que o rudo de
fundo, o murmrio ininterrupto da natureza. Se, com efeito,  necessrio
que o tempo, que  limitado, percorra -- j tenha talvez percorrido --
todo o contnuo da natureza, deve-se admitir que um nmero considervel
de variaes possveis tenham [pg. 215] sido atravessadas e depois
suprimidas; assim como a catstrofe geolgica era necessria para que se
pudesse ascender do quadro taxinmico ao contnuo, atravs de uma
experincia confusa, catica e retalhada, assim tambm a proliferao de
monstros sem amanh  necessria para que se possa tornar a descer do
contnuo ao quadro atravs de uma srie temporal. Em outros termos, o
que num sentido deve ser lido como drama da terra e das guas, deve ser
lido, num outro sentido, como aberrao aparente das formas. O monstro
garante no tempo e para nosso saber terico uma continuidade que os
dilvios, os vulces e os continentes desmoronados confundem no espao
para nossa experincia cotidiana. A outra conseqncia  que, ao longo
de uma tal histria, os signos da continuidade so apenas da ordem da
semelhana. Como nenhuma relao do meio ambiente com o organismo58
define essa histria, as formas vivas nela sofrero todas as
metamorfoses possveis e s deixaro atrs de si, como marca do trajeto
percorrido, os indcios das similitudes. Como se pode reconhecer, por
exemplo, que a natureza no cessou de esboar, a partir do prottipo
primitivo, a figura, provisoriamente terminal, do homem? No fato de ter
ela abandonado em seu percurso mil formas que dele desenham o modelo
rudimentar. Quantos fsseis no so, em relao  orelha, ao crnio ou
s partes sexuais do homem, como que esttuas de gesso moldadas um dia e
abandonadas por uma forma mais aperfeioada? "A espcie que se assemelha
ao corao humano e que se denomina, por causa disso, Antropocardite...
merece uma ateno particular. Sua substncia  uma rocha por dentro. A
forma de um [pg. 216] corao  to bem imitada quanto possvel. Nela
se distingue o tronco da veia cava com uma poro de seus dois ramos.
V-se tambm sair do ventrculo esquerdo o tronco da grande artria com
sua 58      Sobre a inexistncia da noo biolgica de "meio", no sculo
XVIII, cf. G. Canguilhem. La parte inferior descendente."59 O fssil,
com sua natureza mista de animal e de mineral,  o lugar privilegiado de
uma semelhana que o historiador do contnuo exige, ao passo que o
espao da taxinomia a decompunha rigorosamente.          O monstro e o
fssil desempenham ambos um papel muito preciso nessa configurao. A
partir do poder do contnuo que a natureza detm, o monstro faz aparecer
a diferena: esta  ainda sem lei e sem estrutura bem definida; o
monstro  o fulcro da especificao, mas no  mais que uma subespcie
na obstinao lenta da histria. O fssil  aquilo que deixa subsistir
as semelhanas atravs de todos os desvios que a natureza percorreu;
funciona como uma forma longnqua e aproximativa da identidade; marca um
quase-carter no mover-se do tempo.  que o monstro e o fssil nada mais
so que a projeo em retrospectiva dessas diferenas e dessas
identidades que definem, para a taxinomia, a estrutura e depois o
carter. Eles formam, entre o quadro e o contnuo, a regio sombria,
mvel, trmula, onde o que a anlise definir como identidade no 
ainda mais que muda analogia; e o que ela definir como diferena
assinalvel e constante no  ainda mais que livre e casual variao.
Mas, na verdade, a histria da natureza  to impossvel de ser pensada
pela histria natural, a disposio epistemolgica desenhada pelo quadro
e pelo contnuo  to fundamental, que o devir s pode ter lugar
intermedirio e medido somente pelas exigncias do conjunto.  por isso
que ele s intervm [pg. 217] para a passagem necessria de um ao
outro. Quer como um conjunto de intempries estranhas aos seres vivos e
que lhes advm unicamente do exterior. Quer como um movimento
incessantemente delineado, mas estancado desde seu esboo, e perceptvel
somente nas bordas do quadro, nas suas margens descuidadas: e assim,
sobre o fundo do contnuo, o monstro narra, como em caricatura, a gnese
das diferenas e o fssil lembra, na incerteza de suas semelhanas, as
primeiras obstinaes da identidade.                              VII. O
discurso da natureza connaissance de la vie. 2 ed., Paris, 1965, pp.
129-54. 59      J.-B. Robinet. Considrations philosophiques sur la
gradation naturelle des formes de l'tre, p. 19.      A teoria da
histria natural no  dissocivel da teoria da linguagem. E contudo, de
uma a outra, no se trata de uma transferncia de mtodo. Nem de uma
comunicao de conceitos, ou dos prestgios de um modelo que, por ter
tido "sucesso" de um lado, seria tentado no domnio vizinho. Tambm no
se trata de uma racionalidade mais geral que imporia formas idnticas 
reflexo sobre a gramtica e  taxinomia. Mas sim de uma disposio
fundamental do saber que ordena o conhecimento dos seres segundo a
possibilidade de represent-los num sistema de nomes. Houve, sem dvida,
nessa regio a que hoje chamamos a vida, muitas outras pesquisas alm
dos esforos de classificao, muitas outras anlises alm daquelas das
identidades e das diferenas. Todas, porm, repousavam numa espcie de a
priori histrico que as autorizava em sua disperso, em seus projetos
singulares e divergentes, que tornava igualmente possveis todos os
debates de opinies de que eles eram o lugar. Esse a priori no 
constitudo por um equipamento de problemas constantes que os fenmenos
concretos no cessariam de apresentar como enigmas  curiosidade dos
homens; tampouco  formado [pg. 218] por um certo estado de
conhecimentos, sedimentado no curso das idades precedentes e servindo de
solo aos progressos mais ou menos desiguais ou rpidos da racionalidade;
nem mesmo  determinado, sem dvida, pelo que se denomina a mentalidade
ou os "quadros de pensamento" de uma dada poca, se com isso se entender
o perfil histrico dos interesses especulativos, das credulidades ou das
grandes opes tericas. Esse a priori  aquilo que, numa dada poca,
recorta na experincia um campo de saber possvel, define o modo de ser
dos objetos que a aparecem, arma o olhar cotidiano de poderes tericos
e define as condies em que se pode sustentar sobre as coisas um
discurso reconhecido como verdadeiro. O a priori histrico que, no
sculo XVIII, fundou as pesquisas ou os debates sobre a existncia dos
gneros, a estabilidade das espcies, a transmisso dos caracteres
atravs das geraes,  a existncia de uma histria natural:
organizao de um determinado visvel como domnio do saber, definio
das quatro variveis da descrio, constituio de um espao de
vizinhanas onde todo indivduo, qualquer que seja, pode vir
localizar-se. A histria natural, na idade clssica, no corresponde 
pura e simples descoberta de um novo objeto de curiosidade; recobre uma
srie de operaes complexas que introduzem, num conjunto de
representaes, a possibilidade de uma ordem constante. Constitui como
descritvel e ordenvel ao mesmo tempo todo um domnio de empiricidade.
O que a aparenta s teorias da linguagem a distingue do que ns
entendemos, desde o sculo XIX, por biologia e a faz desempenhar no
pensamento clssico um certo papel crtico.      A histria natural 
contempornea da linguagem: est no mesmo nvel do jogo espontneo que
analisa as representaes na lembrana, fixa seus elementos comuns,
estabelece signos a partir deles e, finalmente, impe nomes. Classificar
[pg. 219] e falar encontram seu lugar de origem nesse mesmo espao que
a representao abre no interior de si, porque ela  votada ao tempo, 
memria,  reflexo,  continuidade. Mas a histria natural s pode e s
deve existir como lngua independente de todas as outras, se ela for
lngua bem-feita. E universalmente vlida. Na linguagem espontnea e
"malfeita", os quatro elementos (proposio, articulao, designao,
derivao) deixam entre si interstcios abertos: as experincias de cada
um, as necessidades ou as paixes, os hbitos, os preconceitos, uma
ateno mais ou menos despertada constituram centenas de lnguas
diferentes e que se distinguem somente pela forma das palavras mas,
antes de tudo, pela maneira como essas palavras cortam a representao.
A histria natural s ser uma lngua bem-feita se o jogo for fechado:
se a exatido descritiva fizer de toda proposio um recorte constante
do real (se se puder sempre atribuir  representao o que a se
articula) e se a designao de cada ser indicar, de pleno direito, o
lugar que ele ocupa na disposio geral do conjunto. Na linguagem, a
funo do verbo  universal e vazia; prescreve somente a forma mais
geral da proposio; e  no interior desta que os nomes fazem atuar seu
sistema de articulao; a histria natural reagrupa essas duas funes
na unidade da estrutura, que articula umas s outras todas as variveis
que podem ser atribudas a um ser. E, enquanto na linguagem a
designao, em seu funcionamento individual, est exposta ao acaso das
derivaes que do sua amplitude e sua extenso aos nomes comuns, o
carter, tal como o estabelece a histria natural, permite a um tempo
marcar o indivduo e situ-lo num espao de generalidades que se
encaixam umas nas outras. De sorte que, por sobre as palavras de todos
os dias (e atravs delas, pois que realmente cumpre utiliz-las para as
descries primeiras), [pg. 220] constri-se o edifcio de uma
linguagem de segundo grau, em que reinam enfim os Nomes exatos das
coisas: "O mtodo, alma da cincia, designa  primeira vista qualquer
corpo da natureza, de tal sorte que esse corpo enuncia o nome que lhe 
prprio, e que esse nome evoca todos os conhecimentos que puderam ser
adquiridos no curso do tempo acerca do corpo assim nomeado: de modo que
na extrema confuso se descobre a ordem soberana da natureza."60
Mas essa nomeao essencial -- essa passagem da estrutura visvel ao
carter taxinmico -- remete a uma exigncia onerosa. A linguagem
espontnea, para realizar e cerrar a figura que vai da funo montona
do verbo ser  derivao e ao percurso do espao retrico, s precisava
do jogo da imaginao: isto , das semelhanas imediatas. Em
contrapartida, para que a taxinomia seja possvel,  necessrio que a
natureza seja realmente contnua e na sua plenitude mesma. L onde a
linguagem requeria a similitude das impresses, a classificao requer o
princpio da menor diferena possvel entre as coisas. Ora, esse
continuum que aparece assim no fundo da nomeao, na abertura deixada
entre a descrio e a disposio, est suposto bem antes da linguagem e
como sua condio. E no somente porque ele pode fundar uma linguagem
bem-feita, mas porque d conta de toda linguagem em geral.  a
continuidade da natureza, sem dvida, que d  memria a ocasio de se
exercer quando uma representao, por alguma identidade confusa e mal
percebida, evoca uma outra e permite aplicar a ambas o signo arbitrrio
de um nome comum. O que na imaginao se oferecia como uma similitude
cega no era seno o vestgio irrefletido e confuso da grande trama
ininterrupta das identidades e das diferenas. [pg. 221] A imaginao
(aquela que, permitindo comparar, autoriza a linguagem) formava, sem que
ento se soubesse, o lugar ambguo onde a continuidade da natureza,
arruinada mas insistente, se reunia  continuidade vazia, mas atenta, da
conscincia. De sorte que no teria sido possvel falar, no teria
havido lugar para o menor nome, se no fundo das coisas, antes de toda
representao, a natureza no tivesse sido contnua. Para estabelecer o
grande quadro sem falhas das espcies, dos gneros e das classes, foi
necessrio que a histria natural utilizasse, criticasse, classificasse
e finalmente reconstitusse por sua conta uma linguagem, cuja condio
de possibilidade residia justamente nesse 60      Lineu. Systema
naturae, 1766, p. 13. contnuo. As coisas e as palavras esto muito
rigorosamente entrecruzadas: a natureza s se d atravs do crivo das
denominaes e ela que, sem tais nomes, permaneceria muda e invisvel,
cintila ao longe, por trs deles, continuamente presente para alm desse
quadriculado que, no entanto, a oferece ao saber e s a torna visvel
quando inteiramente atravessada pela linguagem.           por isso, sem
dvida, que a histria natural, na poca clssica, no se pode
constituir como biologia. Com efeito, at o fim do sculo XVIII, a vida
no existe. Apenas existem seres vivos. Estes formam uma, ou antes,
vrias classes na srie de todas as coisas do mundo: e se se pode falar
da vida,  somente como de um carter -- no sentido taxinmico da
palavra -- na universal distribuio dos seres. Tem-se o hbito de
repartir as coisas da natureza em trs classes: os minerais, aos quais
se reconhece o crescimento, mas sem movimento nem sensibilidade; os
vegetais, que podem crescer e que so suscetveis de sensao; os
animais, que se deslocam espontaneamente61. Quanto  vida e ao limiar
que ela instaura, pode-se, segundo os critrios que se adotarem,
faz-los [pg. 222] deslizar ao longo de toda essa escala. Se, com
Maupertuis, a definirmos pela mobilidade e pelas relaes de afinidade
que atraem os elementos uns para os outros e os mantm ligados, temos de
alojar a vida nas mais simples partculas da matria. Estaremos
obrigados a situ-la muito mais alto na srie, se a definirmos por um
carter carregado e complexo, como o fazia Lineu quando lhe fixava como
critrios o nascimento (por semente ou rebento), a nutrio (por
intussuscepo), o envelhecimento, o movimento exterior, a propulso
interna dos humores, as doenas, a morte, a presena de vasos, de
glndulas, de epidermes e de utrculos62. A vida no constitui um limiar
manifesto a partir do qual formas inteiramente novas do saber so
requeridas. Ela  uma categoria de classificao, relativa, como todas
as outras, aos critrios que se fixarem. E, como todas as outras,
submetida a certas imprecises desde que se trate de fixar-lhe as
fronteiras. Assim como o zofito est na orla ambgua dos animais e das
plantas, assim os fsseis, assim os metais se alojam nesse limite
incerto em que no se sabe se se deve ou no falar de vida. Mas o corte
entre o vivo e o no-vivo jamais  um 61      Cf. por exemplo, Lineu.
Systema naturae, 1756, p. 215. 62      Lineu. Philosophie botanique, 
133. Cf. tambm Systeme sexuel des vgtaux, p. 1. problema decisivo63.
Como diz Lineu, o naturalista -- aquele a quem ele chama Historiens
naturalis -- "distingue pela vista as partes dos corpos naturais,
descreve- as convenientemente segundo o nmero, a figura, a posio e a
proporo e as nomeia"64. O naturalista  o homem do visvel estruturado
e da denominao caracterstica. No da vida. [pg. 223]          No se
deve, pois, vincular a histria natural, tal como se desenrolou durante
a poca clssica, a uma filosofia, mesmo obscura, mesmo ainda
balbuciante, da vida. Ela est, na realidade, entrecruzada com uma
teoria das palavras. A histria natural est situada ao mesmo tempo
antes e depois da linguagem; desfaz a de todos os dias, mas para
refaz-la e descobrir o que a tornou possvel atravs das semelhanas
cegas da imaginao; critica-a, mas para descobrir-lhe o fundamento. Se
a retoma e a quer realizar na sua perfeio,  porque tambm retorna 
sua origem. Passa por sobre esse vocabulrio cotidiano que lhe serve de
solo imediato e, aqum dele, vai buscar o que pde constituir sua razo
de ser; mas, inversamente, aloja-se por inteiro no espao da linguagem,
pois que ela  essencialmente um uso regulado dos nomes e tem por fim
ltimo dar s coisas sua verdadeira denominao. Entre a linguagem e a
teoria da natureza, existe portanto uma relao que  de tipo crtico;
conhecer a natureza , com efeito, construir, a partir da linguagem, uma
linguagem verdadeira que descobrir, porm, sob que condies toda
linguagem  possvel e dentro de que limites pode ter ela um domnio de
validade. A questo crtica certamente existiu no sculo XVIII, mas
ligada  forma de um saber determinado. Por essa razo no poderia
adquirir autonomia e valor de interrogao radical: no cessou de vagar
numa regio onde se tratava da semelhana, da fora da imaginao, da
natureza e da natureza humana, do valor das idias gerais e abstratas,
em suma, das relaes entre a percepo da similitude e a validade do
conceito. Na idade clssica -- Locke e Lineu, Buffon e Hume o
testemunham -- a questo crtica  a do fundamento da semelhana e da
existncia do gnero.          No fim do sculo XVIII, uma nova
configurao aparecer, emaranhando definitivamente para olhos modernos
o [pg. 224] velho espao da histria natural. 63   Bonnet admitia uma
diviso quadripartida na natureza: seres brutos inorganizados, seres
organizados inanimados (vegetais), seres organizados animados (animais),
seres organizados animados e racionais (homens). Cf. Contemplation de la
nature, 2 parte, cap. I. 64      Lineu. Systema naturae, p. 215. De um
lado, a crtica se desloca e se destaca do solo onde nascera. Enquanto
Hume fazia do problema da causalidade um caso de interrogao geral
sobre as semelhanas65, Kant, isolando a causalidade, inverte a questo;
l onde se tratava de estabelecer as relaes de identidade e de
distino sobre o fundo contnuo das similitudes, ele faz surgir o
problema inverso da sntese do diverso. No mesmo movimento, a questo
crtica se acha reportada do conceito ao juzo, da existncia do gnero
(obtida pela anlise das representaes)  possibilidade de ligar as
representaes entre si, do direito de nomear ao fundamento da
atribuio, da articulao nominal  proposio mesma e ao verbo ser que
a estabelece. Ela se acha ento absolutamente generalizada. Em vez de
valer somente a propsito das relaes entre a natureza e a natureza
humana, ela interroga a possibilidade mesma de todo conhecimento.
Mas, por outro lado, na mesma poca a vida assume sua autonomia em
relao aos conceitos da classificao. Ela escapa a essa relao
crtica que, no sculo XVIII, era constituda do saber da natureza.
Escapa, e isso quer dizer duas coisas: a vida torna-se objeto de
conhecimento em meio aos outros e, a esse ttulo, est sob a alada de
toda crtica em geral; mas resiste tambm a essa jurisdio crtica que
ela retoma por sua conta e que reporta, em seu prprio nome, a todo
conhecimento possvel. De sorte que, ao longo de todo o sculo XIX, de
Kant a Dilthey e a Bergson, os pensamentos crticos e as filosofias da
vida se encontraro numa posio de retomada e de contestao
recprocas. [pg. 225] 65      Hume. Essai sur la nature humaine. Trad.
francesa de Leroy, t. I, pp. 80, 239 ss. CAPTULO VI TROCAR
I. A anlise das riquezas      Nem vida, nem cincia da vida na poca
clssica; tampouco filologia. Mas sim uma histria natural, uma
gramtica geral. Do mesmo modo, no h economia poltica porque, na
ordem do saber, a produo no existe. Em contrapartida, existe, nos
sculos XVII e XVIII, uma noo que nos permaneceu familiar, embora
tenha perdido para ns sua preciso essencial. Nem  de "noo" que se
deveria falar a seu respeito, pois no tem lugar no interior de um jogo
de conceitos econmicos que ela deslocaria levemente, confiscando um
pouco de seu sentido ou corroendo sua extenso. Trata-se antes de um
domnio geral: de uma camada bastante coerente e muito bem
estratificada, que compreende e aloja, como tantos objetos parciais, as
noes de valor, de preo, de comrcio, de circulao, de renda, de
interesse. Esse domnio, solo e objeto da "economia" na idade clssica,
 o da riqueza. Intil colocar-lhe questes vindas de uma economia de
tipo diferente, organizada, por exemplo, em torno [pg. 227] da produo
ou do trabalho; intil igualmente analisar seus diversos conceitos
(mesmo e sobretudo se seus nomes em seguida se perpetuaram, com alguma
analogia de sentido), sem levar em conta o sistema em que assumem sua
positivi-dade. Isso equivaleria a analisar o gnero segundo Lineu fora
do domnio da histria natural, ou a teoria dos tempos de Bauze sem
levar em conta o fato de que a gramtica geral era sua condio
histrica de possibilidade.       necessrio, pois, evitar uma leitura
retrospectiva que s conferiria  anlise clssica das riquezas a
unidade ulte-rior de uma economia poltica em via de se constituir s
apalpadelas.  deste modo, entretanto, que os historiadores das idias
tm costume de restituir o nascimento enigmtico desse saber que, no
pensamento ocidental, teria surgido todo armado e j perigoso na poca
de Ricardo e de J.-B. Say. Supem eles que uma economia cientfica se
tornara durante muito tempo impossvel graas a uma problemtica
puramente moral do lucro e da renda (teoria do preo justo, justificao
ou condenao do interesse) e, em seguida, por causa de uma confuso
sistemtica entre moeda e riqueza, valor e preo de mercado: dessa
assimilao, o mercantilismo teria sido um dos principais responsveis e
a mais destacada manifestao. Mas, pouco a pouco, o sculo XVIII teria
assegurado as distines essenciais e discernido alguns dos grandes
problemas que a economia positiva, em seguida, no cessaria de tratar
com instrumentos mais bem adaptados: a moeda teria assim descoberto seu
carter convencional, ainda que no-arbitrrio (e isso atravs da longa
discusso entre os metalistas e os antimetalistas: entre os primeiros,
contar-se-iam Child, Petty, Locke, Cantillon, Galiani; entre os outros,
Barbon, Boisguillebert e sobretudo Law, depois, mais discretamente, aps
o desastre de 1720, Montesquieu e Melon); [pg. 228] ter-se-ia tambm
comeado -- e isto  a obra de Cantillon -- a distinguir, uma da outra,
a teoria do preo de troca e a do valor intrnseco; ter-se-ia discernido
o grande "paradoxo do valor", opondo  intil carestia do diamante a
bara-teza dessa gua sem a qual no podemos viver (com efeito, 
possvel encontrar esse problema rigorosamente formulado por Galiani);
ter-se-ia comeado, prefigurando assim Jevons e Menger, a vincular o
valor a uma teoria geral da utilidade (que  esboada em Galiani, em
Graslin, em Turgot); ter-se- ia compreendido a importncia dos preos
altos para o desenvolvimento do comrcio ( o "princpio de Becher"
retomado na Frana por Boisguillebert e por Quesnay); enfim -- e eis os
fisiocratas -- ter-se-ia encetado a anlise do mecanismo da produo. E
assim, pea por pea, pedao por pedao, a economia poltica teria
silenciosamente estabelecido seus temas essenciais, at o momento em
que, retomando num outro sentido a anlise da produo, Adam Smith teria
trazido  luz o processo da diviso crescente do trabalho, Ricardo, o
papel desempenhado pelo capital, J.-B. Say, algumas das leis
fundamentais da economia de mercado. Desde ento, a economia poltica
teria comeado a existir com seu objeto prprio e sua coerncia
interior.      Na realidade, os conceitos de moeda, de preo, de valor,
de circulao, de mercado no foram pensados nos sculos XVII e XVIII a
partir de um futuro que os esperava na sombra, mas, sim, sobre o solo de
uma disposio epistemolgica rigorosa e geral.  essa disposio que
sustenta, na sua necessidade de conjunto, a "anlise das riquezas". Esta
est para a economia poltica como a gramtica geral para a filologia,
como a histria natural para a biologia. E, assim como no se pode
compreender a teoria do verbo e do nome, a anlise da linguagem de ao,
a das razes e de sua derivao, [pg. 229] sem se referir, atravs da
gramtica geral, a essa rede arqueolgica que as torna possveis e
necessrias, assim como no se pode compreender, sem demarcar o domnio
da histria natural, o que foram a descrio, a caracterizao e a
taxinomia clssicas, tanto quanto a oposio entre sistema e mtodo, ou
"fixismo" e "evoluo", assim tambm no seria possvel encontrar o
liame de necessidade que enlaa a anlise da moeda, dos preos, do
valor, do comrcio, se no se trouxesse  luz esse domnio das riquezas
que  o lugar de sua simultaneidade.      Sem dvida, a anlise das
riquezas no se constituiu segundo os mesmos meandros nem ao mesmo ritmo
que a gramtica geral ou que a histria natural.  que a reflexo sobre
a moeda, o comrcio e as trocas est ligada a uma prtica e a
instituies. Mas, se for possvel opor a prtica  especulao pura,
ambas, de todo modo, repousam sobre um nico e mesmo saber fundamental.
Uma reforma da moeda, um uso bancrio, uma prtica comercial podem bem
se racionalizar, se desenvolver, se manter ou desaparecer segundo formas
prprias; mas esto sempre fundados sobre certo saber: saber obscuro que
no se manifesta por si mesmo num discurso, mas cujas necessidades so
igualmente as mesmas para as teorias abstratas ou as especulaes sem
relao aparente com a realidade. Numa cultura e num dado momento, nunca
h mais que uma epistm, que define as condies de possibilidade de
todo saber. Tanto aquele que se manifesta numa teoria quanto aquele que
 silenciosamente investido numa prtica. A reforma monetria prescrita
pelos Estados Gerais de 1575, as medidas mercantilistas ou a experincia
de Law e sua liquidao tm o mesmo suporte arqueolgico que as teorias
de Davanzatti, de Bouteroue, de Petty ou de Cantillon. E so essas
necessidades fundamentais do saber que  preciso fazer falar. [pg. 230]
II. Moeda e preo       No sculo XVI, o pensamento econmico est
limitado, ou quase, ao problema dos preos e ao da substncia monetria.
A questo dos preos concerne ao carter absoluto ou relativo do
encarecimento das mercadorias e ao efeito que porventura tiveram sobre
os preos as desvalorizaes sucessivas ou o afluxo dos metais
americanos. O problema da substncia monetria  o da natureza do
estalo, da relao de preo entre os diferentes metais utilizados, da
distoro entre o peso das moedas e seus valores nominais. Mas essas
duas sries de problemas estavam ligadas, pois que o metal s aparecia
como signo, e como signo medindo riquezas, na medida em que ele prprio
era uma riqueza. Se ele podia significar  porque era uma marca real. E
assim como as palavras tinham a mesma realidade daquilo que diziam,
assim como as marcas dos seres vivos estavam inscritas sobre seu corpo 
maneira de marcas visveis e positivas, assim os signos que indicavam as
riquezas e as mediam deviam trazer, eles prprios, a sua marca real.
Para poderem dizer o preo, era necessrio que fossem preciosos. Era
necessrio que fossem raros, teis, desejveis. Era necessrio tambm
que todas essas qualidades fossem estveis, para que a marca por eles
imposta fosse uma verdadeira assinalao, universalmente legvel. Da
essa correlao entre o problema dos preos e a natureza da moeda, que
constitui o objeto privilegiado de toda reflexo sobre as riquezas,
desde Coprnico at Bodin e Davanzatti.       Na realidade material da
moeda, fundam-se suas duas funes de medida comum entre as mercadorias
e de substituto no mecanismo de troca. Uma medida  estvel, reconhecida
por todos e vlida em todos os lugares, se tiver por estalo [pg. 231]
uma realidade assinalvel que se possa comparar com a diversidade das
coisas que se quer medir: assim, diz Coprnico, a toesa e o alqueire,
cujo comprimento e volume materiais servem de unidade1. Por
conseqncia, a moeda s mede verdadeiramente, se sua unidade for uma
realidade que existe realmente e  qual se pode referir toda e qualquer
mercadoria. Nesse sentido, o sculo XVI retorna  teoria admitida ao
menos durante uma parte da Idade Mdia e que se deixava ao 1  Coprnico.
Discours sur la frappe des monnaies. In: J.-Y. Le Branchu. crits
notables sur la monnaie. Paris, 1934, I, p. 15. prncipe ou ainda ao
consenso popular o direito de fixar o valor impositus da moeda, de
modificar-lhe a taxa, de demonetizar uma categoria de peas ou qualquer
metal que se desejasse.  preciso que o valor da moeda seja regulado
pela massa metlica que ela contm; isto , que retorne ao que era
outrora, quando os prncipes no tinham ainda imprimido sua efgie nem
seu selo sobre fragmentos metlicos; naquela ocasio, "nem o cobre, nem
o ouro, nem a prata eram monetizados, mas estimados somente segundo seu
peso"2; no se fazia valer signos arbitrrios por marcas reais; a moeda
era uma justa medida, porque no significava nada mais que seu poder de
aferir as riquezas a partir de sua prpria realidade material de
riqueza.          Foi sobre essa base epistemolgica que se operaram as
reformas no sculo XVI e que os debates assumiram suas dimenses
prprias. Busca-se reconduzir os signos monetrios  sua exatido de
medida:  preciso que os valores nominais conferidos s peas sejam
conformes  quantidade de metal que se escolheu como estalo e que nelas
se acha incorporada; a moeda ento no significar nada mais que [pg.
232] seu valor de medida. Nesse sentido, o autor annimo do Compendious
requer que "toda moeda atualmente corrente no o seja mais a partir de
uma certa data", pois as "altas" do valor nominal haviam alterado desde
muito tempo suas funes de medida; ser preciso que as peas j
monetizadas no sejam mais aceitas seno "segundo a estimao do metal
contido"; quanto  nova moeda, ter por valor nominal seu prprio peso:
"a partir desse momento, s sero correntes a antiga e a nova moeda,
segundo um mesmo valor, um mesmo peso, uma mesma denominao, e, assim,
a moeda ser restabelecida na sua antiga taxa e na sua antiga
validade"3. No se sabe se o texto do Compendious, que no foi publicado
antes de 1581, mas que certamente existiu e circulou em manuscrito uns
30 anos antes, inspirou a poltica monetria sob o reinado de Elisabeth.
Uma coisa  certa,  que aps uma srie de "altas" (de desvalorizaes)
entre 1544 e 1559, a proclamao de maro de 1561 "baixa" o valor
nominal das moedas e o reconduz  quantidade de metal que elas contm.
Do mesmo modo, na Frana, os Estados Gerais de 1575 requerem e obtm a
supresso das unidades de conta (que introduziam uma terceira 2
Annimo. Compendieux ou bref examen de quelques plaintes. In: J.-Y. Le
Branchu, op. cit., II, p. 117. 3     Id., ibid., p. 155. definio da
moeda, puramente aritmtica e que se acrescentava  definio do peso e
 do valor nominal: essa relao suplementar escondia, aos olhos dos que
eram mal instrudos a esse respeito, o sentido das manipulaes sobre a
moeda); o edito de setembro de 1577 estabelece o escudo de ouro ao mesmo
tempo como pea real e como unidade de conta, decreta a subordinao ao
ouro de todos os outros metais -- da prata em particular, que guarda
valor liberatrio mas perde sua imutabilidade de direito. Assim, as
moedas se acham reaferidas a partir de seu peso metlico. [pg. 233] O
signo que trazem -- o valor impositus --  to-somente a marca exata e
transparente da medida que elas constituem.          Todavia, ao mesmo
tempo em que esse retorno  exigido, por vezes realizado, pe-se  luz
um certo nmero de fenmenos que so prprios  moeda-signo e
comprometem talvez definitivamente seu papel de medida. Primeiro, o fato
de que uma moeda circula tanto mais depressa quanto menos valiosa, ao
passo que as peas de alto teor de metal se acham escondidas e no
figuram no comrcio:  a chamada lei de Gresham4, que Coprnico5 e o
autor do Cornpendious6 j conheciam. Em seguida e sobretudo, a relao
entre os fatos monetrios e o movimento dos preos: foi com isso que a
moeda surgiu como uma mercadoria entre as outras -- no como estalo
absoluto de todas as equivalncias, mas mercadoria cuja capacidade de
troca e, por conseguinte, cujo valor de substituto nas trocas se
modificam segundo sua freqncia e sua raridade: a moeda tambm tem seu
preo. Malestroit7 fez ver que, apesar da aparncia, no houve aumento
dos preos no decurso do sculo XVI: posto que as mercadorias so sempre
o que so, e que a moeda, em sua natureza prpria,  um estalo
constante, o encarecimento das mercadorias s pode ser devido ao aumento
dos valores nominais investidos por uma mesma massa metlica; mas, para
uma mesma quantidade de trigo, d-se sempre um mesmo peso de ouro e de
prata. De sorte que "nada  encarecido": como o escudo de ouro valia em
moeda de conta 20 soldos torneses no reinado de Filipe VI e vale agora
50,  realmente necessrio que uma [pg. 234] vara de veludo, que
custava outrora quatro libras, 4     Gresham. Avis de Sir Th. Gresham.
In: J.-Y. Le Branchu, op. cit., t.II, pp. 7 e 11. 5     Coprnico.
Discours sur la frappe des monnaies, loc. cit., I, p. 12. 6
Compendieux, loc. cit., II, p. 156. 7     Malestroit. Le paradoxe sur le
fait des monnaies. Paris, 1566. hoje valha dez. "O encarecimento de
todas as coisas no provm de dar mais, mas de receber menos em
quantidade de ouro e de prata fina do que se estava acostumado." Mas, a
partir dessa identificao do papel da moeda com a massa de metal que
ela faz circular, concebe-se perfeitamente que ela est submetida s
mesmas variaes que todas as outras mercadorias. E se Malestroit
admitia implicitamente que a quantidade e o valor mercantil dos metais
permaneciam estveis, Bodin, alguns poucos anos mais tarde8, constata um
aumento da massa metlica importada do Novo Mundo e, por conseqncia,
um encarecimento real das mercadorias, posto que os prncipes, possuindo
ou recebendo de particulares lingotes em maior quantidade, cunharam
peas mais numerosas e de melhor quilate; para uma mesma mercadoria,
d-se, portanto, uma quantidade de metal mais importante. A subida dos
preos tem, pois, uma "causa principal e quase a nica em que ningum
at aqui tocou":  "a abundncia de ouro e de prata", "a abundncia
daquilo que d estimativa e preo s coisas".         O prprio estalo
das equivalncias  assumido no sistema de trocas e o poder de compra da
moeda s significa o valor mercantil do metal. A marca que distingue a
moeda determina-a, torna-a certa e aceitvel por todos, , portanto,
reversvel, e pode ser lida nos dois sentidos: ela remete a uma
quantidade de metal que  medida constante ( assim que a decifra
Malestroit); mas remete tambm a essas mer- cadorias variveis em
quantidade e em preo que so os metais ( a leitura de Bodin). Tem-se
a uma disposio anloga  que caracteriza o regime geral dos signos no
sculo XVI; [pg. 235] os signos, como se sabe, eram constitudos por
semelhanas que, por sua vez, para serem reconhecidas, necessitavam de
signos. Aqui, o signo monetrio s pode definir seu valor de troca, s
pode estabelecer-se como marca, segundo uma massa metlica que, por sua
vez, define seu valor na ordem de outras mercadorias. Se se admitir que
a troca, no sistema das necessidades, corresponde  similitude no dos
conhecimentos, v-se que uma nica e mesma configurao da epistm
controlou, durante o Renascimento, o saber da natureza e a reflexo ou
as prticas que concerniam  moeda.         E, assim como a relao
entre o microcosmo e o macro-cosmo era indispensvel para deter a
oscilao indefinida da semelhana e do signo, assim 8     Bodin. La
rponse aux paradoxes de M. de Malestroit, 1568. tambm foi preciso
estabelecer uma certa relao entre metal e mercadoria que, ao cabo,
permitia fixar o valor mercantil total dos metais preciosos e, por
conseguinte, aferir de uma forma certa e definitiva o preo de todas as
mercadorias. Foi essa a relao estabelecida pela Providncia, quando
entranhou na terra as minas de ouro e de prata e as fez crescer
lentamente, da maneira como sobre a terra medram as plantas e
multiplicam-se os animais. Entre todas as coisas de que o homem pode ter
necessidade ou desejo, e os veios cintilantes, ocultos, onde crescem
obscuramente os metais, h uma correspondncia absoluta. "A natureza",
diz Davanzatti, "fez boas todas as coisas terrestres; a soma destas, em
virtude do acordo concludo pelos homens, vale todo o ouro que se
trabalha; todos os homens, portanto, desejam tudo para adquirir todas as
coisas... Para constatar cada dia a regra e propores matemticas que
as coisas tm entre si e o ouro, seria preciso, do alto do cu ou de
algum observatrio muito elevado, poder contemplar as coisas que existem
e que se fazem sobre a terra, ou, antes, suas imagens reproduzidas e
refletidas no cu como [pg. 236] num fiel espelho. Abandonaramos ento
todos os nossos clculos e diramos: h na terra tanto ouro quanto
tantas coisas, tantos homens, tantas necessidades; na medida em que cada
coisa satisfaz necessidades, seu valor ser o de tantas coisas ou de
tanto ouro."9 Esse clculo celeste e exaustivo, s Deus pode faz- lo:
ele corresponde quele outro clculo que pe em relao cada elemento do
microcosmo com um elemento do macrocosmo -- com a nica diferena de que
este rene o terrestre ao celeste e vai das coisas, dos animais ou do
homem at as estrelas; j o outro rene a terra s suas cavernas e s
suas minas; faz corresponder as coisas que nascem entre as mos dos
homens com os tesouros enterrados desde a criao do mundo. As marcas da
similitude, porque guiam o conhecimento, endeream-se  perfeio do
cu; os signos da troca, porque satisfazem o desejo, apiam-se na
cintilao negra, perigosa e maldita do metal. Cintilao equvoca, pois
reproduz no fundo da terra aquela que rutila na extremidade da noite: a
reside como uma promessa invertida da felicidade, e, porque o metal se
assemelha aos astros, o saber de todos esses perigosos tesouros  ao
mesmo tempo o saber do mundo. E a reflexo sobre as riquezas propende
assim para a grande especulao sobre o cosmos, assim como,
inversamente, o profundo conhecimento da ordem do 9     Davanzatti.
Leon sur les monnaies. In: J.-Y. Le Branchu, op. cit., pp. 230-1. mundo
deve conduzir ao segredo dos metais e  posse das riquezas. V-se a
densa rede de necessidades que, no sculo XVI, liga os elementos do
saber: de que modo a cosmologia dos signos duplica e funda finalmente a
reflexo sobre os preos e a moeda, de que modo ela autoriza tambm uma
especulao terica e prtica sobre os metais, de que modo [pg. 237]
estabelece uma comunicao entre as promessas do desejo e as do
conhecimento, da mesma forma como se respondem e se aproximam por
secretas afinidades os metais e os astros. Nos confins do saber, l onde
ele se faz todo-poderoso e quase divino, trs grandes funes se juntam:
as do Basiles, do Philsophos e do Metalliks. Mas, assim como esse
saber s  dado por fragmentos e na fulgurao atenta da divinatio,
assim tambm, no que se refere s relaes singulares e parciais entre
as coisas e o metal, o desejo e os preos, o conhecimento divino ou o
que se poderia adquirir "de algum observatrio elevado" no  dado ao
homem. Salvo por instantes e como que por sorte, aos espritos que sabem
espreitar: isto , os mercadores. O que os adivinhos eram no jogo
indefinido das semelhanas e dos signos, os mercadores o so no jogo,
tambm este sempre aberto, das trocas e das moedas. "Aqui embaixo
descobrimos com dificuldade as poucas coisas que nos cercam e lhes damos
um preo conforme percebemos sua maior ou menor procura em cada lugar e
em cada tempo. Quanto a isso os mercadores esto prontamente e muito bem
advertidos, e  por isso que conhecem admiravelmente o preo das
coisas."10                                   III. O mercantilismo
Para que o domnio das riquezas se constitusse como objeto de reflexo
no pensamento clssico, foi preciso que se desfizesse a configurao
estabelecida no sculo XVI. Para os "economistas" do Renascimento e at
mesmo Davanzatti, a aptido da moeda para medir as mercadorias e [pg.
238] sua permutabilidade repousavam em seu valor intrnseco: sabia-se
bem que os metais preciosos tinham pouca utilidade fora da moedagem;
porm, se foram escolhidos como estales, se eram utilizados na troca,
se, por conseqncia, atingiam um preo elevado,  porque, na ordem
natural e em si prprios, tinham um preo absoluto, fundamental, mais 10
Davanzatti. Leon sur les monnaies, p. 231. elevado que qualquer outro,
ao qual se podia referir o valor de cada mercadoria11. O insigne metal
era, por si, marca da riqueza; seu brilho oculto indicava
suficientemente que ele era ao mesmo tempo presena escondida e visvel
assinalao de todas as riquezas do mundo. Por essa razo  que tinha um
preo; por essa razo, tambm media todos os preos; por essa razo,
enfim, era possvel troc- lo por tudo o que tinha um preo. Era o
precioso por excelncia. No sculo XVII, atribuem-se sempre estas trs
propriedades  moeda fazendo-as repousar porm, todas trs, no mais
sobre a primeira (ter preo) mas sobre a ltima (substituir o que tem
preo). Enquanto o Renascimento fundava as duas funes do metal
monetizado (medida e substituto) sobre a reduplicao de seu carter
intrnseco (o fato de ser precioso), o sculo XVII desloca a anlise; 
a funo de troca que serve de fundamento para os dois outros caracteres
(a aptido para medir e a capacidade de receber um preo surgindo ento
como qualidades que derivam dessa funo).      Essa reviravolta  obra
de um conjunto de reflexes e de prticas que se distribuem ao longo de
todo o sculo XVII (desde Scipion de Grammont at Nicolas Barbon) e que
se agrupam sob o termo um pouco aproximativo de "mercantilismo". [pg.
239] Apressadamente tem-se o costume de caracteriz-lo por um
"monetarismo" absoluto, isto , por uma confuso sistemtica (ou
obstinada) entre riquezas e espcies monetrias. Na realidade, no  uma
identidade mais ou menos confusa que o "mercantilismo" instaura entre
umas e outras, mas uma articulao refletida, que faz da moeda o
instrumento de representao e de anlise das riquezas e faz, por sua
vez, das riquezas o contedo representado pela moeda. Assim como a velha
configurao circular das similitudes e das marcas se desfizera para
desenvolver-se segundo as duas superfcies correlativas da representao
e dos signos, assim o crculo do "precioso" se desfaz na poca do
mercantilismo, as riquezas se desenvolvem como objetos das necessidades
e dos desejos; dividem-se e substituem umas s outras pelo jogo das
espcies monetizadas que as significam; e as relaes recprocas entre a
moeda e a riqueza se estabelecem sob a forma da circulao e das trocas.
Se se pde crer que o mercantilismo confundia riqueza e moeda , sem
dvida, porque, para ele, a moeda tem o poder de representar toda 11
Cf. ainda no comeo do sculo XVII, esta proposio de Antoine de La
Pierre: "O valor essencial das espcies de moedas de ouro e de prata 
fundado sobre a matria preciosa que contm." (De la necessit du
psement [N.doT.]). riqueza possvel, porque ela  o seu instrumento
universal de anlise e de representao, porque ela cobre por inteiro o
conjunto de seu domnio. Toda riqueza  monetizvel; e  assim que ela
entra em circulao. Da mesma forma, todo ser natural era caracterizvel
e podia entrar numa taxinomia; todo indivduo era nomevel e podia
entrar numa linguagem articulada; toda representao era significvel e
podia entrar, para ser conhecida, num sistema de identidades e de
diferenas.          Mas isso exige um exame mais minucioso. Entre todas
as coisas que existem no mundo, quais so aquelas que o mercantilismo
poder chamar de "riquezas"? Todas as que, alm de representveis, so
tambm objetos de desejo. Quer dizer ainda, aquelas que so marcadas
pela "necessidade, ou [pg. 240] pela utilidade, ou pelo prazer, ou pela
raridade"12. Ora, pode-se dizer que os metais que servem para fabricar
peas de moeda (no se trata aqui da moeda de cobre que serve apenas
para troco em certas regies, mas das que so utilizadas no comrcio
exterior) fazem parte das riquezas? Muito pouca  a utilidade do ouro e
da prata -- "quando muito poderiam ser utilizados nos servios da casa";
e, por raros que sejam, sua abundncia excede ainda o que  requerido
para essas utilizaes. Se so procurados, se os homens acham que lhes
fazem falta, se escavam minas e guerreiam pela sua posse,  porque a
fabricao das moedas de ouro e prata lhes deram uma utilidade e uma
raridade que, por si mesmos, esses metais no detm. "A moeda no
empresta seu valor da matria de que  composta, mas sim da forma, que 
a imagem ou a marca do prncipe."13  por ser moeda que o ouro 
precioso. No o inverso. Desde logo, a relao to estreitamente fixada
no sculo XVI  invertida: a moeda (e mesmo o metal de que  feita)
recebe seu valor de sua pura funo de signo. O que acarreta duas
conseqncias. Primeiro, no  mais do metal que vir o valor das
coisas. Este se estabelece por si mesmo, sem referncia  moeda, segundo
critrios de utilidade, de prazer ou de raridade;  na relao de umas
com as outras que as coisas assumem valor; o metal permitir somente
representar esse valor, como um nome representa uma imagem ou uma idia,
mas no a constitui: "O ouro  apenas o signo e o instrumento usual para
pr em prtica o valor das coisas; mas a 12      Scipion de Grammont. Le
denier royal, trait curieux de l'or et de l `argent. Paris, 1620, p.
48. 13      Id. ibid., pp. 13-4. verdadeira estimao desse valor tem
sua origem no juzo humano e nessa faculdade a que se chama [pg. 241]
estimativa."14 As riquezas so riquezas porque as estima- mos, assim
como nossas idias so o que so porque no-las representamos. Os signos
monetrios ou verbais so a elas somados por acrscimo.           Mas,
por que o ouro e a prata, que em si mesmos dificilmente so riquezas,
receberam ou assumiram esse poder significante? Sem dvida, poder-se-ia
utilizar uma outra mercadoria para esse efeito "por muito vil e abjeta
que fosse"15. O cobre, que em muitas naes permanece em estado de
matria de baixo preo, torna-se precioso em algumas, na medida em que 
transformado em moeda16. De maneira geral, porm, utilizam-se o ouro e a
prata porque encerram em si mesmos uma "perfeio prpria". Perfeio
que no  da ordem do preo, mas provm de sua capacidade indefinida de
representao. So duros, imperecveis, inalterveis; podem dividir-se
em parcelas minsculas; so capazes de reunir um grande peso sob um
volume frgil; podem ser facilmente transportados; so fceis de
perfurar. Tudo isso faz do ouro e da prata um instrumento privilegiado
para representar todas as outras riquezas e estabelecer, por anlise,
uma comparao rigorosa entre elas. Assim se acha definida a relao da
moeda com as riquezas. Relao arbitrria, porque no  o valor
intrnseco do metal que d preo s coisas; todo objeto, mesmo sem
preo, pode servir de moeda; mas  preciso ainda que tenha qualidades
prprias de representao e capacidades de anlise que permitam
estabelecer entre as rique- zas relaes de igualdade e de diferena.
Parece ento que a utilizao do ouro e da prata est justamente
fundada. Como [pg. 242] diz Bouteroue, a moeda " uma poro de matria
 qual a autoridade pblica deu um peso e um valor certo, para servir de
preo e igualar no comrcio a desigualdade de todas as coisas"17. O
"mercantilismo" ao mesmo tempo liberou a moeda do postulado do valor
prprio do metal -- "loucura daqueles para quem o dinheiro  uma
mercadoria como outra qualquer"18 -- e estabeleceu entre ela e a riqueza
uma relao rigorosa de representao e de anlise. "O que visamos na
moeda, diz Barbon, no  tanto a 14      Id., ibid., pp.46-7. 15
Scipion de Grammont, op. cit., p. 14. 16      Schroeder. Frstliche
Schatz und Rentkammer, p. 111. Montanari. Della moneta, p. 35. 17
Bouteroue. Recherches curieuses des monnaies de France. Paris, 1666, p.
8. 18      Josuah Gee. Considrations sur le commerce. Trad. francesa de
1749, p. 13. quantidade de prata que ela contm, mas o fato de que tenha
curso."19          Comumente somos injustos, e duas vezes, com o que se
convencionou chamar o "mercantilismo"; quer porque se denuncie nele o
que ele no cessou de criticar (o valor intrnseco do metal como
princpio de riqueza), quer porque se descubra nele uma srie de
imediatas contradies: no definiu ele a moeda na sua pura funo de
signo, enquanto requeria sua acumulao como uma mercadoria? no
reconheceu a importncia das flutuaes quantitativas do numerrio e
desprezou a sua ao sobre os preos? no foi protecionista, fundando,
no entanto, sobre a troca o mecanismo de aumento das riquezas? De fato,
essas contradies ou essas hesitaes s existem se se colocar o
mercantilismo num dilema que, para ele, no podia ter sentido: o da
moeda mercadoria ou signo. Para o pensamento clssico, em via de se
constituir, a moeda  o que permite representar as riquezas. Sem tais
signos, as riquezas ficariam imveis, inteis e como que [pg. 243]
silenciosas; nesse sentido, o ouro e a prata so criadores de tudo o que
o homem pode cobiar. Mas, para poder desempenhar esse papel de
representao,  preciso que a moeda apresente propriedades (fsicas e
no econmicas) que a tornam adequada  sua tarefa e, por isso,
preciosa.  a ttulo de signo universal que ela se torna mercadoria rara
e desigualmente repartida: "O curso e valor impostos a toda moeda  sua
verdadeira validade intrnseca."20 Assim como, na ordem das
representaes, os signos que as substituem e as analisam devem ser,
tambm eles, representaes, a moeda no pode significar as riquezas sem
ser ela prpria uma riqueza. Porm torna-se riqueza porque  signo; ao
passo que uma representao deve ser primeiro representada para depois
tornar-se signo.          Da as aparentes contradies entre os
princpios da acumulao e as regras da circulao. Em um dado momento
do tempo, o nmero de espcies que existem  determinado; Colbert
pensava mesmo, malgrado a explorao das minas, malgrado o metal
americano, que "a quantidade de prata que circula na Europa 
constante". Ora,  dessa prata que se tem necessidade para representar
as riquezas, isto , atra- las, faz-las aparecer, trazendo-as do
estrangeiro ou fabricando-as no local;  dela tambm que se tem
necessidade para faz-las passar de mo em mo no processo de 19   N.
Barbon. A Discourse Concerning Coining the New Money Lighter. Londres,
1696, sem paginao. 20      Dumoulin (citado por Gonnard. Histoire des
thories montaires, I, p. 173). troca.  preciso, pois, importar metal,
tomando-o dos Estados vizinhos: "Somente o comrcio e tudo o que dele
depende pode produzir esse grande efeito."21 A legislao deve,
portanto, velar por duas coisas: "Interditar a transferncia do metal ao
estrangeiro ou sua utilizao para outros fins que no a moedagem, [pg.
244] e fixar direitos alfandegrios tais que permitam  balana
comercial ser sempre positiva, favorecer a importao de mercadorias
brutas, evitar quanto possvel a de objetos fabricados, exportar os
produtos manufaturados de preferncia aos prprios produtos cujo
desaparecimento conduz  escassez e provoca a alta dos preos."22 Ora, o
metal que se acumula no  destinado a se engrossar nem a dormir; se 
atrado a um Estado  para a ser consumido pela troca. Como dizia
Becher, tudo o que  despesa para um dos parceiros  receita para o
outro23; e Thomas Mun identificava o negcio seguro com a fortuna24. 
que o dinheiro s se torna riqueza real na exata medida em que cumpre
sua funo representativa: quando substitui as mercadorias, quando lhes
permite deslocarem-se ou aguardarem, quando d s matrias brutas a
ocasio de se tornarem consumveis, quando retribui o trabalho. No ,
pois, de temer que a acumulao de dinheiro num Estado faa subir os
preos; e o princpio estabelecido por Bodin de que a grande carestia do
sculo XVI era devida ao afluxo do ouro americano no  vlida; se 
verdade que a multiplicao do numerrio provoca inicialmente uma alta
dos preos, estimula contudo o comrcio e as manufaturas; a quantidade
de riquezas cresce e o nmero de elementos entre os quais se repartem as
espcies se acha proporcionalmente aumentado. No h que temer a alta
dos preos: ao contrrio, agora que os objetos preciosos se
multiplicaram, agora que os burgueses, como diz Scipion de Grammont,
podem usar "cetim e veludo", o valor das coisas, mesmo as mais raras, s
pde baixar em relao  totalidade [pg. 245] das outras; do mesmo
modo, cada fragmento de metal perde em valor perante os outros, na
medida em que aumenta a massa das espcies em circulao25. 21
Clment. Lettres, instructions et mmoires de Colbert, t. VII, p. 239.
22   Clment. Lettres, instructions et mmoires de Colbert, t. VII, p.
284. Cf. tambm Bouteroue. Recherches curieuses, pp. 10-1. 23      J.
Becher. Politischer Diskurs, 1668. 24      Th. Mun. England Treasure by
Foreign Trade, 1664, cap. II. 25      Scipion de Grammont, Le denier
royal, pp. 116-9.          As relaes entre riqueza e moeda
estabelecem-se, pois, na circulao e na troca, no mais na
"preciosidade" do metal. Quando os bens podem circular (e isso graas 
moeda), eles se multiplicam e as riquezas aumentam; quando as espcies
se tornam mais numerosas por efeito de uma boa circulao e de uma
balana favorvel, podem-se atrair novas mercadorias e multiplicar as
culturas e as fbricas. Portanto,  preciso dizer com Horneck que o ouro
e a prata "so o mais puro de nosso sangue, a medula de nossas foras",
"os mais indispensveis instrumentos da atividade humana e de nossa
existncia"26. Reencontra-se aqui a velha metfora de uma moeda que
seria para a sociedade o que o sangue  para o corpo27. Mas, em
Davanzatti, as espcies no tinham outro papel seno o de irrigar as
diversas partes da nao. Agora que moeda e riqueza so tomadas ambas no
interior do espao das trocas e da circulao, o mercantilismo pode
ajustar sua anlise conforme o modelo recentemente fornecido por Harvey.
Segundo Hobbes28, o circuito venoso da moeda  o dos impostos e das
taxas que subtraem das mercadorias transportadas, compradas ou vendidas,
uma certa massa metlica; esta  conduzida at o corao do Homem-
Leviat -- isto , at os cofres do Estado.  l que o metal recebe o
"princpio vital": o Estado, com efeito, pode fundi-lo ou tornar a p-lo
em circulao. Em todo o caso, somente sua autoridade [pg. 246] lhe
dar curso; e, redistribudo aos particulares (sob forma de penses, de
emolumentos ou de retribuio por provises compradas pelo Estado),
estimular, no segundo circuito, agora arterial, as trocas, as
fabricaes e as culturas. A circulao torna-se assim uma das
categorias fundamentais da anlise. Mas a transferncia desse modelo
fisiolgico s se tornou possvel pela abertura mais profunda de um
espao comum  moeda e aos signos, s riquezas e s representaes. A
metfora, to assdua em nosso Ocidente, da cidade e do corpo, s
assumiu, no sculo XVII, seus poderes imaginrios com base em
necessidades arqueolgicas muito mais radicais.          Atravs da
experincia mercantilista, o domnio das riquezas se constitui do mesmo
modo que o das representaes. Viu-se que estas tinham o poder de se
representarem a partir de si mesmas: de abrir em si um espao onde elas
se 26      Horneck. Oesterreich ber alles, wenn es will, 1684, pp. 8 e
188. 27      Cf. Davanzatti. Leon sur la monnaie (citado por J.-Y. Le
Branchu, op. cit., t. II, p. 230). 28      Th. Hobbes. Leviathan.
Cambridge, 1904, pp. 179-80. analisavam e de formar, com seus prprios
elementos, substitutos que permitiam, a um tempo, estabelecer um sistema
de signos e um quadro das identidades e das diferenas. Do mesmo modo,
as riquezas tm o poder de se permutarem; de se analisarem em partes que
autorizam relaes de igualdade ou de desigualdade; de se significarem
umas s outras por esses elementos de riquezas perfeitamente comparveis
que so os metais preciosos. E assim como o mundo inteiro da
representao se cobre de representaes de segundo grau que as
representam, e isso numa cadeia ininterrupta, assim tambm todas as
riquezas do mundo esto em relao umas com as outras, na medida em que
fazem parte de um sistema de troca. De uma representao a outra no h
ato autnomo de significao, mas uma simples e indefinida possibilidade
de troca. Quaisquer que tenham sido suas determinaes e conseqncias
econmicas, o mercantilismo, se interrogado ao nvel da epistm,
aparece como o lento, o [pg. 247] longo esforo para colocar a reflexo
sobre os preos e a moeda na linha reta da anlise das representaes.
Ele fez surgir um domnio de "riquezas" que  conexo quele que, por
volta da mesma poca, abriu-se diante da histria natural, e quele,
igualmente, que se desenrolou diante da gramtica geral. Todavia,
enquanto nestes dois ltimos casos, a mutao se fez bruscamente (um
certo modo de ser da linguagem se erige subitamente na Grammaire de
Port-Royal, um certo modo de ser dos indivduos naturais se manifesta
quase de repente com Jonston e Tournefort) -- em contrapartida, o modo
de ser da moeda e da riqueza, porque ligado a toda uma prxis, a todo um
conjunto institucional, tinha um ndice de viscosidade histrica muito
mais elevado. Os seres naturais e a linguagem no necessitaram do
equivalente da longa operao mercantilista para entrar no domnio da
representao, submeter-se s suas leis, dela receber seus signos e seus
princpios de ordem.                           IV. O penhor e o preo
A teoria clssica da moeda e dos preos elaborou-se atravs de
experincias histricas bem conhecidas. A primeira  a grande
valorizao dos signos monetrios que comeou bem cedo na Europa, no
sculo XVII; ser preciso ver uma primeira tomada de conscincia disso,
ainda marginal e alusiva, na afirmao de Colbert de que a massa
metlica  estvel na Europa e de que as contribuies americanas podem
ser negligenciadas? Em todo o caso, no fim do sculo, sente-se que o
metal monetizado  demasiado raro: regresso do comrcio, baixa dos
preos, dificuldades para pagar as dvidas, as rendas e os impostos,
depreciao da terra. Da a grande srie de desvalorizaes ocorridas na
Frana, durante [pg. 248] os 15 primeiros anos do sculo XVIII, para
multiplicar o numerrio; as 11 "diminuies" (reavaliaes), escalonadas
de 1 de dezembro de 1713 a 1 de setembro de 1715 e destinadas -- mas
foi um fracasso -- a repor em circulao o metal que se esconde; toda
uma seqncia de medidas que diminuem as taxas das rendas e reduzem seu
capital nominal; o aparecimento das cdulas monetrias, em 1701, logo
substitudas por rendas de Estado. Entre muitas outras conseqncias, a
experincia de Law permitiu o reaparecimento dos metais, o aumento dos
preos, a reavaliao da terra, a revalorizao do comrcio. Os editos
de janeiro e de maio de 1726 instauram, para todo o sculo XVIII, uma
moeda metlica estvel: promulgam a fabricao de um lus de ouro que
vale e valer, at a Revoluo, 24 libras tornesas.          Tem-se o
hbito de ver nessas experincias, no seu contexto terico, nas
discusses a que deram lugar, o confronto entre os partidrios de uma
moeda-signo e os de uma moeda-mercadoria. De um lado, coloca-se Law, 
claro, com Terrasson29, Dutot30, Montesquieu31, o cavaleiro de
Jaucourt32; defronte, alinham-se, alm de Paris-Duverney33, o chanceler
d'Aguesseau34, Condillac, Destutt; entre os dois grupos e como que numa
linha mediana, cumpriria colocar Melon35 e [pg. 249] Graslin36.
Certamente seria interessante fazer o parcelamento exato das opinies e
determinar como se distriburam nos diferentes grupos sociais. Se
interrogarmos, porm, o saber que as tornou, umas e outras, ao mesmo
tempo possveis, perceberemos que a oposio  superficial; e que, se 
necessria,  a partir de uma 29      Terrasson. Trois lettres sur le
nouveau systme des finances. Paris, 1720. 30      Dutot. Rflexions sur
le commerce et les finances. Paris, 1738. 31      Montesquieu. L `esprit
des lois, liv. XXII, cap. II. 32      Artigo "Monnaie". In: Encydopdie.
33      Paris-Duverney. Examen des rflexions politiques sur les
finances. Haia, 1740. 34      D'Aguesseau. Considration sur la monnaie,
1718. In: Oeuvres. Paris, 1777, t.X. 35      Melon. Essai politique sur
le commerce. Paris, 1734. 36      Graslin. Essai analytique sur les
richesses. Londres, 1767. disposio nica que estabelece somente, num
ponto determinado, a bifurcao de uma escolha indispensvel.
Essa disposio nica  a que define a moeda como uma garantia.
Definio que se encontra em Locke e, um pouco antes dele, em Vaughan37;
depois em Melon -- "o ouro e a prata so, por conveno geral, a
garantia, o equivalente ou a medida comum de tudo o que serve ao uso dos
homens"38 --, em Dutot -- "as riquezas de confiana ou de opinio so
somente representativas, como o ouro, a prata, o bronze, o cobre"39 --,
em Fortbonnais -- "o ponto importante" nas riquezas de conveno
consiste "na segurana que tm os proprietrios de dinheiro e de
mercadorias de troc-los quando o quiserem... na base estabelecida pelo
uso"40. Dizer que a moeda  uma garantia  dizer que ela nada mais  que
um tento recebido com consentimento comum -- pura fico, por
conseguinte; mas  dizer tambm que ela vale exatamente aquilo por que
foi dada, pois que, por sua vez, poder ser trocada por [pg. 250] essa
mesma quantidade de mercadoria ou seu equivalente. A moeda pode sempre
reconduzir s mos de seu proprietrio o que acaba de ser trocado por
ela, assim como, na representao, um signo deve poder reconduzir o
pensamento quilo que ele representa. A moeda  uma slida memria, uma
representao que se reduplica, uma troca adiada. Como diz Le Trosne, o
comrcio que se serve da moeda  um aperfeioamento, na mesma medida em
que  "um comrcio imperfeito"41, um ato ao qual falta, durante um
tempo, aquilo que o compensa, uma semi-operao que promete e espera a
troca inversa pela qual a garantia se achar reconvertida em seu
contedo efetivo.          Mas como pode a garantia monetria dar essa
segurana? Como pode escapar ao dilema do signo sem valor ou da
mercadoria anloga a todas as outras?  a que se situa, para a anlise
clssica da moeda, o ponto de heresia -- a escolha que ope aos
partidrios de Law seus adversrios. Com efeito, pode-se conceber que a
37   Vaughan. A Discourse of Coin and Coinage. Londres, 1675, p. 1.
Locke. Considerations of the Lowering of Interests. In: Works. Londres,
1801, t. V, pp. 21-3. 38   Melon. Essai politique sur le commerce. In:
Daire. conomistes et financiers du XVIIIe sicle, p. 761. 39
Dutot. Rflexions sur le commerce et les finances, ibid., pp. 905-6. 40
Vron de Fortbonnais. lments de commerce, t. II, p. 91. Cf. tambm
Recherches et considrations sur les richesses de la France, II, p. 582.
41      Le Trosne. De l'intert social. In: Daire. Les physiocrates, p.
908. operao que garante a moeda seja assegurada pelo valor mercantil
da matria de que  feita; ou, ao contrrio, por outra mercadoria que
lhe fosse exterior, mas que estaria a ela ligada pelo consentimento
coletivo ou pela vontade do prncipe.  essa segunda soluo que Law
escolhe por causa da raridade do metal e das oscilaes de seu valor
mercantil. Ele pensa que se pode fazer circular uma moeda de papel que
seria garantida pela propriedade fundiria: trata-se ento apenas de
emitir "bilhetes hipotecados sobre as terras e que devem ser amortizados
por pagamentos anuais..., esses bilhetes circularo como dinheiro
monetizado pelo valor que eles exprimem"42. Sabe-se que Law [pg. 251]
foi obrigado a renunciar a essa tcnica em sua experincia francesa e
que fez com que a moeda fosse garantida por uma companhia de comrcio. O
fracasso do empreendimento em nada afetou a teoria da moeda- garantia
que o tornara possvel mas que tornava igualmente possvel toda reflexo
sobre a moeda, mesmo oposta s concepes de Law. E quando, em 1726, uma
moeda metlica estvel foi introduzida, a garantia foi requerida 
prpria substncia da espcie. O que assegura  moeda sua
permutabilidade  o valor mercantil do metal que nela est presente; e
Turgot criticar Law por ter acreditado que "a moeda no passa de uma
riqueza simblica, cujo crdito se baseia na marca do prncipe. Essa
marca s est l para certificar-lhe o peso e o ttulo... Portanto, 
como mercadoria que o dinheiro  no o signo, mas a comum medida das
outras mercadorias... O ouro extrai seu preo de sua raridade e, por no
constituir um mal o fato de ser ele empregado ao mesmo tempo como
mercadoria e como medida, esses dois empregos sustentam seu preo"43.
Law, com seus partidrios, no se ope a seu sculo como o genial -- ou
imprudente -- precursor das moedas fiducirias. Do mesmo modo que seus
adversrios, define a moeda como garantia. Pensa, porm, que seu
fundamento ser mais bem assegurado (ao mesmo tempo mais abundante e
mais estvel) por uma mercadoria exterior  prpria espcie monetria;
seus adversrios, em contrapartida, pensam que ele ser mais bem
assegurado (mais certo e menos submetido s especulaes) pela
substncia metlica que constitui a realidade material da moeda. Entre
Law e os que o criticam, a oposio concerne 42    Law. Considrations
sur le numraire. In: Daire. conomistes et financiers du XVIIIe sicle,
p. 519. 43      Turgot. Seconde lettre  1'abb de Cice, 1749. In:
Oeuvres, ed. Schelle, t. I, pp. 146-7. somente  distncia entre quem d
a garantia e [pg. 252] quem a recebe. Num caso, a moeda, aliviada em si
mesma de todo valor mercantil, mas assegurada por um valor que lhe 
exterior,  aquilo "pelo qual" se trocam mercadorias44; no outro caso, a
moeda, tendo em si um preo,  ao mesmo tempo aquilo "pelo qual" e "para
o qual" se trocam as riquezas. Em ambos os casos, porm, a moeda permite
fixar o preo das coisas graas a certa relao de proporo com as
riquezas e a certo poder de faz-las circular.          Enquanto
garantia, a moeda designa uma certa riqueza (atual ou no): ela
estabelece seu preo. Mas a relao entre a moeda e as mercadorias,
portanto o sistema dos preos, se acha modificada desde que a quantidade
de moeda ou a quantidade de mercadorias, em um momento do tempo, so,
elas tambm, alteradas. Se houver pequena quantidade de moeda em relao
aos bens, ela ter um grande valor e os preos sero baixos; se sua
quantidade aumenta a ponto de se tornar abundante diante das riquezas,
ento ela ter pouco valor e os preos sero altos. O poder de
representao e de anlise da moeda varia com a quantidade de espcies,
de um lado, e com a quantidade de riquezas, de outro: s seria constante
se as duas quantidades fossem estveis ou variassem conjuntamente numa
mesma proporo.          A "lei quantitativa" no foi "inventada" por
Locke. J no sculo XVI, Bodin e Davanzatti sabiam perfeitamente que o
crescimento das massas metlicas em circulao fazia subir o preo das
mercadorias; mas esse mecanismo aparecia ligado a uma desvalorizao
intrnseca do metal. No fim do sculo XVII, esse mesmo mecanismo 
definido a partir da funo representativa da moeda, "a quantidade da
moeda estando em proporo com todo o comrcio". Mais metal -- e, [pg.
253] de imediato, cada mercadoria existente no mundo poder dispor de um
pouco mais de elementos representativos; mais mercadorias, e cada
unidade metlica ser um pouco mais fortemente garantida. Basta tomar
uma mercadoria qualquer como referncia estvel e o fenmeno de variao
aparece com toda a clareza: "Se tomarmos", diz Locke, "o trigo como
medida fixa, verificaremos que o dinheiro suportou no seu valor as
mesmas variaes que as outras mercadorias... A razo disso  tangvel.
Desde a descoberta das ndias, h dez vezes mais dinheiro no mundo do
que havia at ento; ele vale tambm 9/10 menos, o que quer dizer que 
44      Law. Considrations sur le numraire, pp. 472 ss. preciso dar
dez vezes mais dinheiro do que se dava h 200 anos, para comprar a mesma
quantidade de mercadorias"45. A baixa do valor do metal que aqui 
invocada no concerne a certa qualidade preciosa que lhe. pertenceria
propriamente, mas a seu poder geral de representao.  preciso
considerar as moedas e as riquezas como duas massas gmeas que se
correspondem necessariamente: "Como o total de uma est para o total da
outra, a parte de uma estar para a parte da outra... Se houvesse apenas
uma mercadoria divisvel como o ouro, a metade dessa mercadoria
corresponderia  metade do total do outro lado."46 Supondo-se que s
houvesse um bem no mundo, todo o ouro da terra estaria a para
represent-lo; e, inversamente, se os homens todos s dispusessem de uma
pea de moeda, todas as riquezas que nascem da natureza ou saem de suas
mos deveriam repartir-se pelas suas subdivises. A partir dessa
situao-limite, se o dinheiro comear a afluir -- as mercadorias
permanecendo iguais -- "o valor de cada parte da espcie diminuir
proporcionalmente"; [pg. 254] em contrapartida, "se a indstria, as
artes e as cincias introduzirem no crculo das trocas novos objetos...
ser preciso aplicar ao novo valor dessas novas produes uma poro de
signos representativos dos valores; sendo essa poro tomada da massa
dos signos, sua quantidade relativa diminuir e aumentar
proporcionalmente seu valor representativo para fazer face a mais
valores, j que sua funo  represent-los todos, nas propores que
lhes convm"47.          No h, pois, justo preo: nada, numa
mercadoria qualquer, indica por algum carter intrnseco, a quantidade
de moeda pela qual seria preciso retribu-la. O preo mdico no  nem
mais nem menos exato que o preo elevado. No entanto, existem regras de
comodidade que permitem fixar a quantidade de moeda pela qual 
desejvel representar as riquezas. No final, cada coisa permutvel
deveria ter seu equivalente -- "sua designao" -- em espcies; o que
seria sem inconveniente no caso em que a moeda utilizada fosse de papel
(seriam fabricadas ou destrudas, segundo a idia de Law,
proporcionalmente s necessidades de troca); mas isso seria incmodo ou
mesmo impossvel se a moeda fosse metlica. Ora, uma s e mesma 45
Locke. Considerations of Lowering of Interests, p. 73. 46
Montesquieu. L `esprit des lois, liv. XXII, cap. VII. 47      Graslin.
Essai analytique sur les richesses, pp. 54-5. unidade monetria adquire,
ao circular, o poder de representar vrias coisas; quando ela muda de
mo, ora  o pagamento de um objeto ao empresrio, ora o de um salrio
ao operrio, o de uma mercadoria ao mercador, o de um produto ao
agricultor, ou ainda o da renda ao proprietrio. Uma nica massa
metlica pode, no curso do tempo e segundo os indivduos que a recebem,
representar vrias coisas equivalentes (um objeto, um trabalho, uma
medida de trigo, uma parte de um rendimento) -- como um nome comum tem o
poder de representar vrias coisas, [pg. 255] ou um carter taxinmico
o de representar vrios indivduos, vrias espcies, vrios gneros,
etc. Mas, enquanto o carter s cobre uma generalidade maior em se
tornando mais simples, a moeda s representa mais riquezas quando
circula mais depressa. A extenso do carter se define pelo nmero de
espcies que agrupa (portanto, pelo espao que ele ocupa no quadro); a
velocidade de circulao da moeda, pelo nmero de mos entre as quais
passa antes de retornar ao seu ponto de partida ( por isso que se
escolhe como origem o pagamento  agricultura dos produtos de sua
colheita, porque a h ciclos anuais absolutamente certos). V-se, pois,
que  extenso taxinmica do carter no espao simultneo do quadro
corresponde a velocidade do movimento monetrio durante um tempo
definido.      Essa velocidade tem dois limites: uma velocidade
infinitamente rpida, que seria a de uma troca imediata em que a moeda
no teria papel a desempenhar, e uma velocidade infinitamente lenta, em
que cada elemento de riqueza teria seu duplo monetrio. Entre esses dois
extremos, h velocidades variveis, s quais correspondem as quantidades
de moedas que as tornam possveis. Ora, os ciclos da circulao so
comandados pela anuidade das colheitas: a partir destas e tendo em conta
o nmero de indivduos que povoa um Estado,  possvel, portanto,
definir a quantidade de moeda necessria e suficiente para que passe
entre todas as mos e para que represente ao menos a subsistncia de
cada um. Compreende-se de que modo se acharam ligadas, no sculo XVIII,
as anlises da circulao a partir dos rendimentos agrcolas, o problema
do desenvolvimento da populao e o clculo da quantidade tima de
espcies monetizadas. Tripla questo que se pe sob uma forma normativa:
pois o problema no est em saber por quais mecanismos o dinheiro
circula ou estagna, [pg. 256] de que modo ele  despendido ou acumulado
(tais questes s so possveis numa economia que formulasse os
problemas da produo e do capital), mas sim, qual a quantidade
necessria de moeda para que, num dado pas, a circulao se faa
bastante veloz, passando por um nmero bastante elevado de mos. Ento
os preos sero no intrinsecamente "justos", mas exatamente ajustados:
as divises da massa monetria analisaro as riquezas segundo uma
circulao que no ser nem demasiado frouxa, nem demasiado cerrada. O
"quadro" estar bem-feito.          Essa proporo tima no  a mesma,
se considerarmos um pas isolado ou o jogo de seu comrcio exterior.
Supondo um Estado capaz de viver por si mesmo, a quantidade de moeda que
 preciso pr em circulao depende de diversas variveis: a quantidade
de mercadorias que entra no sistema de trocas; a parte dessas
mercadorias que, no sendo nem distribuda nem retribuda pelo sistema
da permuta deve ser, num momento qualquer de seu percurso, representada
pela moeda; a quantidade de metal que pode ser substituda pelo papel
escrito; enfim, o ritmo em que se devem efetuar os pagamentos: no 
indiferente, como observa Cantillon48, que os operrios sejam pagos por
semana ou por dia, que as rendas sejam entregues no fim do ano, ou
antes, como  costume, no fim de cada trimestre. Definidos os valores
dessas quatro variveis para um dado pas, pode-se definir a quantidade
tima de espcies metlicas. Para efetuar um clculo desse gnero,
Cantillon parte da produo da terra, da qual todas as riquezas saem
direta ou indiretamente. Essa produo divide-se em trs rendas nas mos
do agricultor: a renda paga ao proprietrio; a que  utilizada para a
manuteno do [pg. 257] agricultor, dos homens e dos cavalos; enfim,
"uma terceira que deve permanecer com ele para o benefcio da sua
empresa"49. Ora, s a primeira renda e cerca da metade da terceira devem
ser entregues em espcies; as outras podem ser pagas sob a forma de
trocas diretas. Levando em conta o fato de que uma metade da populao
reside nas cidades e tem despesas de manuteno mais elevadas que os
camponeses, v-se que a massa monetria em circulao deveria ser quase
igual aos 2/3 da produo. Isso se ao menos todos os pagamentos se
efetuassem uma vez por ano; mas, de fato, a renda fundiria  paga a
cada trimestre; basta, portanto, uma quantidade de espcies equivalente
a 1/6 da produo. Ademais, muitos pagamentos se fazem por dia ou por 48
Cantillon. Essai sur la nature du commerce en gnral, 1952, p. 73. 49
Id., ibid., pp.68-9. semana; a quantidade de moeda requerida , pois, da
ordem da nona parte da produo -- isto , de 1/3 da renda dos
proprietrios50.          Esse clculo, porm, s  exato desde que se
imagine uma nao isolada. Ora, na sua maioria, os Estados mantm, uns
com os outros, um comrcio em que os nicos meios de pagamento so a
permuta, o metal estimado segundo seu peso (e no as espcies com seu
valor nominal) e, eventualmente, os ttulos bancrios. Nesse caso,
pode-se tambm calcular a quantidade relativa de moeda que  desejvel
pr em circulao: todavia, essa estimao no deve tomar por referncia
a produo fundiria, mas uma certa relao dos salrios e dos preos
com aqueles que so praticados nos pases estrangeiros. Com efeito, numa
regio onde os preos so rela- tivamente pouco elevados (em razo de
uma fraca quantidade de moeda), o dinheiro estrangeiro  atrado por
largas possibilidades de compra: a quantidade de metal cresce. O Estado,
[pg. 258] como se diz, torna-se "rico e poderoso"; pode manter uma
frota e um exrcito, realizar conquistas, enriquecer-se mais. A
quantidade de espcies em circulao faz subir os preos, ao mesmo tempo
em que d aos particulares a faculdade de comprar no estrangeiro, onde
os preos sejam inferiores; pouco a pouco o metal desaparece e o Estado
novamente se empobrece. Tal  o ciclo que Cantillon descreve e formula
num princpio geral: "A excessiva abundncia de dinheiro que faz,
enquanto dura, a potncia dos Estados, lana-os insensvel e
naturalmente na indigncia."51          Sem dvida, no seria possvel
evitar essas oscilaes, se no existisse, na ordem das coisas, uma
tendncia inversa que agrava incessantemente a misria das naes j
pobres e aumenta, ao contrrio, a prosperidade dos Estados ricos.  que
os movimentos da populao se dirigem num sentido oposto ao numerrio.
Este vai dos Estados prsperos s regies de baixos preos; j os homens
so atrados em direo aos salrios elevados, portanto, para os pases
que dispem de um numerrio abundante. Os pases pobres tm, pois,
tendncia a se despovoar; a agricultura e a indstria ali se deterioram
e a misria aumenta. Nos pases ricos, ao contrrio, o afluxo da
mo-de-obra permite explorar novas riquezas cuja venda aumenta em 50
Id., ibid., Petty dava a proporo anloga de 1/10 (Anatomie politique
de l `Irlande). 51      Cantillon, loc. cit., p. 76. proporo 
quantidade de metal que circula52. A poltica deve, portanto, buscar
compor esses dois movimentos inversos da populao e do numerrio. 
preciso que o nmero dos habitantes cresa pouco a pouco, mas sem
interrupo, para que as manufaturas possam encontrar uma mo-de-obra
sempre abundante; ento os salrios no aumentaro mais depressa que as
riquezas, nem, com eles, os preos; e a balana comercial [pg. 259]
poder permanecer favorvel: reconhece-se a o fundamento das teses
populacionistas53. Mas, por outro lado,  preciso tambm que a
quantidade do numerrio esteja sempre em ligeiro aumento: nico meio
para que as produes da terra ou da indstria sejam bem retribudas,
para que os salrios sejam suficientes, para que a populao no seja
miservel em meio s riquezas que ela produz: da todas as medidas para
favorecer o comrcio exterior e manter uma balana positiva.          O
que assegura o equilbrio e impede as profundas oscilaes entre a
riqueza e a pobreza no , pois, um certo estatuto definitivamente
adquirido, mas uma composio -- ao mesmo tempo natural e combinada --
de dois movimentos. H prosperidade num Estado, no quando as espcies
so a numerosas ou os preos elevados; mas quando as espcies esto
neste estgio de aumento -- que  preciso poder prolongar
indefinidamente -- que permite sustentar os salrios sem aumentar mais
os preos: ento a populao cresce regularmente, seu trabalho produz
mais e, uma vez que o aumento consecutivo das espcies se reparte
(segundo a lei de representatividade) entre riquezas pouco numerosas, os
preos no aumentam em relao aos que vigoram no estrangeiro.  somente
"entre o crescimento da quantidade de ouro e a alta dos preos que o
crescimento da quantidade de ouro e de prata  favorvel  indstria.
Uma nao cujo numerrio est diminuindo , no momento em que se faz a
comparao, mais fraca e mais miservel que uma outra que no possui
mais, mas cujo numerrio est em crescimento"54.  assim [pg. 260] que
se explica o desastre espanhol: com efeito, a posse das minas aumentara
maciamente o numerrio -- e, por via de conseqncia, os preos -- sem
que a indstria, a agricultura e a populao tivessem tido tempo, entre
causa e efeito, de se 52      Dutot. Rflexions sur le commerce et les
finances, pp. 862 e 906. 53   Cf. Vron de Fortbonnais. lments du
commerce, t. I, p. 45, e sobretudo Tucker. Questions importantes sur le
commerce. Trad. francesa de Turgot. In: Oeuvres, I, p. 335. 54
Hume. De la circulation montaire. In: Oeuvres conomiques. Trad.
francesa, pp. 29-30. desenvolver em proporo; era fatal que o ouro
americano se espalhasse pela Europa, a comprasse mercadorias, fizesse
crescer as manufaturas, enriquecesse as herdades, deixando a Espanha
mais miservel do que jamais fora. A Inglaterra, em contrapartida, se
atraiu o metal, foi sempre em proveito do trabalho, e no apenas para o
luxo de seus habitantes, isto , para aumentar, antes de toda alta dos
preos, o nmero de seus operrios e a quantidade de seus produtos55.
Tais anlises so importantes porque introduzem a noo de progresso na
ordem da atividade humana. Mais ainda, porm, porque afetam o jogo dos
signos e das representaes com um ndice temporal que define para o
progresso a condio de sua possibilidade. ndice que no se acha em
nenhuma outra regio da teoria da ordem. Com efeito, a moeda, tal como a
concebe o pensamento clssico, no pode representar a riqueza sem que
esse poder se ache interiormente modificado pelo tempo -- quer porque um
ciclo espontneo aumente, aps ter diminudo, sua capacidade de
representar as riquezas, quer porque uma poltica mantenha, a golpes de
esforos combinados, a constncia de sua representatividade. Na ordem da
histria natural, os caracteres (os feixes de identidades escolhidos
para representar e distinguir vrias espcies ou vrios gneros)
alojavam-se no interior do espao contnuo da natureza que eles
repartiam num quadro taxinmico; o tempo s intervinha do exterior, para
perturbar a [pg. 261] continuidade das menores diferenas e
dispers-las segundo os lugares fragmentados da geografia. Aqui, ao
contrrio, o tempo pertence  lei interior das representaes,
incorporando-se a elas; segue e altera sem interrupo o poder que detm
as riquezas de se representarem a si mesmas e de se analisarem num
sistema monetrio. L onde a histria natural descobria zonas de
identidades separadas por diferenas, a anlise das riquezas descobre
"diferenciais" -- tendncias ao aumento e  diminuio.        Era
necessrio que essa funo do tempo, na riqueza, aparecesse desde o
momento (era o fim do sculo XVII) em que a moeda fosse definida como
garantia e assimilada ao crdito: era realmente preciso ento que a
durao do crdito, a brevidade do termo do vencimento, o nmero de mos
entre as quais passava durante um dado tempo se tornassem variveis
caractersticas de seu poder representativo. Tudo isso, porm, era
apenas a conseqncia de uma forma de 55      Vron de Forbonnais, nos
lments du commerce, t. I, pp. 51-2, d as oito regras reflexo que
colocava o signo monetrio, em relao  riqueza, numa postura de
representao no sentido pleno do termo. Conseqentemente,  a mesma
rede arqueolgica que sustenta, na anlise das riquezas, a teoria da
moeda-representao e, na histria natural, a teoria do
carter-representao. O carter designa os seres situando-os ao mesmo
tempo em sua vizinhana; o preo monetrio designa as riquezas, mas no
movimento de seu crescimento ou de sua diminuio.
V. A formao do valor       A teoria da moeda e do comrcio responde 
questo: como podem os preos, no movimento das trocas, caracterizar as
coisas -- como pode a moeda estabelecer entre as riquezas [pg. 262] um
sistema de signos e de designao? A teoria do valor responde a uma
questo que se cruza com esta, interrogando, como que em profundidade e
verticalmente, a regio horizontal onde as trocas se efetuam
indefinidamente: por que h coisas que os homens buscam trocar, por que
umas valem mais que outras, por que algumas, que so inteis, tm um
valor elevado, enquanto outras, indispensveis, tm valor nulo? J no
se trata, pois, de saber segundo qual mecanismo as riquezas podem se
representar entre si (e mediante essa riqueza universalmente
representativa que  o metal precioso), mas por que os objetos do desejo
e da necessidade ho de ser representados, como se estabelece o valor de
uma coisa e por que se pode afirmar que ela vale tanto ou tanto.
Valer, para o pensamento clssico,  primeiramente valer alguma coisa,
poder substituir essa coisa num processo de troca. A moeda s foi
inventada, os preos s foram fixados e s se modificam na medida em que
essa troca existe. Ora, a troca  um fenmeno simples apenas na
aparncia. Com efeito, s se troca numa permuta, quando cada um dos dois
parceiros reconhece um valor para aquilo que o outro possui. Num
sentido,  preciso, pois, que as coisas permutveis, com seu valor
prprio, existam antecipadamente nas mos de cada um, para que a dupla
cesso e a dupla aquisio finalmente se produzam. Mas, por outro lado,
o que cada um come e bebe, aquilo de que precisa para viver no tem
valor enquanto no o cede; e aquilo de que no tem necessidade 
igualmente desprovido de valor enquanto no for fundamentais do comrcio
ingls. usado para adquirir alguma coisa de que necessite. Em outras
palavras, para que, numa troca, uma coisa possa representar outra, 
preciso que elas existam j carregadas de valor; e, contudo, o valor s
existe no interior da representao (atual ou possvel), isto , no
interior da troca ou da permutabilidade. Da duas possibilidades
simultneas de leitura: uma analisa o valor [pg. 263] no ato mesmo da
troca, no ponto de cruzamento entre o dado e o recebido; outra analisa-o
como anterior  troca e como condio primeira para que esta possa
ocorrer. A primeira dessas duas leituras corresponde a uma anlise que
coloca e encerra toda a essncia da linguagem no interior da proposio;
a outra, a uma anlise que descobre essa mesma essncia da linguagem do
lado das designaes primitivas -- linguagem de ao ou raiz; no
primeiro caso, com efeito, a linguagem encontra seu lugar de
possibilidade numa atribuio assegurada pelo verbo -- isto , por esse
elemento da linguagem em recuo relativamente a todas as palavras mas que
as reporta umas s outras; o verbo, tornando possveis todas as palavras
da linguagem a partir de seu liame proposicional, corresponde  troca
que funda, como um ato mais primitivo que os outros, o valor das coisas
trocadas e o preo pelo qual so cedidas; na outra forma de anlise, a
linguagem est enraizada fora de si mesma e como que na natureza ou nas
analogias das coisas; a raiz, o primeiro grito que dera nascimento s
palavras antes mesmo que a linguagem tivesse nascido, corresponde 
formao imediata do valor, antes da troca e das medidas recprocas da
necessidade.      Mas, para a gramtica, estas duas formas de anlise --
a partir da proposio ou a partir das razes -- so perfeitamente
distintas, porque se trata da linguagem -- isto , de um sistema de
representaes que  encarregado ao mesmo tempo de designar e de julgar
ou, ainda, que tem relao ao mesmo tempo com um objeto e com uma
verdade. Na ordem da economia, essa distino no existe, pois, para o
desejo, a relao com seu objeto e a afirmao de que ele  desejvel
constituem uma nica e mesma coisa; design-lo j  estabelecer o liame.
De sorte que onde a gramtica dispunha de dois segmentos tericos
separados e ajustados um ao outro, formando primeiro uma anlise da
proposio (ou do juzo), depois [pg. 264] uma anlise da designao
(do gesto ou da raiz), a economia s conhece um nico segmento terico,
mas que  suscetvel simultaneamente de duas leituras feitas em sentido
inverso. Uma analisa o valor a partir da troca dos objetos da
necessidade -- objetos teis; a outra, a partir da formao e do
nascimento de objetos cujo valor a troca definir em seguida -- a partir
da prolixidade da natureza. Reconhece-se, entre essas duas leituras
possveis, um ponto de heresia que nos  familiar: ele separa o que se
chama "teoria psicolgica" de Condillac, de Galiani, de Graslin, da dos
fisiocratas, com Quesnay e sua escola. Certamente, a fisiocracia no tem
a importn- cia que lhe atriburam os economistas na primeira metade do
sculo XIX, quando nela buscavam o ato de fundao da economia poltica;
mas seria igualmente vo, sem dvida, atribuir o mesmo papel -- como o
fizeram os marginalistas --  "escola psicolgica". Entre esses dois
modos de anlise, as nicas diferenas so o ponto de origem e a direo
escolhidos para percorrer uma rede de necessidade que permanece
idntica.          Para que haja valores e riquezas,  preciso, dizem os
fisiocratas, que uma troca seja possvel: isto , que se disponha de um
suprfluo de que o outro tenha preciso. O fruto de que tenho fome, que
colho e que como  um bem que me oferece a natureza; s haver riqueza
se os frutos de minha rvore forem numerosos o bastante para excederem
meu apetite.  preciso ainda que um outro tenha fome e os pea a mim. "O
ar que respiramos", diz Quesnay, "a gua que obtemos do rio e todos os
outros bens ou riquezas superabundantes e comuns a todos os homens no
so comerciveis: so bens, no riquezas."56 Antes da troca, h somente
essa realidade, rara ou abundante, que a natureza fornece; unicamente a
demanda de um e a renncia de outro so capazes de fazer [pg. 265]
aparecer valores. Ora, as trocas tm precisamente por fim repartir os
excedentes de maneira que sejam distribudos aos que deles carecem. No
so, pois, "riquezas" seno a ttulo provisrio, durante o tempo em que,
presentes em uns e ausentes em outros, comeam e realizam o trajeto que,
conduzindo-os aos consumidores, os restituir  sua natureza primitiva
de bens. "A finalidade da troca", diz Mercier de La Rivire, " o
desfrute, o consumo, de sorte que o comrcio pode ser definido
sumariamente: troca das coisas usuais para chegar  sua distribuio
entre as mos de seus consumidores."57 Ora, essa constituio do valor
pelo comrcio58 no se pode fazer sem uma subtrao de bens: 56
Quesnay. Artigo "Hommes". In: Daire. Le sphysiocrates, p. 42. 57
Mercier de La Rivire. L `ordre naturel et essentiel des socits
politiques. In: Daire, op. cit., p. 709. 58      "Considerando-os como
riquezas comerciveis, o trigo, o ferro, o vitrolo, o diamante so com
efeito, o comrcio transporta as coisas, acarreta gastos de transporte,
de conservao, de transformao, de colocao  venda59: em suma, custa
um certo consumo de bens para que os prprios bens sejam transformados
em riquezas. O nico comrcio que nada custaria seria a permuta pura e
simples; os bens a s so riquezas e valores por um tempo nfimo,
durante o instante da troca: "Se a troca pudesse ser feita imediatamente
e sem gastos, s podia haver mais vantagem para os dois permutadores:
por isso h um enorme equvoco em tomar por comrcio mesmo as operaes
intermedirias que servem para efetuar o comrcio."60 Os fisiocratas s
contam com a realidade material dos bens: e a formao do valor nas
trocas torna-se ento dispendiosa e se estabelece mediante a deduo dos
bens existentes. Constituir valor no , [pg. 266] pois, satisfazer
necessidades mais numerosas;  sacrificar bens em troca de outros. Os
valores formam o negativo dos bens.          Mas como pode o valor assim
se constituir? Qual a origem deste excedente que permite aos bens se
transformarem em riquezas sem com isso se exaurirem e desaparecerem por
fora de trocas sucessivas e de circulao? Como ocorre que o custo
dessa formao incessante de valor no esgote os bens que esto 
disposio dos homens?          Pode o comrcio encontrar em si mesmo
esse suplemento necessrio? Certamente no, pois que ele se prope
trocar valor por valor e segundo a maior igualdade possvel. "Para
receber muito  preciso dar muito; e para dar muito  preciso receber
muito. Eis a toda a arte do comrcio. O comrcio, por sua natureza, no
faz mais que trocar conjuntamente coisas de valor igual."61 Por certo,
uma mercadoria, alcanando um mercado distante, pode ser trocada por um
preo superior ao que obteria no lugar de origem: mas esse aumento
corresponde s despesas reais de transporte; e, se ela nada perde com
isso,  porque a mercadoria estagnada pela qual foi trocada perdeu esses
gastos de transporte no seu prprio preo. Por mais que se conduzam as
mercadorias de um extremo ao outro do mundo, o curso da troca  sempre
subtrado dos bens trocados. No  o comrcio que igualmente riquezas
cujo valor s consiste no preo." (Quesnay. Artigo "Hommes", loc. cit.,
p. 138). 59      Dupont de Nemours. Rponse demande, p. 16. 60
Saint-Pravy. Journal d `agriculture, dezembro de 1765. 61
Saint-Pravy, loc. cit. produziu esse suprfluo.  necessrio que essa
pletora exista para que o comrcio se torne possvel.          Tampouco
a indstria  capaz de retribuir o custo de formao do valor. Com
efeito, os produtos das manufaturas podem ser postos  venda segundo
dois regimes. Se os preos so livres, a concorrncia tende a fazer
baixar o valor, de sorte que, alm da matria-prima, eles cobrem quase
estritamente [pg. 267] o trabalho do operrio que a transformou;
conforme a definio de Cantillon, esse salrio corresponde 
subsistncia do operrio durante o tempo em que ele trabalha; sem
dvida,  preciso acrescentar ainda a subsistncia e os benefcios do
empresrio; mas, de todo modo, o aumento de valor devido  manufatura
representa o consumo daqueles que ela retribui; para fabricar riquezas,
foi preciso sacrificar bens: "O arteso destri em subsistncia tanto
quanto o que produz por seu trabalho."62 Quando h um preo de
monoplio, os preos de venda dos objetos podem elevar-se
consideravelmente. Mas no  ento que o trabalho dos operrios  mais
bem retribudo: a concorrncia entre eles tende a manter seus salrios
ao nvel do que  estritamente indispensvel para sua subsistncia63;
quanto aos benefcios dos em- presrios,  verdade que os preos de
monoplio os fazem crescer, na medida em que aumenta o valor dos objetos
postos no mercado; mas esse aumento no  seno a baixa proporcional do
valor de troca das outras mercadorias: "Todos esses empresrios s fazem
fortunas porque outros fazem despesas."64 Aparentemente, a indstria
aumenta os valores; de fato, ela subtrai da prpria troca o preo de uma
ou de vrias subsistncias. O valor no se forma nem cresce graas 
produo, mas ao consumo. Quer seja o do operrio que garante sua
subsistncia, quer o do empresrio que colhe benefcios, quer o do
ocioso que compra: "O crescimento do valor venal que  devido  classe
estril  o efeito da despesa do operrio e no do seu trabalho. Pois o
homem ocioso que despende sem trabalhar produz, sob esse aspecto, o
mesmo [pg. 268] efeito."65 O valor s aparece onde os bens desaparecem;
e o trabalho funciona como uma despesa: ele constitui um preo da
subsistncia que ele 62      Maximes de gouvernement. In: Daire, op.
cit., p. 289. 63      Turgot. Rflexions sur la formation des richesses,
 6. 64      Maximes de gouvernement. In: Daire, op. cit., p. 289. 65
Mirabeau. Philosophie rurale, p. 56. prprio consumiu.           Isso 
verdade mesmo para o trabalho agrcola. O operrio que lavra no tem um
estatuto diferente daquele que tece ou que transporta; ele  apenas uma
"das ferramentas do trabalho ou do cultivo"66 -- ferramenta que
necessita de uma subsistncia e a subtrai dos produtos da terra. Como em
todos os outros casos, a retribuio do trabalho agrcola tende a se
ajustar exatamente a essa subsistncia. Contudo, h um privilgio, no
econmico -- no sistema de trocas --, mas fsico, na ordem da produo
de bens:  que a terra, quando trabalhada, fornece uma quantidade de
subsistncia possvel bem superior ao que  necessrio ao cultivador.
Enquanto trabalho retribudo, o labor do operrio agrcola , pois, to
negativo e dispendioso quanto o dos operrios de manufatura; mas,
enquanto "comrcio fsico" com a natureza67, nela suscita uma
fecundidade imensa. E se  verdade que essa prolixidade  retribuda de
antemo pelos preos de lavoura, de sementeiras, de alimento para os
animais, sabe-se bem que se achar uma espiga onde se semeou um gro; e
os rebanhos "engordam cada dia, mesmo durante o seu repouso, o que no
pode ser dito de um fardo de seda ou de l nos depsitos"68. A
agricultura  o nico domnio onde o crescimento de valor devido 
produo no  equivalente  manuteno do produtor.  que, na verdade,
h um produtor invisvel que no precisa de nenhuma retribuio;  a ele
que o agricultor se acha associado sem o saber; e, no momento em que o
lavrador [pg. 269] consome tanto quanto trabalha, esse mesmo trabalho,
por virtude de seu Co-Autor, produz todos os bens dos quais ser
subtrada a formao dos valores: "A Agricultura  uma manufatura de
instituio divina, em que o fabricante tem por scio o Autor da
natureza, o prprio Produtor de todos os bens e de todas as riquezas."69
Compreende-se a importncia terica e prtica que os fisiocratas
conferiram  renda fundiria -- e no ao trabalho agrcola.  que este 
retribudo por um consumo, enquanto a renda fundiria representa, ou
deve representar, o produto lquido: a quantidade de bens que a natureza
fornece, alm da subsistncia que ela 66      Id., ibid., p. 8. 67
Dupont de Nemours. Journal agricole, maio de 1766. 68      Mirabeau.
Philosophie rurale, p. 37. 69      Mirabeau. Philosophie rurale, p. 33.
assegura ao trabalhador e da retribuio que ela prpria requer para
continuar a produzir.  essa renda que permite transformar os bens em
valores ou em riquezas. Ela fornece aquilo com que retribuir todos os
outros trabalhos e todos os consumos que lhes correspondem. Da, duas
preocupaes maiores: colocar  sua disposio uma grande quantidade de
numerrio para que ela possa alimentar o trabalho, o comrcio e a
indstria; velar para que seja absolutamente protegida a parte de
adiantamento que deve retornar  terra para lhe permitir produzir mais.
O programa econmico e poltico dos fisiocratas comportar, pois,
necessariamente: um aumento dos preos agrcolas, mas no dos salrios
daqueles que trabalham a terra; a subtrao de todos os impostos da
prpria renda fundiria; uma abolio dos preos de monoplio e de todos
os privilgios comerciais (a fim de que a indstria e o comrcio,
controlados pela concorrncia, mantenham forosamente o preo justo); um
vasto retorno do dinheiro  terra para os adiantamentos que so
necessrios s colheitas futuras. [pg. 270]      Todo o sistema de
trocas, toda a formao dispendiosa dos valores so reportados a essa
troca desequilibrada, radical e primitiva que se estabelece entre os
adiantamentos do proprietrio e a generosidade da natureza. Somente essa
troca  absolutamente beneficiria e  no interior desse lucro lquido
que podem ser subtradas as despesas de que cada troca necessita, o
aparecimento, pois, de cada elemento de riqueza. Seria falso dizer que a
natureza produz espontaneamente valores; mas ela  a fonte infatigvel
de bens que a troca transforma em valores, no sem despesas nem consumo.
Quesnay e seus discpulos analisam as riquezas a partir do que se d na
troca -- isto , desse suprfluo que existe sem nenhum valor mas que se
torna valor ao entrar no circuito de substituies, em que dever
compensar cada um de seus deslocamentos, cada uma de suas
transformaes, com salrios, alimento, subsistncia, em suma, com uma
parte desse excedente ao qual ele prprio pertence. Os fisiocratas
comeam sua anlise pela prpria coisa que se acha designada no valor,
mas que preexiste ao sistema das riquezas. O mesmo ocorre com os
gramticos quando analisam as palavras a partir da raiz, da relao
imediata que une um som e uma coisa, e das abstraes sucessivas
mediante as quais essa raiz se torna um nome numa lngua.
VI. A utilidade          A anlise de Condillac, de Galiani, de Graslin,
de Destutt corresponde  teoria gramatical da proposio. Escolhe por
ponto de partida no o que  dado numa troca mas o que  recebido: a
mesma coisa, na verdade, mas considerada do ponto de vista daquele que
dela necessita, que a demanda e [pg. 271]aceita renunciar ao que possui
para obter essa outra coisa que estima mais til e  qual atribui mais
valor. De fato, os fisiocratas e seus adversrios percorrem o mesmo
segmento terico, mas num sentido oposto: uns se perguntam sob que
condio -- e a que custo -- um bem pode tornar-se um valor num sistema
de trocas, os outros, sob que condio um juzo de apreciao pode
transformar-se em preo nesse mesmo sistema de trocas. Compreende-se por
que as anlises dos fisiocratas e as dos utilitaristas so
freqentemente to prximas e por vezes complementares; porque Cantillon
pde ser reivindicado por uns -- pela sua teoria dos trs rendimentos
fundirios e pela importncia que confere  terra -- e por outros --
pela sua anlise dos circuitos e pelo papel que atribui  moeda70; por
que Turgot pde ser fiel  fisiocracia em La formation et la
distribuition des richesses e to prximo de Galiani em Valeur et
monnaie.          Suponhamos a mais rudimentar das situaes de troca:
um homem que s tem milho ou trigo, e, frente a ele, um outro que s tem
vinho ou lenha. No h ainda nenhum preo fixado, nem qualquer
equivalncia, nem qualquer medida comum. Contudo, se esses homens
reuniram essa lenha, semearam e colheram o milho ou o trigo,  porque
faziam sobre essas coisas um certo juzo; sem ter de o comparar com o
que quer que fosse, julgavam que esse trigo ou essa lenha podia
satisfazer uma de suas necessidades -- que lhes seria til: "Dizer que
uma coisa vale  dizer que ela  ou que ns a estimamos boa para algum
uso. O valor das coisas est, pois, fundado em sua utilidade ou, o que
d no mesmo, no uso que delas podemos fazer."71 Esse juzo funda o que
Turgot chama [pg. 272] "valor estimativo" das coisas72. Valor que 
absoluto, pois que concerne a cada mercadoria individualmente, e sem 70
Cantillon. Essai sur le commerce en gnral, pp. 68, 69 e 73. 71
Condillac. Le commerce et le gouvernement. In: Oeuvres, t. IV, p. 10. 72
Turgot. Valeur et monnaie. In: Oeuvres compltes, ed. Schelle, t. III,
pp. 91-2. comparao com nenhuma outra; que , porm, relativo e
cambiante, pois que se modifica com o apetite, os desejos ou a
necessidade dos homens.          Entretanto, a troca que se realiza com
base nessas utilidades primeiras no  sua simples reduo a um
denominador comum. Em si mesma,  criadora de utilidade, porquanto
oferece  apreciao de um o que at ento s tinha para o outro pouca
utilidade. H, nesse momento, trs possibilidades. Ou o "superabundante
de cada um", como diz Condillac73 -- o que ele no utilizou ou no conta
utilizar imediatamente --, corresponde em qualidade e em quantidade s
necessidades do outro: todo o excedente do proprietrio de trigo se
revela, na situao de troca, til ao proprietrio de vinho, e
reciprocamente; por conseguinte, o que era intil torna-se totalmente
til por uma criao de valores simultneos e iguais de cada lado; o que
na estimao de um era nulo torna-se positivo na do outro; e como a
situao  simtrica, os valores estimativos assim criados so
automaticamente equivalentes; utilidade e preo se correspondem por
inteiro; a apreciao se ajusta de pleno direito  estimao. Ou, ento,
o superabundante de um no basta para as necessidades do outro e este se
preservar de dar tudo o que possui; reservar uma parte para obter de
um terceiro o complemento indispensvel  sua necessidade; essa parte
subtrada -- e que o parceiro busca reduzir o mais possvel, j que tem
necessidade de todo o suprfluo do primeiro -- faz aparecer o preo: no
se troca mais o excesso de trigo pelo excesso de vinho mas, em seguida a
uma altercao, [pg. 273] do-se tantos tonis de vinho por tantos
sesteiros de trigo. Dir-se- que aquele que d mais perde na troca em
relao ao valor do que possua? No propriamente, pois esse suprfluo 
para ele sem utilidade ou, em todo o caso, posto que aceitou troc-lo, 
porque confere mais valor quilo que recebe do que quilo que abandona.
Enfim, terceira hiptese, nada  absolutamente suprfluo para ningum,
pois cada um dos dois parceiros sabe que pode utilizar, a prazo mais ou
menos longo, a totalidade daquilo que possui: o estado de necessidade 
geral e cada parcela de propriedade se torna riqueza. Portanto, os dois
parceiros podem muito bem nada trocar; mas cada um pode igualmente
estimar que uma parte da mercadoria do outro lhe seria mais til que uma
parte da sua prpria. Um e outro estabelecem -- e cada um para si,
portanto segundo um clculo diferente -- uma desigualdade mnima: tantas
medidas 73      Condillac. Le commerce et le gouvernement. In: Oeuvres,
t. IV, p. 28. de milho que eu no tenho, diz um, valero para mim um
pouco mais que tantas medidas de minha lenha; tal quantidade de lenha,
diz o outro, me ser mais preciosa que tantas de milho. Essas duas
desigualdades estimativas definem para cada um o valor relativo que
confere ao que possui e ao que no detm. Para ajustar essas duas
desigualdades, no h outro meio seno estabelecer entre elas a
igualdade de duas relaes: a troca se far quando a relao do milho
com a lenha para um tornar-se igual  relao da lenha com o milho para
o outro. Enquanto o valor estimativo se define unicamente pelo jogo de
uma necessidade e de um objeto -- portanto, por um interesse nico num
indivduo isolado -- no valor apreciativo, tal como aparece agora, "h
dois homens que comparam e h quatro interesses comparados; mas os dois
interesses particulares de cada um dos dois contratantes foram primeiro
comparados  parte, entre si, e os resultados  que so em seguida
comparados conjuntamente [pg. 274] para formar um valor estimativo
mdio"; essa igualdade da relao permite dizer, por exemplo, que quatro
medidas de milho e cinco braas de lenha tm um valor permutvel
igual74. Essa igualdade, porm, no quer dizer que se troca utilidade
por utilidade em pores idnticas; trocam-se desigualdades, o que quer
dizer que dos dois lados -- e ainda que cada elemento do mercado tenha
tido uma utilidade intrnseca -- adquire-se mais valor do que se
possua. Em vez de duas utilidades imediatas, dispe-se de duas outras
que so reputadas capazes de satisfazer necessidades maiores.
Tais anlises mostram o entrecruzamento do valor e da troca; no se
trocaria se no existissem valores imediatos -- isto , se no existisse
nas coisas "um atributo que lhes  acidental e que depende unicamente
das necessidades do homem como o efeito depende de sua causa"75. Mas a
troca, por sua vez, cria valor. E isso de duas maneiras. Primeiramente
torna teis coisas que sem ela seriam de utilidade fraca ou talvez nula:
que pode valer um diamante para os homens que tm fome ou necessidade de
se vestir? Basta, porm, que exista no mundo uma mulher a quem se deseja
agradar e um comrcio suscetvel de traz-la s suas mos, para que a
pedra se torne "riqueza indireta para seu proprietrio que dela no
precisa... o valor desse 74      Turgot. Valeur et monnaie. In:
Oeuvres,t. III, pp. 91-3. 75      Graslin. Essai analytique sur la
richesse, p. 33. objeto  para ele um valor de troca"76 e ele poder
nutrir-se vendendo o que s serve para brilhar: da a importncia do
luxo77, da o fato de haver diferena do ponto de vista das riquezas,
entre necessidade, comodidade e prazer78. Por outro lado, a troca faz
nascer um [pg. 275] novo tipo de valor, que  "apreciativo": organiza
entre as utilidades uma relao recproca, que duplica a relao com a
simples necessidade. E, sobretudo, modifica-a:  que, na ordem da
apreciao, da comparao, pois, de cada valor com todos, a menor
criao nova de utilidade diminui o valor relativo daquelas que j
existem. O total das riquezas no aumenta, apesar do aparecimento de
novos objetos que podem satisfazer as necessidades; toda produo faz
nascer somente "uma nova ordem de valores relativamente  massa das
riquezas; os primeiros objetos da necessidade tero diminudo de valor
para dar lugar, na massa, ao novo valor dos objetos de comodidade ou de
prazer"79. A troca , portanto, o que aumenta os valores (fazendo
aparecer novas utilidades que, ao menos indiretamente, satisfazem
necessidades); mas  igualmente o que diminui os valores (uns em relao
aos outros na apreciao que se faz de cada um). Por ela, o no-til
torna-se til e, na mesma proporo, o mais til torna-se menos til.
Tal  o papel constitutivo da troca no jogo de valor: d um preo a
todas as coisas e abaixa o preo de cada uma.          V-se que os
elementos tericos so os mesmos nos fisiocratas e nos seus adversrios.
O corpo das proposies fundamentais lhes  comum: toda riqueza nasce da
terra; o valor das coisas est ligado  troca; a moeda vale como a
representao das riquezas em circulao; a circulao deve ser to
simples e completa quanto possvel. Esses elementos tericos, porm, so
dispostos pelos fisiocratas e pelos "utilitaristas" numa ordem que 
inversa; e, em conseqncia desse jogo das disposies, o que para uns
tem um papel positivo torna-se negativo para os outros. Condillac,
Galiani, Graslin partem da troca das utilidades como fundamento
subjetivo e positivo de todos os valores; tudo o que satisfaz a
necessidade [pg. 276] tem portanto um valor, e toda transformao ou
toda trans- 76      Graslin. Essai analytique sur la richesse, p. 45. 77
Hume. De la circulation montaire. In: Oeuvre conomique, p. 41. 78
Graslin entende por necessidade "a preciso, a utilidade, o gosto e o
prazer" (Essai analytique sur la richesse, p. 24). 79      Graslin, op.
cit., p. 36. posio que permita satisfazer as mais numerosas
necessidades constitui um aumento de valor:  esse aumento que permite
retribuir os operrios, dando-lhes, subtrado desse crescimento, o
equivalente de sua subsistncia. Mas todos esses elementos positivos que
constituem o valor repousam sobre um certo estado de necessidades nos
homens, portanto, sobre o carter finito da fecundidade da natureza.
Para os fisiocratas, a mesma srie deve ser percorrida ao inverso: toda
transformao e todo trabalho sobre os produtos da terra so retribudos
pela subsistncia do operrio; estabelecem-se, portanto, pela diminuio
do total dos bens; o valor s nasce onde houver consumo. Portanto, para
que o valor aparea,  preciso que a natureza seja dotada de uma
fecundidade indefinida. Tudo o que  percebido positivamente e como que
em relevo numa das duas leituras  percebido como que em recncavo,
negativamente, na outra. Os "utilitaristas" fundam sobre a articulao
das trocas a atribuio s coisas de um certo valor; os fisiocratas
explicam pela existncia das riquezas a determinao progressiva dos
valores. Nuns e noutros, porm, a teoria do valor, como a da estrutura
na histria natural, liga o momento que atribui ao que articula.
Teria sido talvez mais simples dizer que os fisiocratas representavam os
proprietrios fundirios, e os "utilitaristas", os comerciantes e os
empresrios. Que estes, por conseqncia, acreditavam no aumento do
valor quando as produes naturais se transformavam ou se deslocavam;
que, por fora das coisas, estavam preocupados com uma economia de
mercado em que as necessidades e os desejos faziam a lei. Que os
fisiocratas, em contrapartida, s acreditavam na produo agrcola e
reivindicavam para ela uma retribuio melhor; que, sendo proprietrios,
atribuam  renda fundiria [pg. 277] um fundamento natural e que,
reivindicando o poder poltico, pretendiam ser os nicos sujeitos
submetidos ao imposto, portadores, portanto, dos direitos que ele
confere. E certamente, atravs da coerncia de interesses,
reencontrar-se-iam as grandes opes econmicas de uns e de outros. Mas,
se o fato de pertencer a um grupo social pode sempre explicar que este
ou aquele tenha escolhido um sistema de pensamento de preferncia a
outro, a condio para que esse sistema tenha sido pensado no reside
jamais na existncia desse grupo.  preciso distinguir com cuidado duas
formas e dois nveis de estudos. Um seria uma pesquisa de opinies para
saber quem, no sculo XVIII, foi fisiocrata e quem foi anti-fisiocrata;
quais os interesses em jogo; quais os pontos e os argumentos da
polmica; como se desenrolou a luta pelo poder. O outro, sem levar em
conta personagens nem sua histria, consiste em definir as condies a
partir das quais foi possvel pensar, em formas coerentes e simultneas,
o saber "fisiocrtico" e o saber "utilitarista". A primeira anlise
seria pertinente a uma doxologia. A arqueologia s pode reconhecer e
praticar a segunda.                                VII. Quadro geral
A organizao geral das ordens empricas pode agora ser delineada em seu
conjunto80.          Constata-se, de incio, que a anlise das riquezas
obedece  mesma configurao que a histria natural e a gramtica geral.
A teoria do valor permite, com efeito, explicar (seja pela carncia e
pela necessidade, seja pela prolixidade da [pg. 278] natureza) como
certos objetos podem ser introduzidos no sistema das trocas, como, pelo
gesto primitivo da permuta, uma coisa pode ser dada como equivalente a
outra, como a estimao da primeira pode ser reportada  estimao da
segunda conforme uma relao de igualdade (A e B tm o mesmo valor) ou
de analogia (o valor de A, de posse do meu parceiro, est para minha
necessidade como est para ele o valor de B que eu possuo). O valor
corresponde portanto  funo atributiva que, para a gramtica geral,
est assegurada pelo verbo e que, fazendo aparecer a proposio,
constitui o limiar primeiro a partir do qual h linguagem. Quando,
porm, o valor apreciativo se torna valor de estimao, isto , quando
se define e se limita no interior do sistema constitudo por todas as
trocas possveis, ento cada valor se acha estabelecido e demarcado por
todos os outros: a partir desse momento, o valor assegura o papel
articulatrio que a gramtica geral reconhecia em todos os elementos
no-verbais da proposio (isto , nos nomes e em cada uma das palavras
que, visivelmente ou em segredo, detm uma funo nominal). No sistema
das trocas, no jogo que permite a cada parte de riqueza significar as
outras ou ser por elas significada, o valor  ao mesmo tempo verbo e
nome, poder de ligar e princpio de anlise, atribuio e determinao.
O valor, na anlise das riquezas, 80      Cf. esquema, p. 227. ocupa,
pois, exatamente a mesma posio que a estrutura na histria natural;
como esta, rene numa nica e mesma operao a funo que permite
atribuir um signo a outro signo, uma representao a outra representao
e a que permite articular os elementos que compem o conjunto das
representaes ou os signos que as decompem.      Por seu lado, a
teoria da moeda e do comrcio explica como uma matria qualquer pode
assumir uma funo significante reportando-se a um objeto e servindo-lhe
de signo [pg. 279] permanente; explica tambm (pelo jogo do comrcio,
do aumento e da diminuio do numerrio) como essa relao de signo a
significado pode se alterar sem jamais desaparecer, como um mesmo
elemento monetrio pode significar mais ou menos riquezas, como pode ele
deslizar, estender- se, estreitar-se em relao aos valores que lhe
compete representar. A teoria do preo monetrio corresponde, pois, ao
que na gramtica geral aparece sob a forma de uma anlise das razes e
da linguagem de ao (funo de designao) e ao que aparece sob a forma
de tropos e de desvios de sentido (funo de derivao). A moeda, como
as palavras, tem por papel designar, mas no cessa de oscilar em torno
desse eixo vertical: as variaes de preo esto para a instaurao
primeira da relao entre metal e riquezas como os deslocamentos
retricos esto para o valor primitivo dos signos verbais. Porm h
mais: assegurando a partir de suas prprias possibilidades a designao
das riquezas, o estabelecimento dos preos, a modificao dos valores
nominais, o empobrecimento e o enriquecimento das naes, a moeda
funciona em relao s riquezas como o carter em relao aos seres
naturais: ela permite, ao mesmo tempo, impor-lhes uma marca provisria e
indicar-lhes um lugar, sem dvida provisrio, no espao atualmente
definido pelo conjunto das coisas e dos signos de que se dispe. A
teoria da moeda e dos preos ocupa na anlise das riquezas a mesma
posio que a teoria do carter na histria natural. Como esta ltima,
rene numa nica e mesma funo a possibilidade de dar um signo s
coisas, de fazer representar uma coisa por outra e a possibilidade de
fazer desviar um signo em relao ao que ele designa.      As quatro
funes que definem em suas propriedades singulares o signo verbal e o
distinguem de todos os outros signos que a representao pode referir a
si mesma encontram-se, [pg. 280] pois, na sinalizao terica da
histria natural e na utilizao prtica dos signos monetrios. A ordem
das riquezas e a ordem dos seres naturais se instauram e se descobrem na
medida em que se estabelecem entre os objetos de necessidade, entre os
indivduos visveis, sistemas de signos que permitem a designao das
representaes umas pelas outras, a derivao das representaes
significantes em relao aos significados, a articulao do que 
representado, a atribuio de determinadas representaes a determinadas
outras. Nesse sentido, pode-se dizer que, para o pensamento clssico, os
sistemas da histria natural e as teorias da moeda ou do comrcio tm as
mesmas condies de possibilidade que a prpria linguagem. O que quer
dizer duas coisas: primeiro, que a ordem na natureza e a ordem nas
riquezas tm, para a experincia clssica, o mesmo modo de ser que a
ordem das representaes tal como  manifestada pelas palavras; em
seguida, que as palavras formam um sistema de signos suficientemente
privilegiado, quando se trata de fazer aparecer a ordem das coisas, para
que a histria natural, se bem-feita, e para que a moeda, se bem
regulada, funcionem  maneira da linguagem. O que a lgebra  para a
mthsis, os signos, e em particular as palavras, o so para a
taxinomia: constituio e manifestao evidente da ordem das coisas.
Existe, entretanto, uma diferena fundamental que impede que a
classificao seja a linguagem espontnea da natureza, e os preos, o
discurso natural das riquezas. Ou antes, existem duas diferenas, uma
que permite distinguir os domnios dos signos verbais daquele das
riquezas ou dos seres naturais, e outra que permite distinguir a teoria
da histria natural e a do valor ou dos preos.      Os quatro momentos
que definem as funes essenciais da linguagem (atribuio, articulao,
designao, derivao) [pg. 281] esto solidamente ligados entre si,
pois so requeridos uns pelos outros a partir do momento em que se
transps, com o verbo, o limiar de existncia da linguagem. Mas, na
gnese real das lnguas, o percurso no se faz no mesmo sentido nem com
o mesmo rigor: a partir de designaes primitivas, a imaginao dos
homens (segundo os climas em que vivem, as condies de sua existncia,
seus sentimentos e paixes, as experincias que fazem) suscita
derivaes que so diferentes conforme os povos e que explicam, sem
dvida, alm da diversidade das lnguas, a relativa instabilidade de
cada uma. Num dado momento dessa derivao e no interior de uma lngua
singular, os homens tm  sua disposio um conjunto de palavras, de
nomes que se articulam uns com os outros e determinam suas
representaes; mas essa anlise  to imperfeita, deixa subsistir
tantas imprecises e tantas imbricaes que, com as mesmas
representaes, os homens utilizam palavras diversas e formulam
proposies diferentes: sua reflexo no est ao abrigo do erro. Entre a
designao e a derivao, multiplicam-se os deslizes da imaginao;
entre a articulao e a atribuio, prolifera o erro da reflexo.  por
isso que, no horizonte talvez indefinidamente recuado da linguagem,
projeta-se a idia de uma lngua universal em que o valor representativo
das palavras seria fixado com bastante nitidez, fundado bastante bem,
reconhecido com suficiente evidncia para que a reflexo pudesse
decidir, com toda a clareza, sobre a verdade de qualquer proposio --
lngua por meio da qual "os camponeses poderiam julgar a verdade das
coisas melhor do que o fazem agora os filsofos"81; uma linguagem
perfeitamente distinta permitiria um discurso inteiramente claro: essa
lngua seria, em si mesma, [pg. 282] uma Ars combinatoria.  por isso
tambm que o exerccio de toda lngua real deve ser duplicado por uma
Enciclopdia que defina o percurso das palavras, prescreva as vias mais
naturais, desenhe os deslizes legtimos do saber, codifique as relaes
de vizinhana e de semelhana. O Dicionrio  feito para controlar o
jogo das derivaes a partir da designao primeira das palavras, assim
como a Lngua universal  feita para controlar, a partir de uma
articulao bem estabelecida, os erros da reflexo quando ela formula um
juzo. A Ars combinatoria e a Enciclopdia se correspondem, de um lado e
de outro, pela imperfeio das lnguas reais.          A histria
natural, uma vez que precisa realmente ser uma cincia, a circulao das
riquezas, uma vez que  uma instituio criada pelos homens e por eles
controlada, devem escapar a esses perigos inerentes s linguagens
espontneas. No h erro possvel entre articulao e atribuio na
ordem da histria natural, pois que a estrutura se d numa visibilidade
imediata; tambm no h deslizes imaginrios, falsas semelhanas,
vizinhanas incongruentes que colocariam um ser natural corretamente
designado num espao que no fosse o seu, pois que o carter 
estabelecido quer pela coerncia do sistema, quer pela exatido do
mtodo. A estrutura e o carter asseguram, na histria natural, o
fechamento terico do que fica 81      Descartes. Lettre  Mersenne, 20
de novembro de 1929 (A.T., I, p.76). em aberto na linguagem e faz nascer
em suas fronteiras os projetos de artes essencialmente inacabados. Do
mesmo modo o valor que, de estimativo, torna-se automaticamente
apreciativo, e a moeda que, por sua quantidade crescente ou decrescente
provoca mas limita sempre a oscilao dos preos, garantem, na ordem das
riquezas, o ajustamento entre a atribuio e a articulao, entre a
designao e a derivao. O valor e os preos asseguram o fechamento
prtico dos segmentos que permanecem em aberto na linguagem. A estrutura
permite  histria natural achar-se [pg. 283] de imediato no elemento
de uma combinatria, e o carter lhe permite estabelecer, a propsito
dos seres e de suas semelhanas, uma potica exata e definitiva. O valor
combina as riquezas umas com as outras, a moeda permite sua troca real.
L onde a ordem desordenada da linguagem implica a relao contnua com
uma arte e com suas tarefas infinitas, a ordem da natureza e a das
riquezas se manifestam na existncia pura e simples da estrutura e do
carter, do valor e da moeda.      Entretanto, deve-se notar que a ordem
natural se formula numa teoria que vale como a justa leitura de uma
srie ou de um quadro real: a estrutura dos seres , ao mesmo tempo,
tanto a forma imediata do visvel quanto sua articulao; do mesmo modo,
o carter designa e localiza num nico e mesmo movimento. Em
contrapartida, o valor estimativo s se torna apreciativo mediante uma
transformao; e a relao inicial entre o metal e a mercadoria s pouco
a pouco se torna um preo sujeito a variaes. No primeiro caso,
trata-se de uma superposio exata entre a atribuio e a articulao,
entre a designao e a derivao; no outro caso, de uma passagem que
est ligada  natureza das coisas e  atividade dos homens. Com a
linguagem, o sistema de signos  recebido passivamente em sua
imperfeio e somente uma arte o pode retificar: a teoria da linguagem 
imediatamente prescritiva. A histria natural instaura, de si mesma,
para designar os seres, um sistema de signos e, por isso,  uma teoria.
As riquezas so signos que so produzidos, multiplicados, modificados
pelos homens; a teoria das riquezas est ligada, de ponta a ponta, a uma
poltica.      No entanto, os dois outros lados do quadriltero
fundamental permanecem abertos. Como se explica que a designao (ato
singular e pontual) permita uma articulao entre a natureza, as
riquezas, as representaes? Como se explica, de um modo geral, que os
dois segmentos opostos (do juzo e da significao para a linguagem, da
estrutura e do carter para a [pg. 284] histria natural, do valor e
dos preos para a teoria das riquezas) se reportem um ao outro e
autorizem assim uma linguagem, um sistema da natureza e o movimento
ininterrupto das riquezas?  a que  realmente preciso supor que as
representaes se assemelham entre si e se evocam umas s outras na
imaginao; que os seres naturais esto numa relao de vizinhana e de
semelhana, que as necessidades dos homens se correspondem e encontram
com que se satisfazer. O encadeamento das representaes, a superfcie
sem ruptura dos seres, a proliferao da natureza so sempre requeridos
para que haja linguagem, para que haja uma histria natural e para que
possa haver riquezas e prtica das riquezas. O continuum da
representao e do ser, uma ontologia definida negativamente como
ausncia do nada, uma representabilidade geral do ser e o ser
manifestado pela presena da representao -- tudo isso faz parte da
configurao de conjunto da epistm clssica. Poder-se- reconhecer,
nesse princpio do contnuo, o momento metafisicamente forte do
pensamento dos sculos XVII e XVIII (o que permite  forma da proposio
ter um sentido efetivo,  estrutura ordenar-se em carter, ao valor das
coisas calcular-se em preo); j as relaes entre articulao e
atribuio, designao e derivao (o que funda o juzo de um lado e o
sentido de outro, a estrutura e o carter, o valor e os preos) definem,
para esse pensamento, o momento cientificamente forte (o que torna
possveis a gramtica, a histria natural, a cincia das riquezas). A
ordenao da empiricidade se acha assim ligada  ontologia que
caracteriza o pensamento clssico; este, com efeito, se acha desde logo
no interior de uma ontologia, tornada transparente pelo fato de que o
ser  dado sem ruptura  representao; e no interior de uma
representao iluminada pelo fato de que ela libera o contnuo do ser.
Quanto  mutao que, por volta do final do sculo XVIII, se produziu em
toda a epistm ocidental,  possvel caracteriz-la [pg. 285] de
longe, desde agora, dizendo que um momento cientificamente forte se
constituiu l onde a epistm clssica conhecia um tempo metafisicamente
forte; e que, em contrapartida, se apurou um espao filosfico l onde o
classicismo havia estabelecido suas mais slidas travas epistemolgicas.
Com efeito, a anlise da produo, como projeto novo da nova "economia
poltica", tem essencialmente por papel analisar a relao entre o valor
e os preos; os conceitos de organismos e organizao, os mtodos da
anatomia comparada, em suma, todos os temas da "biologia" nascente
explicam de que modo estruturas observveis em indivduos podem valer, a
ttulo de caracteres gerais, para gneros, famlias, ramificaes;
enfim, para unificar as disposies formais de uma linguagem (sua
capacidade para constituir proposies) e o sentido que pertence a suas
palavras, a "filologia" estudar no mais as funes representativas do
discurso, mas um conjunto de constantes morfolgicas submetidas a uma
histria. Filologia, biologia e economia poltica se constituem no no
lugar da Gramtica geral, da Histria natural e da Anlise das riquezas,
mas l onde esses saberes no existiam, no espao que deixavam em
branco, na profundidade do sulco que separava seus grandes segmentos
tericos e que o rumor do contnuo ontolgico preenchia. O objeto do
saber, no sculo XIX, se forma l mesmo onde acaba de se calar a
plenitude clssica do ser.      Inversamente, um espao filosfico novo
vai libertar-se l onde se desfazem os objetos do saber clssico. O
momento da atribuio (como forma do juzo) e o da articulao (como
recorte geral dos seres) se separam, fazendo nascer o problema das
relaes entre uma apofntica e uma ontologia formais; o momento da
designao primitiva e o da derivao atravs do tempo se separam,
abrindo um espao onde se coloca a questo das relaes entre o sentido
originrio e a [pg. 286] histria. Assim se acham posicionadas as duas
grandes formas da reflexo filosfica moderna. Uma interroga as relaes
entre a lgica e a ontologia; procede pelos caminhos da formalizao e
encontra sob um novo aspecto o problema da mthsis. A outra interroga
as relaes entre a significao e o tempo; empreende um desvelamento
que no  e, sem dvida, jamais ser acabado, e traz de novo  luz os
temas e os mtodos da interpretao. Sem dvida, a questo mais
fundamental que ento se pode colocar para a filosofia concerne 
relao entre essas duas formas de reflexo. Por certo no compete 
arqueologia dizer se essa relao  possvel nem como pode fundar-se;
mas ela pode designar a regio onde essa relao busca estabelecer-se,
qual o lugar da epistm em que a filosofia moderna tenta encontrar sua
unidade, em que ponto do saber descobre seu mais amplo domnio: esse
lugar  aquele onde o formal (do apofntico e da ontologia) se reuniria
ao significativo tal como ele se aclara na interpretao. O problema
essencial do pensamento clssico se alojava nas relaes entre o nome e
a ordem: descobrir uma nomenclatura que fosse uma taxinomia, ou, ainda,
instaurar um sistema de signos que fosse transparente  continuidade do
ser. O que o pensamento moderno vai colocar fundamentalmente em questo
 a relao do sentido com a forma da verdade e a forma do ser: no cu
de nossa reflexo, reina um discurso -- um discurso talvez inacessvel
-- que seria a um tempo uma ontologia e uma semntica. O estruturalismo
no  um mtodo novo;  a conscincia desperta e inquieta do saber
moderno.                     VIII. O desejo e a representao      Os
homens dos sculos XVII e XVIII no pensam a riqueza, a natureza ou as
lnguas com o que lhes fora deixado [pg. 287] pelas idades precedentes
e na linha do que logo viria a ser descoberto; pensam-nas a partir de
uma disposio geral que no lhes prescreve apenas conceitos e mtodos,
mas que, mais fundamentalmente, define um certo modo de ser para a
linguagem, os indivduos da natureza, os objetos da necessidade e do
desejo; esse modo de ser  o da representao. Conseqentemente, aparece
todo um solo comum, onde a histria das cincias figura como um efeito
de superfcie. O que no quer dizer que se possa doravante deix-la de
lado; mas, sim, que uma reflexo sobre o histrico de um saber no pode
mais contentar-se em seguir, atravs da seqncia dos tempos, o
alinhamento dos conhecimentos; estes, com efeito, no so fenmenos da
hereditariedade e de tradio; e no se diz o que os tornou possveis
enunciando o que era conhecido antes deles e o que eles, como se diz,
"trouxeram de novo". A histria do saber s pode ser feita a partir do
que lhe foi contemporneo e no certamente em termos de influncia
recproca, mas em termos de condies e de a priori constitudos no
tempo.  nesse sentido que a arqueologia pode justificar a existncia de
uma gramtica geral, de uma histria natural e de uma anlise das
riquezas, e liberar assim um espao sem fissura onde a histria das
cincias, a das idias e das opinies podero, se o quiserem, se
entreter.      Se as anlises da representao, da linguagem, das ordens
naturais e das riquezas so perfeitamente coerentes e homogneas entre
si, existe, todavia, um desequilbrio profundo.  que a representao
comanda o modo de ser da linguagem, dos indivduos, da natureza e da
prpria necessidade. A anlise da representao tem, portanto, valor
determinante para todos os domnios empricos. Todo o sistema clssico
da ordem, toda essa grande taxinomia, que permite conhecer as coisas
pelo sistema de suas identidades, se desdobra [pg. 288] no espao
aberto no interior de si pela representao, quando ela se representa a
si mesma: o ser e o mesmo tm a seu lugar. A linguagem no  seno a
representao das palavras; a natureza no  seno a representao dos
seres; a necessidade no  seno a representao da necessidade. O fim
do pensamento clssico -- e dessa epistm que tornou possveis
gramtica geral, histria natural e cincias das riquezas -- coincidir
com o recuo da representao, ou, antes, com a liberao, relativamente
 representao, da linguagem, do ser vivo e da necessidade. O esprito
obscuro mas obstinado de um povo que fala, a violncia e o esforo
incessante da vida, a fora surda das necessidades escaparo ao modo de
ser da representao. E esta ser duplicada, limitada, guarnecida,
mistificada talvez, regida, em todo o caso, do exte- rior, pelo enorme
impulso de uma liberdade, ou de um desejo, ou de uma vontade que se
apresentaro como o reverso metafsico da conscincia. Alguma coisa como
um querer ou uma fora vai surgir na experincia moderna --
constituindo-a talvez, assinalando, em todo o caso, que a idade clssica
acaba de terminar e com ela o reino do discurso representativo, a
dinastia de uma representao significando-se a si mesma e enunciando,
na seqncia de suas palavras, a ordem adormecida das coisas.      Essa
reviravolta  contempornea de Sade. Ou, antes, essa obra incansvel
manifesta o precrio equilbrio entre a lei sem lei do desejo e a
ordenao meticulosa de uma representao discursiva. A ordem do
discurso encontra a seu Limite e sua Lei; mas tem ainda a fora de
permanecer co-extensiva quilo mesmo que a rege. A reside, sem dvida,
o princpio dessa "libertinagem", que foi a ltima do mundo ocidental
(aps ela comea a idade da sexualidade): o libertino  aquele que,
obedecendo a todas as fantasias do desejo e a cada um [pg. 289] de seus
furores, pode, mas tambm deve esclarecer o menor de seus movimentos por
uma representao lcida e voluntariamente operada. H uma ordem estrita
da vida libertina: toda representao deve animar-se logo no corpo vivo
do desejo, todo desejo deve enunciar-se na pura luz de um discurso
representativo. Da essa sucesso rgida de "cenas" (a cena, em Sade, 
o desregramento ordenado  representao) e, no interior das cenas, o
equilbrio cuidadoso entre a combinatria dos corpos e o encadeamento
das razes. Justine e Juliette, no nascimento da cultura moderna, esto
talvez na mesma posio que Dom Quixote entre o Renascimento e o
classicismo. O heri de Cervantes, lendo as relaes entre o mundo e a
linguagem como se fazia no sculo XVI, decifrando, unicamente pelo jogo
da semelhana, castelos nas estalagens e damas nas camponesas,
aprisionava-se, sem o saber, no mundo da pura representao; mas, visto
que essa representao s tinha por lei a similitude, no podia deixar
de aparecer sob a forma irrisria do delrio. Ora, na segunda parte do
romance, Dom Quixote recebia desse mundo representado sua verdade e sua
lei; no lhe restava mais que esperar desse livro onde nascera, que no
lera, mas cujo curso devia seguir, um destino que doravante lhe era
imposto pelos outros. Bastava-lhe deixar-se viver num castelo onde ele
prprio, que penetrara por sua loucura no mundo da pura representao,
se tornava finalmente pura e simples personagem no artifcio de uma
representao. As personagens de Sade lhe respondem, no outro extremo da
idade clssica, isto , no momento do declnio. No se trata mais do
triunfo irnico da representao sobre a semelhana; trata-se da obs-
cura violncia repetida do desejo que vem vencer os limites da
representao. Justine corresponderia  segunda parte de Dom Quixote;
ela  objeto indefinido do desejo, do qual  a [pg. 290] pura origem,
como Dom Quixote , a seu respeito, o objeto da representao que, em
seu ser profundo, ele prprio . Em Justine, o desejo e a representao
s se comunicam pela presena de um Outro que se representa a herona
como objeto de desejo, enquanto ela prpria s conhece do desejo a forma
leve, longnqua, exterior e gelada da representao. Este o seu
infortnio: sua inocncia permanece sempre como um terceiro entre o
desejo e a representao. J Juliette nada mais  que o sujeito de todos
os desejos possveis; mas esses desejos so retomados por inteiro na
representao que os funda arrazoadamente em discurso e os transforma
voluntariamente em cenas. De sorte que a grande narrativa da vida de
Juliette desenrola, ao longo dos desejos, das violncias, das
selvagerias e da morte, o quadro cintilante da representao. Esse
quadro, porm,  to tnue, to transparente a todas as figuras do
desejo que incansavelmente nele se acumulam e se multiplicam unicamente
pela fora de sua combinatria, que  to desarrazoado quanto o de Dom
Quixote quando, de similitude em similitude, acreditava avanar atravs
dos caminhos mistos do mundo e dos livros mas se enterrava no labirinto
das suas prprias representaes. Juliette esgota essa espessura do
representado, para que a aflore, sem a menor falha, a menor reticncia,
o menor vu, todas as possibilidades do desejo.      Com isso, essa
narrativa fecha a idade clssica sobre si mesma, como Dom Quixote a
abrira. E, se  verdade que ela  a ltima linguagem ainda contempornea
de Rousseau e de Racine, se  o ltimo discurso que visa a
"representar", isto , nomear, sabe-se bem que ao mesmo tempo reduz essa
cerimnia ao mximo (chama as coisas pelo seu nome estrito, desfazendo
assim todo o espao retrico) e alonga-a ao infinito (nomeando tudo, e
sem esquecer a menor das possibilidades, [pg. 291] pois elas so todas
percorridas segundo a Caracterstica universal do Desejo). Sade atinge a
extremidade do discurso e do pensamento clssicos. Reina exatamente em
seu limite. A partir dele, a violncia, a vida e a morte, o desejo, a
sexualidade vo estender, por sob a representao, uma imensa camada de
sombra, que ns agora tentamos retomar como podemos, em nosso discurso,
em nossa liberdade, em nosso pensamento. Mas nosso pensamento  to
curto, nossa liberdade to submissa, nosso discurso to repisado que 
preciso realmente nos darmos conta de que, no fundo, essa sombra
subterrnea  um poo de dificuldades. As prosperidades de Juliette so
sempre mais solitrias. E no tm termo. [pg. 292] [pg. 293] II
CAPTULO VII OS LIMITES DA REPRESENTAO                             I.
A idade da histria      Os ltimos anos do sculo XVIII so rompidos
por uma descontinuidade simtrica quela que, no comeo do sculo XVII,
cindira o pensamento do Renascimento; ento, as grandes figuras
circulares em que se encerrava a similitude tinham-se deslocado e aberto
para que o quadro das identidades pudesse desdobrar- se; e esse quadro
agora vai por sua vez desfazer-se, alojando-se o saber num espao novo.
Descontinuidade to enigmtica em seu princpio, em seu primitivo
despedaamento, quanto a que separa os crculos de Paracelso da ordem
cartesiana. Donde    vem    bruscamente     essa   mobilidade
inesperada   das    disposies epistemolgicas, o desvio das
positividades umas em relao s outras, mais profundamente ainda a
alterao de seu modo de ser? Como ocorre que o pensamento se desprenda
daquelas plagas que habitava outrora -- gramtica geral, histria
natural, riquezas -- e deixe oscilar no erro, na quimera, no no-saber
aquilo mesmo que, menos de 20 anos antes, estava estabelecido e afirmado
[pg. 297] no espao luminoso do conhecimento? A que acontecimento ou a
que lei obedecem essas mutaes que fazem com que de sbito as coisas
no sejam mais percebidas, descritas, enunciadas, caracterizadas,
classificadas e sabidas do mesmo modo e que, no interstcio das palavras
ou sob sua transparncia, no sejam mais as riquezas, os seres vivos, o
discurso que se oferecem ao saber, mas seres radicalmente diferentes?
Se, para uma arqueologia do saber, essa abertura profunda na camada das
continuidades deve ser analisada, e minuciosamente, no pode ser ela
"explicada", nem mesmo recolhida numa palavra nica.  um acontecimento
radical que se reparte por toda a superfcie visvel do saber e cujos
signos, abalos, efeitos, podem- se seguir passo a passo. Somente o
pensamento, assenhorando-se de si mesmo na raiz de sua histria, poderia
fundar, sem nenhuma dvida, o que foi, em si mesma, a verdade solitria
desse acontecimento.      A arqueologia, essa, deve percorrer o
acontecimento segundo sua disposio manifesta; ela dir como as
configuraes prprias a cada positividade se modificaram (ela analisa
por exemplo, para a gramtica, o desaparecimento do papel maior
atribudo ao nome e a importncia nova dos sistemas de flexo; ou ainda,
a subordinao, no ser vivo, do carter  funo); ela analisar a
alterao dos seres empricos que povoam as positividades (a
substituio do discurso pelas lnguas, das riquezas pela produo);
estudar o deslocamento das positividades umas em relao s outras (por
exemplo, a relao nova entre a biologia, as cincias da linguagem e a
economia); enfim e sobretudo, mostrar que o espao geral do saber no 
mais o das identidades e das diferenas, o das ordens no-quantitativas,
o de uma caracterizao universal, de uma taxinomia geral, de uma
mthsis do no- mensurvel, mas um espao feito de organizaes, isto
, de relaes [pg. 298] internas entre elementos, cujo conjunto
assegura uma funo; mostrar que essas organizaes so descontnuas,
que no formam, pois, um quadro de simultaneidades sem rupturas, mas que
algumas so do mesmo nvel enquanto outras traam sries ou seqncias
lineares. De sorte que se vem surgir, como princpios organizadores
desse espao de empiricidades, a Analogia e a Sucesso: de uma
organizao a outra, o liame, com efeito, no pode mais ser a identidade
de um ou vrios elementos, mas a identidade da relao entre os
elementos (onde a visibilidade no tem mais papel) e da funo que
asseguram; ademais, se porventura essas organizaes se avizinham por
efeito de uma densidade singularmente grande de analogias, no  porque
ocupem localizaes prximas num espao de classificao, mas sim porque
foram formadas uma ao mesmo tempo que a outra e uma logo aps a outra no
devir das sucesses. Enquanto, no pensamento clssico, a seqncia das
cronologias no fazia mais que percorrer o espao prvio e mais
fundamental de um quadro que de antemo apresentava todas as suas
possibilidades, doravante as semelhanas contemporneas e observveis
simultaneamente no espao no sero mais que as formas depositadas e
fixadas de uma sucesso que procede de analogia em analogia. A ordem
clssica distribua num espao permanente as identidades e as diferenas
no-quantitativas que separavam e uniam as coisas: era essa a ordem que
reinava soberanamente, mas a cada vez segundo formas e leis ligeiramente
diferentes, sobre o discurso dos homens, o quadro dos seres naturais e a
troca das riquezas. A partir do sculo XIX, a Histria vai desenrolar
numa srie temporal as analogias que aproximam umas das outras as
organizaes distintas.  essa Histria que, progressivamente, impor
suas leis  anlise da produo,  dos seres organizados, enfim,  dos
grupos [pg. 299] lingsticos. A Histria d lugar s organizaes
analgicas, assim como a Ordem abria o caminho das identidades e das
diferenas sucessivas.      Mas v-se bem que a Histria no deve ser
aqui entendida como a coleta das sucesses de fatos, tais como se
constituram; ela  o modo de ser fundamental das empiricidades, aquilo
a partir de que elas so afirmadas, postas, dispostas e repartidas no
espao do saber para eventuais conhecimentos e para cincias possveis.
Assim como a Ordem no pensamento clssico no era a harmonia visvel das
coisas, seu ajustamento, sua regularidade ou sua simetria constatados,
mas o espao prprio de seu ser e aquilo que, antes de todo conhecimento
efetivo, as estabelecia no saber, assim tambm a Histria, a partir do
sculo XIX, define o lugar de nascimento do que  emprico, lugar onde,
aqum de toda cronologia es- tabelecida, ele assume o ser que lhe 
prprio.  por isso certamente que to cedo a Histria se dividiu,
segundo um equvoco que sem dvida no  possvel vencer, entre uma
cincia emprica dos acontecimentos e esse modo de ser radical que
prescreve seu destino a todos os seres empricos e a estes seres
singulares que somos ns. A Histria, como se sabe,  efetivamente a
regio mais erudita, mais informada, mais desperta, mais atravancada
talvez de nossa memria; mas  igualmente a base a partir da qual todos
os seres ganham existncia e chegam  sua cintilao precria. Modo de
ser de tudo o que nos  dado na experincia, a Histria tornou-se assim
o incontornvel de nosso pensamento: no que, sem dvida, no  to
diferente da Ordem clssica. Essa tambm podia ser estabelecida num
saber organizado mas era mais fundamentalmente o espao onde todo ser
vinha ao conhecimento; e a metafsica clssica alojava-se precisamente
nessa distncia da Ordem  ordem, das classificaes  Identidade, dos
[pg. 300] seres naturais  Natureza: em suma, da percepo (ou da
imaginao) dos homens para com o entendimento e a vontade de Deus. A
filosofia do sculo XIX se alojar na distncia da histria  Histria,
dos acontecimentos  Origem, da evoluo ao primeiro dilaceramento da
fonte, do esquecimento ao Retorno. Portanto, ela s no ser mais
Metafsica na medida em que ser Memria e, necessariamente, reconduzir
o pensamento  questo de saber o que , para o pensamento, ter uma
histria. Essa questo infatigavelmente acossar a filosofia, de Hegel a
Nietzsche, e para alm desses. No vejamos nisso o fim de uma reflexo
filosfica autnoma, demasiado matinal e demasiado orgulhosa para se
inclinar exclusivamente sobre o que foi dito antes dela e por outros;
no tomemos isso como um pretexto para denunciar um pensamento impotente
para manter-se de p sozinho e sempre constrangido a enrolar-se a um
pensamento j realizado. Basta reconhecer a uma filosofia j
desprendida de certa metafsica, porque desligada do espao da ordem,
mas votada ao Tempo, ao seu fluxo, a seus retornos, porque presa ao modo
de ser da Histria.       preciso, porm, retornar, com um pouco mais
de detalhe, ao que se passou na curva dos sculos XVIII e XIX: a essa
mutao demasiado rapidamente desenhada da Ordem  Histria e 
alterao fundamental dessas positividades que, durante quase um sculo
e meio, deram lugar a tantos saberes vizinhos -- anlise das
representaes, gramtica geral, histria natural, reflexes sobre as
riquezas e o comrcio. Como essas maneiras de ordenar a empiricidade que
foram o discurso, o quadro, as trocas, se desvaneceram? Em que outro
espao e segundo quais figuras as palavras, os seres, os objetos da
necessidade tomaram lugar e se distriburam uns em relao aos outros?
Que novo modo de ser devem ter recebido para que todas essas mudanas
fossem possveis e para [pg. 301] que aparecessem, ao cabo de alguns
anos apenas, esses saberes agora familiares a que chamamos, desde o
sculo XIX, filologia, biologia, economia poltica? Imaginamos
facilmente que, se esses novos domnios foram definidos no sculo
passado,  porque um pouco mais de objetividade no conhecimento, de
exatido na observao, de rigor no raciocnio, de organizao na
pesquisa e na informao cientfica -- tudo isso ajudado, com um pouco
de sorte ou de gnio, por algumas descobertas felizes, nos fez sair de
uma idade pr-histrica em que o saber balbuciava ainda com a Gramtica
de Port- Royal, as classificaes de Lineu e as teorias do comrcio ou
da agricultura. Mas se, do ponto de vista da racionalidade dos
conhecimentos, podemos realmente falar em pr-histria, para as
positividades s podemos falar em histria. E foi realmente necessrio
um acontecimento fundamental -- um dos mais radicais, sem dvida, que
ocorreram na cultura ocidental, para que se desfizesse a positividade do
saber clssico e se constitusse uma positividade de que, por certo, no
samos inteiramente.      Esse acontecimento, sem dvida porque estamos
ainda presos na sua abertura, nos escapa em grande parte. Sua amplitude,
as camadas profundas que atingiu, todas as positividades que ele pode
subverter e recompor, a potncia soberana que lhe permitiu atravessar,
em alguns anos apenas, o espao inteiro de nossa cultura, tudo isso s
poderia ser estimado e medido ao termo de uma inquirio quase infinita
que s concerniria, nem mais nem menos, ao ser mesmo de nossa
modernidade. A constituio de tantas cincias positivas, o aparecimento
da literatura, a volta da filosofia sobre seu prprio devir, a
emergncia da histria ao mesmo tempo como saber e corno modo de ser da
empiricidade, no so mais que sinais de uma ruptura profunda. Sinais
dispersos no espao do saber, [pg. 302] pois que se deixam perceber na
formao, aqui de uma filologia, ali de uma economia poltica, ali ainda
de uma biologia. Disperso tambm na cronologia: certamente, o conjunto
do fenmeno se situa entre datas facilmente assinalveis (os pontos
extremos so os anos 1775 e 1825); podem-se porm reconhecer, em cada um
dos domnios estudados, duas fases sucessivas que se articulam uma 
outra, mais ou menos por volta dos anos 1795-1800. Na primeira dessas
fases, o modo de ser fundamental das positividades no muda; as riquezas
dos homens, as espcies da natureza, as palavras de que as lnguas so
povoadas permanecem ainda o que eram na idade clssica: representaes
duplicadas -- representaes cujo papel consiste em designar
representaes, analis-las, decomp-las e comp-las, para fazer nelas
surgir, com o sistema de suas identidades e de suas diferenas, o
princpio geral de uma ordem.  somente na segunda fase que as palavras,
as classes e as riquezas adquiriro um modo de ser que no  mais
compatvel com o da representao. Em contrapartida, o que se modifica
muito cedo, desde as anlises de Adam Smith, de A.-L. de Jussieu ou de
Viq d'Azyr, na poca de Jones ou de Anquetil-Duperron,  a configurao
das positividades: a maneira como, no interior de cada uma, os elementos
representativos funcionam uns em relao aos outros, a maneira como
asseguram seu duplo papel de designao e de articulao, como chegam,
pelo jogo das comparaes, a estabelecer uma ordem.  essa primeira fase
que ser estudada no presente captulo.
II. A medida do trabalho          Afirma-se facilmente que Adam Smith
fundou a economia poltica moderna -- poder-se-ia dizer a economia
simplesmente [pg. 303] -- introduzindo o conceito de trabalho num
domnio de reflexo que ainda no o conhecia: de imediato, todas as
velhas anlises da moeda, do comrcio e da troca teriam sido remetidas a
uma idade pr-histrica do saber -- com exceo talvez unicamente da
fisiocracia,  qual se concede o mrito de ter tentado ao menos a
anlise da produo agrcola.  verdade que Adam Smith refere, logo de
incio, a noo de riqueza  de trabalho: "O trabalho anual de uma nao
 o fundo primitivo que fornece ao consumo anual todas as coisas
necessrias e cmodas  vida; e essas coisas so sempre ou o produto
imediato desse trabalho ou compradas de outras naes com esse
produto"1;  tambm verdade que Smith reporta o "valor em uso" das
coisas  necessidade dos homens, e o "valor em troca"  quantidade de
trabalho aplicada para produzi-lo: "O valor de uma mercadoria qualquer,
para aquele que a possui e que no pretenda pessoalmente dela fazer uso
ou consumi-la, mas que tem a inteno de troc-la por outra coisa, 
igual  quantidade de trabalho que essa mercadoria lhe permite comprar
ou encomendar."2 De fato, a diferena entre as anlises de Smith e as de
Turgot ou Cantillon  menor do que se cr; ou, antes, no reside l onde
se imagina. Desde Cantillon e antes dele j se distinguiam perfeitamente
o valor de uso e o valor de troca; desde Cantillon igualmente,
utilizava-se a quantidade de trabalho para medir este ltimo. Mas a
quantidade de trabalho inscrita no preo das coisas no passava de um
instrumento de medida, ao mesmo tempo relativo e redutvel. Com efeito,
o trabalho de um homem valia a quantidade de alimento que era necessria
a 1     Adam Smith. Recherches sur la richesse des nations. Trad.
francesa. Paris, 1843, p. 1. 2     2. Id., ibid., p.38. ele e  sua
famlia para os manter durante o [pg. 304] tempo que durava a obra3. De
sorte que, em ltima instncia, a necessidade -- o alimento, o
vesturio, a habitao -- definia a medida absoluta do preo de mercado.
Ao longo de toda a idade clssica,  a necessidade que mede as
equivalncias, o valor de uso que serve de referncia absoluta aos
valores de troca;  o alimento que afere os preos, dando  produo
agrcola, ao trigo e  terra o privilgio que todos lhes reconheceram.
Adam Smith no inventou portanto o trabalho como conceito econmico,
porquanto j o encontramos em Cantillon, em Quesnay, em Condillac; nem
mesmo lhe faz desempenhar um papel novo, pois dele tambm se serve como
medida do valor de troca: "O trabalho  a medida real do valor
permutvel de toda mercadoria."4 Desloca-o porm: conserva-lhe sempre a
funo de anlise das riquezas permutveis; essa anlise, entretanto,
no  mais um puro e simples momento para reconduzir a troca 
necessidade (e o comrcio ao gesto primitivo da permuta); ela descobre
uma unidade de medida irredutvel, insupervel e absoluta. Desde logo,
as riquezas no estabelecero mais a ordem interna de suas equivaln-
cias por uma comparao dos objetos a trocar, nem por uma estimao do
poder prprio a cada um de representar um objeto de necessidade (e, em
ltimo recurso, o mais fundamental de todos, o alimento); elas se
decomporo segundo as unidades de trabalho que realmente as produziram.
As riquezas so sempre elementos representativos que funcionam: mas o
que representam finalmente no  mais o objeto do desejo,  o trabalho.
Duas objees, porm, logo se apresentam: como pode o trabalho ser
medida fixa do preo natural das coisas, se ele prprio tem um preo --
e que  varivel? Como pode o trabalho [pg. 305] ser uma unidade
insupervel, se ele muda de forma e se o progresso das manufaturas o
torna incessantemente mais produtivo, dividindo-o sempre mais? Ora, 
justamente atravs dessas objees e como que por seu intermdio que
podemos trazer  luz a irredutibilidade do trabalho e seu carter
primeiro. Com efeito, h regies no mundo e momentos numa mesma regio
em que o trabalho  caro: os operrios so pouco numerosos, os salrios
elevados; em outras partes e em outros momentos, a mo-de-obra abunda, 
mal retribuda, o trabalho  3     Cantillon. Essai sur le commerce en
gnral, pp. 17-8. 4     Adam Smith. Recherches sur la richesse des
nations, p. 38. barato. Mas o que se modifica nessas alternncias  a
quantidade de alimento que se pode obter com um dia de trabalho; se h
poucas mercadorias e muitos con- sumidores, cada unidade de trabalho s
ser recompensada por uma fraca quantidade de subsistncia; em
contrapartida, ela ser bem paga se as mercadorias se encontram em
abundncia. Isso no passa de conseqncias de uma situao de mercado;
o prprio trabalho, as horas passadas, o esforo e a fadiga so, de todo
modo, os mesmos; e quanto mais necessrias forem essas unidades, tanto
mais caros sero os produtos. "As quantidades iguais de trabalho so
sempre iguais para aquele que trabalha."5          E contudo poder-se-ia
dizer que essa unidade no  fixa, j que, para produzir um nico e
mesmo objeto, ser preciso, conforme a perfeio das manufaturas (isto
, segundo a diviso do trabalho que se instaurou), um labor mais ou
menos longo. Mas, na verdade, no foi o trabalho em si mesmo que mudou;
foi a relao do trabalho com a produo de que ele  suscetvel. O
trabalho, entendido como jornada, esforo e fadiga,  um numerador fixo:
s o denominador (o nmero de objetos produzidos)  capaz de variaes.
Um operrio [pg. 306] que tivesse de fazer sozinho as 18 operaes
distintas de que necessita a fabricao de um alfinete no produziria,
sem dvida, mais que cerca de 20 deles no curso de todo um dia. Mas dez
operrios que tivessem de efetuar cada qual somente uma ou duas
operaes poderiam fazer juntos mais de 48 mil alfinetes num dia;
portanto, cada operrio, realizando uma dcima parte desse produto, pode
ser considerado como fazendo em seu dia 4.800 alfinetes6. A potncia
produtiva do trabalho foi multiplicada; numa mesma unidade (a jornada de
um assalariado), os objetos fabricados aumentaram; seu valor de troca
vai portanto baixar, isto , cada um deles, por sua vez, s poder
comprar uma quantidade de trabalho proporcionalmente menor. O trabalho
no diminuiu em relao s coisas; foram as coisas que como que se
estreitaram em relao  unidade de trabalho.          Troca-se, 
verdade, porque se tm necessidades; sem elas, o comrcio no existiria,
nem tampouco o trabalho, nem sobretudo essa diviso que o torna mais
produtivo. Inversamente, so as necessidades que, quando satisfeitas,
limitam o 5     Adam Smith, loc. cit., p. 42. 6     Id., ibid., pp.7-8.
trabalho e seu aperfeioamento: "Uma vez que  a faculdade de trocar que
d lugar  diviso do trabalho, o aumento dessa diviso deve, por
conseqncia, ser sempre limitado pela extenso da faculdade de trocar
ou, em outros termos, pela extenso do mercado."7 As necessidades e a
troca de produtos que podem responder a elas so sempre o princpio da
economia: so seu primeiro motor e a circunscrevem; o tra- balho e a
diviso que o organiza no passam de seus efeitos. Mas, no interior da
troca, na ordem das equivalncias, a medida que estabelece as igualdades
e as diferenas  de natureza [pg. 307] diversa da necessidade. No
est ligada apenas ao desejo dos indivduos, modificada com ele e
varivel como ele.  uma medida absoluta, se com isso se entender que
no depende do corao dos homens ou de seu apetite; impe-se-lhes do
exterior:  seu tempo e  seu esforo. Em relao  de seus
predecessores, a anlise de Adam Smith representa um desfecho essencial:
ela distingue a razo da troca e a medida do permutvel, a natureza do
que  trocado e as unidades que permitem sua decomposio. Troca-se
porque se tem necessidade, e os objetos precisamente de que se tem
necessidade, mas a ordem das trocas, sua hierarquia e as diferenas que
a se manifestam so estabelecidas pelas unidades de trabalho que foram
depositadas nos objetos em questo. Se, para a experincia dos homens --
ao nvel do que se vai incessantemente chamar de psicologia -- o que
eles trocam  o que lhes  "indispensvel, cmodo ou agradvel", para o
economista, o que circula sob a forma de coisas  trabalho. No mais
objetos de necessidade que se representam uns aos outros, mas tempo e
fadiga, transformados, ocultos, esquecidos.          Esse desfecho  de
grande importncia. Certamente, Adam Smith analisa ainda, como seus
predecessores, esse campo de positividade a que o sculo XVIII chamou
"riquezas"; e, com isso, entendia tambm ele objetos de necessidade --
os objetos portanto de uma certa forma de representao --
representando-se a si prprios nos movimentos e nos processos da troca.
Mas, no interior dessa reduplicao e para regular sua lei, as unidades
e as medidas da troca, ele formula um princpio de ordem que 
irredutvel  anlise da representao: traz  luz o trabalho, isto , o
esforo e o tempo, essa jornada que, ao mesmo tempo talha e gasta a vida
de um homem. A equivalncia dos objetos do desejo no  mais
estabelecida 7     Id., ibid., pp.22-3. por intermdio de outros objetos
e de outros [pg. 308] desejos, mas por uma passagem ao que lhes 
radicalmente heterogneo; se h uma ordem nas riquezas, se isto pode
comprar aquilo, se o ouro vale duas vezes mais que a prata, no  mais
porque os homens tm desejos comparveis; no  porque atravs de seu
corpo eles experimentam a mesma fome ou porque o corao de todos
obedece s mesmas se- dues;  porque todos eles so submetidos ao
tempo, ao esforo,  fadiga e, indo ao extremo,  prpria morte. Os
homens trocam porque experimentam necessidades e desejos; mas podem
trocar e ordenar essas trocas porque so submetidos ao tempo e  grande
fatalidade exterior. Quanto  fecundidade desse trabalho, no  ela
devida tanto  habilidade pessoal ou ao clculo dos interesses; funda-se
em condies, tam- bm estas, exteriores  sua representao: progresso
da indstria, aumento da diviso de tarefas, acmulo de capitais,
diviso do trabalho produtivo e do trabalho no- produtivo. V-se de que
maneira a reflexo sobre as riquezas comea, com Adam Smith, a
extravasar o espao que lhe era designado na idade clssica; era ento
alojada no interior da "ideologia" -- da anlise da representao;
doravante, ela se refere, como que de vis, a dois domnios que escapam,
tanto um quanto o outro, s formas e s leis da decomposio das idias:
de um lado, ela desponta j para uma antropologia que pe em questo a
essncia do homem (sua finitude, sua relao com o tempo, a iminncia da
morte) e o objeto no qual ele investe as jornadas de seu tempo e de seu
esforo sem poder nele reconhecer o objeto de sua necessidade ime-
diata; e, de outro, indica, ainda no vazio, a possibilidade de uma
economia poltica que no mais teria por objeto a troca das riquezas (e
o jogo das representaes que a cria), mas sua produo real: formas do
trabalho e do capital. Compreende-se como, entre essas positividades
recentemente [pg. 309] formadas -- uma antropologia que fala de um
homem tornado estranho a si mesmo e uma economia que fala de mecanismos
exteriores  conscincia humana -- a Ideologia ou a Anlise das
representaes se reduzir, em breve, a ser no mais que uma psicologia,
ao mesmo tempo em que, diante dela, contra ela e dominando-a bem logo do
alto de si mesma, se abre a dimenso de uma histria possvel. A partir
de Smith, o tempo da economia    no   ser   mais   aquele,   cclico,
dos   empobrecimentos   e   dos enriquecimentos; tambm no ser o
crescimento linear das polticas hbeis que, aumentando sempre
ligeiramente as espcies em circulao, aceleram a produo mais
rapidamente do que elevam os preos; ser o tempo interior de uma
organizao que cresce segundo sua prpria necessidade e se desenvolve
segundo leis autctones -- o tempo do capital e do regime de produo.
III. A organizao dos seres      No domnio da histria natural, as
modificaes que se podem constatar entre os anos 1775 e 1795 so do
mesmo tipo. No se repe em questo o que est no princpio das
classificaes: estas tm sempre por finalidade determinar o "carter"
que agrupa os indivduos e as espcies em unidades gerais, que distingue
essas unidades umas das outras e que lhes permite enfim se encaixarem de
maneira a formar um quadro em que todos os indivduos e todos os grupos,
conhecidos ou desconhecidos, podero encontrar seu lugar. Esses
caracteres so extrados da representao total dos indivduos; so sua
anlise e permitem, representando essas representaes, constituir uma
ordem; os princpios gerais da taxinomia -- aqueles mesmos que
orientaram os sistemas [pg. 310] de Tournefort e de Lineu, o mtodo de
Adanson -- continuam a valer do mesmo modo para A.-L. de Jussieu, para
Vicq d'Azyr, para Lamarck, para Candolle. E, contudo, a tcnica que
permite estabelecer o carter, a relao entre estrutura visvel e
critrios de identidade so modificadas assim como foram modificadas por
Adam Smith as relaes da necessidade ou do preo. Ao longo de todo o
sculo XVIII, os classificadores estabeleceram o carter pela comparao
de estruturas visveis, isto , relacionando elementos que eram
homogneos, pois que cada um podia, segundo o princpio ordenador que
fosse escolhido, servir para representar todos os outros: a nica
diferena residia no fato de que, para os partidrios do sistema, os
elementos representativos eram fixados desde o incio, e, para os
partidrios do mtodo, eles se desprendiam pouco a pouco de uma
confrontao progressiva. Mas a passagem da estrutura descrita para o
carter classificador se fazia inteiramente ao nvel das funes
representativas que o visvel exercia em relao a si mesmo. A partir de
Jussieu, de Lamarck e de Vicq d'Azyr, o carter, ou antes, a
transformao da estrutura em carter vai basear-se num princpio
estranho ao domnio do visvel -- um princpio interno, irredutvel ao
jogo recproco das representaes. Esse princpio (ao qual corresponde,
na ordem da economia, o trabalho)  a organizao. Como fundamento das
taxinomias, a organizao aparece de quatro modos diferentes.      1.
Primeiro, sob a forma de uma hierarquia dos caracteres. Com efeito, se
no se expem as espcies umas ao lado das outras e na sua maior
diversidade, mas se se aceitam, para delimitar imediatamente o campo de
investigao, os vastos agrupamentos que a evidncia impe -- como as
gramneas, as compostas, as crucferas, as leguminosas, para as [pg.
311] plantas; ou, para os animais, os vermes, os peixes, as aves, os
quadrpedes --, v-se que certos caracteres so absolutamente constantes
e no esto ausentes em nenhum dos gneros, nenhuma das espcies que se
podem a reconhecer: por exemplo, a insero dos estames, sua situao
em relao ao pistilo, a insero da corola quando ela traz estames, o
n- mero de lbulos que acompanham o embrio na semente. Outros
caracteres so muito freqentes numa famlia, mas no atingem o mesmo
grau de constncia;  que so formados por rgos menos essenciais
(nmero de ptalas, presena ou ausncia da corola, situao respectiva
do clice ou do pistilo): so os caracteres "secundrios subuniformes".
Enfim, os caracteres "tercirios semi-uniformes" so ora constantes ora
variveis (estrutura monfila ou polfila do clice, nmero de
compartimentos no fruto, situao das flores e das folhas, natureza do
caule): com esses caracteres semi- uniformes no  possvel definir
famlias ou ordens -- no que eles no sejam capazes, se os aplicssemos
a todas as espcies, de formar entidades gerais, mas porque no
concernem ao que h de essencial num grupo de seres vivos. Cada grande
famlia natural tem requisitos que a definem, e os caracteres que
permitem reconhec-la so os mais prximos dessas condies
fundamentais; assim, sendo a reproduo a funo maior da planta, o
embrio ser sua parte mais importante, e poder-se-o repartir os
vegetais em trs classes: acotildones, monocotildones e dicotildones.
Com base nesses caracteres essenciais e "primrios", os outros podero
aparecer e introduzir distines mais sutis. V-se que o carter j no
 diretamente extrado da estrutura visvel e sem outro critrio seno
sua presena ou ausncia; funda-se na existncia de funes essenciais
ao ser vivo e nas relaes de importncia que j no procedem apenas da
descrio. [pg. 312]      2. Os caracteres esto, pois, ligados a
funes. Volta-se, num sentido,  velha teoria das assinalaes ou das
marcas pelo que se supunha que os seres traziam, no ponto mais visvel
de sua superfcie, o signo do que neles era o mais essencial. Aqui,
porm, as relaes de importncia so relaes de subordinao
funcional. Se o nmero de cotildones  decisivo para classificar os
vegetais,  porque desempe- nham um papel determinado na funo de
reproduo, e porque esto ligados, por isso mesmo, a toda a organizao
interna da planta; indicam uma funo que comanda toda a disposio do
indivduo8. Assim, para os animais, Vicq d'Azyr mostrou que as funes
alimentares so, sem dvida, as mais importantes;  por essa razo que
"relaes constantes existem entre a estrutura dos dentes dos carnvoros
e a de seus msculos, de seus dedos, de suas unhas, de sua lngua, de
seu estmago, de seus intestinos"9. O carter no  portanto
estabelecido por uma relao do visvel consigo prprio; em si mesmo,
no  mais do que a salincia visvel de uma orga- nizao complexa e
hierarquizada, em que a funo desempenha um papel essencial de comando
e de determinao. No  por ser freqente nas estruturas observadas que
um carter  importante;  por ser funcionalmente importante que o en-
contramos com freqncia. Como observar Cuvier, resumindo a obra dos
ltimos grandes partidrios do mtodo do sculo,  medida que nos
elevamos em direo s classes mais gerais, "mais tambm as propriedades
que permanecem comuns so constantes; e, como as relaes mais
constantes so aquelas que pertencem s partes mais importantes, os
caracteres [pg. 313] das divises superiores se acharo extrados das
partes mais importantes... Dessa forma, o mtodo ser natural, uma vez
que leva em conta a importncia dos rgos"10.          3. Nessas
condies, compreende-se como pde a noo de vida tornar-se
indispensvel  ordenao dos seres naturais. Tornou-se indispensvel
por duas razes: primeiro, era preciso poder apreender na profundidade
do corpo as relaes que ligam os rgos superficiais queles cuja
existncia e forma oculta asseguram as funes essenciais; assim, Storr
prope classificar os mamferos segundo a disposio de seus cascos; 
que esta est ligada aos modos de deslocamento e s possibilidades
motoras do animal; ora, esses modos, por sua vez, esto em 8     A.-L.
de Jussieu. Genera plantaram, p. XVIII. 9  Vicq d'Azyr. Systme
anatomique des quadrupdes, 1792, "Dis-cours prliminaire", p. LXXXVII.
10      G. Cuvier. Tableau lmentaire de 1'histoire naturelle. Paris,
ano VI, pp. 20-1. correlao com a forma de alimentao e os diferentes
rgos do sistema digestivo11. Ademais, pode ocorrer que os caracteres
mais importantes sejam os mais escondidos; j na ordem vegetal, pde-se
constatar que no so as flores e os frutos -- partes mais visveis da
planta -- os elementos significativos, mas o aparelho embrionrio e
rgos como os cotildones. Esse fenmeno  mais freqente ainda nos
animais. Storr pensava ser preciso definir as grandes classes pelas
formas da circulao; e Lamarck, que contudo no praticava pessoalmente
a dissecao, recusa para os animais inferiores um princpio de
classificao que s se fundasse em sua forma visvel: "A considerao
das articulaes do corpo e dos membros dos crustceos fez com que todos
os naturalistas os olhassem como verdadeiros insetos, e eu prprio,
durante muito tempo, segui a opinio comum a esse respeito. Mas, como 
reconhecido que a [pg. 314] organizao  a mais essencial de todas as
consideraes para guiar numa distribuio metdica e natural dos
animais, assim como para determinar entre eles as verdadeiras relaes,
resulta da que os crustceos, respirando unicamente por brnquias 
maneira dos moluscos e, tendo como eles, um corao muscular, devem ser
localizados imediatamente aps eles, antes dos aracndeos e dos insetos,
que no tm uma semelhante organizao."12 Classificar, portanto, no
ser mais referir o visvel a si mesmo, encarregando um de seus
elementos de representar os outros; ser, num movimento que faz revolver
a anlise, reportar o visvel ao invisvel, como  sua razo profunda,
depois alar de novo dessa secreta arquitetura em direo aos seus
sinais manifestos, que so dados  superfcie dos corpos. Como dizia
Pinel, na sua obra de naturalista, "atermo-nos aos caracteres exteriores
designados pelas nomenclaturas no  fechar para ns mesmos a mais
fecunda fonte de instrues e nos recusar, por assim dizer, a abrir o
grande livro da natureza que, contudo, nos propomos conhecer?"13.
Doravante, o carter reassume seu velho papel de sinal visvel
despontando em direo a uma profundidade escondida; mas o que ele
indica no  um texto secreto, uma palavra encoberta ou uma semelhana
demasiado preciosa para ser exposta;  o conjunto coerente de uma
organizao que retoma na trama nica de sua soberania tanto o 11
Storr. Prodromas Methodi Mammalium. Tbingen, 1780, pp. 7-20. 12
Lamarck. Systme des animaux sans vertbres. Paris, 1801, pp. 143-4. 13
Ph. Pinel. Nouvelle mthode de classification des quadrumanes (Actes de
la Socit d'histoire visvel como o invisvel.          4. O
paralelismo entre classificao e nomenclatura  por isso mesmo rompido.
Enquanto a classificao consistia [pg. 315] numa repartio
progressivamente encaixada no espao visvel, era muito concebvel que a
delimitao e a denomina- o desses conjuntos pudessem realizar-se
paralelamente. O problema do nome e o problema do gnero eram isomorfos.
Mas agora que o carter no pode mais classificar a no ser referindo-se
primeiro  organizao dos indivduos, o "distinguir" no se faz mais
segundo os mesmos critrios e as mesmas operaes que o "denominar".
Para encontrar os conjuntos fundamentais que reagrupam os seres
naturais,  necessrio percorrer esse espao em profundidade que conduz
dos rgos superficiais aos mais secretos e, destes, s grandes funes
que eles asseguram. Em contrapartida, uma boa nomenclatura continuar a
se desdobrar no espao plano do quadro: a partir dos caracteres visveis
do indivduo, ser necessrio chegar ao compartimento preciso onde se
encontra o nome desse gnero e de sua espcie. H uma distoro
fundamental entre o espao da organizao e o da nomenclatura: ou,
antes, em vez de se recobrirem exatamente, so doravante perpendiculares
um ao outro; e no seu ponto de juno encontra-se o carter manifesto,
que indica, em profundidade, uma funo e permite, na superfcie,
encontrar um nome. Essa distino que, em alguns anos, tornar caducas a
histria natural e a preeminncia da taxinomia,  devida ao gnio de
Lamarck: no Discurso preliminar da Flore franaise, ops ele como
radicalmente distintas as duas tarefas da botnica: a "determinao",
que aplica as regras da anlise e permite encontrar o nome pelo simples
jogo de um mtodo binrio (ou tal carter est presente no indivduo que
se examina e  preciso buscar situ-lo na parte direita do quadro; ou
ele no est presente e  preciso buscar na parte esquerda; e isso at a
ltima determinao); e a descoberta das relaes reais de semelhana,
que supe o exame da organizao [pg. 316] inteira das espcies14. O
nome e os gneros, a designao e a classificao, a linguagem e a
natureza deixam de ser entrecruzados de pleno direito. A ordem das
palavras e a ordem dos seres no se recortam mais seno numa linha
artificialmente definida. Sua velha interdependncia que fundara a
histria naturelle, t. I, p. 52, citado in Daudin. Les classes
zoologiques, p. 18). 14      Lamarck. La flore franaise. Paris, 1778,
Discours prliminaire, pp. XC-CII. natural na idade clssica e que
conduzira, num s movimento, a estrutura at o carter, a representao
at o nome e o indivduo visvel at o gnero abstrato, comea a
desfazer-se. Comea-se a falar sobre coisas que tm lugar num espao
diverso do das palavras. Ao fazer, e muito cedo, semelhante distino,
Lamarck encerrou a idade da histria natural, entreabriu a da biologia
muito melhor, de um modo bem mais certo e radical do que ao retomar,
cerca de 20 anos mais tarde, o tema j conhecido da srie nica das
espcies e de sua transformao progressiva.          O conceito de
organizao j existia na histria natural do sculo XVIII -- assim
como, na anlise das riquezas, a noo de trabalho que tampouco foi
inventada no desembocar da idade clssica; mas servia ento para definir
um certo modo de composio dos indivduos complexos a partir de
materiais mais elementares; Lineu, por exemplo, distinguia a
"justaposio", que faz crescer o mineral e a "intuscepo" pela qual o
vegetal se desenvolve nutrindo-se15. Bonnet opunha o "agregado" dos
"slidos brutos"  "composio dos slidos organizados" que "entrelaa
num nmero quase infinito de partes, algumas fluidas, outras slidas"16.
Ora, esse [pg. 317] conceito de organizao jamais servira, antes do
fim do sculo, para fundar a ordem da natureza, para definir seu espao,
ou para limitar- lhe as figuras.  atravs das obras de Jussieu, de Vicq
d'Azyr e de Lamarck, que ele comea a funcionar pela primeira vez como
mtodo de caracterizao: subordina os caracteres uns aos outros;
liga-os a funes; dispe-nos segundo uma arquitetura tanto interna
quanto externa e no menos invisvel que visvel; reparte-os num espao
diverso daquele dos nomes, do discurso e da linguagem. No basta mais s
para designar uma categoria de seres entre outros; no indica mais
apenas um corte no espao taxinmico; define para certos seres a lei
interior, que permite a uma de suas estruturas assumir o valor de
carter. A organizao se insere entre as estruturas que articulam e os
caracteres que designam -- introduzindo entre eles um espao profundo,
interior, essencial.          Essa mutao importante se exerce ainda no
elemento da histria natural; ela modifica os mtodos e as tcnicas de
uma taxinomia; no recusa suas condies fundamentais de possibilidade;
no toca no modo de ser de uma ordem natural. 15      Lineu. Systme
sexuel des vgtaux. Trad. francesa. Paris, ano VI, p. 1. 16
Bonnet. Contemplation de la nature. In: Oeuvres compltes, t. IV, p. 40.
Entretanto, acarreta uma conseqncia maior: a radicalizao da diviso
entre orgnico e inorgnico. No quadro dos seres que a histria natural
desdobrava, o organizado e o no-organizado definiam no mais que duas
categorias; estas se entrecruzavam sem coincidirem necessariamente com a
oposio entre o ser vivo e o no-vivo. A partir do momento em que a
organizao se torna conceito fundador da caracterizao natural e
permite passar da estrutura visvel  designao, ela prpria tem que
deixar de ser apenas um carter; contorna o espao taxinmico onde
estava alojada e  ela, por sua vez, que d lugar a uma classificao
possvel. Por isso mesmo, a oposio entre o orgnico e o inorgnico
torna-se fundamental. , com efeito, a partir dos anos 1775-1795, que a
[pg. 318] velha articulao dos trs ou quatro reinos desaparece; a
oposio dos dois reinos -- orgnico e inorgnico -- no a substitui
exatamente; torna-a antes impossvel, impondo outra diviso, em outro
nvel e em outro espao. Pallas e Lamarck17 formulam essa grande
dicotomia, com a qual vem coincidir a oposio entre o ser vivo e o
no-vivo. "S h dois reinos na natureza", escreve Vicq d'Azyr, em 1786,
"um que usufrui a vida e outro que dela est privado."18 O orgnico
torna-se o ser vivo e o ser vivo  o que produz, crescendo e
reproduzindo-se; o inorgnico  o no-vivo, o que no se desenvolve nem
se reproduz; , nos limites da vida, o inerte e o infecundo -- a morte.
E se se mistura  vida,  como aquilo que nela tende a destru-la e a
mat-la. "Existem em todos os seres vivos duas foras poderosas, muito
distintas e sempre em oposio entre si, de tal sorte que cada uma delas
destri perpetuamente os efeitos que a outra consegue produzir."19 V-se
como, fraturando em profundidade o grande quadro da histria natural,
alguma coisa como uma biologia vai tornar-se possvel; e como tambm
poder emergir nas anlises de Bichat a oposio fundamental entre a
vida e a morte. No se tratar do triunfo, mais ou menos precrio, de um
vitalismo sobre um mecanismo; o vitalismo e seu esforo para definir a
especificidade da vida no so mais que os efeitos de superfcie desses
acontecimentos arqueolgicos. 17      Lamarck. La flore franaise, pp.
1-2. 18      Vicq d'Azyr. Premier discours anatomique, 1786, pp. 17-8.
19      Lamarck. Mmoires de physique et d'histoire naturelle, 1797, p.
248.                          IV. A flexo das palavras      Encontra-se
a rplica exata desses acontecimentos do lado das anlises da linguagem.
Nisso, porm, tm elas, sem [pg. 319] dvida, uma forma mais discreta e
tambm uma cronologia mais lenta. H para isso uma razo fcil de
descobrir;  que, durante toda a idade clssica, a linguagem foi posta e
refletida como discurso, isto , como anlise espontnea da
representao. De todas as formas de ordem no- quantitativa, era a mais
imediata, a menos preparada, a mais profundamente ligada ao movimento
prprio da representao. E, nessa medida, estava mais bem enraizada
nela e no seu modo de ser do que estas ordens refletidas -- sbias ou
interessadas -- que fundavam a classificao dos seres ou a troca das
riquezas. Modificaes tcnicas como as que afetaram a medida dos
valores de troca ou os procedimentos da caracterizao bastaram para
alterar consideravelmente a anlise das riquezas ou a histria natural.
Para que a cincia da linguagem sofresse modificaes to importantes,
foram necessrios acontecimentos mais profundos, capazes de mudar, na
cultura ocidental, at o ser mesmo das representaes. Assim como a
teoria do nome, nos sculos XVII e XVIII, se alojava o mais perto
possvel da representao e com isso comandava, at certo ponto, a
anlise das estruturas e do carter nos seres vivos, a do preo e do
valor nas riquezas, assim tambm, no fim da idade clssica,  ela que
subsiste mais tempo, s se desfazendo tardiamente no momento em que a
prpria representao se modifica ao nvel mais profundo de seu regime
arqueolgico.      At o comeo do sculo XIX, as anlises da linguagem
s manifestam ainda poucas mudanas. As palavras so sempre interrogadas
a partir de seus valores representativos, como elementos virtuais do
discurso que lhes prescreve a todas um mesmo modo de ser. No entanto,
esses contedos representativos j no so analisados somente na
dimenso que a aproxima de uma origem absoluta, seja ela mtica ou no.
Na gramtica geral sob sua forma mais pura, todas as [pg. 320] palavras
de uma lngua eram portadoras de uma significao mais ou menos oculta,
mais ou menos derivada, mas cuja primitiva razo de ser residia numa
designao inicial. Toda lngua, por mais complexa que fosse, achava-se
situada na abertura, disposta de uma vez por todas, pelos gritos
arcaicos. As semelhanas laterais com as outras lnguas -- sonoridades
vizinhas recobrindo significaes anlogas -- s eram observadas e
coligidas para confirmar a relao vertical de cada uma com esses
valores profundos, encobertos, quase mudos. No ltimo quartel do sculo
XVIII a comparao horizontal entre as lnguas adquire outra funo: no
mais permite saber o que cada uma pode comportar de memria ancestral,
que marcas de antes de Babel esto depositadas na sonoridade de suas
palavras; deve permitir, porm, medir at que ponto elas se assemelham,
qual a densidade de suas similitudes, em que limites so transparentes
uma  outra. Da essas grandes confrontaes de lnguas diversas que se
v surgirem no fim do sculo -- e por vezes sob a presso de motivos
polticos, como as tentativas feitas na Rssia20 para estabelecer um
levantamento das lnguas do Imprio; em 1787, aparece em Petrogrado o
primeiro volume do Glossarium comparatiuum totius orbis; ele contm
referncia a 279 lnguas: 171 para a sia, 55 para a Europa, 30 para a
frica, 23 para a Amrica21. Essas comparaes fazem-se ainda
exclusivamente a partir e em funo dos contedos representativos;
confronta-se um mesmo ncleo de significao -- que serve de invariante
-- com as palavras pelas quais as diversas lnguas podem design-lo
(Adelung22 d 500 verses do pater em [pg. 321] lnguas e dialetos
diferentes); ou ento, escolhendo uma raiz como elemento constante
atravs de formas ligeiramente variadas, determina-se o leque dos
sentidos que ela pode assumir (so os primeiros ensaios de lexicografia,
como a de Buthet de La Sarthe). Todas essas anlises remetem sempre a
dois princpios que eram j os da gramtica geral: o de uma lngua
primitiva e comum que teria fornecido o lote inicial das razes, e o de
uma srie de acontecimentos histricos, estranhos  linguagem e que, do
exterior, a vergam, gastam-na, apuram-na, agilizam-na, multiplicam ou
misturam suas formas (invases, migraes, progressos dos conhecimentos,
liberdade ou escravido poltica etc.).          Ora, a confrontao das
lnguas, no fim do sculo XVIII, traz  luz uma figura intermediria
entre a articulao dos contedos e o valor das razes: trata-se da
flexo. Certamente, os gramticos conheciam desde muito tempo os
fenmenos 20    Bachmeister. Idea ed desideria de colligendis linguarum
specimenibus. Petrogrado, 1773.Gldenstadt. Voyage dans le Caucase. 21
A segunda edio em quatro volumes aparece em 1790-1. 22      F.
Adelung. Mithridates, 4 v., Berlim, 1806-17. flexionais (assim como, em
histria natural, conhecia-se o conceito de organizao antes de Pallas
ou Lamarck; e, em economia, o conceito de trabalho antes de Adam Smith);
mas as flexes s eram analisadas por seu valor representativo -- quer
fossem consideradas como representaes anexas, quer se visse nelas uma
forma de ligar entre si as representaes (alguma coisa como uma outra
ordem das palavras). Mas, quando se faz, como Coeurdoux23 e William
Jones24, a comparao entre as diferentes formas do verbo ser em
snscrito e em latim ou em grego, descobre-se uma relao de constncia
que  inversa quela que se admitia correntemente: a raiz  que 
alterada e as flexes  que so anlogas. A srie snscrita asmi, asi,
asti, smas, stha, santi, corresponde exatamente, [pg. 322] mas por
analogia flexional,  srie latina sum, es, est, sumus, estis, sunt. Sem
dvida, Coeurdoux e Anquetil- Duperron permaneciam ao nvel das anlises
da gramtica geral quando o primeiro via nesse paralelismo os restos de
uma lngua primitiva; e o segundo, o resultado da mistura histrica que
se teria feito entre hindus e mediterrneos na poca do reino de
Bactriana. Mas o que estava em jogo nessa conjugao comparada j no
era mais o liame entre slaba primitiva e sentido primeiro, era uma
relao mais complexa entre as modificaes do radical e as funes da
gramtica; descobria-se que em duas lnguas diferentes havia uma relao
constante entre uma srie determinada de alteraes formais e uma srie
igualmente determinada de funes gramaticais, de valores sintticos ou
de modificaes sem sentido.          Por isso mesmo, a gramtica geral
comea a mudar de configurao: seus diversos segmentos tericos no
mais se encadeiam totalmente do mesmo modo uns nos outros; e a rede que
os une desenha um percurso j ligeiramente diferente. Na poca de Bauze
ou de Condillac, a relao entre as razes de forma to lbil e o
sentido determinado nas representaes, ou ainda o liame entre o poder
de designar e o de articular, era assegurado pela soberania do Nome.
Agora um novo elemento intervm: do lado do sentido ou da representao,
ele indica apenas um valor acessrio, necessariamente secundrio
(trata-se do papel de sujeito ou de com- plemento desempenhado pelo
indivduo ou pela coisa designada; trata-se do tempo da ao); mas, do
lado da forma, ele constitui o conjunto slido, constante, 23      R.-P.
Coeurdoux. Mmoires de l'Acadmie des inscriptions, t. XLIX, pp. 647-97.
24      W. Jones. Works. Londres, 1807, 13 v. inaltervel ou quase, cuja
lei soberana se impe s razes representativas at mo- dificar elas
prprias. Mais ainda, esse elemento, secundrio pelo valor
significativo, primeiro pela conscincia formal, no , ele prprio, uma
slaba isolada, como uma espcie de [pg. 323] raiz constante;  um
sistema de modificaes cujos segmentos diversos so solidrios uns aos
outros: a letra s no significa a segunda pessoa, como a letra e
significava, segundo Court de Gbelin, a respirao, a vida e a
existncia;  o conjunto das modificaes m, s, t, que d  raiz verbal
os valores da primeira, segunda e terceira pessoa.         Essa nova
anlise, at o fim do sculo XVIII, se aloja na busca dos valores
representativos da linguagem.  ainda do discurso que se trata. J
aparece porm, atravs do sistema das flexes, a dimenso do gramatical
puro: a linguagem no  mais constituda somente de representaes e de
sons que, por sua vez, as representam e se ordenam entre si como o
exigem os liames do pensamento; , ademais, constituda de elementos
formais, agrupados em sistema, e que impem aos sons, s slabas, s
razes, um regime que no  o da representao. Introduz-se assim na
anlise da linguagem um elemento que lhe  irredutvel (como se introduz
o trabalho na anlise da troca ou a organizao na dos caracteres). A
ttulo de conseqncia primeira, pode-se notar o aparecimento, no fim do
sculo XVIII, de uma fontica que no  mais busca dos primeiros valores
expressivos, mas anlise dos sons, de suas relaes e de sua
transformao possvel uns nos outros; Helwag, em 1781, define o
tringulo voclico25. Pode-se notar tambm o aparecimento dos primeiros
esboos de gramtica comparada; no se toma mais como objeto de
comparao nas diversas lnguas o par formado por um grupo de letras e
por um sentido, mas conjuntos de modificaes de valor gramatical
(conjugaes, declinaes e afixaes). As lnguas so confrontadas no
mais por aquilo que as palavras designam, mas pelo que as liga umas s
outras; [pg. 324] elas vo agora comunicar-se, no por intermdio desse
pensamento annimo e geral que devem representar, mas diretamente, uma
com a outra, graas a esses finos instrumentos de aparncia to frgil,
mas to constantes, to irredutveis, que dispem as palavras umas em
relao s outras. Como dizia Monboddo: "Sendo o mecanismo das lnguas
menos arbitrrio e mais bem regulado que a pronncia das palavras, a
encontramos 25      Helwag. De formatione loquelae, 1781. um excelente
critrio para determinar a afinidade das lnguas entre si.  por isso
que, quando vemos duas lnguas empregarem da mesma forma esses grandes
procedimentos da linguagem, a derivao, a composio, a inflexo,
podemos disso concluir que uma deriva da outra ou que so, ambas,
dialetos de uma mesma lngua primitiva."26 Enquanto a lngua fora
definida como discurso, no podia ter outra histria seno a de suas
representaes: se as idias, as coisas, os conhecimentos, os
sentimentos, porventura mudavam, ento e somente ento a lngua se
modificava e na exata proporo de suas mudanas. Doravante, porm, h
um "mecanismo" interior das lnguas que determina no s a
individualidade de cada uma, mas tambm suas semelhanas com as outras:
 ele que, portador de identidade e de di- ferena, signo de vizinhana,
marca do parentesco, vai tornar-se suporte da histria. Por ele, a
historicidade poder introduzir-se na espessura da prpria palavra.
V. Ideologia e crtica         Na gramtica geral, na histria natural,
na anlise das riquezas, produziu-se, pois, nos ltimos anos do sculo
XVIII, [pg. 325] um acontecimento que, em todas elas, foi do mesmo
tipo. Os signos de que as representaes eram afetadas, a anlise das
identidades e das diferenas que ento se podia estabelecer, o quadro ao
mesmo tempo contnuo e articulado que se instaurava na profuso das
similitudes, a ordem definida entre as multiplicidades empricas
doravante no podem mais se fundar apenas na reduplicao da
representao em relao a ela mesma. A partir desse acontecimento, o
que valoriza os objetos do desejo no so mais apenas os outros objetos
que o desejo pode representar, mas um elemento irredutvel a essa
representao: o trabalho; o que permite caracterizar um ser natural no
so mais os elementos que se podem analisar sobre as representaes que
dele e de outros se fazem, mas certa relao interior a esse ser e a que
se chama sua organizao; o que permite definir uma lngua no  a
maneira como ela representa as representaes, mas certa arquitetura
interna, certa maneira de modificar as prprias palavras segundo a
postura gramatical que ocupam umas em relao s outras:  seu sistema
flexional. Em todos os casos, a relao da representao consigo mesma e
as 26      Lord Monboddo. Ancient metaphysics, IV, p. 326. relaes de
ordem que ela permite determinar fora de toda medida quantitativa passam
agora por condies exteriores  prpria representao na sua
atualidade. Para ligar a representao de um sentido com a de uma
palavra, cumpre referir-se e recorrer s leis puramente gramaticais de
uma linguagem que, fora de todo poder de representar as representaes,
est submetida ao sistema rigoroso de suas modificaes fonticas e de
suas subordinaes sintticas; na idade clssica, as lnguas tinham uma
gramtica porque tinham poder de representar; agora representam a partir
dessa gramtica, que  para elas como que um reverso histrico, um
volume interior e necessrio cujos valores representativos no
constituem mais [pg. 326] que a face externa, cintilante e visvel.
Para ligar num carter definido uma estrutura parcial e a visibilidade
de conjunto de um ser vivo,  preciso agora referir-se s leis puramente
biolgicas que, fora de todas as marcas sinalticas, est como que em
recuo em relao a elas, organizam as relaes entre funes e rgos;
os seres vivos no mais definem suas semelhanas, suas afinidades e suas
famlias a partir de sua descritibilidade desdobrada; possuem caracteres
que a linguagem pode percorrer e definir, porque tm uma estrutura que 
como o reverso sombrio, volumoso e interior de sua visibilidade:  na
superfcie clara e discursiva dessa massa secreta mas soberana que os
caracteres emergem, espcie de depsito exterior  periferia de
organismos agora enrolados sobre si mesmos. Enfim, quando se trata de
ligar a representao de um objeto de necessidade a todos aqueles que
podem fi- gurar em face dele no ato de troca,  preciso recorrer  forma
e  quantidade de um trabalho que lhe determinam o valor; o que
hierarquiza as coisas nos movimentos contnuos do mercado no so os
outros objetos nem as outras necessidades;  a atividade que as produziu
e que, silenciosamente, nelas se depositou; so as jornadas e as horas
necessrias para fabric-las, para extra-las ou transport-las que
constituem seu peso prprio, sua solidez mercantil, sua lei interior e,
por conseguinte, o que se pode chamar seu preo real; a partir desse
ncleo essencial, as trocas podero efetuar-se e os preos de mercado,
depois de oscilarem, encontraro seu ponto fixo.      Esse acontecimento
um pouco enigmtico, esse acontecimento subterrneo que, nos fins do
sculo XVIII, se produziu nesses trs domnios, submetendo-os num s
lance a uma mesma ruptura, pode, pois, agora ser assinalado na unidade
que funda suas formas diversas. V-se quo superficial [pg. 327] seria
buscar essa unidade do lado de um progresso na racionalidade ou da
descoberta de um tema cultural novo. Nos ltimos anos do sculo XVIII,
no se introduziram os fenmenos complexos da biologia, ou da histria
das lnguas ou da produo industrial em formas de anlise racional a
que, at ento, elas teriam permanecido estranhas; tampouco se despertou
de sbito o interesse -- sob a "influncia" de no se sabe que
"romantismo" nascente -- pelas figuras complexas da vida, da histria e
da sociedade; no se desprendeu, sob a instncia de seus problemas, de
um racionalismo submetido ao modelo da mecnica, s regras da anlise e
s leis do entendimento. Ou, antes, tudo isso se produziu efetivamente,
mas como movimento de superfcie: alterao e desvio dos interesses
culturais, redistribuio das opinies e dos juzos, aparecimento de
novas formas no discurso cientfico, rugas traadas pela primeira vez
sobre a face esclarecida do saber. De maneira mais fundamental, e
naquele nvel em que os conhecimentos se enrazam em sua positividade, o
acontecimento concerne no aos objetos visados, analisados e explicados
no conhecimento, nem mesmo  maneira de os conhecer ou de os
racionalizar, mas  relao da representao para com o que nela  dado.
O que se produziu com Adam Smith, com os primeiros fillogos, com
Jussieu, Vicq d'Azyr ou Lamarck, foi um desnvel nfimo, mas
absolutamente essencial e que abalou todo o pensamento ocidental: a
representao perdeu o poder de criar, a partir de si mesma, no seu
desdobramento prprio e pelo jogo que a reduplica sobre si, os liames
que podem unir seus diversos elementos. Nenhuma composio, nenhuma
decomposio, nenhuma anlise em identidades e em diferenas pode mais
justificar o liame das representaes entre si; a ordem, o quadro onde
ela se espacializa, as vizinhanas que ela define, as sucesses que
autoriza [pg. 328] como tantos percursos possveis entre os pontos de
sua superfcie no tm mais o poder de ligar as representaes entre si
ou, entre si, os elementos de cada uma. A condio desses liames reside
doravante no exterior da representao, para alm de sua imediata
visibilidade, numa espcie de mundo-subjacente, mais profundo que ela
prpria e mais espesso. Para atingir esse ponto em que se vinculam as
formas visveis dos seres -- a estrutura dos vivos, o valor das
riquezas, a sintaxe das palavras --  preciso dirigir-se para esse cume,
para essa extremidade necessria mas jamais acessvel que se entranha
fora do nosso olhar, no corao mesmo das coisas. Retiradas em direo 
sua essncia prpria, habitando enfim na fora que as anima, na
organizao que as mantm, na gnese que no cessou de produzi-las, as
coisas escapam, na sua verdade fundamental, ao espao do quadro; em vez
de serem unicamente a constncia que distribui segundo as mesmas formas
as suas representaes, elas se enrolam sobre si mesmas, do-se um
volume prprio, definem para si um espao interno que, para nossa
representao, est no exterior.  a partir da arquitetura que escondem,
da coeso que mantm seu reino soberano e secreto sobre cada uma de suas
partes,  do fundo dessa fora que as faz nascer e nelas permanece como
que imvel mas ainda vibrante, que as coisas, por fragmentos, perfis,
pedaos, retalhos, vm oferecer-se bem parcialmente  representao.
Desta sua inacessvel reserva ela s destaca, pea por pea, tnues
elementos cuja unidade permanece travada sempre aqum. O espao de ordem
que servia de lugar-comum  representao e s coisas,  visibilidade
emprica e s regras essenciais, que unia as regularidades da natureza e
as semelhanas da imaginao no quadriculado das identidades e das
diferenas, que expunha a seqncia emprica das representaes num
quadro [pg. 329] simultneo e permitia percorrer, passo a passo,
segundo uma seqncia lgica, o conjunto dos elementos da natureza
tornados contemporneos deles prprios -- esse espao de or- dem vai
doravante ser rompido: haver coisas, com sua organizao prpria, suas
secretas nervuras, o espao que as articula, o tempo que as produz; e,
depois, a representao, pura sucesso temporal, em que elas se anunciam
sempre parcialmente a uma subjetividade, a uma conscincia, ao esforo
singular de um conhecimento, ao indivduo "psicolgico" que, do fundo de
sua prpria histria, ou a partir da tradio que se lhe transmitiu,
tenta saber. A representao est em via de no mais poder definir o
modo de ser comum s coisas e ao conhecimento. O ser mesmo do que 
representado vai agora cair fora da prpria representao.      Essa
proposio, entretanto,  imprudente. Antecipa em todo o caso uma
disposio do saber que no est ainda definitivamente estabelecida no
final do sculo XVIII. No se deve esquecer que, se Smith, Jussieu e W.
Jones se serviram das noes de trabalho, de organizao e de sistema
gramatical, no foi para sair do espao tabular definido pelo pensamento
clssico, no foi para contornar a visibilidade das coisas e escapar ao
jogo da representao que representa a si mesma; foi somente para a
instaurar uma forma de ligao que fosse ao mesmo tempo analisvel,
constante e fundada. Tratava-se sempre de encontrar a ordem geral das
identidades e das diferenas. O grande desvio que ir buscar, do outro
lado da representao, o ser mesmo do que  representado no se realizou
ainda; somente j est instaurado o lugar a partir do qual ele ser
possvel. Esse lugar, porm, figura sempre nas disposies interiores da
representao. Sem dvida, a essa configurao epistemolgica ambgua
corresponde uma dualidade filosfica que indica seu prximo desfecho.
[pg. 330]      A coexistncia, no final do sculo XVIII, da Ideologia e
da filosofia crtica -- de Destutt de Tracy e de Kant -- partilha, sob a
forma de dois pensamentos exteriores um ao outro mas simultneos, o que
as reflexes cientficas mantm numa unidade destinada a dissociar-se
dentro em breve. Em Destutt ou Gerando, a Ideologia se apresenta ao
mesmo tempo como a nica forma racional e cientfica que a filosofia
possa revestir e como o nico fundamento filosfico que possa ser
proposto s cincias em geral e a cada domnio singular do conhecimento.
Cincia das idias, a Ideologia deve ser um conhecimento do mesmo tipo
que aqueles que se do por objeto os seres da natureza, ou as palavras
da linguagem, ou as leis da sociedade. Mas, na medida mesma em que tem
por objeto as idias, a maneira de exprimi-las em palavras e de lig-las
em raciocnios, ela vale como a Gramtica e a Lgica de toda cincia
possvel. A Ideologia no interroga o fundamento, os limites ou a raiz
da representao; percorre o domnio das representaes em geral; fixa
as sucesses necessrias que a aparecem; define os liames que a se
travam; manifesta as leis de composio e de decomposio que a podem
reinar. Aloja todo saber no espao das representaes e, percorrendo
esse espao, formula o saber das leis que o organiza. , em certo
sentido, o saber de todos os saberes. Mas essa reduplicao fundadora
no a faz sair do campo da representao; tem por finalidade calcar todo
saber sobre uma representao de cuja imediatez jamais se escapa:
"Alguma vez vos apercebestes um pouco do que seja precisamente pensar,
do que experimentais quando pensais em qualquer coisa que for?... Vs
vos dizeis: eu penso isto, quando tendes uma opinio, quando formais um
juzo. Efetivamente, fazer um juzo verdadeiro ou falso  um ato do
pensamento; esse ato consiste em sentir que existe uma [pg. 331]
ligao, uma relao... Pensar, como vedes,  sempre sentir e no  mais
que sentir."27  preciso notar entretanto que, definindo o pensamento de
uma relao pela sensao dessa relao ou, mais sucintamente, o
pensamento em geral pela sensao, Destutt cobre realmente, sem dele
sair, o domnio inteiro da representao; atinge, porm, a fronteira em
que a sensao, como forma primeira, absolutamente simples da
representao, como contedo mnimo do que pode ser dado ao pensamento,
cai na ordem das condies fisiolgicas capazes de a explicarem. Aquilo
que, lido num sentido, aparece como a mais tnue generalidade do
pensamento, aparece, decifrado em outra direo, como o resultado
complexo de uma singularidade zoolgica: "Tem-se apenas um conhecimento
incompleto de um animal se no se conhecerem as suas faculdades
intelectuais. A ideologia  uma parte da zoologia, e  sobretudo no
homem que essa parte  importante e merece ser aprofundada."28 A anlise
da representao, no momento em que atinge sua maior extenso, toca, em
sua orla mais exterior, um domnio que seria mais ou menos -- ou antes,
que ser, pois no existe ainda -- o de uma cincia natural do homem.
Por muito diferentes que sejam pela sua forma, seu estilo e seu intento,
a questo kantiana e a dos Idelogos tm o mesmo ponto de aplicao: a
relao das representaes entre si. Mas essa relao -- o que a funda e
a justifica --, Kant no a requer ao nvel da representao, mesmo
atenuada em seu contedo at no ser mais, nos confins da passividade e
da conscincia, do que pura e simples sensao; interroga-a na direo
do que a torna possvel em sua generalidade. Em [pg. 332] vez de fundar
o liame entre as representaes por uma espcie de escavao interna que
o esvaziasse pouco a pouco at a pura impresso, estabelece-o sobre as
condies que definem sua forma universalmente vlida. Dirigindo assim
sua questo, Kant contorna a representao e o que nela  dado, para
enderear-se quilo mesmo a partir do qual toda representao, seja ela
qual for, pode ser dada. No so, pois, as prprias representaes que,
segundo as leis de um jogo que lhos pertenceria propriamente, poderiam
desenvolver-se a partir de si e, num s movimento, decompor-se (pela
anlise) e se recompor (pela sntese): somente juzos de experincia ou
constataes empricas podem fundar-se sobre os contedos da
representao. Qualquer outra ligao, para ser universal, deve
fundar-se para alm 27      Destutt de Tracy. lments d'idologie, I,
pp. 33-5. 28      Id., ibid., prefcio, p. 1. de toda experincia, no a
priori que a torna possvel. No que se trate de um outro mundo, mas das
condies sob as quais pode existir qualquer representao do mundo em
geral.      H, portanto, uma correspondncia certa entre a crtica
kantiana e o que, na mesma poca, se apresentava como a primeira forma
mais ou menos completa de anlise ideolgica. Mas a Ideologia,
estendendo sua reflexo sobre todo o campo do conhecimento -- desde as
impresses originrias at a economia poltica, passando pela lgica, a
aritmtica, as cincias da natureza e a gramtica --, tentava retomar na
fora da representao aquilo mesmo que estava em via de se constituir e
de se reconstituir fora dela. Essa retomada s podia fazer-se sob a
forma quase mtica de uma gnese ao mesmo tempo singular e universal:
uma conscincia, isolada, vazia e abstrata devia, a partir da mais tnue
representao, desenvolver pouco a pouco o grande quadro de tudo o que 
representvel. Nesse sentido, a Ideologia  a ltima das filosofias
clssicas -- um pouco como Juliette  a ltima das [pg. 333] narrativas
clssicas. As cenas e os raciocnios de Sade retomam toda a nova
violncia do desejo, no desdobramento de uma representao transparente
e sem falhas; as anlises da Ideologia retomam, na narrativa de um
nascimento, todas as formas, at as mais complexas, da representao. Em
face da Ideologia, a crtica kantiana marca, em contrapartida, o limiar
de nossa modernidade; interroga a representao, no segundo o movimento
indefinido que vai do elemento simples a todas as suas combinaes
possveis, mas a partir de seus limites de direito. Sanciona assim, pela
primeira vez, este acontecimento da cultura europia que  contemporneo
do fim do sculo XVIII: a retirada do saber e do pensamento para fora do
espao da representao. Este  ento posto em questo no seu
fundamento, na sua origem e nos seus limites: por isso mesmo, o campo
ilimitado da representao, que o pensamento clssico instaurara, que a
Ideologia quisera percorrer num passo a passo discursivo e cientfico,
aparece como uma metafsica. Mas como uma metafsica que jamais se teria
delimitado a si mesma, que se teria assentado num dogmatismo desavisado,
e jamais fizera vir  plena luz a questo de seu direito. Nesse sentido,
a Crtica ressalta a dimenso metafsica que a filosofia do sculo XVIII
quisera reduzir unicamente pela anlise da representao. Mas abre, ao
mesmo tempo, a possibilidade de uma outra metafsica que teria por
propsito interrogar, fora da representao, tudo o que constitui sua
fonte e origem; ela permite essas filosofias da Vida, da Vontade, da
Palavra, que o sculo XIX vai desenvolver na esteira da crtica.
VI. As snteses objetivas      Da uma srie quase infinita de
conseqncias. De conseqncias, em todo o caso, ilimitadas, j que o
nosso pensamento [pg. 334] hoje pertence ainda  sua dinastia. Em
primeiro plano,  preciso, sem dvida, colocar a emergncia simultnea
de um tema transcendental e de campos empricos novos -- ou pelo menos
distribudos e fundados de maneira nova. Viu-se como, no sculo XVII, o
aparecimento da mthsis como cincia geral da ordem no s tivera um
papel fundador nas disciplinas matemticas como tambm fora correlativo
da formao de domnios diversos e puramente empricos como a gramtica
geral, a histria natural e a anlise das riquezas; estes no foram
construdos segundo um "modelo" que lhes teria prescrito a matematizao
ou a mecanizao da natureza; constituram-se e dispuseram-se sobre o
fundo de uma possibilidade geral: aquela que permitia estabelecer entre
as representaes um quadro ordenado das identidades e das diferenas. 
a dissoluo, nos ltimos anos do sculo XVIII, desse campo homogneo de
representaes ordenveis, que faz aparecer, correlativamente, duas
formas novas de pensamentos. Uma interroga as condies de uma relao
entre as representaes do lado do que as torna em geral possveis: pe
assim a descoberto um campo transcendental em que o sujeito, que jamais
 dado  experincia (pois no  emprico), mas que  finito (pois no
tem intuio intelectual), determina na sua relao com um objeto = x
todas as condies formais da experincia em geral;  a anlise do
sujeito transcendental que extrai o fundamento de uma sntese possvel
entre as representaes. Em face dessa abertura para o transcendental, e
simetricamente a ela, uma outra forma de pensamento interroga as
condies de uma relao entre as representaes do lado do ser mesmo
que a se acha representado: o que, no horizonte de todas as
representaes atuais, se indica por si mesmo como o fundamento da
unidade delas so esses objetos jamais objetivveis, essas repre-
sentaes jamais inteiramente representveis, essas visibilidades [pg.
335] ao mesmo tempo manifestas e invisveis, essas realidades que esto
em recuo na medida mesma em que so fundadoras daquilo que se oferece e
se adianta at ns: a potncia de trabalho, a fora da vida, o poder de
falar.  a partir dessas formas que rondam nos limites exteriores de
nossa experincia que o valor das coisas, a organizao dos seres vivos,
a estrutura gramatical e a afinidade histrica das lnguas vm at
nossas representaes e solicitam de ns a tarefa talvez infinita do
conhecimento. Buscam-se assim as condies de possibilidade da
experincia nas condies de possibilidade do objeto e de sua
existncia, ao passo que, na reflexo transcendental, identificam-se as
condies de possibilidade dos objetos da experincia s condies de
possibilidade da prpria experincia. A positividade nova das cincias
da vida, da linguagem e da economia est em correspondncia com a
instaurao de uma filosofia transcendental.      O trabalho, a vida e a
linguagem aparecem como tantos "transcendentais", que tornam possvel o
conhecimento objetivo dos seres vivos, das leis da produo, das formas
da linguagem. Em seu ser, esto fora do conhecimento, mas so, por isso
mesmo, condies de conhecimentos; correspondem  descoberta, por Kant,
de um campo transcendental e, no entanto, dele diferem em dois pontos
essenciais: alojam- se do lado do objeto e, de certo modo, alm dele;
como a Idia na Dialtica transcendental, totalizam os fenmenos e dizem
a coerncia a priori das multiplicidades empricas; fundam-nas, porm,
num ser cuja realidade enigmtica constitui, antes de todo conhecimento,
a ordem e o liame daquilo que se presta a conhecer; ademais, eles
concernem ao domnio das verdades a posteriori e aos princpios de sua
sntese -- e no  sntese a priori de toda experincia possvel. A
primeira diferena (o fato de estarem os transcendentais alojados [pg.
336] do lado do objeto) explica o nascimento dessas metafsicas que,
apesar de sua cronologia ps-kantiana, aparecem como "pr-crticas": com
efeito, elas se desviam da anlise das condies do conhecimento tais
como se podem desvelar no nvel da subjetividade transcendental; mas
essas metafsicas se desenvolvem a partir de transcendentais objetivos
(a Palavra de Deus, a Vontade, a Vida), que s so possveis na medida
em que o domnio da representao se acha previamente limitado; elas
tm, portanto, o mesmo solo arqueolgico que a prpria Crtica. A
segunda diferena (o fato de que esses transcendentais concernem s
snteses a posteriori) explica o aparecimento de um "positivismo": 
dada  experincia toda uma camada de fenmenos cuja racionalidade e
cujo encadeamento repousam sobre um fundamento objetivo que no 
possvel trazer  luz; podem-se conhecer no as substncias, mas os
fenmenos; no as essncias, mas as leis; no os seres, mas suas
regularidades. Instaura-se assim, a partir da crtica -- ou, antes, a
partir desse desnvel do ser em relao  representao, de que o
kantismo  a primeira constatao filosfica -- uma correlao
fundamental: de um lado, metafsicas do objeto, mais exatamente,
metafsicas desse fundo jamais objetivvel donde vm os objetos ao nosso
conhecimento superficial; e, do outro, filosofias que se do por tarefa
unicamente a observao daquilo mesmo que  dado a um conhecimento
positivo. V-se de que modo os dois termos dessa oposio se do apoio e
se reforam um ao outro;  no tesouro dos conhecimentos positivos (e
sobretudo daqueles que a biologia, a economia ou a filologia podem
liberar) que as metafsicas dos "fundos" ou dos "transcendentais"
objetivos encontraro seu ponto de investida; e, inversamente,  na
diviso entre o fundo incognoscvel e a racionalidade do cognoscvel que
os positivismos encontraro sua justificao. O tringulo crtica-
positivismo-[pg. 337] metafsica do objeto  constitutivo do pensamento
europeu desde o comeo do sculo XIX at Bergson.      Uma tal
organizao est ligada, na sua possibilidade arqueolgica,  emergncia
desses campos empricos de que, doravante, a pura e simples anlise
interna da representao no pode mais explicar. Ela , portanto,
correlativa de um certo nmero de disposies prprias  epistm
moderna.      Antes de mais, vem  luz um tema que at ento permanecera
informulado, e, a bem dizer, inexistente. Pode parecer estranho que na
poca clssica no se tenha tentado matematizar as cincias de
observao, ou os conhecimentos gramaticais, ou a experincia econmica.
Como se a matematizao galileana da natureza e o fundamento da mecnica
fossem por si ss suficientes para cumprir o projeto de uma mthsis.
No h nisso nada de paradoxal: a anlise das representaes segundo
suas identidades e suas diferenas, sua ordenao em quadros permanentes
situavam, de pleno direito, as cincias do qualitativo no campo de uma
mthsis universal. No fim do sculo XVIII, produz-se uma diviso
fundamental e nova: agora que o liame das representaes j no se
estabelece no movimento mesmo que as decompe, as disciplinas analticas
acham-se epistemologicamente distintas daquelas que devem recorrer 
sntese. Ter-se-, pois, um campo de cincias a priori, de cincias
formais e puras, de cincias dedutivas que so da alada da lgica e das
matemticas: por outro lado, v-se destacar um domnio de cincias a
posteriori, de cincias empricas que s utilizam as formas dedutivas
por fragmentos e em regies estreitamente localizadas. Ora, essa diviso
tem por conseqncia a preocupao epistemolgica de reencontrar em
outro nvel a unidade que se perdera com a dissociao da mthsis e da
cincia universal da ordem. Da certo nmero de esforos que
caracterizam a reflexo moderna [pg. 338] sobre as cincias: a
classificao dos domnios do saber a partir das matemticas, e a
hierarquia que se instaura para se dirigir progressivamente ao mais
complexo e ao menos exato; a reflexo sobre os mtodos empricos da
induo e o esforo para, ao mesmo tempo, fund-los filosoficamente e
justific-los de um ponto de vista formal; a tentativa para purificar,
formalizar e talvez matematizar os domnios da economia, da biologia e
finalmente da prpria lingstica. Contrapondo-se a essas tentativas
para reconstituir um campo epistemolgico unitrio, encontra-se, em
intervalos regulares, a afirmao de uma impossibilidade: esta seria
devida quer a uma especificidade irredutvel da vida (que se tenta
cingir sobretudo no comeo do sculo XIX), quer ao carter singular das
cincias humanas que resistiriam a toda reduo metodolgica
(resistncia essa que se tenta definir e medir sobretudo na segunda
metade do sculo XIX). Sem dvida, nessa dupla afirmao, alternada ou
simultnea, de poder e de no poder formalizar o emprico,  preciso
reconhecer o trao desse acontecimento profundo que, por volta do fim do
sculo XVIII, apartou do espao das representaes a possibilidade da
sntese.  esse acontecimento que coloca a formalizao, ou a
matematizao, no cerne de todo projeto cientfico moderno;  ele
igualmente que explica por que toda matematizao apressada ou toda
formalizao ingnua do emprico toma a feio de um dogmatismo
"pr-crtico", e ressoa no pensamento como um retorno  insipidez da
Ideologia.      Seria preciso evocar ainda um segundo carter da
epistm moderna. Durante a idade clssica, a relao constante e
fundamental do saber, mesmo emprico, com uma mthsis universal,
justificava o projeto, incessantemente retomado sob formas diversas, de
um corpus enfim unificado dos conhecimentos; esse projeto tomou
alternativamente, mas sem [pg. 339] que seu fundamento tenha sido
modificado, a feio quer de uma cincia geral do movimento, quer de uma
caracterstica universal, quer de uma lngua refletida e reconstituda
em todos os seus valores de anlise e em todas as suas possibilidades de
sintaxe, quer, finalmente, de uma Enciclopdia alfabtica ou analtica
do saber; pouco importa que essas tentativas no tenham sido levadas a
cabo ou que no tenham cumprido inteiramente o desgnio que as fizera
nascer: manifestavam todas, na superfcie visvel dos acontecimentos ou
dos textos, a profunda unidade que a idade clssica instaurara ao dar
como suporte arqueolgico ao saber a anlise das identidades e das
diferenas e a possibilidade universal da ordenao. De sorte que
Descartes, Leibniz, Diderot e D'Alembert, naquilo que se pode chamar seu
fracasso, em sua obra suspensa ou desviada, permaneciam o mais prximo
possvel do que era constitutivo do pensamento clssico. A partir do
sculo XIX, a unidade da mthsis  rompida. Duas vezes rompida: por um
lado, segundo a linha que divide as formas puras da anlise e as leis da
sntese, por outro lado, segundo a linha que separa, quando se trata de
fundar as snteses, a subjetividade transcendental e o modo de ser dos
objetos. Essas duas formas de ruptura fazem nascer duas sries de
tentativas em que certo intuito de universalidade parece fazer eco aos
empreendimentos cartesiano e leibniziano. Porm, observando-se um pouco
mais de perto, a unificao do campo do conhecimento no tem e no pode
ter, no sculo XIX, nem as mesmas formas, nem as mesmas pretenses, nem
os mesmos fundamentos que na poca clssica. Na poca de Descartes ou de
Leibniz, a transparncia recproca entre o saber e a filosofia era
total, a ponto de a universalizao do saber num pensamento filosfico
no exigir um modo de reflexo especfica. A partir de Kant, o problema
 inteiramente [pg. 340] diverso; o saber no pode mais desenvolver-se
sobre o fundo unificado e unificador de uma mthsis. Por um lado,
coloca-se o problema das relaes entre o campo formal e o campo
transcendental (e nesse nvel todos os contedos empricos do saber so
postos entre parnteses e permanecem em suspenso no que diz respeito a
toda validade); e, por outro lado, coloca-se o problema das relaes
entre o domnio da empiricidade e o fundamento transcendental do
conhecimento (ento, a ordem pura do formal  posta de lado como
no-pertinente para explicar essa regio onde se funda toda experincia,
mesmo aquela das formas puras do pensamento). Mas, num caso como noutro,
o pensamento filosfico da universalidade no est no mesmo nvel que o
campo do saber real; constitui-se, quer como uma reflexo pura
suscetvel de fundar, quer como uma retomada capaz de desvelar. A
primeira forma de filosofia manifestou-se de incio no empreendimento
fichtiano em que a totalidade do domnio transcendental  geneticamente
deduzida das leis puras, universais e vazias do pensamento: por a se
abriu um campo de pesquisas por onde se tenta, quer reduzir toda
reflexo transcendental  anlise dos formalismos, quer descobrir na
subjetividade transcendental o solo de possibilidade de todo formalismo.
Quanto  outra abertura filosfica, apareceu primeiramente com a
fenomenologia hegeliana, quando a totalidade do domnio emprico foi
retomada no interior de uma conscincia que se revela a si prpria como
esprito, isto , como campo ao mesmo tempo emprico e transcendental.
V-se de que modo a tarefa fenomenolgica, em que Husserl bem mais tarde
se fixar, est ligada, no mago de suas possibilidades e de suas
impossibilidades, ao destino da filosofia ocidental tal como ele se
estabeleceu desde o sculo XIX. Com efeito, ela tenta assentar os
direitos e os limites [pg. 341] de uma lgica formal numa reflexo de
tipo transcendental e, por outro lado, ligar a subjetividade
transcendental ao horizonte implcito dos contedos empricos que s ela
tem possibilidade de constituir, manter e abrir mediante explicitaes
infinitas. Mas talvez no escape ela ao perigo que ameaa, antes mesmo
da fenomenologia, todo empreendimento dialtico, e a faz, queira ou no,
resvalar numa antropologia. Sem dvida, no  possvel conferir valor
transcendental aos contedos empricos nem desloc-los para o lado de
uma subjetividade constituinte, sem dar lugar, ao menos silenciosamente,
a uma antropologia, isto , a um modo de pensamento em que os limites de
direito do conhecimento (e, conseqentemente, de todo saber emprico)
so ao mesmo tempo as formas concretas da existncia, tais como elas se
do precisamente nesse mesmo saber emprico.      As conseqncias mais
longnquas e, para ns, as mais difceis de circunscrever, do
acontecimento fundamental que sobreveio  epistm ocidental por volta
do fim do sculo XVIII, podem assim se resumir: negativamente, o domnio
das formas puras do conhecimento se isola, assumindo ao mesmo tempo
autonomia e soberania em relao a todo saber emprico, fazendo nascer e
renascer indefinidamente o projeto de formalizar o concreto e de
constituir, a despeito de tudo, cincias puras; positivamente, os
domnios empricos se ligam a reflexes sobre a subjetividade, o ser
humano e a finitude, assumindo valor e funo de filosofia, tanto quanto
de reduo da filosofia ou de contrafilosofia. [pg. 342] CAPTULO VIII
TRABALHO, VIDA, LINGUAGEM                         I. As novas
empiricidades      Eis que nos adiantamos bem para alm do acontecimento
histrico que se impunha situar -- bem para alm das margens
cronolgicas dessa ruptura que divide, em sua profundidade, a epistm
do mundo ocidental e isola para ns o comeo de certa maneira moderna de
conhecer as empiricidades.  que o pensamento que nos  contemporneo e
com o qual, queiramos ou no, pensamos, se acha ainda muito dominado
pela impossibilidade, trazida  luz por volta do fim do sculo XVIII, de
fundar as snteses no espao da representao e pela obrigao
correlativa, simultnea, mas logo dividida contra si mesma, de abrir o
campo transcendental da subjetividade e de constituir inversamente, para
alm do objeto, esses "quase-transcendentais" que so para ns a Vida, o
Trabalho, a Linguagem. Para fazer surgir essa obrigao e essa
impossibilidade na aspereza de sua irrupo histrica, era preciso
deixar a anlise correr ao longo de todo o pensamento que encontra sua
fonte em semelhante abertura; era preciso que tal [pg. 343] intento
reduplicasse apressadamente o destino ou o pendor do pensamento moderno
para atingir finalmente seu ponto de declnio: esta claridade de hoje,
ainda plida mas talvez decisiva, que nos permite, se no contornar por
inteiro, ao menos dominar fragmentariamente e ter um pouco sob controle
aquilo que, desse pensamento formado no limiar da idade moderna, chega
ainda at ns, nos investe e serve de solo contnuo ao nosso discurso.
Entretanto, a outra metade do acontecimento -- a mais importante sem
dvida -- pois ela concerne em seu ser mesmo, em seu enraizamento, s
positividades sobre as quais se arraigam nossos conhecimentos empricos
-- ficou em suspenso; e  ela que  preciso agora analisar.      Numa
primeira fase -- a que cronologicamente se estende de 1775 a 1795 e cuja
configurao se pode designar atravs das obras de Smith, de Jussieu e
de Wilkins -- os conceitos de trabalho, de organismo e de sistema
gramatical foram in- troduzidos -- ou reintroduzidos com um estatuto
singular -- na anlise das representaes e no espao tabular onde esta
at ento se desenrolava. Sem dvida, sua funo era ainda somente
autorizar essa anlise, permitir o estabelecimento das identidades e das
diferenas, e fornecer o instrumento -- como a medida qualitativa -- de
uma ordenao. Todavia, nem o trabalho, nem o sistema gramatical, nem a
organizao viva podiam ser definidos ou assegurados pelo simples jogo
da representao se decompondo, se analisando, se recompondo e assim
representando- se a si mesma numa pura reduplicao; o espao da anlise
no podia, pois, deixar de perder sua autonomia. O quadro, doravante,
deixando de ser o lugar de todas as ordens possveis, a matriz de todas
as relaes, a forma de distribuio de todos os seres em sua
individualidade singular, j no constitui para o saber seno uma fina
pelcula de superfcie; as vizinhanas que ele manifesta, [pg. 344] as
identidades elementares que circunscreve e cuja repetio  por ele
mostrada, as semelhanas que desprende e expe, as constncias que
permite percorrer, nada mais so que os efeitos de certas snteses, ou
organizaes, ou sistemas que residem muito alm de todas as reparties
que se podem ordenar a partir do visvel. A ordem que se d ao olhar,
com o quadriculado permanente de suas distines, no  mais que uma
cintilao superficial por sobre uma profundeza.      O espao do saber
ocidental acha-se agora prestes a balanar: a taxinomia cuja grande
camada universal se estendia em correlao com a possibilidade de uma
mthsis e que constitua o tempo forte do saber -- ao mesmo tempo sua
possibilidade primeira e o termo de sua perfeio -- vai ordenar-se
segundo uma verticalidade obscura: esta definir a lei das semelhanas,
prescrever as vizinhanas e as descontinuidades, fundar as disposies
perceptveis e desviar todos os grandes desdobramentos horizontais da
taxinomia para a regio um pouco acessria das conseqncias. Assim, a
cultura europia inventa para si uma profundeza em que a questo no
ser mais a das identidades, dos caracteres distintivos, das plataformas
permanentes com todos os seus caminhos e percursos possveis, mas a das
grandes foras ocultas desenvolvidas a partir de seu ncleo primitivo e
inacessvel, mas a da origem, da causalidade e da histria. Doravante,
as coisas s viro  representao do fundo dessa espessura recolhida em
si, emaranhadas talvez e tornadas mais sombrias por sua obscuridade,
porm fortemente enlaadas a si mesmas, reunidas ou divididas, agrupadas
sem recurso pelo vigor que l, naquele fundo, se oculta. As figuras
visveis, seus liames, os brancos que as isolam e contornam seu perfil
no mais se oferecero a nosso olhar seno totalmente compostos, j
articulados nessa noite subterrnea que as fomenta com o tempo. [pg.
345]      Ento -- e esta  a outra fase do acontecimento -- o saber, em
sua positividade, muda de natureza e de forma. Seria falso -- sobretudo
insuficiente -- atribuir essa mutao  descoberta de objetos ainda
desconhecidos como o sistema gramatical do snscrito, ou a relao, no
ser vivo, entre as disposies anatmicas e os planos funcionais, ou
ainda o papel econmico do capital. Nem seria mais exato imaginar que a
gramtica geral tornou-se filologia, a histria natural, biologia, e a
anlise das riquezas, economia poltica, porque todos esses modos de
conhecimento retificaram seus mtodos, se acercaram mais de perto do seu
objeto, racionalizaram seus conceitos, escolheram melhores modelos de
formalizao -- em suma, porque se teriam desprendido de sua
pr-histria por uma espcie de auto-anlise da prpria razo. O que
mudou, na curva do sculo, e sofreu uma alterao irreparvel foi o
prprio saber como modo de ser prvio e indiviso entre o sujeito que
conhece e o objeto do conhecimento; se se comea a estudar o custo da
produo, e no mais se utiliza a situao ideal e primitiva da permuta
para analisar a formao do valor,  porque, ao nvel arqueolgico, a
produo como figura fundamental no espao do saber substituiu-se 
troca, fazendo aparecer, por um lado, novos objetos cognoscveis (como o
capital) e prescrevendo, por outro, novos conceitos e novos mtodos
(como a anlise das formas de produo). Do mesmo modo, se se estuda, a
partir de Cuvier, a organizao interna dos seres vivos, e se, para
tanto, se utilizam mtodos da anatomia comparada,  porque a Vida, como
forma fundamental do saber, fez aparecer novos objetos (como a relao
do carter com a funo) e novos mtodos (como a busca das analogias).
Enfim, se Grimm e Bopp tentam definir as leis da alternncia voclica ou
da mutao das consoantes,  porque o Discurso como modo do saber veio a
ser [pg. 346] substitudo pela Linguagem, que define objetos at ento
inaparentes (famlias de lnguas em que os sistemas gramaticais so
anlogos) e prescreve mtodos que no haviam ainda sido empregados
(anlise das regras de transformao das consoantes e das vogais). A
produo, a vida, a linguagem -- no se devem buscar a objetos que se
tivessem, como que por seu prprio peso e sob o efeito de uma
insistncia autnoma, imposto do exterior a um conhecimento que durante
um tempo por demais longo os negligenciara; tambm no se devem ver a
conceitos construdos pouco a pouco, graas a novos mtodos, atravs do
progresso de cincias que marcham em direo  sua racionalidade
prpria. Trata-se de modos fundamentais do saber que suportam em sua
unidade sem fissura a correlao segunda e derivada de cincias e de
tcnicas novas com objetos inditos. A constituio desses modos
fundamentais est sem dvida enterrada longe, na espessura das camadas
arqueolgicas:  possvel, contudo, descortinar alguns dos seus sinais
atravs das obras de Ricardo para a economia, de Cuvier para a biologia,
de Bopp para a filologia.                                           II.
Ricardo          Na anlise de Adam Smith, o trabalho devia seu
privilgio ao poder que se lhe reconhecia de estabelecer entre os
valores das coisas uma medida constante: permitia fazer eqivaler na
troca objetos de necessidade cujo aferimento de outro modo teria sido
exposto  mudana ou submetido a uma essencial relatividade. No entanto,
s podia assumir tal papel  custa de uma condio: era preciso supor
que a quantidade de trabalho indispensvel para produzir uma coisa fosse
igual  quantidade de trabalho que essa coisa, em retorno, [pg. 347]
pudesse comprar no processo da troca. Ora, como justificar essa
identidade, em que fund-la a no ser sobre uma certa assimilao,
admitida na sombra mais que esclarecida, entre o trabalho como atividade
de produo e o trabalho como mercadoria que se pode comprar e vender?
Nesse segundo sentido, ele no pode ser utilizado como medida constante,
pois "experimenta tantas variaes quanto as mercadorias ou bens com os
quais pode ser comparado"1. Essa confuso, em Adam Smith, tinha sua
origem no 1     Ricardo. Oeuvres compltes. Trad. francesa. Paris, 1882,
p. 5. primado concedido  representao: toda mercadoria representava
certo trabalho, e todo trabalho podia representar certa quantidade de
mercadoria. A atividade dos homens e o valor das coisas comunicavam-se
no elemento transparente da representao.  a que a anlise de Ricardo
encontra seu lugar e a razo de sua importncia decisiva. Ela no  a
primeira a organizar um lugar importante para o trabalho no jogo da
economia; mas faz explodir a unidade da noo, e distingue, pela
primeira vez, de uma forma radical, essa fora, esse esforo, esse tempo
do operrio que se compram e se vendem, e essa atividade que est na
origem do valor das coisas. Ter-se- pois, por um lado, o trabalho que
os operrios oferecem, que os empresrios aceitam ou demandam e que 
retribudo pelos salrios; por outro, ter- se- o trabalho que extrai os
metais, produz os bens, fabrica os objetos, transporta as mercadorias e
forma assim valores permutveis que antes dele no existiam e sem ele
no teriam aparecido.          Certamente, para Ricardo como para Smith,
o trabalho pode realmente medir a equivalncia das mercadorias que
passam pelo circuito das trocas: "Na infncia das sociedades, o valor
permutvel das coisas ou a regra que fixa a quantidade [pg. 348] que se
deve dar de um objeto por outro s depende da quantidade comparativa de
trabalho que foi empregada na produo de cada um deles."2 A diferena,
porm, entre Smith e Ricardo est no seguinte: para o primeiro, o
trabalho, porque analisvel em jornadas de subsistncia, pode servir de
unidade comum a todas as outras mercadorias (de que fazem parte os
prprios bens necessrios  subsistncia); para o segundo, a quantidade
de trabalho permite fixar o valor de uma coisa, no apenas porque este
seja representvel em unidades de trabalho, mas primeiro e
fundamentalmente porque o trabalho como atividade de produo  "a fonte
de todo valor". J no pode este ser definido, como na idade clssica, a
partir do sistema total de equivalncias e da capacidade que podem ter
as mercadorias de se representarem umas s outras. O valor deixou de ser
signo, tornou-se um produto. Se as coisas valem tanto quanto o trabalho
que a elas se consagrou, ou se, pelo menos, seu valor est em proporo
a esse trabalho, no  porque o trabalho seja um valor fixo, constante e
permutvel sob todos os cus e em todos os tempos, mas sim porque todo
valor, qualquer que seja, extrai sua origem do trabalho. E a melhor 2
Ricardo, loc. cit., p. 3. prova disso est em que o valor das coisas
aumenta com a quantidade de trabalho que lhes temos de consagrar se as
quisermos produzir; porm no muda com o aumento ou baixa dos salrios
pelos quais o trabalho se troca como qualquer outra mercadoria3.
Circulando nos mercados, trocando-se uns por outros, os valores
realmente tm ainda um poder de representao. Extraem esse poder,
porm, de outra parte -- desse trabalho mais primitivo e radical do que
toda representao e que, portanto, [pg. 349] no pode definir-se pela
troca. Enquanto no pensamento clssico o comrcio e a troca servem de
base insupervel para a anlise das riquezas (e isso mesmo ainda em Adam
Smith, para quem a diviso do trabalho  comandada pelos critrios da
permuta), desde Ricardo, a possibilidade da troca est assentada no
trabalho; e a teoria da produo, doravante, dever sempre preceder a da
circulao.          Da, trs conseqncias que importa reter. A
primeira  a instaurao de uma srie causal cuja forma  radicalmente
nova. No sculo XVIII, no se ignorava, de modo algum, o jogo das
determinaes econmicas: explicava-se como a moeda podia dissipar-se ou
afluir, os preos subirem ou baixarem, a produo crescer, estagnar ou
diminuir; mas todos esses movimentos eram definidos a partir de um
espao em quadro onde os valores se podiam representar uns aos outros;
os preos aumentavam quando os elementos representantes cresciam mais
depressa que os elementos representados; a produo diminua quando os
instrumentos de representao diminuam em relao s coisas a serem
representadas etc. Tratava-se sempre de uma causalidade circular e de
superfcie, pois que no concernia jamais seno aos poderes recprocos
do analisando e do analisado. A partir de Ricardo, o trabalho,
desnivelado em relao  representao, e instalando-se em uma regio
onde ela no tem mais domnio, organiza-se segundo uma causalidade que
lhe  prpria. A quantidade de trabalho necessria para a fabricao de
uma coisa (ou para sua colheita, ou para seu transporte) e que determina
seu valor depende das formas de produo: segundo o grau de diviso no
trabalho, a quantidade e a natureza dos instrumentos, o volume de
capital de que dispe o empresrio e o que ele investiu nas instalaes
de sua fbrica, a produo ser modificada; em certos casos ser
dispendiosa; [pg. 350] em outros, o ser menos4. Mas, como em todos os
casos, 3     Id., ibid., p.24. 4     Ricardo, loc. cit., p. 12. esse
custo (salrios, capital e rendimentos, lucros)  determinado pelo
trabalho j efetuado e aplicado a essa nova produo, v-se nascer uma
grande srie linear e homognea que  a da produo. Todo trabalho tem
um resultado que, sob uma forma ou outra,  aplicado a um novo trabalho
cujo custo ele define; e esse novo trabalho, por sua vez, entra na
formao de um valor etc. Essa acumulao em srie rompe pela primeira
vez com as determinaes recprocas, as nicas que atuavam na anlise
clssica das riquezas. Introduz, por isso mesmo, a possibilidade de um
tempo histrico contnuo, ainda que de fato, como veremos, Ricardo s
pense na evoluo futura sob a forma de um afrouxamento e, em ltima
anlise, de uma suspenso total da histria. Ao nvel das condies de
possibilidade do pensamento, Ricardo, ao dis- sociar formao e
representatividade do valor, permitiu a articulao da economia com a
histria. As "riquezas", em vez de se distriburem num quadro e de
constiturem assim um sistema de equivalncia, organizam-se e se
acumulam numa cadeia temporal: todo valor se determina no segundo os
instrumentos que permitem analis-lo, mas segundo as condies de
produo que o fizeram nascer; e, mais ainda, essas condies so
determinadas por quantidades de trabalho aplicadas para produzi-las.
Antes mesmo que a reflexo econmica estivesse ligada  histria dos
acontecimentos ou das sociedades num discurso explcito, a historicidade
penetrou, e por longo tempo sem dvida, o modo de ser da economia. Esta,
em sua positividade, no est mais ligada a um espao simultneo de
diferenas e de identidades, mas ao tempo de produes sucessivas. [pg.
351]      Quanto  segunda conseqncia, no menos decisiva, diz
respeito  noo de raridade. Para a anlise clssica, a raridade era
definida em relao  necessidade: admitia-se que a raridade se
acentuava ou se deslocava na medida em que as necessidades aumentavam ou
tomavam formas novas; para os que tm fome, raridade do trigo; para os
ricos que freqentam a sociedade, raridade do diamante. Quanto a essa
raridade, os economistas do sculo XVIII -- quer fossem fisiocratas quer
no -- pensavam que a terra, ou o trabalho da terra, permitia super-la,
ao menos em parte:  que a terra tem a maravilhosa propriedade de poder
cobrir necessidades bem mais numerosas do que aquelas dos homens que a
cultivam. No pensamento clssico, h raridade porque os homens se
representam objetos que no possuem; mas h riqueza porque a terra
produz, com certa abundncia, objetos que no so logo consumidos e que
podem ento representar outros nas trocas e na circulao. Ricardo
inverte os termos dessa anlise: a aparente generosidade da terra s 
de fato devida  sua avareza crescente; e o que  primeiro no  a
necessidade e a representao da necessidade no esprito dos homens, 
pura e simplesmente uma carncia originria.      Com efeito, o trabalho
-- isto , a atividade econmica -- s apareceu na histria do mundo no
dia em que os homens se acharam numerosos demais para poderem nutrir-se
dos frutos espontneos da terra. No tendo com que subsistir, alguns
morriam e muitos outros estariam mortos se no se pusessem a trabalhar a
terra. E, na medida em que a populao se multiplicava, novas faixas da
floresta deviam ser abatidas, desbravadas e cultivadas. A cada instante
de sua histria, a humanidade s trabalha sob a ameaa da morte: toda
populao, se no encontra novos recursos, est fadada a extinguir-se; e
inversamente,  medida que os homens se [pg. 352] multiplicam,
empreendem trabalhos mais numerosos, mais longnquos, mais difceis,
menos imediatamente fecundos. Como a pendncia da morte se faz mais
temvel  proporo que as subsistncias necessrias se tornam de mais
difcil acesso, o trabalho, inversamente, deve crescer em intensidade e
utilizar todos os meios de se tornar mais prolfico. Assim, o que torna
a economia possvel e necessria  uma perptua e fundamental situao
de raridade: em face de uma natureza que por si mesma  inerte e, salvo
numa parte minscula, estril, o homem arrisca sua vida. No  mais nos
jogos da representao que a economia encontra seu princpio, mas do
lado dessa regio perigosa onde a vida afronta a morte. Ela remete,
pois, a essa ordem de consideraes bastante ambguas a que se pode
chamar antropolgicas: reporta-se, com efeito, s propriedades
biolgicas de uma espcie humana, acerca da qual Malthus, na mesma poca
que Ricardo, mostrou que tende sempre a crescer caso no se lhe traga
remdio ou coero; reporta-se tambm  situao desses seres vivos que
se arriscam a no encontrar na natureza que os rodeia aquilo com que
assegurar sua existncia; ela designa enfim o trabalho e a dureza mesma
desse trabalho como o nico meio de negar a carncia fundamental e
triunfar por um instante sobre a morte. A positividade da economia se
aloja nesse vo antropolgico. O Homo oeconomicus no  aquele que se
representa suas prprias necessidades bem como os objetos capazes de as
saciar;  aquele que passa, usa e perde sua vida escapando da iminncia
da morte.  um ser finito: e assim como, desde Kant, a questo da
atitude se tornou mais fundamental que a anlise das representaes (j
no podendo esta ser seno derivada em relao quela), desde Ricardo a
economia repousa, de maneira mais ou menos explcita, numa antropologia
que tenta atribuir [pg. 353]  finitude formas concretas. A economia do
sculo XVIII estava relacionada a uma mthsis como cincia geral de
todas as ordens possveis; a do sculo XIX est referida a uma
antropologia como discurso sobre a finitude natural do homem. Por isso
mesmo, a necessidade e o desejo retiram-se para o lado da esfera
subjetiva -- para essa regio que, na mesma poca, est em via de se
tornar o objeto da psicologia.  l, precisamente, que, na segunda
metade do sculo XIX, os marginalistas iro buscar a noo de utilidade.
Julgar-se- ento que Condillac, ou Graslin, ou Fortbonnais, "j" eram
"psicologistas", visto que analisavam o valor a partir da necessidade;
e, do mesmo modo, julgar-se- que os fisiocratas foram os primeiros
antepassados de uma economia que, desde Ricardo, analisou o valor a
partir dos custos de produo. De fato, ter-se- sado da configurao
que tornava simultaneamente possveis Quesnay e Condillac; ter-se-
escapado ao reino dessa epistm que assentava o conhecimento na ordem
das representaes; e ter-se- entrado em outra disposio
epistemolgica, a que distingue, no sem referi-las uma  outra, uma
psicologia das necessidades re- presentadas e uma antropologia da
finitude natural.         Enfim, a ltima conseqncia concerne 
evoluo da economia. Ricardo mostra que no se deve interpretar como
fecundidade da natureza o que marca, e de uma forma sempre mais
insistente, sua essencial avareza. A renda fundiria, na qual todos os
economistas, at o prprio Adam Smith5, viam o signo de uma fecundidade
prpria  terra, s existe na medida exata em que o trabalho agrcola se
torna cada vez mais duro, cada vez menos "rentvel".  medida que se 
compelido, pelo crescimento ininterrupto da populao, a desbravar [pg.
354] terras menos fecundas, a colheita dessas novas unidades de trigo
exige mais trabalho: seja porque os cultivos devam ser mais profundos,
seja porque a superfcie semeada deva ser mais vasta, seja porque se
necessite de mais adubo; o custo da produo  portanto muito mais
elevado para estas ltimas colheitas do que para as primeiras, que foram
5     Adam Smith. Recherches sur la richesse des nations, I, p. 190.
obtidas, na origem, em terras ricas e fecundas. Ora, esses bens, to
difceis de obter, no so menos indispensveis que os outros, se no se
quiser que certa parte da humanidade morra de fome. , portanto, o custo
de uma produo de trigo em terras mais estreis que determinar o preo
do trigo em geral, mesmo se foi obtido com duas ou trs vezes menos
trabalho. Da, para as terras fceis de cultivar, um aumento de
benefcio, que permite a seus proprietrios arrend-las retirando
antecipadamente um importante rendimento. A renda fundiria  o efeito
no de uma natureza prolfica, mas de uma terra avara. Ora, essa avareza
no cessa de tornar-se cada dia mais sensvel: a populao, com efeito,
se desenvolve; comea-se a lavrar terras cada vez mais pobres; os custos
de produo aumentam; aumentam os preos agrcolas e com eles as rendas
fundirias. Sob essa presso,  bem possvel -- necessrio mesmo -- que
tambm o salrio nominal dos operrios comece a crescer a fim de cobrir
as despesas mnimas de subsistncia; mas, por essa mesma razo, o
salrio real no poder praticamente elevar-se acima do que 
indispensvel para que o operrio se vista, se aloje e se alimente. E,
finalmente, o lucro dos empresrios bai- xar na medida mesma em que a
renda fundiria aumentar e em que a retribuio operria permanecer
fixa. Baixaria mesmo indefinidamente a ponto de desaparecer, se no se
caminhasse para um limite; com efeito, a partir de certo momento, os
lucros industriais sero demasiado baixos para que se faa trabalhar
novos operrios; na falta de salrios suplementares, a mo-de- [pg.
355] obra no poder mais crescer, a populao ficar estagnada; no
ser necessrio desbravar novas terras ainda mais infecundas que as
precedentes: a renda fundiria atingir seu teto e no exercer mais sua
costumeira presso sobre os rendimentos industriais, que podero ento
se estabilizar. A Histria enfim se tornar estanque. A finitude do
homem ser definida -- de uma vez por todas, isto , por um tempo
indefinido.      Paradoxalmente,  a historicidade introduzida na
economia por Ricardo que permite pensar essa imobilizao da Histria. O
pensamento clssico concebia para a economia um futuro sempre aberto e
sempre cambiante; mas tratava-se, de fato, de uma modificao de tipo
espacial: o quadro que, pensava-se, as riquezas formavam ao se
desenvolverem, e ao serem trocadas e ordenadas, podia muito bem
ampliar-se permanecia, porm, o mesmo quadro, cada elemento perdendo um
pouco de sua superfcie relativa mas entrando em relao com novos
elementos. Em contrapartida,  o tempo cumulativo da populao e da
produo,  a histria ininterrupta da raridade que, a partir do sculo
XIX, permite pensar o empobrecimento da Histria, sua inrcia
progressiva, sua petrificao e, dentro em breve, sua imobilidade
rochosa. V-se que papel a Histria e a antropologia desempenham uma em
relao  outra. S h histria (trabalho, produo, acumulao e
crescimento dos custos reais) na medida em que o homem como ser natural
 finito: finitude que se prolonga muito alm dos limites primitivos da
espcie e das necessidades imediatas do corpo, mas que no cessa de
acompanhar, ao menos em surdina, todo o desenvolvimento das
civilizaes. Quanto mais o homem se instala no cerne do mundo, quanto
mais avana na posse da natureza, tanto mais fortemente tambm 
acossado pela finitude, tanto mais se aproxima de sua prpria morte. A
Histria no permite ao homem evadir-se [pg. 356] de seus limites
iniciais -- salvo na aparncia e se se der ao limite o sentido mais
superficial; se se considerar, porm, a finitude fundamental do homem,
perceber-se- que sua situao antropolgica no cessa de dramatizar
cada vez mais sua Histria, de torn-la mais perigosa e de aproxim-la,
por assim dizer, de sua prpria impossibilidade. No momento em que toca
tais confins, a Histria s pode deter-se, vibrar um instante sobre seu
eixo e imobilizar-se para sempre. Mas isso pode produzir-se de dois
modos: seja porque ela alcance progressivamente, e com uma lentido
sempre mais acentuada, um estado de estabilidade que sanciona, no
indefinido do tempo, aquilo para o que ela sempre marchou, aquilo que no
fundo de si ela jamais cessou de ser desde o comeo; seja porque, ao
contrrio, ela atinja um ponto de reverso onde s se fixa na medida em
que suprime o que continuamente fora at ento.      Na primeira soluo
(representada pelo "pessimismo" de Ricardo), a Histria funciona ante as
determinaes antropolgicas como uma espcie de grande mecanismo
compensador; aloja-se,  certo, na finitude humana, mas a aparece 
maneira de uma figura positiva e em relevo; permite ao homem superar a
raridade a que est votado. Como essa carncia se torna cada dia mais
rigorosa, o trabalho se torna mais intenso; a produo aumenta em cifras
absolutas, mas, ao mesmo tempo que ela e no mesmo movimento, tambm os
custos de produo -- isto , as quantidades de trabalho necessrio para
produzir um mesmo objeto. De sorte que dever inevitavelmente chegar um
momento em que o trabalho no  mais sustentado pela mercadoria que ele
produz (no custando esta mais que o alimento do operrio que a obtm).
A produo no pode mais preencher a falta. Ento, a raridade vai
limitar-se ela prpria (por uma estabilizao demogrfica) [pg. 357] e
o trabalho vai ajustar-se exatamente s necessidades (por uma repartio
determinada das riquezas). Doravante, a finitude e a produo vo
superpor-se exatamente numa figura nica. Todo labor suplementar seria
intil; todo excedente de populao pereceria. A vida e a morte sero
assim colocadas exatamente uma contra a outra, superfcie contra
superfcie, imobilizadas e como que reforadas ambas por seu impulso
antagonista. A Histria ter conduzido a finitude do homem at esse
ponto-limite em que ela aparecer enfim em sua pureza; j no ter
margem que lhe permita escapar-se a si mesma, nem esforo a fazer para
forjar um porvir, nem novas terras abertas a homens futuros; sob a
grande eroso da Histria, o homem ser pouco a pouco despojado de tudo
o que pode escond-lo a seus prprios olhos; ter exaurido todas essas
possibilidades que confundem um pouco e esquivam sob as promessas do
tempo sua nudez antropolgica; por longos caminhos, mas inevitveis e
constringentes, a Histria ter conduzido o homem at essa verdade que o
detm sobre si mesmo.      Na segunda soluo (representada por Marx), a
relao da Histria com a finitude antropolgica  decifrada segundo a
direo inversa. A Histria desempenha ento um papel negativo:  ela,
com efeito, que acentua as presses da necessidade, que faz crescer as
carncias, coagindo os homens a trabalhar e a produzir sempre mais, sem
receberem mais do que o que lhes  indispensvel para viver, e algumas
vezes um pouco menos. De sorte que, com o tempo, o produto do trabalho
se acumula, escapando sem trgua queles que o executam: estes produzem
infinitamente mais do que essa parte do valor que lhes cabe sob forma de
salrio e do assim ao capital a possibilidade de novamente comprar
trabalho. Assim cresce sem cessar o nmero daqueles que a Histria
mantm nos [pg. 358] limites de suas condies de existncia; e, por
isso mesmo, essas condies no cessam de tomar-se mais precrias e de
aproximar-se do que tornar a prpria existncia impossvel; a
acumulao do capital, o crescimento das empresas e de sua capacidade, a
presso constante sobre os salrios, o excesso da produo reduzem o
mercado de trabalho, diminuindo sua retribuio e aumentando o
desemprego. Repelida pela misria aos confins da morte, toda uma classe
de homens faz, como que a nu, a experincia do que sejam a necessidade,
a fome e o trabalho. No que os outros atribuem  natureza ou  ordem
espontnea das coisas, eles sabem reconhecer o resultado de uma histria
e a alienao de uma finitude que no tem essa forma.  essa verdade da
essncia humana que eles podem, por essa razo -- e que s eles podem --
reassumir a fim de a restaurar. O que s poder ser obtido pela
supresso ou, ao menos, pela reverso da Histria tal como ela se
desenrolou at o presente: somente ento comear um tempo que no ter
mais nem a mesma forma, nem as mesmas leis, nem a mesma forma de
transcorrer.      Mas, sem dvida, pouco importa a alternativa entre o
"pessimismo" de Ricardo e a promessa revolucionria de Marx. Tal sistema
de opes nada mais representa seno duas maneiras possveis de
percorrer as relaes entre a antropologia e a Histria, tais como a
economia as instaura atravs das noes de raridade e de trabalho. Para
Ricardo, a Histria preenche o vo disposto pela finitude antropolgica
e manifestado por uma perptua carncia, at o momento em que seja
atingido o ponto de uma estabilizao definitiva; segundo a leitura
marxista, a Histria, espoliando o homem de seu trabalho, faz surgir em
relevo a forma positiva de sua finitude -- sua verdade material enfim
liberada. Certamente, compreende-se sem dificuldade como, ao nvel da
opinio, as [pg. 359] escolhas reais se distriburam, porque alguns
optaram pelo primeiro tipo de anlise e outros pelo segundo. Mas
trata-se somente de diferenas derivadas que procedem em tudo e por tudo
de uma inquirio e de um tratamento doxolgicos. No nvel profundo do
saber ocidental, o marxismo no introduziu nenhum corte real; alojou-se
sem dificuldade, como uma figura plena, tranqila, confortvel e,
reconhea-se, satisfatria por um tempo (o seu), no interior de uma
disposio epistemolgica que o acolheu favoravelmente (pois foi ela
justamente que lhe deu lugar) e que ele no tinha, em troca, nem o
propsito de perturbar nem sobretudo o poder de alterar, por pouco que
fosse, pois que repousava inteiramente sobre ela. O marxismo est no
pensamento do sculo XIX como peixe n'gua: o que quer dizer que noutra
parte qualquer deixa de respirar. Se ele se ope s teorias "burguesas"
da economia e se, nessa oposio, projeta contra elas uma reverso
radical da Histria, esse conflito e esse projeto tm por condio de
possibilidade no a retomada de toda a Histria nas mos, mas um
acontecimento que toda a arqueologia pode situar com preciso e que
prescreveu simultaneamente, segundo o mesmo modo, a economia burguesa e
a economia revolucionria do sculo XIX. Seus debates podem agitar
algumas ondas e desenhar sulcos na superfcie: so tempestades num copo
d'gua.      O essencial  que, no comeo do sculo XIX, constituiu-se
uma disposio do saber em que figuram, a um tempo, a historicidade da
economia (em relao com as formas de produo), a finitude da
existncia humana (em relao com a raridade e o trabalho) e o
aprazamento de um fim da Histria -- quer por afrouxamento indevido quer
por reverso radical. Histria, antropologia e suspenso do devir se
pertencem segundo uma figura que define para o pensamento do sculo
[pg. 360] XIX uma de suas redes maiores. Sabe-se, por exemplo, que
papel essa disposio desempenhou para reanimar a boa vontade fatigada
dos humanismos; sabe-se de que modo fez renascer as utopias de um
acabamento. No pensamento clssico, a utopia funcionava antes como um
devaneio de origem:  que o frescor do mundo devia assegurar o
desdobramento ideal de um quadro onde cada coisa estaria presente em seu
lugar, com suas vizinhanas, suas diferenas prprias, suas
equivalncias imediatas; nessa luz primeira, as representaes no
deviam ser ainda destacadas da viva, aguda e sensvel presena daquilo
que elas representam. No sculo XIX, a utopia concerne ao crepsculo do
tempo mais que  sua aurora:  que o saber no  mais constitudo ao
modo do quadro, mas ao da srie, do encadeamento e do devir; quando
vier, com a noite prometida, a sombra do desenlace, a eroso lenta ou a
violncia da Histria far realar, em sua imobilidade rochosa, a
verdade antropolgica do homem; o tempo dos calendrios poder
certamente continuar; mas ser como que vazio, pois a historicidade se
ter superposto exatamente  essncia humana. O escoar do devir, com
todos os seus recursos de drama, de olvido, de alienao, ser captado
numa finitude antropolgica que a encontra em troca sua manifestao
iluminada. A finitude com sua verdade se d no tempo; e, desde logo, o
tempo  finito. O grande devaneio de um termo da Histria  a utopia dos
pensamentos causais, como o sonho das origens era a utopia dos
pensamentos classificadores.      Essa disposio foi por longo tempo
constringente; e, no fim do sculo XIX, Nietzsche a fez cintilar uma
ltima vez, incendiando-a. Retomou o fim dos tempos para dele fazer a
morte de Deus e a errncia do ltimo homem; retomou a finitude
antropolgica, mas para fazer fulgir o arremesso [pg. 361] prodigioso
do super- homem; retomou a grande cadeia contnua da Histria, mas para
curv-la no infinito do retorno. A morte de Deus, a iminncia do
super-homem, a promessa e o terror do grande ano se esforam em vo por
retomar, como que termo a termo, os elementos que se dispem no
pensamento do sculo XIX e formam sua rede arqueolgica, mas no  menos
certo que inflamam todas essas formas estveis, desenham com seus restos
calcinados rostos estranhos, impossveis talvez; e, a uma luz de que no
se sabe ainda ao certo se reaviva o ltimo incndio ou se indica a
aurora, v-se abrir o que pode ser o espao do pensamento contemporneo.
Foi Nietzsche, em todo o caso, que queimou para ns, e antes mesmo que
tivssemos nascido, as promessas mescladas da dialtica e da
antropologia.                                           III. Cuvier
No seu projeto de estabelecer uma classificao to fiel quanto um
mtodo e to rigorosa quanto um sistema, Jussieu descobrira a regra de
subordinao dos caracteres, assim como Smith utilizara o valor
constante do trabalho para estabelecer o preo natural das coisas no
jogo das equivalncias. E assim como Ricardo libertou o trabalho de seu
papel de medida para faz-lo entrar, aqum de toda troca, nas formas
gerais da produo, assim Cuvier6 libertou de sua funo taxinmica a
subordinao dos caracteres para faz-la entrar, aqum de toda
classificao eventual, nos diversos planos de organizao dos seres
vivos. O liame interno que faz [pg. 362] as estruturas dependerem umas
das outras no est mais situado no nvel apenas das freqncias,
torna-se o fundamento mesmo das correlaes.  esse desnvel e essa
inverso que Geofrroy Saint-Hilaire devia um dia traduzir, dizendo: "A
organizao torna-se um ser abstrato... suscetvel de formas
numerosas."7 O espao dos seres vivos gira em torno dessa noo e tudo o
que at ento pudera aparecer atravs do quadriculado da histria
natural (gneros, espcies, indivduos, estruturas, rgos), tudo o que
era dado ao olhar, assume doravante um modo novo de ser. 6     Cf.,
sobre Cuvier, o estudo notvel de Daudin. Les classes zoologiques.
Paris, 1930. 7     Citado por Th. Cahn. La vie et l'oeuvres d'E.
Geoffroy Saint-Hilaire. Paris, 1962, p. 138.         E, em primeiro
lugar, esses elementos ou esses grupos de elementos distintos que o
olhar pode articular quando percorre o corpo dos indivduos e a que se
chama os rgos. Na anlise dos clssicos, o rgo se definia, a um
tempo, por sua es- trutura e por sua funo; era como um sistema de
dupla entrada que se podia ler exaustivamente, quer a partir do papel
que desempenhava (por exemplo, a reproduo), quer a partir de suas
variveis morfolgicas (forma, grandeza, disposio e nmero): os dois
modos de decifrao recobriam-se ajustada-mente mas eram independentes
um do outro -- o primeiro enunciando o utilizvel, o segundo, o
identificvel.  essa disposio que Cuvier altera; revogando tanto o
postulado do ajustamento quanto o da independncia, faz extravasar -- e
largamente -- a funo em relao ao rgo e submete a disposio do
rgo  soberania da funo. Dissolve, se no a individualidade, pelo
menos a independncia do rgo:  erro crer que "tudo  importante num
rgo importante";  preciso dirigir a ateno "mais para as prprias
funes que para os rgos"8; [pg. 363] antes de definir estes ltimos
pelas suas variveis,  necessrio report-los  funo que asseguram.
Ora, essas funes so em nmero relativamente pouco elevado:
respirao, diges- to, circulao, locomoo... De sorte que a
diversidade visvel das estruturas no mais emerge do fundo de um quadro
de variveis, mas do fundo de grandes unidades funcionais suscetveis de
se realizarem e de cumprir seu fim de maneiras diversas: "O que  comum
a cada gnero de rgos considerado, em todos os animais se reduz a
muito pouca coisa e, freqentemente, eles s se assemelham pelo efeito
que produzem. Isso deve ter impressionado sobretudo no tocante 
respirao que se opera nas diferentes classes por rgos to variados,
que sua estrutura no apresenta nenhum ponto comum."9 Considerando o
rgo na sua relao com a funo, v-se, pois, aparecerem "semelhanas"
onde no h nenhum elemento "idntico"; semelhana que se constitui pela
passagem  evidente invisibilidade da funo. Pouco importa afinal que
as brnquias e os pulmes tenham em comum algumas variveis de forma, de
grandeza, de nmero: assemelham-se por serem duas variedades desse rgo
inexistente, abstrato, irreal, indeterminvel, ausente de toda espcie
descritvel, presente contudo no reino animal inteiro e que serve para 8
G. Cuvier. Leons d'anatomie compare, t. I, pp. 63-4. 9     G. Cuvier.
Leons d'anatomie compare, pp. 34-5. respirar em geral. Restauram-se
assim, na anlise do ser vivo, as analogias de tipo aristotlico: as
brnquias so para a respirao na gua o que so os pulmes para a
respirao no ar. Certamente, semelhantes relaes eram perfeitamente
conhecidas na idade clssica; mas serviam apenas para determinar
funes; no eram utilizadas para estabelecer a ordem das coisas no
espao da natureza. A partir de Cuvier, a funo, definida sob a forma
no-perceptvel do efeito a atingir, vai servir de meio- termo constante
[pg. 364] e permitir relacionar um a outro conjuntos desprovidos da
menor identidade visvel. Aquilo que, para o olhar clssico, no passava
de puras e simples diferenas justapostas a identidades, deve agora ser
ordenado e pensado a partir de uma homogeneidade funcional que o suporta
em segredo. H histria natural quando o Mesmo e o Outro pertencem a um
nico espao; alguma coisa como a biologia torna-se possvel quando essa
unidade de plano comea a desfazer- se e as diferenas surgem do fundo
de uma identidade mais profunda e como que mais sria do que ela.
Essa referncia  funo, essa disjuno entre o plano das identidades e
o das diferenas fazem surgir relaes novas: as de coexistncia, de
hierarquia interna, de dependncia com respeito ao plano de organizao.
A coexistncia designa o fato de que um rgo ou um sistema de rgos
no podem estar presentes num ser vivo sem que outro rgo ou outro
sistema, de uma natureza e uma forma determinadas, o estejam igualmente:
"Todos os rgos de um mesmo animal formam um sistema nico, cujas
partes todas se sustentam, agem e reagem umas sobre as outras; no pode
haver modificaes numa delas que no acarretem modificaes anlogas em
todas."10 No interior do sistema da digesto, a forma dos dentes (o fato
de serem cortantes ou mastigadores) varia ao mesmo tempo que "o
comprimento, as curvas, as dilataes do sistema alimentar"; ou ainda,
para dar um exemplo de coexistncia entre      sistemas      diferentes,
os    rgos     da    digesto     no   podem   variar
independentemente da morfologia dos membros (e, em particular, da forma
das unhas): conforme houver garras ou cascos -- portanto, conforme o
animal [pg. 365] possa ou no agarrar e despedaar seu alimento -- o
canal alimentar, os "sucos dissolventes", a forma dos dentes no sero
os mesmos11. Trata-se a de correlaes 10      G. Cuvier. Rapport
historique sur l'tat des sciences naturelles, p.330. 11      G. Cuvier.
Leons d'anatomie compare, t. I, p. 55. laterais que estabelecem entre
elementos do mesmo nvel relaes de concomitncia fundadas por
necessidades funcionais: por ser preciso que o animal se alimente, a
natureza da presa e seu modo de captura no podem ficar estranhos aos
aparelhos de mastigao e de digesto (e reciprocamente).      H,
todavia, escalonamentos hierrquicos. Sabe-se como a anlise clssica
fora levada a suspender o privilgio dos rgos mais importantes para s
considerar sua eficcia taxinmica. Agora que no se trata mais de
variveis independentes, mas de sistemas comandados uns pelos outros, o
problema da importncia recproca se acha novamente colocado. Assim, o
canal alimentar dos mamferos no est sim- plesmente numa relao de
covariao eventual com os rgos da locomoo e da preenso; , ao
menos em parte, prescrito pelo modo de reproduo. Esta, com efeito, sob
sua forma vivpara, no implica simplesmente a presena de rgos que
lhe esto imediatamente ligados; exige tambm a existncia de rgos de
lactao, a presena de lbios, a de uma lngua carnuda igualmente;
prescreve, por outro lado, a circulao de um sangue quente e
bifocularidade do corao12. A anlise dos organismos e a possibilidade
de estabelecer entre eles semelhanas e distines supem, portanto, que
se tenha fixado a tabela, no dos elementos que podem variar de espcie
para espcie, mas das funes que, nos seres vivos em geral, se
comandam, se ajustam, se ordenam umas s outras: no mais o polgono das
modificaes possveis, [pg. 366] mas a pirmide hierrquica das
importncias. Cuvier pensou primeiro que as funes de existncia se
antepunham s de relaes ("pois o animal primeiramente , depois sente
e age"): supunha portanto que a gerao e a circulao deviam
determinar, de incio, certo nmero de rgos aos quais a disposio dos
outros se acharia submetida; aqueles formariam os caracteres primrios,
estes os caracteres secundrios13. Depois, subordinou a circulao 
digesto, pois esta existe em todos os animais (o corpo do plipo  por
inteiro apenas uma espcie de aparelho digestivo), ao passo que o sangue
e os vasos se encontram "apenas nos animais superiores e desaparecem
sucessivamente nos das 12    G. Cuvier. "Second mmoire sur les animaux
 sang blanc". 1795. In: Magasin encyclopdique, II, p. 441. 13    G.
Cuvier. "Second mmore sur les animaux  sang blanc". 1795. In: Magasin
encyclopdique, II, p. 441. ltimas classes"14. Mais tarde, foi o
sistema nervoso (com a existncia ou a inexistncia de um cordo
espinhal) que lhe apareceu como determinante de todas as disposies
orgnicas: "Ele , em essncia, todo o animal: os outros sistemas s
esto l para servi-lo e mant-lo."15          Essa preeminncia de uma
funo sobre as outras implica que o organismo nas suas disposies
visveis obedea a um plano. Tal plano garante o reino das funes
essenciais e a elas vincula, mas com um grau maior de liberdade, os
rgos que asseguram funcionamentos menos capitais. Como princpio
hierrquico, esse plano define as funes preeminentes, distribui os
elementos anatmicos que lhe permitem efetuar-se e os instala nas
localizaes privilegiadas do corpo: assim, no vasto grupo dos
articulados, a classe dos insetos deixa aparecer a importncia
primordial das funes locomotoras [pg. 367] e dos rgos do movimento;
nos trs outros, so as funes vitais, em contrapartida, que tm
primazia16. No controle regional que exerce sobre os rgos menos
fundamentais, o plano de organizao no desempenha um papel to
determinante; liberaliza-se, de certo modo, na medida em que h um
afastamento do centro, autorizando modificaes, alteraes, mudanas na
forma ou a utilizao possvel. Reencontramo-lo, tornado porm mais
flexvel e mais permevel a outras formas de determinao. Isso  fcil
de constatar nos mamferos a propsito do sistema de locomoo. Os
quatro membros motores fazem parte do plano de organizao, mas a ttulo
somente do carter secundrio; no esto pois jamais suprimidos, nem
ausentes nem substitudos, porm "disfarados algumas vezes como nas
asas dos morcegos e nas barbatanas posteriores das focas"; ocorre mesmo
terem "degenerado pelo uso como nas barbatanas peitorais dos cetceos...
A natureza fez com um brao uma barbatana. Vedes que h sempre uma
espcie de constncia nos caracteres secundrios conforme seu
disfarce"17. Compreende-se como podem as espcies ao mesmo tempo
assemelhar-se (para formar grupos como os gneros, as classes e o que
Cuvier chama as ramificaes) e distinguir-se umas das outras. O que as
aproxima no  certa quantidade de elementos superponveis, 14      G.
Cuvier. Leons d'anatomie compare, t. III, pp. 4-5. 15      G. Cuvier.
"Sur un nouveau rapprochement  etablir". In: Annales du Musum, t. XIX,
p. 76. 16      Id., ibid. 17      G. Cuvier. Second mmoire sur les
animaux  sang blanc, loc. cit. mas uma espcie de foco de identidade
que no se pode analisar em regies visveis, porque define a
importncia recproca das funes; a partir desse cerne im- perceptvel
das identidades, os rgos se dispem e,  medida que dele se afastam,
ganham em flexibilidade, em possibilidades de variaes, em caracteres
distintivos. As espcies [pg. 368] animais diferem pela periferia,
assemelham-se pelo centro; o inacessvel as religa, o manifesto as
dispersa. Generalizam-se do lado do que  essencial  sua vida;
singularizam-se do lado do que  mais acessrio. Quanto mais se quiser
atingir grupos extensos, mais  preciso entranhar-se na obscuridade do
organismo, em direo ao pouco visvel, nessa dimenso que escapa ao
percebido; quanto mais se quiser cingir a individualidade, mais
necessrio  ascender  superfcie e deixar cintilar, em sua
visibilidade, as formas que a luz toca; pois a multiplicidade se v e a
unidade se esconde. Em suma, as espcies vivas "escapam" ao pulular dos
indivduos e das espcies, s podendo ser classificadas porque vivem e a
partir do que ocultam.      Avalia-se a imensa reviravolta que tudo isso
supe em relao  taxinomia clssica. Edificava-se esta inteiramente a
partir das quatro variveis de descrio (formas, nmero, disposio,
grandeza) que eram percorridas, como num s movimento, pela linguagem e
pelo olhar; e, nessa exposio do visvel, a vida aparecia como o efeito
de um recorte -- simples fronteira classificatria. A partir de Cuvier,
 a vida, no que tem de no-perceptvel, de puramente funcional, que
funda a possibilidade exterior de uma classificao. No h mais, sobre
a grande superfcie da ordem, a classe daquilo que pode viver; mas sim,
vindo da profundidade da vida, do que h de mais longnquo para o olhar,
a possibilidade de classificar. O ser vivo era uma localidade da
classificao natural; o fato de ser classificvel  agora uma
propriedade do ser vivo. Assim desaparece o projeto de uma taxinomia
geral; assim desaparece a possibilidade de desenrolar uma grande ordem
natural, que iria sem descontinuidade do mais simples e do mais inerte
ao mais vivo e ao mais complexo; assim desaparece a procura da ordem
como solo e fundamento [pg. 369] de uma cincia geral da natureza.
Assim desaparece a "natureza" -- entendendo-se que, ao longo de toda a
idade clssica, ela no existiu primeiramente como "tema", como "idia",
como fonte indefinida do saber, mas como espao homogneo das
identidades e das diferenas ordenveis.      Esse espao est agora
dissociado e como que aberto em sua espessura. No lugar de um campo
unitrio de visibilidade e de ordem cujos elementos tm valor distintivo
uns em relao aos outros, tem-se uma srie de oposies cujos dois
termos no so do mesmo nvel: de um lado h os rgos secundrios, que
so visveis  superfcie do corpo e se oferecem sem interveno 
imediata percepo, e os rgos primrios, que so essenciais, centrais,
ocultos, e que s se podem atingir pela disseco, isto , destruindo
materialmente o invlucro colorido dos rgos secundrios. H tambm,
mais profundamente, a oposio entre os rgos em geral, que so
espaciais, slidos, direta ou indiretamente visveis, e as funes, que
no se do  percepo, mas prescrevem, como que por debaixo, a
disposio daquilo que se percebe. H enfim, em ltima anlise, a
oposio entre identidades e diferenas: no so mais do mesmo veio, no
mais se estabelecem em relao umas s outras sobre um plano homogneo;
mas as diferenas proliferam na superfcie, enquanto em profundidade
elas se desvanecem, se confundem, se tramam umas nas outras e se
aproximam da grande, misteriosa, invisvel unidade focal de que o
mltiplo parece derivar como que por uma disperso incessante. A vida
no  mais o que se pode distinguir, de maneira mais ou menos certa, do
mecnico;  aquilo em que se fundam todas as distines possveis entre
os seres vivos.  essa passagem da noo taxinmica  noo sinttica de
vida que  assinalada, na cronologia das idias e das cincias, pela
recrudescncia, no comeo [pg. 370] do sculo XIX, dos temas
vitalistas. Do ponto de vista da arqueologia, o que naquele momento se
instaura so as condies de possibilidade de uma biologia.      Em todo
o caso, essa srie de oposies, dissociando o espao da histria
natural, teve conseqncias de grande peso. Na prtica,  o aparecimento
de duas tcnicas correlativas que se apiam e se revezam mutuamente. A
primeira dessas tcnicas  constituda pela anatomia comparada: esta faz
surgir um espao interior, limitado, de um lado, pela camada superficial
dos tegumentos e das cascas, e, de outro, pela quase-invisibilidade do
que  infinitamente pequeno. Pois a anatomia comparada no  o puro e
simples aprofundamento das tcnicas descritivas que se utilizavam na
idade clssica; no se contenta em procurar ver mais fundo, melhor e
mais de perto; instaura um espao que no  nem o dos caracteres
visveis nem o dos elementos microscpicos18. Ela faz a aparecer a
disposio recproca dos rgos, sua correlao, a maneira como se
decompem, como se especializam, como se ordenam uns aos outros os
principais momentos de uma funo. E assim, por oposio ao olhar
simples que, percorrendo os organismos ntegros, v desdobrar-se diante
de si a profuso das diferenas, a anatomia, recortando realmente os
corpos, fracionando-os em parcelas distintas, retalhando-os no espao,
faz surgir as grandes semelhanas que teriam permanecido invisveis; ela
reconstitui as unidades subja- centes s grandes disperses visveis. A
formao das vastas unidades taxinmicas (classes e ordens) era, nos
sculos XVII e XVIII, um problema de recorte lingstico: era preciso
[pg. 371] encontrar um nome que fosse geral e fundado; agora, ela diz
respeito a uma desarticulao anatmica;  preciso isolar o sistema
funcional principal; so as divises reais da anatomia que permitiro
articular as grandes famlias do ser vivo.          A segunda tcnica
repousa sobre a anatomia (pois que  seu resultado) mas a ela se ope
(porque permite dispens-la); consiste em estabelecer relaes de
indicao entre elementos superficiais, portanto visveis, e outros que
esto encobertos na profundidade do corpo.  que, pela lei de
solidariedade do organismo, pode-se saber que tal rgo perifrico e
acessrio implica tal estrutura num rgo mais essencial; assim, 
permitido "estabelecer a correspondncia das formas exteriores e
interiores que, umas e outras, fazem parte integrante da essncia do
animal"19. Nos insetos, por exemplo, a disposio das antenas s tem
valor distintivo porque no est em correlao com nenhuma das grandes
organizaes internas; em contrapartida, a forma do maxilar inferior
pode desempenhar um papel capital para distribu-los segundo suas
semelhanas e suas diferenas; pois est ligada  alimentao, 
digesto e, por conseguinte, s funes essenciais do animal: "Os rgos
da mastigao devero estar relacionados com os da nutrio,
conseqentemente com todo o gnero de vida e, conseqentemente, com toda
a or- ganizao."20 Na verdade, essa tcnica dos indcios no vai
forosamente da periferia visvel s formas obscuras da interioridade
orgnica: ela pode estabelecer 18   Sobre essa recusa do microscpio,
que  a mesma em Cuvier e nos anatomopatologistas, cf. Leons d'anatomie
compare, t. V, p. 180 e Le rgne animal, t. I, p. XXVIII. 19      G.
Cuvier. Le rgne animal distribui d'aprs son organisation, t. I, p.
XIV. 20      G. Cuvier. Lettre  Hartmann, citada por Daudin. Les
classes zoologiques, t. II, p. 20, n. 1. redes de necessidade indo de um
ponto qualquer do corpo a qualquer outro; de sorte que um nico elemento
pode bastar, em certos casos, para sugerir a arquitetura geral de um
organismo; poder-se- reconhecer um [pg. 372] animal inteiro "por um s
osso, por uma s faceta de osso: mtodo que deu to curiosos resultados
acerca dos animais fsseis"21. Enquanto, para o pensamento do sculo
XVIII, o fssil era uma prefigurao das formas atuais e indicava assim
a grande continuidade do tempo, ser doravante a indicao da figura 
qual realmente pertencia. A anatomia no somente quebrou o espao
tabular e homogneo das identidades; rompeu a suposta continuidade do
tempo.           que, do ponto de vista terico, as anlises de Cuvier
recompem inteiramente o regime das continuidades e das descontinuidades
naturais. Com efeito, a anatomia comparada permite estabelecer, no mundo
vivo, duas formas de continuidade perfeitamente distintas. A primeira
concerne s grandes funes que se encontram na maioria das espcies (a
respirao, a digesto, a circulao, a reproduo, o movimento...);
estabelece em todo o mundo vivo uma vasta semelhana que se pode
distribuir segundo uma escala de complexidade decrescente, indo do homem
at o zofito; nas espcies superiores esto presentes todas as funes,
vemo-las desaparecer depois umas aps outras e, no zofito, finalmente,
j "no h centro de circulao, no h nervos, no h centro de
sensao; cada ponto parece nutrir-se por suco"22. Todavia, essa
continuidade  fraca, relativamente frouxa, formando, pelo nmero
restrito das funes essenciais, um simples quadro de presenas e de
ausncias. A outra continuidade  muito mais cerrada: concerne  maior
ou menor perfeio dos rgos. Mas, a partir da, s se podem
estabelecer sries limitadas, continuidades regionais logo
interrompidas, e que, ademais, [pg. 373] se imbricam umas nas outras em
direes diferentes;  que, nas diversas espcies, "os rgos no seguem
todos a mesma ordem de gradao: um atinge seu mais alto grau de
perfeio na sua espcie; outro o atinge numa espcie diferente"23.
Tem-se pois, o que se poderia chamar de "microssries" limitadas e
parciais que dizem respeito menos s espcies que a tal ou tal rgo; e,
na outra extremidade, 21      G. Cuvier. Rapport historique sur les
sciences naturelles, pp. 329-30. 22      G. Cuvier. Tableau lmentaire,
pp. 6 ss. 23      G. Cuvier. Leons d `anatomie compare, t. I, p. 59.
uma "macrossrie", descontnua, afrouxada e que diz respeito menos aos
prprios organismos que ao grande registro fundamental das funes.
Entre essas duas continuidades que no se superpem nem se ajustam,
v-se a diviso de grandes massas descontnuas. Elas obedecem a planos
de organizao diferentes, encontrando-se as mesmas funes ordenadas
segundo hierarquias variadas e realizadas por rgos de tipo diverso.
Por exemplo,  fcil encontrar no polvo "todas as funes que se exercem
nos peixes e, no entanto, no h entre eles nenhuma semelhana, nenhuma
analogia de disposio"24.  preciso, portanto, analisar cada um desses
grupos em si mesmo, considerar no o fio estreito das semelhanas que
podem vincul-lo a outro, mas a forte coeso que o cerra em si mesmo;
no se buscar saber se os animais de sangue vermelho esto na mesma
linha que os animais de sangue branco, tendo apenas perfeies
suplementares; estabelecer-se- que todo animal de sangue vermelho -- e
 nisso que depende de um plano autnomo -- possui sempre uma cabea
ssea, uma coluna vertebral, membros (com exceo das serpentes),
artrias e veias, um fgado, um pncreas, um bao, rins25. Vertebrados
[pg. 374] e invertebrados formam regies perfeitamente isoladas, entre
as quais no se podem encontrar formas intermedirias assegurando a
passagem num sentido ou noutro: "Qualquer que seja a organizao que se
d aos animais com vrtebras e aos que no as tm, no se chegar jamais
a encontrar no final de uma dessas grandes classes, nem encabeando a
outra, dois animais que se assemelhem o bastante para servirem de elo
entre elas."26 V-se, pois, que a teoria das ramificaes no ajunta um
quadro taxinmico suplementar s classificaes tradicionais; ela est
ligada  constituio de um espao novo das identidades e das
diferenas. Espao sem continuidade essencial. Espao que logo de incio
se d na forma da fragmentao. Espao atravessado por linhas que s
vezes divergem e s vezes se recortam. Para designar-lhe a forma geral,
 preciso, pois, substituir a imagem da escala contnua que fora
tradicional no sculo XVIII, de Bonnet a Lamarck, pela de uma
irradiao, ou, antes, de um conjunto de centros a partir dos quais se
desdobra uma multiplicidade de raios; poder-se-ia assim recolocar cada
ser 24      G. Cuvier. Mmoire sur les cphalopodes, 1817, pp. 42-3. 25
G. Cuvier. Tableau lmentaire d'histoire naturelle, pp. 84-5. 26
G. Cuvier. Leons d'anatomie compare, t. I, p. 60. "nessa imensa rede
que constitui a natureza organizada mas dez ou vinte raios no bastariam
para exprimir essas inumerveis relaes"27.           toda a
experincia clssica da diferena que ento se abala e, com ela, a
relao entre o ser e a natureza. Nos sculos XVII e XVIII, a diferena
tinha por funo religar as espcies umas s outras e preencher assim a
distncia entre as extremidades do ser; desempenhava um papel de
"catenria": era to limitada, to tnue quanto possvel; alojava-se no
quadriculado mais estreito; era sempre divisvel e podia cair mesmo
abaixo do limiar da percepo. A partir de Cuvier, ao [pg. 375]
contrrio, ela prpria se multiplica, adiciona formas diversas,
difunde-se e se repercute atravs do organismo, isolando-o de todos os
outros de diversas maneiras simultneas;  que ela no se aloja no
interstcio dos seres para relig-los entre si; funciona em relao ao
organismo, para que ele possa "fazer corpo" consigo mesmo e manter-se em
vida; no preenche o entremeio dos seres por tenuidades sucessivas;
escava-o, aprofundando-se a si mesma, para definir em seu isolamento os
grandes tipos de compatibilidade. A natureza do sculo XIX  descontnua
na medida mesma em que  viva. Avalia-se a importncia da reviravolta;
na poca clssica, os seres naturais formavam um conjunto contnuo
porque eram seres e no havia razo para a interrupo de seu
desdobramento. No era possvel representar o que separava o ser de si
mesmo. O contnuo da representao (signos e caracteres) e o contnuo
dos seres (a extrema proximidade das estruturas) eram, pois,
correlativos.  essa trama, a um tempo ontolgica e representativa, que
se despedaa definitivamente com Cuvier: os seres vivos, porque vivem,
no podem mais formar um tecido de diferenas progressivas e graduadas;
devem concentrar-se em torno de ncleos de coerncia perfeitamente
distintos uns dos outros e que constituem diferentes planos para manter
a vida. O ser clssico era sem lacuna; j a vida  sem margem nem
gradao. O ser se derramava num imenso quadro; a vida isola formas que
se articulam consigo mesmas. O ser se dava no espao sempre analisvel
da representao; a vida se recolhe no enigma de uma fora inacessvel
em sua essncia, captvel apenas nos esforos que faz, aqui e ali, para
manifestar-se e manter-se. Em suma, ao longo de toda a idade clssica, a
vida estava sob a alada de uma ontologia que concernia do mesmo modo a
todos os seres materiais, submetidos 27      G. Cuvier. Histoire des
poissons. Paris, 1828, t. I, p. 569.  extenso, ao peso, ao [pg. 376]
movimento; e era nesse sentido que todas as cincias da natureza e
singularmente do ser vivo tinham uma profunda vocao mecanicista; a
partir de Cuvier, o ser vivo escapa, ao menos em primeira instncia, s
leis gerais do ser extenso; o ser biolgico regionaliza-se e
autonomiza-se; a vida , nos confins do ser, o que lhe  exterior e que,
contudo, se manifesta nele. E se se coloca a questo de suas relaes
com o no-vivo, ou a de suas determinaes fsico- qumicas, no , de
modo algum, na linha de um "mecanicismo" que se obstinasse em suas
modalidades clssicas, mas sim, de maneira totalmente nova, para
articular uma  outra duas naturezas.          Mas, como as
descontinuidades devem ser explicadas pela manuteno da vida e por suas
condies, v-se esboar uma continuidade imprevista -- ou, ao menos, um
jogo de interaes no ainda analisadas -- entre o organismo e o que lhe
permite viver. Se os ruminantes se distinguem dos roedores, e por todo
um sistema de diferenas macias que no se trata de atenuar,  porque
tm outra dentio, outro aparelho digestivo, outra disposio dos dedos
e das unhas;  porque no podem capturar o mesmo alimento, porque no
podem trat-lo do mesmo modo;  porque no tm de digerir a mesma
natureza de alimentos. Portanto, o ser vivo no deve mais ser
compreendido apenas como uma certa combinao de molculas portadoras de
caracteres definidos; ele delineia uma organizao que se sustm em
relaes ininterruptas com elementos exteriores que ela utiliza (pela
respirao, pela alimentao), a fim de manter ou desenvolver sua
prpria estrutura. Em torno do ser vivo, ou, antes, atravs dele e pelo
filtro de sua superfcie, efetua-se "uma circulao contnua de fora
para dentro e de dentro para fora, constantemente mantida e contudo
fixada entre certos limites. Assim, os corpos vivos devem ser
considerados como espcies de [pg. 377] focos nos quais as substncias
mortas so sucessivamente conduzidas, para ali se combinarem entre si de
diversas maneiras"28. O ser vivo, pelo jogo e pela soberania dessa mesma
fora que o mantm em descontinuidade consigo mesmo, acha-se submetido a
uma relao contnua com o que o cerca. Para que o ser vivo possa viver,
 preciso que haja vrias organizaes irredutveis umas s outras, como
tambm um movimento ininterrupto entre cada uma e o ar que ela respira,
a gua que bebe, o alimento que absorve. Rompendo a 28      G. Cuvier.
Leons d `anatomie compare, t. I, pp. 4-5. antiga continuidade clssica
entre o ser e a natureza, a fora dividida da vida far aparecer formas
dispersas, ligadas todas, porm, a condies de existncia. Em alguns
anos, na curva dos sculos XVIII e XIX, a cultura europia modificou
inteiramente a espacializao fundamental do ser vivo: para a
experincia clssica, o ser vivo era um compartimento ou uma srie de
compartimentos na taxinomia universal do ser; se sua localizao
geogrfica tinha um papel (como em Buffon), era para fazer aparecer
variaes que j eram possveis. A partir de Cuvier, o ser vivo se
envolve sobre si mesmo, rompe suas vizinhanas taxinmicas, se arranca
ao vasto plano constringente das continuidades e se constitui um novo
espao: espao duplo, na verdade -- pois que  aquele, interior, das
coerncias anatmicas e das compatibilidades fisiolgicas, e aquele,
exterior, dos elementos onde ele reside para deles fazer seu corpo
prprio. Todavia, esses dois espaos tm um comando unitrio: no mais o
das possibilidades do ser, mas o das condies de vida.      Todo o a
priori histrico de uma cincia dos seres vivos acha-se assim abalado e
renovado. Considerada na sua profundidade arqueolgica e no ao nvel
mais aparente das descobertas, [pg. 378] das discusses, teorias, ou
das opes filosficas, a obra de Cuvier tende de longe para o que viria
a ser o futuro da biologia. Freqentemente, opem-se as intuies
"transformistas" de Lamarck, que parecem "prefigurar" o que ser o
evolucionismo, e o velho fixismo, todo impregnado de preconceitos
tradicionais e de postulados teolgicos, no qual se obstinava Cuvier. E
por todo um jogo de amlgamas, de metforas, de analogias mal
controladas, desenha-se o perfil de um pensamento "reacionrio" que se
empenha apaixonadamente na imobilidade das coisas para garantir a ordem
precria dos homens; tal seria a filosofia de Cuvier, homem de todos os
poderes; de outro lado, descreve-se o destino difcil de um pensamento
progressista, que cr na fora do movimento, na incessante novidade, na
vivacidade das adaptaes: Lamarck, o revolucionrio, estaria a.
Fornece-se assim, sob o pretexto de fazer histria das idias num
sentido rigorosamente histrico, um belo exemplo de ingenuidade. Pois,
na historicidade do saber, o que conta no so as opinies, nem as
semelhanas que, atravs das idades, se podem estabelecer entre elas
(h, com efeito, uma "semelhana" entre Lamarck e um certo
evolucionismo, assim como entre este e as idias de Diderot, de Robinet
ou de Benot de Maillet); o que  importante, o que permite articular em
si mesma a histria do pensamento, so suas condies internas de
possibilidade. Ora, basta tentar sua anlise para logo se perceber que
Lamarck s pensava as transformaes das espcies a partir da
continuidade ontolgica que era a da histria natural dos clssicos. Ele
supunha uma gradao progressiva, um aperfeioamento ininterrupto, uma
grande superfcie dos seres que podiam formar-se uns a partir dos
outros. O que torna possvel o pensamento de Lamarck no  a apreenso
longnqua de um evolucionismo por vir,  a continuidade dos seres, [pg.
379] tal como a descobriam e a supunham os "mtodos" naturais. Lamarck 
contemporneo de A.-L. de Jussieu. No de Cuvier. Este introduziu na
escala clssica dos seres uma descontinuidade radical; e, por isso
mesmo, fez surgir noes como as de incompatibilidade biolgica, de
relaes com os elementos exteriores, de condies de existncia; fez
surgir tambm uma certa fora que deve manter a vida e uma certa ameaa
que a pune com a morte; a se acham reunidas vrias das condies que
tornam possvel alguma coisa como o pensamento da evoluo. A
descontinuidade das formas vivas permitiu conceber um grande fluxo
temporal, que no autorizava, apesar das analogias de superfcie, a
continuidade das estruturas e dos caracteres. Pde-se substituir a
histria natural por "histria" da natureza, graas ao descontnuo
espacial, graas  ruptura do quadro, graas ao fracionamento dessa
superfcie onde todos os seres naturais vinham, em ordem, achar seu
lugar. Certamente, o espao clssico, como se viu, no exclua a
possibilidade de um devir, mas esse devir nada mais fazia que assegurar
um percurso sobre o tablado discretamente prvio das variaes
possveis. A ruptura desse espao permitiu descobrir uma historicidade
prpria  vida: aquela de sua manuteno em suas condies de
existncia. O "fixismo" de Cuvier, como anlise de tal manuteno, foi a
maneira inicial de refletir essa historicidade no momento em que ela
aflorava, pela primeira vez, no saber ocidental.      A historicidade,
pois, introduziu-se agora na natureza -- ou, antes, no ser vivo; mas ela
a  bem mais do que uma forma provvel de sucesso; constitui como que
um modo de ser fundamental. Sem dvida, na poca de Cuvier no existe
ainda histria do ser vivo, como a que descrever o evolucionismo; mas o
ser vivo  pensado, logo de incio, com as [pg. 380] condies que lhe
permitem ter uma histria.  do mesmo modo que as riquezas receberam, na
poca de Ricardo, um estatuto de historicidade que ele tampouco
formulara ainda como histria econmica. A estabilidade prxima dos
rendimentos industriais, da populao e da renda tal como a previra
Ricardo, a fixidez das espcies afirmada por Cuvier podem passar, aps
um exame superficial, por uma recusa da histria; de fato, Ricardo e
Cuvier s recusavam as modalidades da sucesso cronolgica tais como
foram pensadas no sculo XVIII; eles desfaziam a dependncia do tempo em
relao  ordem hierrquica ou classificatria das representaes. Em
contrapartida, essa imobilidade atual ou futura que descreviam ou
anunciavam, s podiam conceb-la a partir da possibilidade de uma
histria; e esta lhes era dada quer pelas condies de existncia do ser
vivo, quer pelas condies de produo do valor. Paradoxalmente, o
pessimismo de Ricardo, o fixismo de Cuvier s aparecem sobre um fundo
histrico: eles definem a estabilidade dos seres que, doravante, tm
direito, ao nvel de sua modalidade profunda, a ter uma histria; a
idia clssica de que as riquezas podiam crescer segundo um progresso
contnuo, ou de que as espcies pudessem com o tempo transformar-se umas
nas outras, definia, ao contrrio, a mobilidade de seres que, antes
mesmo de toda histria, j obedeciam a um sistema de variveis de
identidades ou de equivalncias. Foi necessria a suspenso e como que a
colocao entre parnteses daquela histria, para que os seres da
natureza e os produtos do trabalho recebessem uma historicidade que
permitisse ao pensamento moderno apreend-los e desenvolver, em seguida,
a cincia discursiva de sua sucesso. Para o pensamento do sculo XVIII,
as seqncias cronolgicas no passam de uma propriedade e de uma
manifestao mais ou menos confusa da [pg. 381] ordem dos seres; a
partir do sculo XIX, elas exprimem, de um modo mais ou menos direto e
at na sua interrupo, o modo de ser profundamente histrico das coisas
e dos homens.      Em todo o caso, essa constituio de uma
historicidade viva teve, para o pensamento europeu, vastas
conseqncias. To vastas, sem dvida, quanto aquelas acarretadas pela
formao de uma historicidade econmica. Ao nvel superficial dos
grandes valores imaginrios, a vida, doravante votada  histria, se
delineia sob a forma da animalidade. A besta, cuja grande ameaa ou
estranheza radical tinham ficado suspensas e como que desarmadas no
final da Idade Mdia ou pelo menos ao cabo do Renascimento, encontra, no
sculo XIX, novos poderes fantsticos. Nesse nterim, a natureza
clssica privilegiara os valores vegetais -- a planta trazendo sobre seu
braso visvel a marca sem reticncias de cada ordem eventual; com todas
as suas figuras desdobradas, do caule  semente, da raiz ao fruto, o
vegetal formava, para um pensamento em quadro, um puro objeto
transparente aos segredos generosamente restitudos. A partir do momento
em que caracteres e estruturas se escalonam em profundidade na direo
da vida -- esse ponto de fuga soberano, indefinidamente distante mas
constituinte --  o animal ento que se torna figura privilegiada, com
seus arcabouos ocultos, seus rgos encobertos, tantas funes
invisveis e essa fora longnqua, no fundo de tudo, que o mantm em
vida. Se o ser vivo  uma classe de seres, a erva, melhor que tudo,
enuncia sua lmpida essncia; mas se o ser vivo  manifestao da vida,
o animal deixa melhor perceber o que  o seu enigma. Mais que a imagem
calma dos caracteres, ele mostra a passagem incessante do inorgnico ao
orgnico, pela respirao ou pela nutrio, e a transformao inversa,
sob o efeito da morte, das grandes arquiteturas funcionais em poeira sem
vida: "As [pg. 382] substncias mortas so conduzidas para os corpos
vivos", dizia Cuvier, "para a terem um lugar e a exercerem uma ao,
determinados pela natureza das combinaes em que ingressaram, e para
da escaparem um dia, a fim de entrarem novamente sob as leis da
natureza morta"29. A planta reinava nos confins do movimento e da
imobilidade, do sensvel e do insensvel; j o animal mantm-se nos
confins da vida e da morte. Esta o assedia de todos os lados; bem mais,
ameaa-o tambm do interior, pois somente o organismo pode morrer, e 
do fundo de sua vida que a morte sobrevm aos seres vivos. Da, sem
dvida, os valores ambguos assumidos, por volta do fim do sculo XVIII,
pela animalidade: a besta aparece como portadora dessa morte,  qual, ao
mesmo tempo, est sujeita; h nela uma devorao perptua da vida por
ela mesma. Ela s pertence  natureza quando encerra em si um ncleo de
contranatureza. Transferindo sua mais secreta essncia do vegetal ao
animal, a vida abandona o espao da ordem e volta a ser selvagem.
Revela-se mortfera nesse mesmo movimento que a vota  morte. Mata
porque vive. A natureza j no sabe ser boa. Que a vida no possa mais
ser separada do assassnio, a natureza do mal, nem os desejos da
contranatureza, Sade o anunciava ao sculo XVIII, cuja linguagem ele
esgotava, bem como  idade 29      G. Cuvier. Cours d'anatomie
pathologique, t. I, p. 5. moderna, que por longo tempo quis conden-lo
ao mutismo. Que se desculpe a insolncia (para com quem?): Les 120
journes so o reverso aveludado, maravilhoso, das Leons d'anatomie
compare. Em todo o caso, no calendrio de nossa arqueologia, tm a
mesma idade.      Mas esse estatuto imaginrio da animalidade,
totalmente carregada de poderes inquietantes e noturnos, remete de [pg.
383] maneira mais profunda s funes mltiplas e simultneas da vida no
pensamento do sculo XIX. Pela primeira vez talvez na cultura ocidental,
a vida escapa s leis gerais do ser, tal como ele se d e se analisa na
representao. Do outro lado de todas as coisas que esto aqum mesmo
daquelas que podem ser, suportando-as para faz-las aparecer, e
destruindo-as incessantemente pela violncia da morte, a vida se torna
uma fora fundamental e que se ope ao ser como o movimento 
imobilidade, o tempo ao espao, o querer secreto  manifestao visvel.
A vida  a raiz de toda existncia, e o no-vivo, a natureza inerte,
nada mais so que a vida decada; o ser puro e simples  o no-ser da
vida. Pois esta, e  por isso que ela tem um valor radical no pensamento
do sculo XIX,  ao mesmo tempo ncleo do ser e do no-ser: s h ser
porque h vida e, nesse movimento fundamental que os vota  morte, os
seres dispersos e estveis por instantes formam-se, detm-se,
imobilizam-na -- e, num sentido, a matam --, mas so por sua vez
destrudos por essa fora inesgotvel. A experincia da vida
apresenta-se, pois, como a lei mais geral dos seres, o aclaramento dessa
fora primitiva a partir da qual eles so; ela funciona como uma
ontologia selvagem que buscasse dizer o ser e o no-ser indissociveis
de todos os seres. Mas essa ontologia desvela menos o que funda os seres
do que o que os leva, por um instante, a uma forma precria e
secretamente j os mina por dentro, para os destruir. Em relao  vida,
os seres no passam de figuras transitrias e o ser que eles mantm,
durante o episdio de sua existncia, nada mais  que sua presuno, sua
vontade de subsistir. De sorte que, para o conhecimento, o ser das
coisas  iluso, vu que se deve rasgar, para se reencontrar a violncia
muda e invisvel que os devora na noite. A ontologia do aniquilamento
dos seres vale, portanto, como crtica [pg. 384] do conhecimento; mas
trata-se menos de fundar o fenmeno, de dizer ao mesmo tempo seu limite
e sua lei, de report-lo  finitude que o torna possvel, do que de
dissip-lo e destru-lo como a prpria vida destri os seres: pois todo
o seu ser  s aparncia.      V-se constituir-se assim um pensamento
que se ope, quase em cada um de seus termos, ao que estava ligado 
formao de uma historicidade econmica. Vimos como esta ltima se
apoiava sobre uma trplice teoria das necessidades irredutveis, da
objetividade do trabalho e do fim da histria. Aqui vemos, ao contrrio,
desenvolver-se um pensamento em que a individualidade, com suas formas,
seus limites e suas necessidades, no passa de um momento precrio,
votado  destruio, formando, em tudo e por tudo, um simples obstculo
que, na via desse aniquilamento, tem de ser afastado; um pensamento em
que a objetividade das coisas no passa de aparncia, quimera da
percepo, iluso que  preciso dissipar e restituir  pura vontade sem
fenmeno que as fez nascer e as suportou por um instante; um pensamento,
enfim, para o qual o recomeo da vida, suas retomadas incessantes, sua
obstinao, excluem que se lhe estabelea um limite no curso do tempo,
tanto mais que o prprio tempo, com suas divises cronolgicas e seu
calendrio quase espacial, no , sem dvida, mais que uma iluso do
conhecimento. L onde um pensamento prev o fim da histria, o outro
anuncia o infinito da vida; onde um reconhece a produo real das coisas
pelo trabalho, o outro dissipa as quimeras da conscincia; onde um
afirma com os limites do indivduo as exigncias de sua vida, o outro os
apaga no murmrio da morte. Ser essa oposio o sinal de que, a partir
do sculo XIX, o campo do saber no pode mais dar lugar a uma reflexo
homognea e uniforme em todos os seus pontos? Ser preciso admitir que,
doravante, [pg. 385] cada forma de positividade tem a "filosofia" que
lhe convm: a economia, a de um trabalho marcado pelo signo da
necessidade, mas destinado finalmente  grande recompensa do tempo; a
biologia, a de uma vida marcada por essa continuidade que s forma os
seres para os desfazer, achando-se com isso liberada de todos os limites
da Histria? E as cincias da linguagem, uma filosofia das culturas, de
sua relatividade e de seu poder singular de manifestao?
IV. Bopp      "Mas o ponto decisivo que tudo aclarar  a estrutura
interna das lnguas ou a gramtica comparada, a qual nos dar solues
totalmente novas sobre a genealogia das lnguas, da mesma forma como a
anatomia comparada espargiu uma grande luz sobre a histria natural."30
Schlegel bem o sabia: a constituio da historicidade na ordem da
gramtica fez-se segundo o mesmo modelo que na cincia dos seres vivos.
E, na verdade, nada h nisso de surpreendente, pois que, ao longo de
toda a idade clssica, as palavras com que se pensava que as lnguas
eram compostas e os caracteres pelos quais se tentava constituir uma
ordem natural, haviam recebido, identicamente, o mesmo estatuto: s
existiam pelo valor representativo que detinham, bem como pelo poder de
anlise, de reduplicao, de composio e de ordenao que se lhes
reconhecia em relao s coisas representadas. Com Jussieu e Lamarck
primeiramente, com Cuvier em seguida, o carter perdera sua funo
representativa, ou antes, se ele [pg. 386] podia ainda "representar" e
permitir o estabelecimento de relaes de vizinhana ou de parentesco,
no era pela virtude prpria de sua estrutura visvel nem dos elementos
descritveis de que era composto, mas porque fora primeiro reportado a
uma organizao de conjunto e a uma funo que ele assegura de maneira
direta ou indireta, principal ou colateral, "primria" ou "secundria".
No domnio da linguagem, a palavra sofre, mais ou menos na mesma poca,
uma transformao anloga: certamente, ela no deixa de ter um sentido e
de poder "representar" alguma coisa no esprito de quem a utiliza ou a
escuta; esse papel, porm, no  mais constitutivo da palavra no seu ser
mesmo, na sua arquitetura essencial, no que lhe permite tomar lugar no
interior de uma frase e a ligar-se a outras palavras mais ou menos
diferentes. Se a palavra pode figurar num discurso em que ela quer dizer
alguma coisa, no ser por virtude de uma discursividade imediata que
ela deteria propriamente e por direito de nascimento, mas porque na sua
forma mesma, nas sonoridades que a compem, nas mudanas que sofre
segundo a funo gramatical que ocupa, nas modificaes enfim a que se
acha sujeita atravs do tempo, obedece a certo nmero de leis estritas
que regem de maneira semelhante todos os outros elementos da mesma
lngua; de sorte que a palavra s est vinculada a uma representao, na
medida em que primeiramente faz parte da organizao gramatical pela
qual a lngua define e assegura sua coerncia prpria. Para que a
palavra possa dizer o que ela diz,  preciso que pertena a uma
totalidade gramatical que, em relao a ela,  primeira, fundamental e
determinante.          Esse desnvel da palavra, essa espcie de salto
para trs, para fora das funes 30      Fr. Schlegel. La langue et la
philosophie des indiens. Trad. francesa. Paris, 1837, p. 35.
representativas, foi, certamente, por volta do fim do sculo XVIII, um
dos acontecimentos importantes [pg. 387] da cultura ocidental. E um
daqueles tambm que mais passaram despercebidos. Facilmente se dirige a
ateno para os primeiros momentos da economia poltica, para a anlise
de Ricardo sobre a renda fundiria e o custo da produo: reconhece-se
aqui que o acontecimento teve grandes dimenses, pois, pouco a pouco,
ele no somente permitiu o desenvolvimento de uma cincia, como tambm
acarretou certo nmero de mutaes econmicas e polticas. Tampouco se
descuida demasiado das formas novas assumidas pelas cincias da
natureza; e se  verdade que, por uma iluso retrospectiva, valoriza-se
Lamarck em detrimento de Cuvier, se  verdade que se percebe mal que a
"vida" atinge pela primeira vez, com as Leons d'anatomie compare, seu
limiar de positividade, tem-se, contudo, a conscincia ao menos difusa
de que a cultura ocidental comeou a dirigir, desde aquele momento, um
olhar novo sobre o mundo dos seres vivos. Em contrapartida, o isolamento
das lnguas indo-europias, a constituio de uma gramtica comparada, o
estudo das flexes, a formao das leis de alternncia voclica e de
mutao consonntica -- em suma, toda a obra filolgica de Grimm, de
Schlegel, de Rask e de Bopp permanece s margens de nossa conscincia
histrica, como se ela tivesse to-somente fundado uma disciplina um
pouco lateral e esotrica -- como se, de fato, no fosse todo o modo de
ser da linguagem (e da nossa) que se modificara atravs deles. Sem
dvida, no se deve buscar justificar um tal esquecimento a despeito da
importncia da mudana, mas, ao contrrio, a partir dela e da cega
proximidade que esse acontecimento conserva sempre para nossos olhos mal
desprendidos ainda de suas luzes costumeiras.  que, na poca mesma em
que se produziu, j estava envolto, se no em segredo, ao menos numa
certa discrio. Talvez as mudanas no modo de ser da [pg. 388]
linguagem sejam como as alteraes que afetam a pronncia, a gramtica
ou a semntica: por mais rpidas que sejam, jamais so claramente
apreendidas por aqueles que falam e cuja linguagem, no entanto, j
veicula essas mutaes; s se toma conscincia delas de vis, por
momentos; e, ademais, a deciso s  finalmente indicada de modo
negativo: pelo desuso radical e imediatamente perceptvel da linguagem
que se empregava. Sem dvida, no  possvel a uma cultura tomar
conscincia, de modo temtico e positivo, de que sua linguagem cessa de
ser transparente s suas representaes para espessar-se e receber um
peso prprio. Quando se continua a discorrer, de que modo se saberia --
seno atravs de alguns indcios obscuros que se interpretam com
dificuldade e mal -- que a linguagem (aquela mesma de que se serve) est
em via de adquirir uma dimenso irredutvel  pura discursividade? Por
todas essas razes, certamente, o nascimento da filologia permaneceu, na
conscincia ocidental, muito mais discreto que o da biologia e da
economia poltica. Contudo, fazia parte da mesma transmutao
arqueolgica. Contudo, suas conseqncias talvez se tenham estendido
muito mais longe ainda em nossa cultura, pelo menos nas camadas
subterrneas que a percorrem e a sustentam.      Como se formou essa
positividade filolgica? Quatro segmentos tericos nos assinalam sua
constituio no comeo do sculo XIX -- na poca do Ensaio sobre a
lngua e a filosofia dos indianos de Schlegel (1808), da Deutsche
Grammatik de Grimm (1818) e do livro de Bopp sobre o Sistema de
conjugao do snscrito (1816).      1. O primeiro desses segmentos
concerne  maneira como uma lngua pode caracterizar-se internamente e
distinguir-se das outras. Na poca clssica, podia-se definir a
individualidade de uma lngua a partir de vrios critrios: proporo
[pg. 389] entre os diferentes sons utilizados para formar palavras (h
lnguas de predominncia voclica e outras de predominncia
consonntica), privilgio concedido a certas categorias de palavras
(lnguas de substantivos concretos, lnguas de substantivos abstratos
etc.), maneira de representar as relaes (por preposies ou por
declinaes), disposio escolhida para colocar as palavras em ordem
(quer se coloque de incio, como os franceses, o sujeito lgico, quer se
d a primazia s palavras mais importantes, como em latim); assim se
distinguiam as lnguas do Norte e as do Sul, as do sentimento e as da
necessidade, as da liberdade e as da escravatura, as da barbrie e as da
civilizao, as do raciocnio lgico e as da argumentao retrica:
todas essas distines entre as lnguas nunca concerniam mais que 
maneira como elas podiam analisar a representao e, em seguida, compor
seus elementos. Mas, a partir de Schlegel, as lnguas, ao menos na sua
tipologia mais geral, se definem pela maneira como ligam uns aos outros
os elementos propriamente verbais que a compem; entre esses elementos,
alguns certamente so representativos; possuem, em todo o caso, um valor
de representao que  visvel; mas outros no detm nenhum sentido e
servem somente, por uma certa composio, para determinar o sentido de
um outro elemento na unidade do discurso.  esse material -- feito de
nomes, de verbos, de palavras em geral, mas tambm de slabas, de sons
-- que as lnguas renem para formar proposies e frases. Mas a unidade
material constituda pela disposio dos sons, das slabas e das
palavras no  regida pela pura e simples combinatria dos elementos da
representao. Ela tem seus princpios prprios e que diferem nas
diversas lnguas: a composio gramatical tem regularidades que no so
transparentes  significao do discurso. Ora, como a significao pode
passar, [pg. 390] quase integralmente, de uma lngua para outra, so
essas regularidades que vo permitir definir a individualidade de uma
lngua. Cada uma tem um espao gramatical autnomo; podem-se comparar
esses espaos lateralmente, isto , de uma lngua para outra, sem ter de
passar por um "meio" comum que seria o campo da representao com todas
as suas subdivises possveis.           fcil distinguir, de imediato,
dois grandes modos de combinao entre os elementos gramaticais. Um
consiste em justap-los de maneira que eles se determinem uns aos
outros; nesse caso, a lngua  feita de uma poeira de elementos -- em
geral muito sucintos -- que podem combinar-se de diferentes maneiras,
cada uma dessas unidades guardando, porm, sua autonomia, a
possibilidade, portanto, de romper o liame transitrio que, no interior
de uma frase ou de uma proposio, ela acaba de instaurar com uma outra.
A lngua se define ento pelo nmero de suas unidades e por todas as
combinaes possveis que podem, no discurso, estabelecer- se entre
elas; trata-se ento de uma "reunio de tomos", de uma "agregao
mecnica operada por uma aproximao exterior"31. Existe outro modo de
ligao entre os elementos de uma lngua:  o sistema de flexes que
altera internamente as slabas ou as palavras essenciais -- as formas
radicais. Cada uma dessas formas carrega consigo certo nmero de
variaes possveis, determinadas de antemo; e, conforme as outras
palavras da frase, conforme as relaes de dependncia ou de correlao
entre essas palavras, conforme as vizinhanas e as associaes, ser
utilizada esta ou aquela varivel. Aparentemente, esse modo de ligao 
menos rico que [pg. 391] o primeiro, pois que o nmero das
possibilidades combinatrias  31      Fr. Schlegel. Essai sur la langue
et la philosophie des indiens. Trad. francesa. Paris, 1837, p. muito
mais restrito; na realidade, porm, o sistema da flexo jamais existe
sob sua forma pura e mais descarnada; a modificao interna do radical
lhe permite receber por adio elementos que so, eles prprios,
modificveis interiormente, de sorte que, "cada raiz  verdadeiramente
uma espcie de grmen vivo; pois as relaes sendo indicadas por uma
modificao interior e sendo dado um livre campo ao desenvolvimento da
palavra, esta palavra pode estender-se de maneira ilimitada"32.
A esses dois grandes tipos de organizao lingstica correspondem, por
um lado, o chins, em que "as partculas que designam as idias
sucessivas so monosslabos, tendo sua existncia  parte" e, de outro,
o snscrito, cuja "estrutura  completamente orgnica, ramificando-se,
por assim dizer, com a ajuda de flexes, de modificaes interiores e de
entrelaamentos variados do radical"33. Entre esses modelos maiores e
extremos, podem-se repartir todas as outras lnguas, quaisquer que
sejam; cada uma ter necessariamente uma organizao que a aproximar de
um dos dois, ou que a manter a igual distncia, no meio do campo assim
definido. Mais prximas do chins, encontram-se o basco, o copta, as
lnguas americanas; elas ligam, uns aos outros, elementos separveis;
mas estes, em vez de permanecerem sempre em estado livre e como tomos
verbais irredutveis, "comeam j a fundir-se na palavra"; o rabe se
define por uma mistura entre o sistema das afixaes e o das flexes; o
celta  quase exclusivamente uma lngua de flexo, mas nele se encontram
ainda "vestgios de lnguas afixas". Dir-se- talvez que essa oposio
j [pg. 392] era conhecida no sculo XVIII e que se sabia desde muito
tempo distinguir a combinatria das palavras chinesas nas declinaes e
conjugaes de lnguas como o latim e o grego. Objetar-se- tambm que a
oposio absoluta estabelecida por Schlegel no tardou a ser criticada
por Bopp: l onde Schlegel via dois tipos de lnguas radicalmente
inassimilveis uma  outra, Bopp buscou uma origem comum; tenta
estabelecer34 que as flexes no so uma espcie de desenvolvimento
interior e espontneo do elemento primitivo, mas partculas que se
aglomeraram  slaba radical: o m da primeira pessoa em snscrito
(bhavmi) ou o t da terceira (bhavti) 57. 32      Id., ibid., p. 56. 33
Id., ibid., p. 47. 34      Bopp. Ueber das Konjugationssystem der
Sanskritsprache, p. 147. so efeito da adjuno do radical do verbo do
pronome mm (eu) e tm (ele). Mas o importante para a constituio da
filologia no est tanto em saber se os elementos da conjugao puderam
beneficiar-se, num passado mais ou menos longnquo, de uma existncia
isolada com um valor autnomo. O essencial, e o que distingue as
anlises de Schlegel e de Bopp daquelas que, no sculo XVIII, podem
aparentemente antecipar-se a elas35,  que as slabas primitivas no
crescem (por adjuno ou proliferao internas) sem um certo nmero de
modificaes reguladas no radical. Numa lngua como o chins, h apenas
leis de justaposio; mas em lnguas em que os radicais esto sujeitos
ao crescimento (quer sejam monossilbicos como no snscrito ou
polissilbicos como no hebraico), encontram-se sempre formas regulares
de variaes internas. Compreende-se que a nova filologia, tendo agora
para caracterizar as lnguas esses critrios de organizao interior,
haja abandonado as classificaes hierrquicas que o sculo XVIII
praticava: admitia-se ento que havia lnguas mais importantes que [pg.
393] outras porque nelas a anlise das representaes era mais precisa
ou mais fina. Doravante todas as lnguas se equiva- lem: elas tm
somente organizaes internas que so diferentes. Da essa curiosidade
por lnguas raras, pouco faladas, mal "civilizadas", de que Rask deu o
testemunho na sua grande investigao atravs da Escandinvia, da
Rssia, do Cucaso, da Prsia e da ndia.          2. O estudo dessas
variaes internas constitui o segundo segmento terico importante. Nas
suas pesquisas etimolgicas, a gramtica geral estudava,  certo, as
transformaes das palavras e das slabas atravs do tempo. Mas esse
estudo era limitado por trs razes. Incidia mais sobre a metamorfose
das letras do alfabeto do que sobre a maneira como os sons efetivamente
pronunciados podiam ser modi- ficados. Ademais, essas transformaes
eram consideradas como o efeito sempre possvel, em qualquer tempo e sob
todas as condies, de uma certa afinidade das letras entre si;
admitia-se que o p e o b, o m e o n eram bastante vizinhos para que um
pudesse substituir o outro; tais mudanas eram provocadas ou
determinadas somente por essa duvidosa proximidade e pela confuso que
podia seguir-se na pronncia ou na audio. Enfim, as vogais eram
tratadas como o elemento mais fluido e mais instvel da linguagem, ao
passo que as consoantes passavam por 35      J. Horne Tooke. Paroles
volantes. Londres, 1798.      formar sua arquitetura slida (o hebraico,
por exemplo, no dispensa a escrita das      vogais?).            Pela
primeira vez, com Rask, Grimm e Bopp, a linguagem (embora no se
busque reconduzi-la aos seus gritos originrios)  tratada como um
conjunto de      elementos fonticos. Enquanto, para a gramtica geral,
a linguagem nascia quando o      rudo da boca ou dos lbios se tornava
letra, doravante admite-se que h linguagem      quando esses rudos so
articulados e divididos numa srie de sons distintos. Todo o      [pg.
394] ser da linguagem  agora sonoro. O que explica o interesse novo,
manifestado pelos irmos Grimm e por Raynouard, pela literatura
no-escrita, as      narrativas populares e os dialetos falados.
Procura-se a linguagem o mais perto      possvel do que ela : na fala
-- essa fala que a escrita desseca e imobiliza num      lugar. Toda uma
mstica est em via de nascer: a do verbo, do puro fulgor potico
que passa sem rastro, deixando atrs de si apenas uma vibrao suspensa
por um      instante. Na sua sonoridade passageira e profunda, a fala se
torna soberana. E seus      secretos poderes, reanimados pelo sopro dos
profetas, opem-se fundamentalmente      (ainda que tolerem alguns
entrecruzamentos) ao esoterismo da escrita que, por seu      lado, supe
a permanncia ressequida de um segredo no centro de labirintos visveis.
A linguagem j no  propriamente esse signo -- mais ou menos longnquo,
semelhante e arbitrrio -- ao qual a Lgica de Port-Royal propunha, como
modelo      imediato e evidente, o retrato de um homem ou um mapa
geogrfico. Adquiriu uma      natureza vibratria que a destaca do signo
visvel para aproxim-la da nota musical.      E foi preciso justamente
que Saussure contornasse esse momento da fala, que foi      capital para
toda a filologia do sculo XIX, para restaurar, para alm das formas
histricas, a dimenso da lngua em geral e reabrir, acima de tanto
esquecimento, o      velho problema do signo que animara, sem
interrupo, todo o pensamento desde      Port-Royal at os ltimos
idelogos.            No sculo XIX comea, pois, uma anlise da
linguagem tratada como um      conjunto de sons liberados das letras que
os podem transcrever36. Ela foi feita em      trs direes. Primeiro
[pg. 395] a tipologia das diversas sonoridades que so      utilizadas
numa lngua: para as vogais, por exemplo, oposio entre as simples e as
36       Censurou-se muitas vezes Grimm por ter confundido letras e sons
(ele analisa Schrift em oito      elementos porque divide/em p e em h).
Era, na verdade, difcil tratar a linguagem como puro      elemento
sonoro. duplas (alongadas como em , ; ou ditongadas como em ae, ai);
entre as vogais simples, oposio entre as puras (a, i, o, u) e as
flexionadas (e, , ); entre as puras, h as que podem ter vrias
pronncias (como o o) e as que s tm uma (a, i, u); enfim, entre estas
ltimas, umas esto sujeitas  mudana e podem receber o Umlaut (a e u);
quanto ao i, permanece sempre fixo37. A segunda forma de anlise incide
sobre as condies que podem determinar uma mudana numa sonoridade; seu
lugar no vocbulo , em si mesmo, um fator importante: uma slaba, se
for terminal, protege menos facilmente sua permanncia do que se
constituir a raiz; as letras do radical, diz Grimm, tm vida longa; as
sonoridades da desinncia tm uma vida mais curta. Mas, alm disso, h
determinaes positivas, pois "a manuteno ou a mudana" de uma
sonoridade qualquer "no  jamais arbitrria"38. Essa ausncia de
arbitrrio era para Grimm a determinao de um sentido (no radical de um
grande nmero de verbos alemes o a se ope ao i como o pretrito ao
presente). Para Bopp, ela  o efeito de um certo nmero de leis. Umas
definem as regras de mudana quando duas consoantes se acham em contato:
"Assim, quando se diz em snscrito at-ti (ele come) no lugar de ad-ti
(da raiz ad, comer), a mudana de d e t tem por causa uma lei fsica."
Outras definem o modo de ao de uma terminao sobre as sonoridades do
radical: "Por leis mecnicas, entendo principalmente as leis do peso e,
em particular, a influncia que o peso das [pg. 396] desinncias
pessoais exerce sobre a slaba precedente."39 Finalmente, a ltima forma
de anlise incide sobre a constncia das transformaes atravs da
Histria. Grimm estabeleceu assim uma tabela de correspondncia para as
labiais, as dentais e as guturais entre o grego, o "gtico" e o
alto-alemo: o p, o b, o f dos gregos tornam-se respectivamente f, p, b
em gtico e b ou v, f e p em alto-alemo; t, d, th, em grego, tornam-se,
em gtico, th, t, d, e, em alto-alemo, d, z, t. Por esse conjunto de
relaes, os caminhos da histria se acham prescritos; e, em vez de as
lnguas serem submetidas a essa medida exterior, a essas coisas da
histria humana que deviam, para o pensamento clssico, explicar suas
mudanas, detm elas prprias um princpio de evoluo. A, como 37   J.
Grimm. Deutsche Grammatik. 2. ed., 1822, t. I , p. 5. Essas anlises
no se encontram na primeira edio (1818). 38      Id., ibid., p.5. 39
Bopp. Grammaire compare. Trad. francesa. Paris, 1866, p. 1, nota.
alhures,  a "anatomia"40 que fixa o destino.          3. Essa definio
de uma lei das modificaes consonnticas ou voclicas permite
estabelecer uma teoria nova do radical. Na poca clssica, as razes
eram assinaladas por um duplo sistema de constantes: as constantes
alfabticas que incidiam sobre um nmero arbitrrio de letras (em certos
casos, s havia uma) e as constantes significativas, que reagrupavam sob
um tema geral uma quantidade indefinidamente extensvel de sentidos
vizinhos; no cruzamento dessas duas constantes, l onde um mesmo sentido
vinha  luz por uma mesma letra ou uma mesma slaba, individualizava-se
uma raiz. A raiz era um ncleo expressivo transformvel ao infinito a
partir de uma sonoridade primeira. Mas se vogais e consoantes s se
transformam segundo certas leis e sob certas condies, ento o radical
deve ser uma individualidade lingstica estvel (dentro [pg. 397] de
certos limites), que se pode isolar com suas variaes eventuais e que
constitui com suas diferentes formas possveis um elemento de linguagem.
Para determinar os elementos primeiros e absolutamente simples de uma
lngua, a gramtica geral devia ascender at o ponto de contato
imaginrio onde o som, no ainda verbal, tocava de certo modo na
vivacidade mesma da representao. Doravante, os elementos de uma lngua
lhe so interiores (mesmo se pertencem tambm s outras): existem meios
puramente lingsticos para estabelecer sua composio constante e a
tabela de suas modificaes possveis. A etimologia, portanto, vai
deixar de ser um procedimento indefinidamente regressivo em direo a
uma lngua primitiva, toda povoada pelos primeiros gritos da natureza;
torna-se um mtodo de anlise preciso e limitado para reencontrar numa
palavra o radical a partir do qual ela foi formada: "As razes das
palavras s foram postas em evidncia aps o sucesso da anlise das
flexes e das derivaes."41 Pode-se assim estabelecer que, em certas
lnguas como as semticas, as razes so bissilbicas (em geral de trs
letras); que noutras (as indo-germnicas) so regularmente
monossilbicas; algumas so constitudas por uma s e nica vogal (i  o
radical dos verbos que querem dizer ir, u dos que significam
repercutir); mas, a maior parte do tempo, a raiz nessas lnguas comporta
ao menos uma consoante e uma vogal -- a consoante podendo ser terminal
ou inicial; no primeiro caso, a vogal 40      J. Grimm. L `origine du
langage. Trad. francesa. Paris, 1859, p. 7. 41      J. Grimm. L'origine
du langage, p. 37. Cf. tambm Deutsche Grammatik, I, p. 588. 
necessariamente inicial; no outro caso, ocorre ser ela seguida por uma
segunda consoante que lhe serve de apoio (como na raiz ma, mad, que d
em latim metiri, em alemo messen42. Tambm ocorre que essas razes
monossilbicas [pg. 398] sejam redobradas, como do se redobra no
snscrito dadami, e o grego didmi, ou sta em tishtami e istmi43.
Finalmente e sobretudo, a natureza da raiz e seu papel constituinte na
linguagem so concebidos de um modo absolutamente novo: no sculo XVIII,
a raiz era um nome rudimentar que designava, em sua origem, uma coisa
concreta, uma representao imediata, um objeto que se oferecia ao olhar
ou a qualquer um dos sentidos. A linguagem se construa a partir do jogo
de suas caracterizaes nominais; a derivao estendia seu alcance; a
abstrao fazia nascer os adjetivos; e bastava ento acrescentar a estes
o outro elemento irredutvel, a grande funo montona do verbo ser,
para que se constitusse a categoria das palavras conjugveis -- espcie
de condensao numa forma verbal do ser e do epteto. Tambm Bopp admite
que os verbos so mistos, obtidos pela coagulao do verbo com uma raiz.
Mas sua anlise difere, em vrios pontos essenciais, do esquema
clssico: no se trata da adio virtual, subjacente e invisvel da
funo atributiva e do sentido proposicional que se empresta ao verbo
ser; trata-se primeiramente de uma juno material entre um radical e as
formas do verbo ser. o as snscrito se reencontra no sigma do aoristo
grego, no er, do mais-que-perfeito ou do futuro anterior latino; o bhu
snscrito se encontra no b do futuro e do imperfeito latinos. Ademais,
essa adjuno do verbo ser permite essencialmente atribuir ao radical um
tempo e uma pessoa (a desinncia constituda pelo radical do verbo ser
comportando, alm disso, aquele do pronome pessoal, como em
script-s-i44. Por conseguinte, no  a adjuno de ser que transforma um
epteto em verbo; o prprio radical detm uma [pg. 399] significao
verbal,  qual as desinncias derivadas da conjugao de ser acrescentam
somente modificaes de pessoas de tempo. Portanto, as razes dos verbos
no designam na origem "coisas", mas aes, processos, desejos,
vontades; e so elas que, recebendo certas desinncias provindas do
verbo ser e dos pronomes pessoais, tornam-se suscetveis de conjugao,
ao 42      J. Grimm. L `origine du langage, p. 41. 43      Bopp. Ueber
das Konjugationssystem der Sanskritsprache. 44      Bopp, loc. cit., pp.
147 ss. passo que, recebendo outros sufixos, eles prprios modificveis,
elas se tornaro nomes suscetveis de declinao.  bipolaridade
nomes-verbo ser, que caracterizava a anlise clssica,  preciso, pois,
substituir uma disposio mais complexa: razes de significao verbal,
que podem receber desinncias de tipos diferentes e assim dar nascimento
a verbos conjugveis ou a substantivos. Os verbos (e os pronomes
pessoais) tornam-se assim o elemento primordial da linguagem -- aquele a
partir do qual ela pode desenvolver-se. "O verbo e os pronomes pessoais
parecem ser as verdadeiras alavancas da linguagem."45          As
anlises de Bopp deviam ter uma importncia capital no somente para a
decomposio interna de uma lngua, mas ainda para definir o que pode
ser a linguagem em sua essncia. Ela no  mais um sistema de
representaes que tem poder de recortar e de recompor outras
representaes; designa, em suas razes mais constantes, aes, estados,
vontades; mais do que o que se v, pretende dizer originariamente o que
se faz ou o que se sofre; e, se acaba por mostrar as coisas como que as
apontando com o dedo,  na medida em que elas so o resultado, ou o
objeto, ou o instrumento dessa ao; os nomes no recortam tanto o
quadro complexo de uma representao; recortam, detm e imobilizam o
processo de uma ao. A linguagem "enraza-se" no do lado das [pg.
400] coisas percebidas, mas do lado do sujeito em sua atividade. E
talvez seja ela ento proveniente do querer e da fora, mais do que
dessa memria que reduplica a representao. Fala-se porque se age e no
porque, reconhecendo, se conhece. Como a ao, a linguagem exprime uma
vontade profunda. O que tem duas conseqncias. A primeira  paradoxal
para um olhar apressado:  que, no momento em que a filologia se
constitui pela descoberta de uma dimenso da gramtica pura, volta-se a
atribuir  linguagem profundos poderes de expresso (Humboldt no 
apenas contemporneo de Bopp; conhecia sua obra e detalhadamente):
enquanto na poca clssica a funo expressiva da linguagem s era
requerida no ponto de origem e apenas para explicar que um som pudesse
representar uma coisa, no sculo XIX, a linguagem vai ter, ao longo de
todo o seu percurso e nas suas formas mais complexas, um valor
expressivo que  irredutvel; nada de arbitrrio, nenhuma conveno
gramatical podem obliter-la, pois, se a linguagem exprime, no o faz na
medida em que imite e 45      J. Grimm. L `origine du langage, p. 39.
reduplique as coisas, mas na medida em que manifesta e traduz o querer
fundamental daqueles que falam. A segunda conseqncia consiste em que a
linguagem no est mais ligada s civilizaes pelo nvel de
conhecimentos que elas atingiram (a finura da rede representativa, a
multiplicidade dos liames que se podem estabelecer entre os elementos),
mas pelo esprito do povo que as fez nascer, as anima e se pode
reconhecer nelas. Assim como o organismo vivo manifesta, por sua
coerncia, as funes que o mantm em vida, a linguagem, e isso em toda
a arquitetura de sua gramtica, torna visvel a vontade fundamental que
mantm um povo em vida e lhe d o poder de falar uma linguagem que s a
ele pertence. Desde logo, as condies de historicidade da linguagem so
modificadas; as mutaes [pg. 401] no vm mais do alto (da elite dos
sbios, do pequeno grupo de mercadores e viajantes, dos exrcitos
vitoriosos, da aristocracia de invaso), mas nascem obscuramente de
baixo, pois a linguagem no  um instrumento, ou um produto -- um ergon,
como dizia Humboldt -- mas uma incessante atividade -- uma energea.
Numa lngua, quem fala e no cessa de falar, num murmrio que no se
ouve mas de onde vem, no entanto, todo o esplendor,  o povo. Grimm
pensava surpreender esse murmrio escutando o altdeutsche Meistergesang,
e Raynouard, transcrevendo as Posies originales des troubadours. A
linguagem est ligada no mais ao conhecimento das coisas, mas 
liberdade dos homens: "A linguagem  humana:  nossa plena liberdade
deve sua origem e seus progressos; ela  nossa histria, nossa
herana."46 No momento em que se definem as leis internas da gramtica,
estabelece-se um profundo parentesco entre a linguagem e o livre destino
dos homens. Ao longo de todo o sculo XIX, a filologia ter profundas
ressonncias polticas.          4. A anlise das razes tornou possvel
uma nova definio dos sistemas de parentesco entre as lnguas. E  este
o quarto grande segmento terico que caracteriza o aparecimento da
filologia. Essa definio supe, primeiramente, que as lnguas se
agrupem em conjuntos descontnuos uns em relao aos outros. A gramtica
geral exclua a comparao na medida em que admitia em todas as lnguas,
quaisquer que fossem, duas ordens de continuidade; uma, vertical,
permitia- lhes, a todas, dispor do acervo das razes mais primitivas
que, atravs de algumas 46      J. Grimm. L `origine des langues, p. 50.
transformaes, religava cada linguagem s articulaes iniciais; outra,
horizontal, fazia as lnguas se comunicarem na universalidade da
representao: [pg. 402] todas elas tinham de analisar, decompor e
recompor representaes que, em limites bastante amplos, eram as mesmas
para o gnero humano inteiro. De sorte que no era possvel comparar as
lnguas, salvo de um modo indireto, e como que por um trajeto
triangular; podia-se analisar a maneira como esta e aquela lngua haviam
tratado e modificado o equipamento comum das razes primitivas; podia-se
tambm comparar como duas lnguas recortavam e religavam as mesmas
representaes. Ora, o que se tornou possvel, a partir de Grimm e de
Bopp, foi a comparao direta e lateral de duas ou vrias lnguas.
Comparao direta por no ser mais necessrio passar pelas
representaes puras ou pela raiz absolutamente primitiva: basta estudar
as modificaes do radical, o sistema das flexes, a srie das
desinncias. Mas com- parao lateral, que no ascende aos elementos
comuns a todas as lnguas, nem ao fundo representativo no qual se
nutrem: no  portanto possvel reportar uma lngua  forma ou aos
princpios que tornam todas as outras possveis;  preciso agrup-las
segundo sua proximidade formal: "A semelhana se acha no somente no
grande nmero de razes comuns, mas se estende ainda at a estrutura
interior das lnguas e at a gramtica."47          Ora, essas
estruturas gramaticais, que podem ser comparadas diretamente entre si,
oferecem dois caracteres particulares. Primeiro, o de s existirem em
sistemas: com radicais monossilbicos, um certo nmero de flexes 
possvel; o peso das desinncias pode ter efeitos cujo nmero e natureza
so determinveis; os modos de afixao correspondem a alguns modelos
perfeitamente fixos; j nas lnguas de radicais polissilbicos, todas as
modificaes e composies [pg. 403] obedecero a outras leis. Entre
dois sistemas como esses (um, caracterstico das lnguas indo-
europias, outro, das lnguas semticas), no se encontra tipo
intermedirio nem formas de transio. De uma famlia a outra h
descontinuidade. Por outro lado, porm, os sistemas gramaticais, j que
prescrevem certo nmero de leis de evoluo e de mutao, permitem fixar
at certo ponto o ndice de envelhecimento de uma lngua; para que tal
forma aparecesse a partir de certo radical, foi necessria tal ou qual
transformao. Na idade clssica, quando duas lnguas se assemelhavam,
era 47      Fr. Schlegel. Essai sur la langue et la philosophie des
indiens, p. 11. preciso ou vincular ambas  lngua absolutamente
primitiva, ou ento admitir que uma provinha da outra (mas o critrio
era externo, a lngua mais derivada sendo muito simplesmente a que
tivesse aparecido na histria em data mais recente), ou ainda admitir
permutas (devidas a acontecimentos extralingsticos: invaso, comrcio,
migrao). Agora, quando duas lnguas apresentam sistemas anlogos,
deve-se poder decidir ou que uma  derivada da outra, ou ainda que so
ambas pro- venientes de uma terceira, a partir da qual cada uma delas
desenvolveu sistemas diferentes por um lado, mas tambm anlogos por
outro. Foi assim que, a propsito do snscrito e do grego, abandonou-se
sucessivamente a hiptese de Coeurdoux, que acreditava em vestgios da
lngua primitiva, e a de Anquetil, que supunha uma mistura na poca do
reino de Bactriana; e Bopp pde tambm refutar Schlegel, para quem "a
lngua indiana era a mais antiga, e as outras (latim, grego, lnguas
germnicas e persas) eram mais modernas e derivadas da primeira48.
Mostrou ele que, entre o snscrito, o latim e o grego, as lnguas
germnicas, havia uma relao de "fraternidade", sendo o snscrito no a
lngua me das outras, [pg. 404] mas antes a irm primognita, a mais
prxima de uma lngua que teria estado na origem de toda essa famlia.
V-se que a historicidade introduziu-se no domnio das lnguas como no
dos seres vivos. Para que uma evoluo -- que no fosse somente percurso
de continuidades ontolgicas -- pudesse ser pensada, foi necessrio que
o plano ininterrupto e liso da histria natural fosse quebrado, que a
descontinuidade das ramificaes fizesse aparecer os planos de
organizao na sua diversidade sem intermedirio, que os organismos se
ordenassem s disposies funcionais que eles devem assegurar e que se
estabelecessem assim as relaes do ser vivo com o que lhe permite
existir. Da mesma forma, foi preciso, para que a histria das lnguas
pudesse ser pensada, que elas fossem destacadas dessa grande
continuidade cronolgica que as religava sem ruptura at a origem; foi
preciso tambm liber-las da superfcie comum das representaes onde
estavam presas; graas a essa dupla ruptura, a heterogeneidade dos
sistemas gramaticais apareceu com seus recortes prprios, as leis que em
cada um prescrevem a mudana e os caminhos que fixam as possibilidades
da evoluo. Uma vez suspensa a histria das espcies como 48      Fr.
Schlegel. Essai sur la langue et la philosophie dos indiens, p. 12.
seqncia cronolgica de todas as formas possveis, ento, e somente
ento, o ser vivo pde receber uma historicidade; do mesmo modo, se no
se tivesse suspendido, na ordem da linguagem, a anlise dessas
derivaes indefinidas e dessas misturas sem limites que a gramtica
geral supunha sempre, a linguagem jamais teria sido afetada por uma
historicidade interna. Foi preciso tratar o snscrito, o grego, o latim,
o alemo numa simultaneidade sistemtica; rompendo com toda cronologia,
foi mister instal-los num tempo fraternal, para que suas estruturas se
tornassem transparentes e para que a se pudesse ler uma histria das
lnguas. Aqui como alhures, [pg. 405] as colocaes em srie
cronolgica tiveram de ser apagadas, seus elementos redistribudos, e
constituiu-se ento uma histria nova, que enuncia no somente o modo de
sucesso dos seres e seu encadeamento no tempo, mas as modalidades de
sua formao. A empiricidade -- trata-se tanto dos indivduos naturais
quanto das palavras com que podem ser nomeados -- est doravante
atravessada pela Histria e em toda a espessura de seu ser. A ordem do
tempo comea.      H, entretanto, uma diferena capital entre as
lnguas e os seres vivos. Estes s tm histria verdadeira por uma certa
relao entre suas funes e suas condies de existncia. E se 
verdade que  sua composio interna de indivduos organizados que torna
possvel sua historicidade, esta s se torna histria real em virtude
desse mundo exterior em que eles vivem. Foi necessrio portanto, para
que essa histria aparecesse em plena luz e fosse descrita num discurso,
que  anatomia comparada de Cuvier se acrescentasse a anlise do meio
ambiente e das condies que agem sobre o ser vivo. A "anatomia" da
linguagem, para retomar a expresso de Grimm, funciona, em
contrapartida, no elemento da Histria: pois  uma anatomia das mudanas
possveis que anuncia, no a coexistncia real dos rgos ou sua mtua
excluso, mas o sentido no qual as mutaes podero ou no se dar. A
nova gramtica  imediatamente diacrnica. Como poderia ser de outro
modo, j que sua positividade no podia ser instaurada seno por uma
ruptura entre a linguagem e a representao? A organizao interior das
lnguas, o que elas autorizam e o que elas excluem para poder funcionar,
isso no podia mais ser apreendido seno na forma das palavras; mas, em
si mesma, essa forma s pode enunciar sua prpria lei quando reportada a
seus estados anteriores, s mudanas de que  suscetvel, s
modificaes que jamais se produzem. [pg. 406] Ao ser separada daquilo
que ela representa, a linguagem certamente aparecia, pela primeira vez,
na sua legalidade prpria, e, no mesmo movimento, ficava-se votado a s
poder apreend-la na histria. Sabe-se bem que Saussure s pde escapar
a essa vocao diacrnica da filologia, restaurando a relao da
linguagem com a representao, disposto a reconstituir uma "semiologia"
que,  maneira da gramtica geral, define o signo pela ligao entre
duas idias. O mesmo acontecimento arqueolgico manifestou-se, pois, de
modo parcialmente diferente para a histria natural e para a linguagem.
Destacando-se os caracteres do ser vivo ou as regras da gramtica das
leis de uma representao que se analisa, tornou-se possvel a
historicidade da vida e da lingua- gem. Mas essa historicidade, na ordem
da biologia, teve necessidade de uma histria suplementar que devia
enunciar as relaes entre o indivduo e o meio ambiente; em certo
sentido, a histria da vida  exterior  historicidade do ser vivo; 
por isso que o evolucionismo constitui uma teoria biolgica cuja
condio de possibilidade foi uma biologia sem evoluo -- a de Cuvier.
A historicidade da linguagem, ao contrrio, descobre, desde logo e sem
intermedirio, sua histria; comunicam-se interiormente uma com a outra.
Enquanto a biologia do sculo XIX avanar cada vez mais em direo ao
exterior do ser vivo, ao seu outro lado, tornando sempre mais permevel
essa superfcie do corpo em que o olhar do naturalista outrora se
detinha, a filologia desfar as relaes que o gramtico estabelecera
entre a linguagem e a histria externa para definir uma histria
interior. E esta, uma vez assegurada na sua objetividade, poder servir
de fio condutor para reconstituir, em proveito da Histria propriamente
dita, acontecimentos afastados de toda memria. [pg. 407]
V. A linguagem tornada objeto          Pode-se observar que os quatro
segmentos tericos que acabam de ser analisados, por constiturem sem
dvida o solo arqueolgico da filologia, correspondem, termo a termo, e
opem-se aos que permitiam definir a gramtica geral49. Remontando do
ltimo ao primeiro desses quatro segmentos, v-se que a 49      Cf.
supra, p. 177. teoria do parentesco entre as lnguas (descontinuidade
entre as grandes famlias e analogias internas no regime das mudanas)
faz face  teoria da derivao, que supunha incessantes fatores de
desgaste e de mistura, agindo do mesmo modo sobre todas as lnguas,
quaisquer que fossem, a partir de um princpio externo e com efeitos
ilimitados. A teoria do radical ope-se  da designao: pois o radical
 uma individualidade lingstica isolvel, interior a um grupo de
lnguas e que serve, antes de tudo, de ncleo para formas verbais, ao
passo que a raiz, transpondo a linguagem para o lado da natureza e do
grito, exauria-se at no ser mais que uma sonoridade indefinidamente
transformvel, que tinha por funo um primeiro recorte nominal das
coisas. O estudo das variaes interiores da lngua ope-se igualmente 
teoria da articulao representativa: esta definia as palavras e as
individualizava umas em face das outras, reportando-as ao contedo que
podiam significar; a articulao da linguagem era a anlise visvel da
representao; agora as palavras se caracterizam primeiramente por sua
morfologia e pelo conjunto das mutaes que cada uma de suas sonoridades
pode eventualmente sofrer. Enfim e sobretudo, a anlise interior da
lngua faz face ao primado que o pensamento clssico atribua ao verbo
ser. este reinava nos [pg. 408] limites da linguagem, ao mesmo tempo
porque era o liarne primeiro das palavras e porque detinha o poder
fundamental da afirmao; marcava o limiar da linguagem, indicava sua
especificidade e a vinculava, de um modo que no podia ser apagado, s
formas do pensamento. A anlise independente das estruturas gramaticais,
tal como praticada a partir do sculo XIX, isola ao contrrio a
linguagem, trata-a como uma organizao autnoma, rompe seus liames com
os juzos, a atribuio e a afirmao. A passagem ontolgica que o verbo
ser assegurava entre falar e pensar acha-se rompida; a linguagem, desde
logo, adquire um ser prprio. E  esse ser que detm as leis que o
regem.      A ordem clssica da linguagem encerrou-se agora sobre si
mesma. Perdeu sua transparncia e sua funo principal no domnio do
saber. Nos sculos XVII e XVIII, ela era o desenrolar imediato e
espontneo das representaes; era nela primeiramente que estas recebiam
seus primeiros signos, recortavam e reagrupavam seus traos comuns,
instauravam relaes de identidade ou de atribuio; a linguagem era um
conhecimento, e o conhecimento era, de pleno direito, um discurso. Em
relao a todo conhecimento, encontrava-se ela, pois, numa situao
fundamental: s se podiam conhecer as coisas do mundo passando por ela.
No porque fizesse parte do mundo numa imbricao ontolgica (como no
Renascimento), mas porque era o primeiro esboo de uma ordem nas
representaes do mundo; porque era a maneira inicial, inevitvel, de
representar as representaes. Era nela que toda generalidade se
formava. O conhecimento clssico era profundamente nominalista. A partir
do sculo XIX, a linguagem se dobra sobre si mesma, adquire sua
espessura prpria, desenvolve uma histria, leis e uma objetividade que
s a ela pertencem. Tornou-se um objeto do conhecimento [pg. 409] entre
tantos outros: ao lado dos seres vivos, ao lado das riquezas e do valor,
ao lado da histria dos acontecimentos e dos homens. Comporta, talvez,
conceitos prprios, mas as anlises que incidem sobre ela so enraizadas
no mesmo nvel que todas as que concernem aos conhecimentos empricos.
Aquela relevncia que permitia  gramtica geral ser ao mesmo tempo
Lgica e com ela entrecruzar-se, est, doravante, reduzida. Conhecer a
linguagem no  mais aproximar-se o mais perto possvel do prprio
conhecimento,  to-somente aplicar os mtodos do saber em geral a um
domnio singular da objetividade.      Esse nivelamento da linguagem que
a reduz ao puro estatuto de objeto acha-se, entretanto, compensado de
trs maneiras. Primeiro, pelo fato de ser ela uma mediao necessria
para todo conhecimento cientfico que pretende manifestar-se como
discurso. Ainda que seja ela prpria disposta, desdobrada e analisada
sob o olhar de uma cincia, ressurge sempre do lado do sujeito que
conhece -- desde que se trate, para ele, de enunciar o que sabe. Da
duas preocupaes que foram constantes no sculo XIX. Uma consiste em
querer neutralizar e como que polir a linguagem cientfica, a tal ponto
que, desarmada de toda singularidade prpria, pu- rificada de seus
acidentes e de suas impropriedades -- como se no pertencessem  sua
essncia --, pudesse tornar-se o reflexo exato, o duplo meticuloso, o
espelho sem nebulosidade de um conhecimento que, esse, no  verbal.  o
sonho positivista de uma linguagem que se mantivesse ao nvel do que se
sabe: uma linguagem- quadro, como aquela, certamente, com que sonhava
Cuvier, quando atribua  cincia o projeto de ser uma "cpia" da
natureza; em face das coisas, o discurso cientfico seria seu "quadro";
mas quadro tem aqui um sentido fundamentalmente diferente daquele que
tinha no [pg. 410] sculo XVIII; tratava-se ento de repartir a
natureza por uma tabela constante de identidades e de diferenas, para a
qual a linguagem oferecia um crivo primeiro, aproximativo e retificvel;
agora a linguagem  quadro, mas no sentido de que, desprendida dessa
trama que lhe d um papel imediatamente classificador, mantm-se a certa
distncia da natureza, para cativ-la por sua prpria docilidade e
recolher finalmente seu retrato fiel50. A outra preocupao --
inteiramente distinta da primeira, ainda que lhe seja correlativa --
consistiu em buscar uma lgica independente das gramticas, dos
vocabulrios, das formas sintticas, das palavras: uma lgica que
pudesse trazer  luz e utilizar as implicaes universais do pensamento,
mantendo-as ao abrigo das singularidades de uma linguagem constituda,
em que poderiam ser mascaradas. Era necessrio que uma lgica simblica
nascesse, com Boole, na mesma poca em que as linguagens se tornavam
objetos para a filologia:  que, malgrado as semelhanas de superfcie e
algumas analogias tcnicas, no se tratava de constituir uma linguagem
universal como na poca clssica; mas sim de representar as formas e os
encadeamentos do pensamento fora de qualquer linguagem; visto que esta
se tornava objeto de cincias, era preciso inventar uma lngua que fosse
antes simbolismo que linguagem e que, por esse motivo, fosse
transparente ao pensamento, no movimento mesmo que lhe permite conhecer.
Poder-se-ia dizer, em certo sentido, que a lgebra lgica e as lnguas
indo-europias so dois produtos de dissociao da gramtica geral:
estas, mostrando o deslizar da linguagem para o lado do objeto
conhecido, aquela, o movimento que a faz oscilar para o lado do ato de
conhecer, [pg. 411] despojando- a ento de toda forma j constituda.
Mas seria insuficiente enunciar o fato sob essa forma puramente
negativa: ao nvel arqueolgico, as condies de possibilidade de uma
lgica no-verbal e as de uma gramtica histrica so as mesmas. Seu
solo de positividade  idntico.          A segunda compensao ao
nivelamento da linguagem est no valor crtico que se emprestou ao seu
estudo. Tornada realidade histrica espessa e consistente, a linguagem
constitui o lugar das tradies, dos hbitos mudos do pensamento, do
esprito obscuro dos povos; acumula uma memria fatal que no se conhece
nem mesmo como memria. Exprimindo seus pensamentos em palavras de que
no so senhores, alojando-as em formas verbais cujas dimenses
histricas lhes escapam, 50      Cf. G. Cuvier. Rapport historique sur
les progrs des sciences naturelles, p. 4. os homens, crendo que seus
propsitos lhes obedecem, no sabem que so eles que se submetem s suas
exigncias. As disposies gramaticais de uma lngua so o a priori do
que a se pode enunciar. A verdade do discurso  burlada pela filologia.
Da esta necessidade de remontar das opinies, das filosofias e talvez
mesmo das cincias at as palavras que as tornaram possveis e, mais
alm, at um pensamento cuja vivacidade no estaria ainda presa na rede
das gramticas. Compreende-se, assim, o re-florescimento muito
acentuado, no sculo XIX, de todas as tcnicas da exegese. Esse
reaparecimento deve-se ao fato de que a linguagem retomou a densidade
enigmtica que tinha no Renascimento. Mas no se tratar agora de
reencontrar uma fala primeira que a estivesse enterrada, mas de
inquietar as palavras que falamos, de denunciar o vinco gramatical de
nossas idias, de dissipar os mitos que animam nossas palavras, de
tornar de novo ruidosa e audvel a parte de silncio que todo discurso
arrasta consigo quando se enuncia. O primeiro livro do Capital  uma
exegese do "valor"; Nietzsche [pg. 412] inteiro, uma exegese de alguns
vocbulos gregos; Freud, a exegese de todas essas frases mudas que
sustentam e escavam ao mesmo tempo nossos discursos aparentes, nossos
fan- tasmas, nossos sonhos, nosso corpo. A filologia, como anlise do
que se diz na profundidade do discurso, tornou-se a forma moderna da
crtica. L onde se tratava, no fim do sculo XVIII, de fixar os limites
do conhecimento, buscar-se- desarticular as sintaxes, romper as
maneiras constringentes de falar, voltar as palavras para o lado de tudo
o que se diz atravs delas e malgrado elas. Deus  talvez menos um alm
do saber que um certo aqum de nossas frases; e se o homem ocidental 
inseparvel dele, no  por uma propenso invencvel a transpor as
fronteiras da experincia, mas porque sua linguagem o fomenta sem cessar
na sombra de suas leis: "Temo que jamais nos desembaracemos de Deus
porque cremos ainda na gramtica."51 A interpretao, no sculo XVI, ia
do mundo (coisas e textos ao mesmo tempo)  Palavra divina que nele se
decifrava; a nossa, pelo menos a que se formou no sculo XIX, vai dos
homens, de Deus, dos conhecimentos ou das quimeras s palavras que os
tornam possveis; e o que ela descobre no  a soberania de um discurso
primeiro,  o fato de que ns somos, antes da mais ntima de nossas
palavras, j dominados e perpassados pela linguagem. Estranho comentrio
a que se 51      Nietzsche. Le crpuscule des idoles. Trad. francesa,
1911, p. 130. entrega a crtica moderna: pois que ele no vai da
constatao de que h linguagem  descoberta daquilo que ela quer dizer,
mas do desdobramento no discurso manifesto ao desvendamento da linguagem
em seu ser bruto.      Os mtodos de interpretao fazem face, pois, no
pensamento moderno, s tcnicas de formalizao: aqueles, com [pg. 413]
a pretenso de fazer falar a linguagem por sob ela prpria e o mais
perto possvel do que, sem ela, nela se diz; estas, com a pretenso de
controlar toda linguagem eventual e de a vergar pela lei do que 
possvel dizer. Interpretar e formalizar tornaram-se as duas grandes
formas de anlise de nossa poca: na verdade, no conhecemos outras. Mas
conhecemos as relaes entre a exegese e a formalizao, somos capazes
de as controlar e de as dominar? Pois, se a exegese nos conduz menos a
um discurso primeiro que  existncia nua de algo como uma linguagem,
no ser ela constrangida a dizer so- mente as formas puras da
linguagem, antes mesmo que esta tenha tomado um sentido? Mas para
formalizar aquilo que se supe ser uma linguagem, no  preciso ter
praticado um mnimo de exegese e interpretado ao menos todas essas
figuras mudas como querendo dizer alguma coisa? Quanto  diviso entre a
interpretao e a formalizao,  verdade que ela hoje nos pressiona e
nos domina. Mas no  bastante rigorosa, a bifurcao que ela delineia
no se entranha suficientemente longe em nossa cultura, seus dois ramos
so demasiado contemporneos para que possamos dizer sequer que ela
prescreve uma simples escolha ou que nos convida a optar entre o passado
que acreditava no sentido e o presente (o futuro) que descobriu o
significante. Trata-se, de fato, de duas tcnicas correlativas, cujo
solo comum de possibilidade  formado pelo ser da linguagem, tal como se
constitui no limiar da idade moderna. A relevncia crtica da linguagem,
que compensava seu nivelamento ao objeto, implicava que ela fosse
reaproximada, ao mesmo tempo, de um ato de conhecer isento de toda fala,
e daquilo que no se conhece em cada um de nossos discursos. Era
necessrio, ou torn-la transparente s formas do conhecimento, ou
entranh-la nos contedos do inconsciente. Isso explica bem a dupla
marcha [pg. 414] do sculo XIX em direo ao formalismo do pensamento e
 descoberta do inconsciente -- em direo a Roussel e a Freud. E
explica tambm as tentaes para inclinar uma para a outra e entrecruzar
essas duas direes: tentativa por trazer  luz, por exemplo, as formas
puras que, antes de qualquer contedo, se impem ao nosso inconsciente;
ou ainda esforo para fazer chegar at nosso discurso o solo de
experincia, o sentido de ser, o horizonte vivido de todos os nossos
conhecimentos. O estruturalismo e a fenomenologia encontram aqui, com
sua disposio prpria, o espao geral que define seu lugar-comum.
Finalmente, a ltima das compensaes ao nivelamento da linguagem, a
mais importante, a mais inesperada tambm,  o aparecimento da
literatura. Da literatura como tal, pois, desde Dante, desde Homero,
existiu realmente, no mundo ocidental, uma forma de linguagem que ns,
agora, denominamos "literatura". Mas a palavra  de recente data, como
recente  tambm em nossa cultura o isolamento de uma linguagem
singular, cuja modalidade prpria  ser "literria".  que, no incio do
sculo XIX, na poca em que a linguagem se entranhava na sua espessura
de objeto e se deixava, de parte a parte, atravessar por um saber, ela
se reconstitua alhures, sob uma forma independente, de difcil acesso,
dobrada sobre o enigma de seu nascimento e inteiramente referida ao ato
puro de escrever. A literatura  a contestao da filologia (de que ,
no entanto, a figura gmea): ela reconduz a linguagem da gramtica ao
desnudado poder de falar, e l encontra o ser selvagem e imperioso das
palavras. Da revolta romntica contra um discurso imobilizado na sua
cerimnia at a descoberta, por Mallarm, da palavra em seu poder
impotente, v-se bem qual foi, no sculo XIX, a funo da literatura em
relao ao modo de ser moderno da linguagem. [pg. 415] Com base nesse
jogo essencial, o restante  efeito: a literatura se distingue cada vez
mais no discurso de idias e se encerra numa intransitividade radical;
destaca-se de todos os valores que podiam, na idade clssica, faz-la
circular (o gosto, o prazer, o natural, o verdadeiro) e faz nascer, no
seu prprio espao, tudo o que pode assegurar-lhe a denegao ldica (o
escandaloso, o feio, o impossvel); rompe com toda definio de
"gneros" como formas ajustadas a uma ordem de representaes e torna-se
pura e simples manifestao de uma linguagem que s tem por lei afirmar
-- contra todos os outros discursos -- sua existncia abrupta; nessas
condies, no lhe resta seno recurvar- se num perptuo retorno sobre
si, como se seu discurso no pudesse ter por contedo seno dizer sua
prpria forma: enderea-se a si como subjetividade escriturante, ou
busca capturar, no movimento que a faz nascer, a essncia de toda
literatura; e assim todos os seus fios convergem para a mais fina ponta
-- singular, instantnea, e contudo absolutamente universal --, para o
simples ato de escrever. No momento em que a linguagem, como palavra
disseminada, se torna objeto de conhecimento, eis que reaparece sob uma
modalidade estritamente oposta: silenciosa, cautelosa deposio da
palavra sobre a brancura de um papel, onde ela no pode ter nem
sonoridade, nem interlocutor, onde nada mais tem a dizer seno a si
prpria, nada mais a fazer seno cintilar no esplendor do seu ser. [pg.
416] CAPTULO IX O HOMEM E SEUS DUPLOS                         I. O
retorno da linguagem      Com a literatura, com o retorno da exegese e a
preocupao da formalizao, com a constituio de uma filologia, em
suma, com o reaparecimento da linguagem num pulular mltiplo, a ordem do
pensamento clssico pode doravante apagar-se. Nessa data entra ela, para
todo olhar futuro, numa regio de sombra. Nem  de obscuridade que se
deveria ainda falar, mas de uma luz um pouco confusa, falsamente
evidente e que oculta mais do que manifesta: parece, com efeito, que
conhecemos tudo de saber clssico, se compreendemos que  racionalista,
que atribui, desde Galileu e Descartes, um privilgio absoluto 
mecnica, que supe uma organizao geral da natureza, que admite uma
possibilidade de anlise bas- tante radical para descobrir o elemento ou
a origem, mas que j pressente, atravs e apesar de todos esses
conceitos de entendimento, o movimento da vida, a espessura da histria
e a desordem, difcil de dominar, da natureza. Mas reconhecer o
pensamento clssico somente por esses sinais  desconhecer-lhe [pg.
417] a disposio fundamental;  negligenciar inteiramente a relao
entre tais manifestaes e o que as tornava possveis. E como, afinal de
contas (a no ser por uma tcnica laboriosa e lenta), reencontrar a
complexa relao das representaes, das identidades, das ordens, das
palavras, dos seres naturais, dos desejos e dos interesses, a partir do
momento em que toda essa grande rede se desfez, em que as necessidades
organizaram por si mesmas sua produo, em que os seres vivos se
voltaram para as funes essenciais da vida, em que as palavras se
carregaram com o peso de sua histria material -- em suma, a partir do
momento em que as identidades da representao cessaram de manifestar,
sem reticncias nem reservas, a ordem dos seres? Todo o sistema dos
crivos que analisava a seqncia das representaes (tnue srie
temporal desenrolando-se no esprito dos homens) para faz-la oscilar,
para det-la, desenvolv-la e reparti-la num quadro permanente, todas
essas querelas constitudas pelas palavras e pelo discurso, pelos
caracteres e pela classificao, pelas equivalncias e pela troca so
agora abolidas a ponto de ser difcil reencontrar a maneira como esse
conjunto pde funcionar. A ltima "pea" que saltou -- e cujo
desaparecimento afastou de ns para sempre o pensamento clssico -- 
justamente o primeiro desses crivos: o discurso que assegurava o
desdobramento inicial, espontneo, ingnuo da representao em quadro.
Desde o dia em que ele cessou de existir e de funcionar no interior da
representao como sua ordenao primeira, o pensamento clssico cessou,
no mesmo movimento, de nos ser diretamente acessvel.      O limiar do
classicismo para a modernidade (mas pouco importam as prprias palavras
-- digamos, de nossa pr-histria para o que nos  ainda contemporneo)
foi definitivamente transposto quando as palavras cessaram de
entrecruzar-se [pg. 418] com as representaes e de quadricular
espontaneamente o conhecimento das coisas. No comeo do sculo XIX, elas
encontraram sua velha, sua enigmtica espessura; no, porm, para
reintegrar a curva do mundo que as alojava no Renascimento, nem para se
misturar s coisas num sistema circular de signos. Destacada da
representao, a linguagem doravante no mais existe, e at hoje ainda,
seno de um modo disperso: para os fillogos, as palavras so como
tantos objetos constitudos e depositados pela histria; para os que
querem formalizar, a linguagem deve despojar-se de seu contedo concreto
e s deixar aparecer as formas universalmente vlidas do discurso; se se
quer interpretar, ento as palavras tornam- se texto a ser fraturado
para que se possa ver emergir, em plena luz, esse outro sentido que
ocultam; ocorre enfim  linguagem surgir por si mesma num ato de
escrever que no designa nada mais que ele prprio. Essa disperso impe
 linguagem, se no um privilgio, ao menos um destino que parece
singular quando comparado ao do trabalho ou da vida. Quando o quadro da
histria natural foi dissociado, os seres vivos foram dispersados, mas
reagrupados, ao contrrio, em torno do enigma da vida; quando a anlise
das riquezas desapareceu, todos os processos econmicos se reagruparam
em torno da produo e do que a tornava possvel; em contrapartida,
quando a unidade da gramtica geral -- o discurso -- se dissipou, ento
a linguagem apareceu segundo modos de ser mltiplos, cuja unidade, sem
dvida, no podia ser restaurada. Foi por essa razo, talvez, que a
reflexo filosfica manteve-se durante muito tempo distanciada da
linguagem. Enquanto buscava incansavelmente do lado da vida ou do
trabalho alguma coisa que fosse seu objeto, ou seus modelos conceptuais,
ou seu solo real e fundamental, s prestava  linguagem uma ateno
marginal; para [pg. 419] ela, tratava-se sobretudo de afastar os
obstculos que a linguagem podia opor  sua tarefa; era necessrio, por
exemplo, liberar as palavras dos contedos silenciosos que as alienava,
ou, ainda, tornar a linguagem flexvel e como que interiormente fluida,
a fim de que, liberta das espacializaes do entendimento, pudesse
restituir o movimento da vida e sua durao prpria. A linguagem s
entrou diretamente e por si prpria no campo do pensamento no fim do
sculo XIX. Poder-se-ia mesmo dizer no sculo XX, se Nietzsche, o
fil-logo -- e nisso tambm era ele to erudito, a esse respeito sabia
tanto e escrevia to bons livros --, no tivesse sido o primeiro a
aproximar a tarefa filosfica de uma reflexo radical sobre a linguagem.
E eis que agora, nesse espao filosfico-filolgico que Nietzsche abriu
para ns, a linguagem surge numa multiplicidade enigmtica que
precisaria ser dominada. Aparecem ento, como tantos projetos (quimeras,
quem pode sab-lo no momento?), os temas de uma formalizao universal
de todo discurso, ou os de uma exegese integral do mundo que seria ao
mesmo tempo sua perfeita desmistificao, ou os de uma teoria geral dos
signos; ou ainda o tema (que foi, sem dvida, historicamente primeiro)
de uma transformao sem resduo, de uma reabsoro integral de todos os
discursos numa nica palavra, de todos os livros numa pgina, de todo o
mundo num livro. A grande tarefa a que se votou Mallarm, e at a morte,
 a que nos domina agora; no seu balbucio, envolve todos os nossos
esforos de hoje para reconduzir  coao de uma unidade talvez
impossvel o ser fragmentado da linguagem. O empenho de Mallarm para
encerrar todo discurso possvel na frgil espessura da palavra, nessa
tnue e material linha negra traada a tinta sobre o papel, responde, no
fundo,  questo que Nietzsche prescrevia  filosofia. [pg. 420] Para
Nietzsche, no se tratava de saber o que eram em si mesmos o bem e o
mal, mas quem era designado, ou antes, quem falava, quando, para
designar-se a si prprio se dizia Agaths, e Deils para designar os
outros1. Pois  a, naquele que mantm o discurso e mais profundamente
detm a palavra, que a linguagem inteira se rene. A esta questo
nietzschiana: quem fala? Mallarm responde e no cessa de retomar sua
resposta, dizendo que o que fala , em sua solido, em sua vibrao
frgil, em seu nada, a prpria palavra -- no o sentido da palavra, mas
seu ser enigmtico e precrio. Enquanto Nietzsche mantinha at o fim a
interrogao sobre aquele que fala, com o risco de fazer afinal a
irrupo de si prprio no interior desse questionamento para fund-lo em
si mesmo, sujeito falante e interrogante: Ecce homo -- Mallarm no
cessa de apagar-se na sua prpria linguagem, a ponto de no mais querer
a figurar seno a ttulo de executor numa pura cerimnia do Livro, em
que o discurso se comporia por si mesmo.  bem possvel que todas as
questes que atravessam atualmente nossa curiosidade (Que  linguagem?
Que  um signo? O que  mudo no mundo, nos nossos gestos, em todo o
braso enigmtico de nossas condutas, em nossos sonhos e em nossas
doenas -- tudo isso fala, e que linguagem sustenta, segundo que
gramtica? Tudo  significante, ou o que o , e para quem, segundo que
regras? Que relao h entre a linguagem e o ser, e  realmente ao ser
que sempre se enderea a linguagem, pelo menos aquela que fala
verdadeiramente? Que , pois, essa linguagem que nada diz, jamais se
cala e se chama "literatura"?) --  bem possvel que todas essas
questes se coloquem hoje na distncia jamais superada entre a questo
de Nietzsche e a resposta que lhe deu Mallarm. [pg. 421]
Sabemos agora donde nos vm essas questes. Elas tornaram-se possveis
pelo fato de que, no comeo do sculo XIX, estando a lei do discurso
destacada da representao, o ser da linguagem achou-se como que
fragmentado; mas elas se tornaram necessrias quando, com Nietzsche, com
Mallarm, o pensamento foi reconduzido, e violentamente, para a prpria
linguagem, para seu ser nico e difcil. Toda a curiosidade de nosso
pensamento se aloja agora na questo: que  a linguagem, como
contorn-la para faz-la aparecer em si mesma e em sua plenitude? Em
certo sentido, essa questo toma o lugar daquelas que, no sculo XIX,
concerniam  vida ou ao trabalho. Mas o estatuto dessa busca e de todas
as questes que a diversificam no  perfeitamente claro. Dever-se-
pressentir a o nascimento, 1     Nietzsche. Gnalogie de la morale, I,
 5. menos ainda, o primeiro vislumbre no horizonte de um dia que mal se
anuncia, mas em que j adivinhamos que o pensamento -- esse pensamento
que fala desde milnios sem saber o que  falar, nem mesmo que ele fala
-- vai recuperar-se por inteiro e iluminar-se de novo no fulgor do ser?
No  isso o que Nietzsche preparava quando, no interior de sua
linguagem, matava o homem e Deus ao mesmo tempo e assim prometia, com o
Retorno, o cintilar mltiplo e recomeado dos deuses? Ou ser preciso
admitir, muito simplesmente, que tantas questes sobre a linguagem no
fazem mais que prosseguir e no mximo concluir esse acontecimento, cuja
existncia e cujos primeiros efeitos, desde o fim do sculo XVIII, a
arqueologia nos ensinou? O fracionamento da linguagem, contemporneo de
sua passagem  objetividade filolgica, seria, ento, apenas a
conseqncia mais recentemente visvel (porque a mais secreta e a mais
fundamental) da ruptura da ordem clssica; esforando-nos por dominar
essa quebra e fazer aparecer a linguagem por inteiro, levaramos a seu
termo o que se passou antes de ns [pg. 422] e sem ns, por volta do
fim do sculo XVIII. Mas que seria, pois, esse acabamento? Pretendendo
reconstituir a unidade perdida da linguagem, estar-se-ia indo at o fim
de um pen- samento que  o do sculo XIX, ou no se estaria indo em
direo a formas que j so incompatveis com ele? A disperso da
linguagem est ligada, com efeito, de um modo fundamental, a esse
acontecimento arqueolgico que se pode designar pelo desaparecimento do
Discurso. Reencontrar num espao nico o grande jogo da linguagem tanto
poderia ser dar um salto decisivo para uma forma inteiramente nova de
pensamento quanto fechar sobre si mesmo um modo de saber constitudo no
sculo precedente.       verdade que a essas questes eu no sei
responder, nem, entre essas alternativas, qual termo conviria escolher.
Sequer adivinho se poderia jamais responder a elas ou se um dia me viro
razes para me determinar. Todavia, sei agora por que  que, como todo o
mundo, eu as posso formular a mim prprio -- e que no as posso deixar
de formular. Somente aqueles que no sabem ler se espantaro de que eu o
tenha aprendido mais claramente em Cuvier, em Bopp, em Ricardo, do que
em Kant ou Hegel.                                II. O lugar do rei
Em tantas ignorncias, em tantas interrogaes permanecidas em suspenso,
seria preciso, sem dvida, deter-se: a est fixado o fim do discurso, e
o recomeo talvez do trabalho. H ainda, no entanto, algumas palavras a
dizer. Palavras cujo estatuto , sem dvida, difcil de justificar, pois
se trata de introduzir no ltimo instante e como que por um lance de
teatro artificial, uma personagem que no figurara ainda no [pg. 423]
grande jogo clssico das representaes. Seria interessante encontrar a
lei prvia desse jogo no quadro Las meninas, onde a representao 
representada em cada um de seus momentos: pintor, palheta, grande
superfcie escura da tela virada, quadros pendurados na parede,
espectadores que olham e que so, por sua vez, enquadrados por aqueles
que os olham; enfim, no centro, no corao da representao, o mais
prximo do que  essencial, o espelho que mostra o que  representado,
mas como um reflexo to longnquo, to imerso num espao irreal, to
estranho a todos os olhares que se voltam para outras partes, que no 
mais do que a mais frgil reduplicao da representao. Todas as linhas
interiores do quadro e sobretudo aquelas que vm do reflexo central
apontam para aquilo mesmo que  representado mas que est ausente. Ao
mesmo tempo objeto -- por ser o que o artista representado est em via
de recopiar sobre a tela -- e sujeito --, visto que o que o pintor tinha
diante dos olhos ao se representar no seu trabalho era ele prprio,
visto que os olhares figurados no quadro esto dirigidos para esse lugar
fictcio da personagem rgia que  o lugar real do pintor, visto
finalmente que o hspede desse lugar ambguo, onde se alternam, como que
num pestanejar sem limite, o pintor e o soberano,  o espectador cujo
olhar transforma o quadro num objeto, pura representao dessa ausncia
essencial. Ademais, essa ausncia no  uma lacuna, salvo para o
discurso que laboriosamente decompe o quadro, pois ela no cessa jamais
de ser habitada e de o ser realmente, como o provam a ateno do pintor
representado, o respeito das personagens que o quadro figura, a presena
da grande tela vista ao revs e nosso prprio olhar para quem esse
quadro existe e para quem, do fundo do tempo, ele foi disposto.      No
pensamento clssico, aquele para quem a representao existe, e que nela
se representa a si mesmo, a se reconhecendo [pg. 424] por imagem ou
reflexo, aquele que trama todos os fios entrecruzados da "representao
em quadro" --, esse jamais se encontra l presente. Antes do fim do
sculo XVIII, o homem no existia. No mais que a potncia da vida, a
fecundidade do trabalho ou a espessura histrica da linguagem.  uma
criatura muito recente que a demiurgia do saber fabricou com suas mos
h menos de 200 anos: mas ele envelheceu to depressa que facilmente se
imaginou que ele esperara na sombra, durante milnios, o momento de
iluminao em que seria enfim conhecido. Certamente poder-se-ia dizer
que a gramtica geral, a histria natural, a anlise das riquezas eram,
num certo sentido, maneiras de reconhecer o homem, mas  preciso
discernir. Sem dvida, as cincias naturais trataram do homem como de
uma espcie ou de um gnero: a discusso sobre o problema das raas, no
sculo XVIII, o testemunha. A gramtica e a economia, por outro lado,
utilizavam noes como as de necessidade, de desejo, ou de memria e de
imaginao. Mas no havia conscincia epistemolgica do homem como tal.
A epistm clssica se articula segundo linhas que de modo algum isolam
um domnio prprio e especfico do homem. E se se insistir ainda, se se
objetar que nenhuma poca, porm, concedeu tanto  natureza humana,
deu-lhe estatuto mais estvel, mais definitivo, mais bem ofertado ao
discurso -- poder-se- responder dizendo que o prprio conceito de
natureza humana e a maneira como ele funcionava excluam que houvesse
uma cincia clssica do homem.       preciso notar que, na epistm
clssica, as funes da "natureza" e da "natureza humana" opem-se termo
a termo: a natureza, pelo jogo de uma justaposio real e desordenada,
faz surgir a diferena no contnuo ordenado dos seres; a natureza humana
faz aparecer o idntico na cadeia desordenada [pg. 425] das
representaes, e isso pelo jogo de uma exposio das imagens. Uma
implica um desarranjo de uma histria para a constituio das paisagens
atuais; a outra implica a comparao de elementos inatuais que desfazem
a trama de uma seqncia cronolgica. Apesar dessa oposio, ou, antes,
atravs dela, v-se delinear-se a relao positiva entre a natureza e a
natureza humana. Com efeito, elas lidam com elementos idnticos (o
mesmo, o contnuo, a imperceptvel diferena, a sucesso sem ruptura);
ambas fazem aparecer, sobre uma trama ininterrupta, a possibilidade de
uma anlise geral que permite repartir identidades isolveis e as
visveis diferenas, segundo um espao em quadro e uma seqncia
ordenada. Mas no o conseguem uma sem a outra, e  assim que se
comunicam. Com efeito, pelo poder que tem de se reduplicar (na
imaginao e na lembrana, e na ateno mltipla que compara), a cadeia
das representaes pode reencontrar, por sob a desordem da terra, a
superfcie sem ruptura dos seres; a memria, a princpio temerria e
entregue aos caprichos das representaes tais quais se oferecem,
fixa-se, pouco a pouco, num quadro geral de tudo o que existe; o homem
pode ento fazer entrar o mundo na soberania de um discurso que tem o
poder de representar sua representao. No ato de falar, ou, antes
(mantendo-se o mais perto possvel do que h de essencial para a
experincia clssica da linguagem), no ato de nomear, a natureza humana,
como dobra da representao sobre si mesma, transforma a seqncia
linear dos pensamentos numa tabela constante de seres parcialmente
diferentes: o discurso em que ela reduplica suas representaes e as
manifesta liga-a  natureza. Inversamente, a cadeia dos seres  ligada 
natureza humana pelo jogo da natureza: visto que o mundo real, tal como
se d aos olhares, no  o desenrolar puro e simples da cadeia
fundamental dos seres, [pg. 426] mas oferece-a em fragmentos misturados
-- repetidos e descontnuos --, a srie das representaes no esprito
no  constrangida a seguir o caminho contnuo das diferenas
imperceptveis; nela os extremos se encontram, as mesmas coisas se do
vrias vezes; os traos idnticos se superpem na memria; as diferenas
eclodem. Assim, a grande superfcie indefinida e contnua imprime-se em
caracteres distintos, em traos mais ou menos gerais, em marcas de
identificao. E, por conseguinte, em palavras. A cadeia dos seres
torna-se discurso, ligando-se assim  natureza humana e  srie das re-
presentaes.      Esse processo de comunicao entre a natureza e a
natureza humana, a partir de duas funes opostas mas complementares,
pois que no podem exercer-se uma sem a outra, traz consigo amplas
conseqncias tericas. Para o pensamento clssico, o homem no se aloja
na natureza por intermdio dessa "natureza" regional, limitada e
especfica que lhe  concedida por direito de nascimento como a todos os
outros seres. Se a natureza humana se imbrica com a natureza,  pelos
mecanismos do saber e pelo seu funcionamento; ou, antes, na grande
disposio da epistm clssica, a natureza, a natureza humana e suas
relaes so momentos funcionais, definidos e previstos. E o homem, como
realidade espessa e primeira, como objeto difcil e sujeito soberano de
todo conhecimento possvel, no tem a nenhum lugar. Os temas modernos
de um indivduo que vive, fala e trabalha se- gundo as leis de uma
economia, de uma filologia e de uma biologia, mas que, por uma espcie
de toro interna e de superposio, teria recebido, pelo jogo dessas
prprias leis, o direito de conhec-las e de coloc-las inteiramente 
luz, todos esses temas, para ns familiares e ligados  existncia das
"cincias humanas" so excludos pelo pensamento clssico: [pg. 427]
no era possvel naquele tempo que se erguesse, no limite do mundo, essa
estatura estranha de um ser cuja natureza (a que o determinado detm e o
atravessa desde o fundo dos tempos) consistisse em conhecer a natureza
e, por conseguinte, a si mesmo como ser natural.      Em contrapartida,
no ponto de encontro entre a representao e o ser, l onde se
entrecruzam natureza e natureza humana -- nesse lugar onde hoje cremos
reconhecer a existncia primeira, irrecusvel e enigmtica do homem -- o
que o pensamento clssico faz surgir  o poder do discurso. Isto , da
linguagem na medida em que ela representa -- a linguagem que nomeia, que
recorta, que combina, que articula e desarticula as coisas, tornando-as
visveis na transparncia das palavras. Nesse papel, a linguagem
transforma a seqncia das percepes em quadro e, em retorno, recorta o
contnuo dos seres em caracteres. L onde h discurso, as representaes
se expem e se justapem; as coisas se renem e se articulam. A vocao
profunda da linguagem clssica foi sempre a de constituir "quadro": quer
fosse como discurso natural, recolhimento da verdade, descrio das
coisas, corpus e conhecimentos exatos, ou dicionrio enciclopdico. Ela
s existe, portanto, para ser transparente; perdeu aquela consistncia
secreta que, no sculo XVI, lhe dava a espessura de uma palavra a
decifrar e a imbricava com as coisas do mundo; no adquiriu ainda essa
existncia mltipla acerca da qual hoje nos interrogamos: na idade
clssica, o discurso  essa necessidade translcida atravs da qual
passam a representao e os seres -- quando os seres so representados
ao olhar do esprito, quando a representao torna visveis os seres em
sua verdade. A possibilidade de conhecer as coisas e sua ordem passa, na
experincia clssica, pela soberania das palavras: estas no so
estritamente nem marcas a decifrar [pg. 428] (como na poca do
Renascimento), nem instrumentos mais ou menos fiis e dominveis (como
na poca do positivismo); formam, antes, a rede incolor a partir da qual
os seres se manifestam e as representaes se ordenam. Da, sem dvida,
o fato de que a reflexo clssica sobre a linguagem, embora faa parte
de uma disposio geral em que ela entra ao mesmo ttulo que a anlise
das riquezas e a histria natural, exera, em relao a elas, um papel
diretivo.      Mas a conseqncia essencial  que a linguagem clssica
como discurso comum da representao e das coisas, como lugar em cujo
interior natureza e natureza humana se entrecruzam, exclui absolutamente
qualquer coisa que fosse "cincia do homem". Enquanto essa linguagem
falou na cultura ocidental, no era possvel que a existncia humana
fosse posta em questo por ela prpria, pois o que nela se articulava
eram a representao e o ser. O discurso que, no sculo XVII, ligou um
ao outro o "Eu penso" e o "Eu sou" daquele que o efetivava -- esse
discurso permaneceu, sob uma forma visvel, a essncia mesma da
linguagem clssica, pois o que nele se articulava, de pleno direito,
eram a representao e o ser. A passagem do "Eu penso" ao "Eu sou"
realizava-se sob a luz da evidncia, no interior de um discurso cujo
domnio e cujo funcionamento consistiam por inteiro em articular, um ao
outro, o que se representa e o que . No h, pois, que objetar a essa
passagem nem que o ser em geral no est contido no pensamento, nem que
este ser singular tal como  designado pelo "Eu sou" no foi interrogado
nem analisado por si prprio. Ou, antes, essas objees podem realmente
nascer e fazer valer seu direito, mas a partir de um discurso que 
profundamente outro e que no tem por razo de ser o lia-me entre a
representao e o ser; s uma problemtica que contorne a representao
poder formular semelhantes objees. [pg. 429] Mas, enquanto durou o
discurso clssico, uma interrogao sobre o modo de ser implicado pelo
Cogito no podia ser articulada.                          III. A
analtica da finitude      Quando a histria natural se torna biologia,
quando a anlise das riquezas se torna economia, quando sobretudo a
reflexo sobre a linguagem se faz filologia e se desvanece esse discurso
clssico em que o ser e a representao encontravam seu lugar-comum,
ento, no movimento profundo de uma tal mutao arqueolgica, o homem
aparece com sua posio ambgua de objeto para um saber e de sujeito que
conhece: soberano submisso, espectador olhado, surge ele a, nesse lugar
do Rei que, antecipadamente, lhe designavam Las meninas, mas donde,
durante longo tempo, sua presena real foi excluda. Como se nesse
espao vacante, em cuja direo estava voltado todo o quadro de
Velsquez, mas que ele, contudo, s refletia pelo acaso de um espelho e
como que por violao, todas as figuras de que se suspeitava a
alternncia, a excluso recproca, o entrelaamento e a oscilao (o
modelo, o pintor, o rei, o espectador) cessassem de sbito sua
imperceptvel dana, se imobilizassem numa figura plena e exigissem que
fosse enfim reportado a um olhar de carne todo o espao da
representao.      O motivo dessa presena nova, a modalidade que lhe 
prpria, a disposio singular da epistm que a autoriza, a relao
nova que atravs dela se estabelece entre as palavras, as coisas e sua
ordem -- tudo isso pode ser agora trazido  luz. Cuvier e seus
contemporneos haviam requerido  vida que ela mesma definisse, na
profundidade de seu ser, as condies [pg. 430] de possibilidade do ser
vivo; do mesmo modo, Ricardo havia requerido ao trabalho as condies de
possibilidade da troca, do lucro e da produo; os primeiros fillogos
haviam buscado, na profundidade histrica das lnguas, a possibilidade
do discurso e da gramtica. Por isso mesmo, a representao deixou de
valer para os seres vivos, para as necessidades e para as palavras, como
seu lugar de origem e a sede primitiva de sua verdade; em relao a
eles, ela nada mais , doravante, que um efeito, seu acompanhante mais
ou menos confuso numa conscincia que os apreende e os restitui. A
representao que se faz das coisas no tem mais que desdobrar, num
espao soberano, o quadro de sua ordenao; ela , do lado desse
indivduo emprico que  o homem, o fenmeno -- menos ainda talvez, a
aparncia -- de uma ordem que pertence agora s coisas mesmas e  sua
lei interior. Na representao, os seres no manifestam mais sua
identidade, mas a relao exterior que estabelecem com o ser humano.
Este, com seu ser prprio, com seu poder de se fornecer representaes,
surge num vo disposto pelos seres vivos, pelos objetos de troca e pelas
palavras quando, abandonando a representao que fora at ento seu
lugar natural, retiram- se na profundidade das coisas e se enrolam sobre
si mesmos segundo as leis da vida, da produo e da linguagem. Em meio a
todos eles, comprimido pelo crculo que formam, o homem  designado --
bem mais,  requerido -- por eles, j que  ele quem fala, j que 
visto residindo entre os animais (e num lugar que no  somente
privilegiado, mas ordenador do conjunto que eles formam: mesmo se no 
concebido como termo da evoluo, nele se reconhece a extremidade de uma
longa srie), j que, enfim, a relao entre as necessidades e os meios
que ele possui para satisfaz-las  tal que ele  necessariamente
princpio e meio de toda produo. [pg. 431] Mas essa imperiosa
designao  ambgua. Em certo sentido, o homem  dominado pelo
trabalho, pela vida e pela linguagem: sua existncia concreta neles
encontra suas determinaes; s se pode ter acesso a ele atravs de suas
palavras, de seu organismo, dos objetos que ele fabrica -- como se eles
primeiramente (e somente eles talvez) detivessem a verdade; e ele
prprio, desde que pensa, s se desvela a seus prprios olhos sob a
forma de um ser que, numa espessura necessariamente subjacente, numa
irredutvel anterioridade,  j um ser vivo, um instrumento de produo,
um veculo para palavras que lhe preexistem. Todos esses contedos que
seu saber lhe revela exteriores a ele e mais velhos que seu nascimento
antecipam-no, vergam-no com toda a sua solidez e o atravessam como se
ele no fosse nada mais do que um objeto da natureza ou um rosto que
deve desvanecer-se na histria. A finitude do homem se anuncia -- e de
uma forma imperiosa -- na positividade do saber; sabe-se que o homem 
finito, como se conhecem a anatomia do crebro, o mecanismo dos custos
de produo ou o sistema da conjugao indo- europia; ou, antes, pela
filigrana de todas essas figuras slidas, positivas e plenas,
percebem-se a finitude e os limites que elas impem, adivinha-se como
que em branco tudo o que elas tornam impossvel.      Na verdade, porm,
essa primeira descoberta da finitude  instvel; nada permite det-la
sobre si; e no se poderia supor que ela promete tambm esse mesmo
infinito que ela recusa, segundo o sistema da atualidade? A evoluo da
espcie no est talvez concluda; as formas da produo e do trabalho
no cessam de modificar- se e, talvez um dia, o homem no encontre mais
no seu labor o princpio de sua alie- nao, nem nas suas necessidades a
constante evocao de seus limites; e nada prova, tampouco, que ele no
descobrir [pg. 432] sistemas simblicos suficientemente puros para
dissolver a velha opacidade das linguagens histricas. Anunciada na
positividade, a finitude do homem se perfila sob a forma paradoxal do
indefinido; ela indica, mais que o rigor do limite, a monotonia do
caminhar que, sem dvida, no tem limite mas que talvez no seja sem
esperana. No entanto, todos esses contedos, com o que encobrem e com o
que tambm deixam apontar em direo aos confins do tempo, s tm
positividade no espao do saber, s se oferecem  tarefa de um
conhecimento possvel, se ligados inteiramente  finitude. Pois eles no
estariam a, nessa luz que os ilumina parcialmente, se o homem que se
descobre atravs deles estivesse preso na abertura muda, noturna,
imediata e feliz da vida animal; mas tampouco se dariam sob o ngulo
agudo que os dissimula a partir deles prprios, se o homem pudesse
percorr-los por inteiro no claro de um entendimento infinito. Mas, 
experincia do homem  dado um corpo que  seu corpo -- fragmento de
espao ambguo, cuja espacialidade prpria e irredutvel se articula
contudo com o espao das coisas; a essa mesma experincia  dado o
desejo, como apetite primordial a partir do qual todas as coisas
adquirem valor e valor relativo; a essa mesma experincia  dada uma
linguagem em cujo fio todos os discursos de todos os tempos, todas as
sucesses e todas as simultaneidades podem ser franqueados. Isso quer
dizer que cada uma dessas formas positivas, em que o homem pode aprender
que  finito, s lhe  dada com base na sua prpria finitude. Ora, esta
no  a essncia mais bem purificada da positividade, mas aquilo a
partir do que  possvel que ela aparea. O modo de ser da vida e aquilo
mesmo que faz com que a vida no exista sem me prescrever suas formas me
so dados, fundamentalmente, por meu corpo; o modo de ser da produo, o
peso de suas [pg. 433] determinaes sobre minha existncia me so
dados pelo meu desejo; e o modo de ser da linguagem, todo o rastro da
histria que as palavras fazem luzir no instante em que so pronunciadas
e, talvez, at num tempo mais imperceptvel ainda, s me so dados ao
longo da tnue cadeia de meu pensamento falante. No fundamento de todas
as positividades empricas e do que se pode indicar como limitaes
concretas  existncia do homem, descobre-se uma finitude -- que em
certo sentido  a mesma: ela  marcada pela espacialidade do corpo, pela
abertura do desejo e pelo tempo da linguagem; e, contudo, ela 
radicalmente outra: nela o limite no se manifesta como determinao
imposta ao homem do exterior (por ter uma natureza ou uma histria), mas
como finitude fundamental que s repousa sobre seu prprio fato e se
abre para a positividade de todo limite concreto.      Assim, do corao
mesmo da empiricidade, indica-se a obrigao de ascender ou, se se
quiser, de descer at uma analtica da finitude, em que o ser do homem
poder fundar, na possibilidade delas, todas as formas que lhe indicam
que ele no  infinito. E o primeiro carter com que essa analtica
marcar o modo de ser do homem, ou, antes, o espao no qual ela se
desenrolar por inteiro, ser o da repetio -- da identidade e da
diferena entre o positivo e o fundamental: a morte que corri
anonimamente a existncia cotidiana do ser vivo  a mesma que aquela,
fundamental, a partir da qual se d a mim mesmo minha vida emprica; o
desejo que liga e separa os homens na neutralidade do processo econmico
 o mesmo a partir do qual alguma coisa me  desejvel; o tempo que
transporta as linguagens, nelas se aloja e acaba por desgast-las, 
esse tempo que alonga meu discurso antes mesmo que eu o tenha
pronunciado numa sucesso que ningum pode dominar. De um extremo ao
outro da experincia, a finitude [pg. 434] responde a si mesma; ela ,
na figura do Mesmo, a identidade e a diferena das positividades e de
seu fundamento. V-se como a reflexo moderna, desde o primeiro esboo
dessa analtica, se inclina em direo a certo pensamento do Mesmo -- em
que a Diferena  a mesma coisa que a Identidade -- exposio da
representao, com sua realizao em quadro, tal como o ordenava o saber
clssico.  nesse espao estreito e imenso, aberto pela repetio do
positivo no fundamental, que toda essa analtica da finitude -- to
ligada ao destino do pensamento moderno -- vai desdobrar-se:  a que se
ver sucessivamente o transcendental repetir o emprico, o cogito
repetir o impensado, o retorno da origem repetir seu recuo;  a que se
afirmar, a partir dele prprio, um pensamento do Mesmo irredutvel 
filosofia clssica.      Dir-se- talvez que no era preciso esperar o
sculo XIX para que a idia da finitude fosse trazida  luz.  verdade
que ele talvez a tenha somente deslocado no espao do pensamento,
fazendo-a desempenhar um papel mais complexo, mais ambguo, de contorno
menos fcil: para o pensamento dos sculos XVII e XVIII, era sua
finitude que constrangia o homem a viver uma existncia animal, a
trabalhar com o suor de seu rosto, a pensar com palavras opacas; era
essa mesma finitude que o impedia de conhecer de modo absoluto os
mecanismos de seu corpo, os meios de satisfazer suas necessidades, o
mtodo para pensar sem o perigoso auxlio de uma linguagem toda tramada
de hbitos e de imaginaes. Como inadequao ao infinito, o limite do
homem explicava tanto a existncia desses contedos empricos quanto a
impossibilidade de conhec-los imediatamente. E, assim, a relao
negativa com o infinito -- quer fosse concebida como criao, ou queda,
ou ligao da alma e do corpo, ou determinao no interior do ser
infinito, ou ponto de vista [pg. 435] singular sobre a totalidade, ou
liame da representao com a impresso -- dava-se como anterior 
empiricidade do homem e ao conhecimento que dela ele pode ter. Aquele
limite fundava, num s movimento, mas sem retorno recproco nem
circularidade, a existncia dos corpos, das necessidades e das palavras
e a impossibilidade de domin-los num conhecimento absoluto. A
experincia que se forma no comeo do sculo XIX aloja a descoberta da
finitude no mais no interior do pensamento do infinito, mas no corao
mesmo desses contedos que so dados, por um saber finito, como as
formas concretas da existncia finita. Da o jogo interminvel de uma
referncia reduplicada: se o saber do homem  finito,  porque ele est
preso, sem liberao possvel, nos contedos positivos da linguagem, do
trabalho e da vida; e inversamente, se a vida, o trabalho e a linguagem
se do em sua positividade,  porque o conhecimento tem formas finitas.
Em outros termos, para o pensamento clssico, a finitude (como
determinao positivamente constituda a partir do infinito) explica
essas formas negativas que so o corpo, a necessidade, a linguagem, e o
conhecimento limitado que deles se pode ter; para o pensamento moderno,
a positividade da vida, da produo e do trabalho (que tm sua
existncia, sua historicidade e suas leis prprias) funda, como sua
correlao negativa, o carter limitado do conhecimento; e,
inversamente, os limites do conhecimento fundam positivamente a
possibilidade de saber, mas numa experincia sempre limitada, o que so
a vida, o trabalho e a linguagem. Enquanto esses contedos empricos
estivessem alojados no espao da representao, uma metafsica do
infinito era no somente possvel, mas exigida: com efeito, era
realmente necessrio que eles fossem as formas manifestas da finitude
humana e que, no entanto, pudessem ter seu lugar e sua verdade [pg.
436] no interior da representao; a idia do infinito e a da sua
determinao na finitude permitiam uma coisa e outra. Mas, quando os
contedos empricos foram desligados da representao e envolveram em si
mesmos o princpio de sua existncia, ento a metafsica do infinito
tornou-se intil; a finitude no cessou mais de remeter a ela prpria
(da positividade dos contedos s limitaes do conhecimento, e da
positividade limitada deste ao saber limitado dos contedos). Ento,
todo o campo do pensamento ocidental foi invertido. L onde outrora
havia correlao entre uma metafsica da representao e do infinito e
uma anlise dos seres vivos, dos desejos do homem, e das palavras de sua
lngua, v-se constituir-se uma analtica da finitude e da existncia
humana, e em oposio a ela (mas numa oposio correlativa) uma perptua
tentao de constituir uma metafsica da vida, do trabalho e da
linguagem. Mas isso no passa jamais de tentaes, logo contestadas e
como que minadas por dentro, pois no pode haver metafsicas medidas
pelas finitudes humanas: metafsica de uma vida que converge para o
homem, ainda que nele no se detenha; metafsica de um trabalho que
libera o homem, de modo que o homem, em troca, possa dele liberar-se;
metafsica de uma linguagem de que o homem pode reapropriar-se na
conscincia de sua prpria cultura. De sorte que o pensamento moderno se
contestar nos seus prprios arrojos metafsicos e mostrar que as
reflexes sobre a vida, o trabalho e a linguagem, na medida em que valem
como analticas da finitude, manifestam o fim da metafsica: a filosofia
da vida denuncia a metafsica como vu da iluso, a do trabalho a
denuncia como pensamento alienado e ideologia, a da linguagem, como
episdio cultural.      Mas o fim da metafsica no  seno a face
negativa de um acontecimento muito mais complexo que se produziu no
[pg. 437] pensamento ocidental. Esse acontecimento foi o aparecimento
do homem. No se deveria contudo crer que ele surgiu de sbito no
horizonte, impondo de maneira irruptiva e absolutamente embaraosa para
nossa reflexo, o fato brutal de seu corpo, de seu labor, de sua
linguagem; no foi a misria positiva do homem que reduziu violentamente
a metafsica. Sem dvida, ao nvel das aparncias, a modernidade comea
quando o ser humano comea a existir no interior de seu organismo, na
concha de sua cabea, na armadura de seus membros e em meio a toda a
nervura de sua fisiologia; quando ele comea a existir no corao de um
trabalho cujo princpio o domina e cujo produto lhe escapa; quando aloja
seu pensamento nas dobras de uma linguagem, to mais velha que ele no
pode dominar-lhe as significaes, reanimadas, contudo, pela insistncia
de sua palavra. Porm, mais fundamentalmente, nossa cultura transps o
limiar a partir do qual reconhecemos nossa modernidade, no dia em que a
finitude foi pensada numa referncia interminvel a si mesma. Se 
verdade, ao nvel dos diferentes saberes, que a finitude  sempre
designada a partir do homem concreto e das formas empricas que se podem
atribuir  sua existncia, ao nvel arqueolgico, que descobre o a
priori histrico e geral de cada um dos saberes, o homem moderno -- esse
homem determinvel em sua existncia corporal, laboriosa e falante -- s
 possvel a ttulo de figura da finitude. A cultura moderna pode pensar
o homem porque ela pensa o finito a partir dele prprio. Compreende-se,
nessas condies, que o pensamento clssico e todos os que o procederam
tenham podido falar do esprito e do corpo, do ser humano, de seu lugar
to limitado no universo, de todos os limites que medem seu conhecimento
ou sua liberdade, mas que nenhum dentre eles jamais conheceu o homem tal
como  dado ao saber moderno. [pg. 438] O "humanismo" do Renascimento,
o "racionalismo" dos clssicos podem realmente ter conferido um lugar
privilegiado aos humanos na ordem do mundo, mas no puderam pensar o
homem.                   IV. O emprico e o transcendental      O homem,
na analtica da finitude,  um estranho duplo emprico- transcendental,
porquanto  um ser tal que nele se tomar conhecimento do que torna
possvel todo conhecimento. Mas a natureza humana dos empiristas no
desempenhava, no sculo XVIII, o mesmo papel? De fato, o que ento se
analisava eram as propriedades e as formas da representao que
permitiam o conhecimento em geral ( assim que Condillac definia as
operaes necessrias e suficientes para que a representao se
desdobrasse em conhecimento: reminiscncia, conscincia de si,
imaginao, memria); agora que o lugar da anlise no  mais a
representao, mas o homem em sua finitude, trata-se de trazer  luz as
condies do conhecimento a partir dos contedos empricos que nele so
dados. Para o movimento geral do pensamento moderno, pouco importa onde
esses contedos se acham localizados: a questo no est em saber se
foram buscados na introspeco ou em outras formas de anlise. Pois o
limiar da nossa modernidade no est situado no momento em que se
pretendeu aplicar ao estudo do homem mtodos objetivos, mas no dia em
que se constituiu um duplo emprico-transcendental a que se chamou
homem. Viu-se ento aparecer duas espcies de anlises: as que se
alojaram no espao do corpo e que, pelo estudo da percepo, dos
mecanismos sensoriais, dos esquemas neuromotores, da articulao comum
s coisas [pg. 439] e ao organismo, funcionaram como uma espcie de
esttica transcendental; a se descobria que o conhecimento tinha
condies anatomofisiolgicas, que ele se formava pouco a pouco na
nervura do corpo, que nele tinha talvez uma sede privilegiada, que suas
formas, em todo o caso, no podiam ser dissociadas das singularidades de
seu funcionamento; em suma, que havia uma natureza do conhecimento
humano que lhe determinava as formas e que podia, ao mesmo tempo,
ser-lhe manifestada nos seus prprios contedos empricos. Houve tambm
as anlises que, pelo estudo das iluses da humanidade, mais ou menos
antigas, mais ou menos difceis de vencer, funcionaram como uma espcie
de dialtica transcendental; mostrava-se assim que o conhecimento tinha
condies histricas, sociais ou econmicas, que ele se formava no
interior de relaes tecidas entre os homens e que no era independente
da figura particular que elas poderiam assumir aqui ou ali, em suma, que
havia uma histria do conhecimento humano que podia ao mesmo tempo ser
dada ao saber emprico e prescrever-lhe suas formas.      Ora, o que h
de particular nessas anlises  que no tm, ao que parece, necessidade
alguma umas das outras; bem mais, podem dispensar todo recurso a uma
analtica (ou a uma teoria do sujeito): elas pretendem poder repousar
apenas sobre si mesmas, j que so os prprios contedos que funcionam
como reflexo transcendental. Mas, de fato, a busca de uma natureza ou
de uma histria do conhecimento, no movimento em que ela restringe a
dimenso prpria da crtica aos contedos de um conhecimento emprico,
supe o uso de uma certa crtica. Crtica que no  o exerccio de uma
reflexo pura, mas o resultado de uma srie de divises mais ou menos
obscuras. E, antes de tudo, divises relativamente elucidadas, mesmo se
arbitrrias: a que distingue o conhecimento [pg. 440] rudimentar,
imperfeito, mal equilibrado, nascente, daquele que se pode dizer, se no
acabado, ao menos constitudo em suas formas estveis e definitivas
(esta diviso torna possvel o estudo das condies naturais do
conhecimento); a que distingue a iluso da verdade, a quimera ideolgica
da teoria cientfica (esta diviso torna possvel o estudo das condies
histricas do conhecimento); mas h uma diviso mais obscura e mais
fundamental:  a da prpria verdade; deve existir, com efeito, uma
verdade que  da ordem do objeto -- aquela que pouco a pouco se esfora,
se forma, se equilibra e se manifesta atravs do corpo e dos rudimentos
da percepo, aquela igualmente que se desenha  medida que as iluses
se dissipam e que a histria se instaura num estatuto desalienado; mas
deve existir tambm uma verdade que  da ordem do discurso -- uma
verdade que permite sustentar sobre a natureza ou a histria do
conhecimento uma linguagem que seja verdadeira.  o estatuto desse
discurso verdadeiro que permanece ambguo. Das duas uma: ou esse
discurso verdadeiro encontra seu fundamento e seu modelo nessa verdade
emprica cuja gnese ele retraa na natureza e na histria, e ter-se-
uma anlise de tipo positivista (a verdade do objeto prescreve a verdade
do discurso que descreve sua formao); ou o discurso verdadeiro se
antecipa a essa verdade de que define a natureza e a histria, esboa-a
de antemo e a fomenta de longe, e, ento, ter-se- um discurso de tipo
escatolgico (a verdade do discurso filosfico constitui a verdade em
formao). A bem dizer, trata-se a menos de uma alternativa que da
oscilao inerente a toda anlise que faz valer o emprico ao nvel do
transcendental. Comte e Marx so realmente testemunhas desse fato de que
a escatologia (como verdade objetiva por vir do discurso sobre o homem)
e o positivismo (como verdade do discurso definida a partir [pg. 441]
daquela do objeto) so arqueologicamente indissociveis: um discurso que
se pretende ao mesmo tempo emprico e crtico s pode ser, a um tempo,
positivista e escatolgico; o homem a aparece como uma verdade ao mesmo
tempo reduzida e prometida. A ingenuidade pr-crtica nele reina sem
restries.       por isso que o pensamento moderno no pde evitar --
e a partir justamente desse discurso ingnuo -- a busca do lugar de um
discurso que no fosse nem da ordem da reduo nem da ordem da promessa:
um discurso cuja tenso mantivesse separados o emprico e o
transcendental, permitindo, no entanto, visar a um e outro ao mesmo
tempo; um discurso que permitisse analisar o homem como sujeito, isto ,
como lugar de conhecimentos empricos mas reconduzidos o mais prximo
possvel do que os torna possveis, e como forma pura imediatamente
presente nesses contedos; um discurso, em suma, que desempenhasse em
relao  quase-esttica e  quase-dialtica o papel de uma analtica
que, ao mesmo tempo, as fundasse numa teoria do sujeito e lhes
permitisse talvez articular-se com esse termo terceiro e intermedirio
em que se enraizariam, ao mesmo tempo, a experincia do corpo e a da
cultura. Um papel to complexo, to superdeterminado e to necessrio
foi desempenhado, no pensamento moderno, pela anlise do vivido. O
vivido, com efeito,  o espao onde todos os contedos empricos so
dados  experincia;  tambm a forma originria que os torna em geral
possveis e designa seu enraizamento primeiro; ele estabelece, na
verdade, comunicao entre o espao do corpo e o tempo da cultura, as
determinaes da natureza e o peso da histria, sob a condio, porm,
de que o corpo e, atravs dele, a natureza sejam primeiramente dados na
experincia de uma espacialidade irredutvel, e de que a cultura,
portadora de histria, seja primeiramente experimentada no imediato
[pg. 442] das significaes sedimentadas. Pode-se compreender
perfeitamente que a anlise do vivido se tenha instaurado, na reflexo
moderna, como uma contestao radical do positivismo e da escatologia;
que tenha tentado restaurar a dimenso esquecida do transcendental; que
tenha pretendido conjurar o discurso ingnuo de uma verdade reduzida ao
emprico, e o discurso proftico que ingenuamente promete o advento 
experincia de um homem, enfim.  tambm verdade que a anlise do vivido
no deixa de ser um discurso de natureza mista: enderea-se a uma camada
especfica mas ambgua, bastante concreta, para que se lha possa aplicar
uma linguagem meticulosa e descritiva, e bastante recuada, entretanto,
em relao  positividade das coisas, para que se possa, a partir da,
escapar a essa ingenuidade, contest-la e buscar-lhe fundamentos. Ela
procura articular a objetividade possvel de um conhecimento da natureza
com a experincia originria que se esboa atravs do corpo; e articular
a histria possvel de uma cultura com a espessura semntica que, a um
tempo, se esconde e se mostra na experincia vivida. Portanto, no faz
mais que preencher, com mais cuidado, as exigncias apressadas que foram
postas quando se pretendeu fazer valer, no homem, o emprico pelo
transcendental. V-se a rede cerrada que, apesar das aparncias, religa
os pensamentos de tipo positivista ou escatolgico (o marxismo em
primeiro lugar) com as reflexes inspiradas na fenomenologia. A
aproximao recente no  da ordem da conciliao tardia: ao nvel das
configuraes arqueolgicas, eles eram necessrios, uns como outros -- e
uns aos outros -- desde a constituio do postulado antropolgico, isto
, desde o momento em que o homem apareceu como duplo
emprico-transcendental.      A verdadeira contestao do positivismo e
da escatologia no est, pois, num retorno ao vivido (que, na verdade,
[pg. 443] antes os confirma, enraizando-os); mas, se ela pudesse
exercer-se, seria a partir de uma questo que, sem dvida, parece
aberrante, de tal modo est em discordncia com o que tornou
historicamente possvel todo o nosso pensamento. Essa questo
consistiria em perguntar se verdadeiramente o homem existe. Acredita-se
que  simular um paradoxo supor, por um s instante, o que poderiam ser
o mundo, o pensamento e a verdade se o homem no existisse.  que
estamos to ofuscados pela recente evidncia do homem que sequer
guardamos em nossa lembrana o tempo, todavia pouco distante, em que
existiam o mundo, sua ordem, os seres humanos, mas no o homem.
Compreende-se o poder de abalo que pde ter e que conserva ainda para
ns o pensamento de Nietzsche, quando anunciou, sob a forma do
acontecimento iminente, da Promessa- Ameaa, que, bem logo, o homem no
seria mais -- mas, sim, o super-homem; o que, numa filosofia do Retorno,
queria dizer que o homem, j desde muito tempo, havia desaparecido e no
cessava de desaparecer, e que nosso pensamento moderno do homem, nossa
solicitude para com ele, nosso humanismo dormiam serenamente sobre sua
retumbante inexistncia. A ns, que nos acreditamos ligados a uma
finitude que s a ns pertence e que nos abre, pelo conhecer, a verdade
do mundo, no deveria ser lembrado que estamos presos ao dorso de um
tigre?                        V. O "cogito" e o impensado      Se
efetivamente o homem , no mundo, o lugar de uma reduplicao emprico-
transcendental, se deve ser essa figura paradoxal em que os contedos
empricos do conhecimento liberam, mas a partir de si, as condies que
os tornaram [pg. 444] possveis, o homem no se pode dar na
transparncia imediata e soberana de um cogito; mas tampouco pode ele
residir na inrcia objetiva daquilo que, por direito, no acede e jamais
aceder  conscincia de si. O homem  um modo de ser tal que nele se
funda esta dimenso sempre aberta, jamais delimitada de uma vez por
todas, mas indefinidamente percorrida, que vai, de uma parte dele mesmo
que ele no reflete num cogito, ao ato de pensamento pelo qual a capta;
e que, inversamente, vai desta pura captao ao atravanca-mento
emprico,  ascenso desordenada dos contedos, ao desvio das
experincias que escapam a si mesmas, a todo o horizonte silencioso do
que se d na extenso movedia do no-pensamento. Porque  duplo
emprico-transcendental, o homem  tambm o lugar do desconhecimento --
deste desconhecimento que expe sempre seu pensamento a ser transbordado
por seu ser prprio e que lhe permite, ao mesmo tempo, se interpelar a
partir do que lhe escapa.  essa a razo pela qual a reflexo
transcendental, sob sua forma moderna, no mais encontra o ponto de sua
necessidade, como em Kant, na existncia de uma cincia da natureza (
qual se opem o combate perptuo e a incerteza dos filsofos), mas na
existncia muda, prestes porm a falar e como que toda atravessada
secretamente por um discurso virtual, desse no-conhecido a partir do
qual o homem  incessantemente chamado ao conhecimento de si. A questo
no  mais: como pode ocorrer que a experincia da natureza d lugar a
juzos necessrios? Mas sim: como pode ocorrer que o homem pense o que
ele no pensa, habite o que lhe escapa sob a forma de uma ocupao muda,
anime, por uma espcie de movimento rijo, essa figura dele mesmo que se
lhe apresenta sob a forma de uma exterioridade obstinada? Como pode o
homem ser essa vida cuja rede, cujas pulsaes, cuja fora [pg. 445]
encoberta transbordam indefinidamente a experincia que dela lhe 
imediatamente dada? Como pode ele ser esse trabalho, cujas exigncias e
cujas leis se lhe impem como um rigor estranho? Como pode ele ser o
sujeito de uma linguagem que, desde milnios, se formou sem ele, cujo
sistema lhe escapa, cujo sentido dorme um sono quase invencvel nas
palavras que, por um instante, ele faz cintilar por seu discurso, e no
interior da qual ele , desde o incio, obrigado a alojar sua fala e seu
pensamento, como se estes nada mais fizessem seno animar por algum
tempo um segmento nessa trama de possibilidades inumerveis? --
Qudruplo deslocamento em relao  questo kantiana, pois que se trata
no mais da verdade, mas do ser; no mais da natureza, mas do homem; no
mais da possibilidade de um conhecimento, mas daquela de um
desconhecimento primeiro; no mais do carter no-fundado das teorias
filosficas em face da cincia, mas da retomada, numa conscincia
filosfica clara, de todo esse domnio de experincias no-fundadas em
que o homem no se reconhece.      A partir desse deslocamento da
questo transcendental, o pensamento contemporneo no podia evitar a
reativao do tema do cogito. No fora tambm a partir do erro, da
iluso, do sonho e da loucura, de todas as experincias do pensamento
no-fundado que Descartes descobrira a impossibilidade de elas no serem
pensamentos -- de tal modo que o pensamento do mal-pensado, do no-
verdadeiro, do quimrico, do puramente imaginrio, aparecesse como lugar
de possibilidade de todas essas experincias e primeira evidncia
irrecusvel? Mas o cogito moderno  to diferente do de Descartes quanto
nossa reflexo transcendental est afastada da anlise kantiana.  que,
para Descartes, tratava-se de trazer  luz o pensamento como a forma
mais geral de todos esses [pg. 446] pensamentos que so o erro ou a
iluso, de maneira a conjurar-lhes o perigo, com o risco de
reencontr-los no final de sua tentativa, de explic-los e de propor
ento o mtodo para evit-los. No cogito moderno, trata-se, ao
contrrio, de deixar valer, na sua maior dimenso, a distncia que, a um
tempo, separa e religa o pensamento presente a si, com aquilo que, do
pensamento, se enraza no no-pensado; ele precisa (e  por isso que ele
 menos uma evidncia descoberta que uma tarefa incessante a ser sempre
retomada) percorrer, re-duplicar e reativar, sob uma forma explcita, a
articulao do pensamento com o que nele, em torno dele, debaixo dele,
no  pensamento, mas que nem por isso lhe  estranho, segundo uma
irredutvel, uma intransponvel exterioridade. Sob essa forma, o cogito
no ser, portanto, a sbita descoberta iluminadora de que todo o
pensamento  pensado, mas a interrogao sempre recomeada para saber
como o pensamento habita fora daqui, e, no entanto, o mais prximo de si
mesmo, como pode ele ser sob as espcies do no-pensante. Ele no
reconduz todo o ser das coisas ao pensamento sem ramificar o ser do
pensamento at na nervura inerte do que no pensa.      Esse duplo
movimento prprio ao cogito moderno explica por que nele o "Eu penso"
no conduz  evidncia do "Eu sou"; de fato, assim que o "Eu penso" se
mostrou imbricado em toda uma espessura em que ele est quase presente,
que ele anima mas  maneira ambgua de uma viglia sonolenta, no  mais
possvel fazer dele decorrer a afirmao de que "Eu sou": posso eu
dizer, com efeito, que sou essa linguagem que falo e na qual meu
pensamento desliza a ponto de nela encontrar o sistema de todas as suas
possibilidades prprias, mas que, no entanto, s existe sob o peso de
sedimentaes que ele jamais ser capaz de atualizar inteiramente? [pg.
447] Posso eu dizer que sou este trabalho que fao com minhas mos, mas
que me escapa no somente quando o concluo, mas antes mesmo de o haver
encetado? Posso eu dizer que sou essa vida que sinto no fundo de mim,
mas que me envolve tanto pelo tempo formidvel que ela impulsiona
consigo e que me eleva por um instante sobre sua crista, quanto pelo
tempo iminente que me prescreve minha morte? Posso dizer tanto que sou
quanto que no sou tudo isso; o cogito no conduz a uma afirmao de
ser, mas abre justamente para toda uma srie de interrogaes em que o
ser est em questo: que  preciso eu ser, eu que penso e que sou meu
pensamento, para que eu seja o que no penso, para que meu pensamento
seja o que no sou? Que , pois, esse ser que cintila e, por assim
dizer, tremeluz na abertura do cogito, mas no  dado soberanamente nele
e por ele? Qual , pois, a relao e a difcil interdependncia entre o
ser e o pensamento? Que  o ser do homem, e como pode ocorrer que esse
ser, que se poderia to facilmente caracterizar pelo fato de que "ele
tem pensamento" e que talvez seja o nico a possu-lo, tenha uma relao
indelvel e fundamental com o impensado? Instaura-se uma forma de
reflexo, bastante afastada do cartesianismo e da anlise kantiana, em
que est em questo, pela primeira vez, o ser do homem, nessa dimenso
segundo a qual o pensamento se dirige ao impensado e com ele se
articula.      Isso tem duas conseqncias. A primeira  negativa e de
ordem puramente histrica. Pode parecer que a fenomenologia juntou, um
ao outro, o tema cartesiano do cogito e o motivo transcendental que Kant
extrara da crtica de Hume; Husserl teria assim reanimado a vocao
mais profunda da ratio ocidental, curvando-a sobre si mesma numa
reflexo que seria radicalizao da filosofia pura e fundamento da
possibilidade [pg. 448] de sua prpria histria. Na verdade, Husserl s
pde operar essa juno na medida em que a anlise transcendental mudara
seu ponto de aplicao (este  transportado da possibilidade de uma
cincia da natureza para a possibilidade que o homem tem de se pensar),
e em que o cogito modificara sua funo (esta no  mais a de conduzir a
uma existncia apodtica, a partir de um pensamento que se afirma por
toda a parte em que ele pensa, mas a de mostrar como pode o pensamento
escapar a si mesmo e conduzir assim a uma interrogao mltipla e
proliferante sobre o ser). A fenomenologia , portanto, muito menos a
retomada de uma velha destinao racional do Ocidente, que a atestao,
bem sensvel e ajustada, da grande ruptura que se produziu na epistm
moderna, na curva do sculo XVIII para o sculo XIX. Se a alguma coisa
est ligada   descoberta da vida, do trabalho e da linguagem;  tambm
a essa figura nova que, sob o velho nome de homem, surgiu no h ainda
dois sculos;   interrogao sobre o modo de ser do homem e sobre sua
relao com o impensado.  por isso que a fenomenologia -- ainda que se
tenha esboado primeiramente atravs do antipsicologismo, ou, antes, na
medida mesma em que, contra este, tenha feito ressurgir o problema do a
priori e o motivo transcendental -- jamais pde conjurar o insidioso
parentesco, a vizinhana ao mesmo tempo prometedora e ameaante com as
anlises empricas sobre o homem;  por isso tambm que, embora se tenha
inaugurado por uma reduo ao cogito, ela foi sempre conduzida a
questes,  questo ontolgica. Sob nossos olhos, o projeto
fenomenolgico no cessa de se resolver numa descrio do vivido que,
queira ou no,  emprica, e uma ontologia do impensado que pe fora de
circuito a primazia do "Eu penso".      A outra conseqncia  positiva.
Concerne  relao do homem com o impensado, ou, mais exatamente, ao seu
aparecimento [pg. 449] gmeo na cultura ocidental. Tem-se facilmente a
impresso de que, a partir do momento em que o homem se constituiu como
uma figura positiva no campo do saber, o velho privilgio do
conhecimento reflexivo, do pensamento que se pensa a si mesmo, no podia
deixar de desaparecer; mas que era, por isso mesmo, dado a um pensamento
objetivo percorrer o homem por inteiro -- com o risco de nele descobrir
o que precisamente jamais podia ser dado  sua reflexo nem mesmo  sua
conscincia: mecanismos obscuros, determinaes sem figura, toda uma
paisagem de sombra a que, direta ou indiretamente, se chamou
inconsciente. No  o inconsciente aquilo que se d necessariamente ao
pensamento cientfico que o homem aplica a si mesmo quando pra de se
pensar na forma da reflexo? De fato, o inconsciente e, de maneira
geral, as formas do impensado, no foram a recompensa oferecida a um
saber positivo do homem. O homem e o impensado so, ao nvel
arqueolgico, contemporneos. O homem no pde desenhar-se como uma
configurao na epistm, sem que o pensamento simultaneamente
descobrisse, ao mesmo tempo em si e fora de si, nas suas margens mas
igualmente entrecruzados com sua prpria trama, uma parte de noite, uma
espessura aparentemente inerte em que ele est imbricado, um impensado
que ele contm de ponta a ponta, mas em que do mesmo modo se acha preso.
O impensado (qualquer que seja o nome que se lhe d) no est alojado no
homem como uma natureza encarquilhada ou uma histria que nele se
houvesse estratificado, mas , em relao ao homem, o Outro: o Outro,
fraterno e gmeo, nascido no dele, nem nele, mas ao lado e ao mesmo
tempo, numa idntica novidade, numa dualidade sem apelo. Esse terreno
obscuro, que facilmente se interpreta como uma regio abissal na
natureza do homem, ou como uma fortaleza singularmente [pg. 450]
trancafiada de sua histria, lhe est ligado de outro modo; -lhe, ao
mesmo tempo, exterior e indispensvel: um pouco a sombra projetada do
homem surgindo no saber; um pouco a mancha cega a partir da qual 
possvel conhec-lo. Em todo o caso, o impensado serviu ao homem de
acompanhamento surdo e ininterrupto desde o sculo XIX. Como, em suma,
ele no passava de um duplo insistente, jamais foi refletido por ele
prprio de um modo autnomo; daquilo de que ele era o Outro e a sombra,
recebeu a forma complementar e o nome invertido; foi o An sich em face
do Fr sich na fenomenologia hegeliana; foi o Unbewusste para
Schopenhauer; foi o homem alienado para Marx; nas anlises de Husserl, o
implcito, o inatual, o sedimentado, o no-efetuado: de todo modo, o
inesgotvel duplo que se oferece ao saber refletido como a projeo
confusa do que  o homem na sua verdade, mas que desempenha igualmente o
papel de base prvia a partir da qual o homem deve reunir-se a si mesmo
e se interpelar at sua verdade.  que esse duplo, por prximo que seja,
 estranho, e o papel do pensamento, sua iniciativa prpria, ser
aproxim-lo o mais perto possvel de si mesmo; todo o pensamento moderno
 atravessado pela lei de pensar o impensado -- de refletir, na forma do
Para-si, os contedos do Em-si, de desalienar o homem reconciliando-o
com sua prpria essncia, de explicitar o horizonte que d s
experincias seu pano de fundo de evidncia imediata e desarmada, de
levantar o vu do Inconsciente, de absorver-se no seu silncio ou de
pr-se  escuta de seu murmrio indefinido.      Na experincia moderna,
a possibilidade de instaurar o homem num saber, o simples aparecimento
dessa figura nova no campo da epistm, implicam um imperativo que
importuna interiormente o pensamento; pouco importa que ele seja [pg.
451] cunhado sob as formas de uma moral, de uma poltica, de um
humanismo, de um dever de se incumbir do destino ocidental, ou da pura e
simples conscincia de realizar na histria uma tarefa de funcionrio; o
essencial  que o pensamento seja, por si mesmo e na espessura de seu
trabalho, ao mesmo tempo saber e modificao do que ele sabe, reflexo e
transformao do modo de ser daquilo sobre o que ele reflete. Ele pe em
movimento, desde logo, aquilo que toca: no pode descobrir o impensado,
ou ao menos ir em sua direo, sem logo aproxim-lo de si -- ou talvez
ainda, sem afast-lo, sem que o ser do homem, em todo o caso, uma vez
que ele se desenrola nessa distncia, no se ache, por isso mesmo,
alterado. H a alguma coisa profundamente ligada  nossa modernidade;
afora as morais religiosas, o Ocidente s conheceu, sem dvida, duas
formas de tica: a antiga (sob a forma do estoicismo ou do epicurismo)
articulava-se com a ordem do mundo e, descobrindo sua lei, podia deduzir
o princpio de uma sabedoria ou uma concepo da cidade: mesmo o
pensamento poltico do sculo XVIII pertence ainda a essa forma geral; a
moderna, em contrapartida, no formula nenhuma moral, na medida em que
todo imperativo est alojado no interior do pensamento e de seu
movimento para captar o impensado2;  a reflexo,  a tomada de
conscincia,  a elucidao do silencioso, a palavra restituda ao que 
mudo, o advento  luz dessa parte de sombra que furta o homem a si
mesmo,  a reanimao do inerte,  tudo isso que constitui, por si s, o
contedo e a forma da tica. O pensamento moderno jamais pde, na
verdade, propor uma moral: mas a razo disso no est em ser ele pura
especulao; muito ao contrrio, [pg. 452] desde o incio e na sua
prpria espessura, ele  um certo modo de ao. Deixemos falar aqueles
que incitam o pensamento a sair de seu retiro e a formular suas
escolhas; deixemos agir aqueles que querem, sem qualquer promessa e na
ausncia de virtude, constituir uma moral. Para o pensamento moderno,
no h moral possvel; pois, desde o sculo XIX, o pensamento j "saiu"
de si mesmo em seu ser prprio, no  mais teoria; desde que ele pensa,
fere ou reconcilia, aproxima ou afasta, rompe, dissocia, ata ou reata,
no pode impedir-se de liberar e de submeter. Antes mesmo de prescrever,
de esforar um futuro, de dizer o que  preciso fazer, antes mesmo de
exortar ou somente alertar, o pensamento, ao nvel de sua existncia,
desde sua forma mais matinal, , em si mesmo, uma ao -- um ato
perigoso. Sade, Nietzsche, Artaud e Bataille o souberam, por todos
aqueles que o quiseram ignorar; mas  certo tambm que Hegel, Marx e
Freud o sabiam. Pode-se dizer que o ignoram, em seu profundo simplismo,
aqueles que afirmam que no h filosofia sem escolha poltica, que todo
pensamento  "progressista" ou "reacionrio"? Sua inpcia est em crer
que todo 2     Entre as duas, o momento kantiano constitui um ponto de
juntura:  a descoberta de que o pensamento "exprime" a ideologia de uma
classe; sua involuntria profundidade est em que apontam com o dedo o
modo de ser moderno do pensamento. Superficialmente, pode-se dizer que o
conhecimento do homem, diferentemente das cincias da natureza, est
sempre ligado, mesmo sob sua forma mais indecisa, a ticas ou a
polticas; mais profundamente, o pensamento moderno avana naquela
direo em que o outro do homem deve tornar-se o Mesmo que ele.
VI. O recuo e o retorno da origem       O ltimo trao que caracteriza,
ao mesmo tempo, o modo de ser do homem e a reflexo que a ele se dirige
 a relao [pg. 453] com a origem. Relao muito diferente daquela que
o pensamento clssico tentava estabelecer nas suas gneses ideais.
Reencontrar a origem, no sculo XVIII, era recolocar-se o mais perto
possvel da pura e simples reduplicao da representao: pensava-se a
economia a partir da troca, porque nesta as duas representaes que cada
um dos parceiros fazia de sua propriedade e da do outro eram
equivalentes; oferecendo a satisfao de dois desejos quase idnticos,
elas eram, em suma, "semelhantes". Pensava-se a ordem da natureza, antes
de qualquer catstrofe, como um quadro onde os seres se sucederiam numa
ordem to cerrada e numa trama to contnua que, de um ponto a outro
dessa sucesso, dar-se-ia um deslocamento no interior de uma
quase-identidade, e, de uma extremidade a outra, estar-se-ia sendo
conduzido atravs da superfcie lisa do "semelhante". Pensava-se a
origem da linguagem como a transparncia entre a representao de uma
coisa e a representao do grito, do som, da mmica (da linguagem de
ao) que a acompanhava. Enfim, a origem do conhecimento era buscada do
lado dessa seqncia pura de representaes -- seqncia to perfeita e
to linear, que a segunda tinha substitudo a primeira sem que se
tomasse conscincia disso, uma vez que ela no lhe era simultnea, que
no era possvel estabelecer entre as duas uma diferena e que no se
podia experimentar a seguinte seno como "semelhante"  primeira; e
somente quando aparecia uma sensao mais "semelhante" a uma precedente
do que todas as outras,  que a reminiscncia podia exercer-se, a
imaginao representar novamente uma representao e o sujeito, enquanto
racional, se d a si mesmo sua prpria lei que  a lei universal.
conhecimento firmar-se nessa reduplicao. Pouco importava que esse
nascimento fosse considerado fictcio ou real, que tivesse valor de
hiptese explicativa ou de acontecimento histrico: na verdade, essas
distines s existem para ns; [pg. 454] num pensamento para o qual o
desenvolvimento cronolgico se aloja no interior de um quadro, sobre o
qual ele s constitui um percurso, o ponto de partida est
simultaneamente fora do tempo real e dentro dele: ele  essa dobra
primeira pela qual todos os acontecimentos histricos podem ter lugar.
No pensamento moderno, tal origem no  mais concebvel: viu-se como o
trabalho, a vida, a linguagem adquiriram sua historicidade prpria, na
qual estavam entranhadas: no podiam, portanto, jamais enunciar
verdadeiramente sua origem, ainda que toda a sua histria esteja
interiormente como que apontada em direo a ela. No  mais a origem
que d lugar  historicidade;  a historicidade que, na sua prpria
trama, deixa perfilar-se a necessidade de uma origem que lhe seria ao
mesmo tempo interna e estranha: como o vrtice virtual de um cone onde
todas as diferenas, todas as disperses, todas as descontinuidades
fossem estreitadas at formarem no mais que um ponto de identidade, a
impalpvel figura do Mesmo, com o poder, entretanto, de explodir sobre
si e de tornar-se outra.      O homem constituiu-se no comeo do sculo
XIX em correlao com essas historicidades, com todas essas coisas
envolvidas sobre si mesmas e indicando, atravs de seu desdobramento,
mas por suas leis prprias, a identidade inacessvel de sua origem.
Contudo, no  do mesmo modo que o homem tem relao com sua origem. 
que, com efeito, o homem s se descobre ligado a uma historicidade j
feita: no  jamais contemporneo dessa origem que, atravs do tempo das
coisas, se esboa enquanto se esquiva; quando ele tenta definir-se como
ser vivo, s descobre seu prprio comeo sobre o fundo de uma vida que
por sua vez comeara bem antes dele; quando tenta se apreender como ser
no trabalho, traz  luz as suas formas mais rudimentares somente no
interior [pg. 455] de um tempo e de um espao humanos j
institucionalizados, j dominados pela sociedade; e quando tenta definir
sua essncia de sujeito falante, aqum de toda lngua efetivamente
constituda, jamais encontra seno a possibilidade da linguagem j
desdobrada, e no o balbucio, a primeira palavra a partir da qual todas
as lnguas e a prpria linguagem se tornaram possveis.  sempre sobre
um fundo do j comeado que o homem pode pensar o que para ele vale como
origem. Esta, portanto, de modo algum  para ele o comeo -- uma espcie
de primeira manh da histria a partir da qual se houvessem acumulado as
aquisies ulteriores. A origem , bem antes, a maneira como o homem em
geral, como todo e qualquer homem, se articula com o j comeado do
trabalho, da vida e da linguagem; deve ser procurada nessa dobra onde o
homem trabalha com toda a ingenuidade um mundo laborado h milnios,
vive, no frescor de sua existncia nica, recente e precria, uma vida
que se entranha at as primeiras formaes orgnicas, compe em frases
ainda no ditas (mesmo que geraes as tenham repetido) palavras mais
velhas que toda memria. Nesse sentido, o nvel do originrio , sem
dvida, para o homem, o que est mais prximo dele: essa superfcie que
ele percorre inocentemente, sempre pela primeira vez, e sobre a qual
seus olhos, logo que se abrem, descobrem figuras to jovens quanto seu
olhar -- figuras que, no mais que ele, no podem ter idade, mas por uma
razo inversa: no porque sejam tambm sempre jovens, mas porque
pertencem a um tempo que no tem nem as mesmas medidas, nem os mesmos
fundamentos que ele. Mas essa tnue superfcie do originrio que margina
toda a nossa existncia e que jamais lhe  ausente (nem mesmo, e
sobretudo, no instante da morte em que ela se descobre, ao contrrio,
como que a nu) no  o imediato de um nascimento; [pg. 456] est toda
povoada por essas mediaes complexas que, na sua histria prpria, o
trabalho, a vida e a linguagem formaram e depositaram; de sorte que
nesse simples contato, desde o primeiro objeto manipulado, desde a
manifestao da mais simples necessidade at o arrojo da mais neutra
palavra, so todos os intermedirios de um tempo que o domina quase ao
infinito, que o homem, sem o saber, reanima. Sem o saber; mas  preciso,
na verdade, que o saiba de certa maneira, pois que  assim que os homens
entram em comunicao e se acham na rede j entabulada da compreenso. E
contudo esse saber  limitado, diagonal, parcial, porquanto cercado, de
todos os lados, por uma imensa regio de sombra onde o trabalho, a vida
e a linguagem ocultam sua verdade (e sua prpria origem) queles mesmos
que falam, que existem e que laboram.      O originrio, tal como, desde
a Fenomenologia do esprito, o pensamento moderno no cessou de
descrever, , pois, bem diferente daquela gnese ideal que a idade
clssica tentara reconstituir; mas  diferente tambm (conquanto lhe
seja ligado por uma correlao fundamental) da origem que se desenha,
numa espcie de alm retrospectivo, atravs da historicidade dos seres.
Longe de reconduzir, ou mesmo de apenas apontar em direo a um vrtice
real ou virtual de identidade, longe de indicar o momento do Mesmo em
que a disperso do Outro no se exerceu ainda, o originrio no homem 
aquilo que, desde o incio, o articula com outra coisa que no ele
prprio;  aquilo que introduz na sua experincia contedos e formas
mais antigas do que ele e que ele no domina;  aquilo que, ligando-o a
cronologias mltiplas, entrecruzadas, freqentemente irredutveis umas
s outras, o dispersa atravs do tempo e o expe em meio  durao das
coisas. Paradoxalmente, o originrio no homem no anuncia o tempo de seu
nascimento, nem o ncleo mais antigo de sua [pg. 457] experincia:
liga-o ao que no tem o mesmo tempo que ele; e nele libera tudo o que
no lhe  contemporneo; indica, sem cessar e numa proliferao sempre
renovada, que as coisas comearam bem antes dele e que, por essa mesma
razo, ningum lhe poderia assinalar uma origem, a ele cuja experincia
 inteiramente constituda e limitada por essas coisas. Ora, essa
prpria impossibilidade tem dois aspectos: significa, por um lado, que a
origem das coisas est sempre recuada, j que remonta a um calendrio
onde o homem no figura; mas significa, por outro lado, que o homem, por
oposio a essas coisas, de que o tempo deixa perceber o nascimento
cintilante na sua espessura,  o ser sem origem, aquele "que no tem
ptria nem data", aquele cujo nascimento jamais  acessvel porque
jamais teve "lugar". O que se anuncia no imediato do originrio , pois,
que o homem est separado da origem que o tornaria contemporneo de sua
prpria existncia: em meio a todas as coisas que nascem no tempo e nele
sem dvida morrem, ele, separado de toda origem, j est a. De sorte
que  nele que as coisas (aquelas mesmas que o excedem) encontram seu
comeo: mais que cicatriz marcada num instante qualquer da durao, ele
 a abertura a partir da qual o tempo em geral pode reconstituir-se, a
durao escoar, e as coisas, no momento que lhes  prprio, fazer seu
aparecimento. Se, na ordem emprica, as coisas so sempre recuadas para
ele, inapreensveis em seu ponto zero, o homem se acha fundamentalmente
em recuo em relao a esse recuo das coisas e  assim que elas podem, no
imediato da experincia originria, fazer pesar sua slida
anterioridade.      Uma tarefa se apresenta ento ao pensamento: a de
contestar a origem das coisas, mas de contest-la para fund-la,
reencontrando o modo pelo qual se constitui a possibilidade do tempo --
essa origem sem origem nem comeo a partir da [pg. 458] qual tudo pode
nascer. Semelhante tarefa implica que seja posto em questo tudo o que
pertence ao tempo, tudo o que nele se formou, tudo o que se aloja no seu
elemento mvel, de maneira que aparea a brecha sem cronologia e sem
histria donde provm o tempo. Este estaria ento suspenso nesse
pensamento que, contudo, no lhe escapa, j que nunca  contemporneo da
origem; mas essa suspenso teria o poder de abalar a relao recproca
entre a origem e o pensamento; o tempo giraria em torno de si e a
origem, tendo-se tornado aquilo que o pensamento tem ainda que pensar e
sempre de novo, lhe seria prometida numa iminncia sempre mais prxima,
jamais realizada. A origem  ento o que est em via de voltar, a
repetio para a qual tende o pensamento, o retorno do que sempre j
comeou, a proximidade de uma luz que desde sempre brilhou. Assim, uma
terceira vez, a origem se perfila atravs do tempo; mas desta feita  o
recuo no futuro, a injuno que o pensamento recebe e se faz a si mesmo
de avanar, passo a passo, em direo ao que no cessou de torn-lo
possvel, de espreitar adiante de si, sobre a linha sempre recuada de
seu horizonte, a luz donde ele veio e donde profusamente advm.      No
preciso momento em que lhe era possvel denunciar como quimeras as
gneses descritas no sculo XVIII, o pensamento moderno instaurava uma
problemtica da origem muito complexa e muito intrincada; essa
problemtica ser- viu de fundamento  nossa experincia do tempo e  a
partir dela que, desde o sculo XIX, nasceram todas as tentativas para
retomar o que poderia ser, na ordem humana, o comeo e o recomeo, o
afastamento e a presena do incio, o retorno e o fim. Com efeito, o
pensamento moderno estabeleceu uma relao com a origem que era inversa
para o homem e para as coisas: autorizava assim -- mas frustrava de
antemo [pg. 459] e guardava em face deles todo o seu poder de
contestao -- os esforos positivistas para inserir a cronologia do
homem no interior da cronologia das coisas, de maneira que a unidade do
tempo fosse restaurada e que a origem do homem no fosse nada mais que
uma data, que uma dobra na srie sucessiva dos seres (estabelecer essa
origem, e com ela o aparecimento da cultura, a aurora das civilizaes
no movimento da evoluo biolgica); autorizava tambm o esforo inverso
e complementar para alinhar, segundo a cronologia do homem, a
experincia que ele tem das coisas, os conhecimentos que sobre elas
adquiriu, as cincias que pde assim constituir (de sorte que, se todos
os comeos do homem tm seu lugar no tempo das coisas, o tempo
individual ou cultural do homem permite, numa gnese psicolgica ou
histrica, definir o momento em que as coisas encontram, pela primeira
vez, o semblante de sua verdade); em cada um desses dois alinhamentos, a
origem das coisas e a do homem se subordinam uma  outra; mas o simples
fato de haver dois alinhamentos possveis e irreconciliveis indica a
assimetria fundamental que caracteriza o pensamento moderno da origem.
Ademais, esse pensamento faz advir, numa luz derradeira e como que numa
claridade essencialmente reticente, uma certa camada do originrio onde
nenhuma origem na verdade estava presente, mas onde o tempo sem comeo
do homem manifestava para uma memria possvel o tempo sem lembrana das
coisas; da uma dupla tentao: psicologizar todo conhecimento, qualquer
que seja, e fazer da psicologia uma espcie de cincia geral de todas as
cincias; ou, inversamente, descrever essa camada originria num estilo
que escapa a todo positivismo, de maneira que se possa, a partir da,
inquietar a positividade de toda cincia e reivindicar contra ela o
carter fundamental, incontornvel dessa experincia. Mas, [pg. 460] ao
atribuir a si a tarefa de restituir o domnio do originrio, o
pensamento moderno a logo descobre o recuo da origem; e se prope
paradoxalmente a avanar na direo em que esse recuo se realiza e no
cessa de aprofundar-se; tenta faz-lo aparecer do outro lado da
experincia como aquilo que a sustenta por seu recuo mesmo, como aquilo
que est o mais prximo possvel da sua mais visvel possibilidade, como
aquilo que nela  iminente; e, se o recuo da origem se apresenta assim
na sua maior clareza, no  a prpria origem que se acha liberada e
ascende at si mesma na dinastia de seu arcasmo?  por isso que o
pensamento moderno est votado inteiramente  grande preocupao do
retorno, ao cuidado de recomear, a essa estranha inquietude, que lhe 
prpria, que o coloca no dever de repetir a repetio. Assim, de Hegel a
Marx e a Spengler, desenvolveu- se o tema de um pensamento que, pelo
movimento em que se realiza -- totalidade alcanada, retomada violenta
no extremo despojamento, declnio solar -- curva-se sobre si mesmo,
ilumina sua prpria plenitude, fecha seu crculo, reencontra-se em todas
as figuras estranhas de sua odissia e aceita desaparecer nesse mesmo
oceano donde emanara; em oposio a esse retorno que ainda que no seja
feliz  perfeito, delineia-se a experincia de Hlderlin, de Nietzsche e
de Heidegger, em que o retorno s se d no extremo recuo da origem -- l
onde os deuses se evadiram, onde cresce o deserto, onde a tkhn
instalou a denominao de sua vontade; de maneira que no se trata a de
um fechamento nem de uma curva, mas antes dessa brecha incessante que
libera a origem na medida mesma de seu recuo; o extremo  ento o mais
prximo. Mas quer essa camada do originrio, descoberta pelo pensamento
moderno no movimento mesmo em que ele inventou o homem, prometa a
ocasio da realizao e das plenitudes acabadas, quer restitua [pg.
461] o vazio da origem -- aquele disposto pelo seu recuo e aquele
escavado pela sua aproximao -- de todo modo o que ela prescreve que se
pense  algo como o "Mesmo": atravs do domnio do originrio que
articula a experincia humana com o tempo da natureza e da vida, com a
histria, com o passado sedimentado das culturas, o pensamento moderno
se esfora por reencontrar o homem em sua identidade -- nessa plenitude
ou nesse nada que  ele mesmo --, a histria e o tempo nessa repetio
que eles tornam impossvel mas que foram a pensar, e o ser naquilo
mesmo que ele .      E assim, nesta tarefa infinita de pensar a origem
o mais perto e o mais longe de si, o pensamento descobre que o homem no
 contemporneo do que o faz ser -- ou daquilo a partir do qual ele ;
mas que est preso no interior de um poder que o dispersa, o afasta para
longe de sua prpria origem, e todavia lha promete numa iminncia que
ser talvez sempre furtada; ora, esse poder no lhe  estranho; no
reside fora dele na serenidade das origens eternas e incessantemente
recomeadas, pois ento a origem seria efetivamente dada; esse poder 
aquele de seu ser prprio. O tempo -- mas esse tempo que  ele prprio
-- tanto o aparta da manh donde ele emergiu quanto daquela que lhe 
anunciada. V-se quanto esse tempo fundamental -- esse tempo a partir do
qual o tempo pode ser dado  experincia --  diferente daquele que
vigorava na filosofia da representao: o tempo ento dispersava a
representao pois que lhe impunha a forma de uma sucesso linear; mas
competia  representao restituir-se a si mesma na imaginao,
reduplicar-se assim perfeitamente e dominar o tempo; a imagem permitia
retomar o tempo integral- mente, reapreender o que fora concedido 
sucesso e construir um saber to verdadeiro quanto o de um entendimento
eterno. Na experincia moderna, ao contrrio, o distanciamento da origem
[pg. 462]  mais fundamental do que toda experincia, porquanto  nela
que a experincia cintila e manifesta sua positividade;  porque o homem
no  contemporneo de seu ser que as coisas vm se dar com um tempo que
lhes  prprio. E reencontra-se aqui o tema inicial da finitude. Mas
essa finitude, que era primeiramente anunciada pelo jugo das coisas
sobre o homem -- pelo fato de que ele era dominado pela vida, pela
histria, pela linguagem -- aparece agora num nvel mais fundamental:
ela  a relao insupervel do ser do homem com o tempo.          Assim,
redescobrindo a finitude na interrogao da origem, o pensamento moderno
remata o grande quadriltero que comeou a desenhar quando toda a
epistm ocidental se abalou no fim do sculo XVIII: o liame das
positividades com a finitude, a reduplicao do emprico no
transcendental, a relao perptua do cogito com o impensado, o
distanciamento e o retorno da origem definem para ns o modo de ser do
homem.  na anlise desse modo de ser, e no mais na da representao,
que, desde o sculo XIX, a reflexo busca assentar filosoficamente a
possibilidade do saber.                          VII. O discurso e o ser
do homem          Pode-se notar que estes quatro segmentos tericos
(anlises da finitude, da repetio emprico-transcendental, do
impensado e da origem) mantm certa relao com os quatro domnios
subordinados que, juntos, constituam, na poca clssica, a teoria geral
da linguagem3. Relao que ,  primeira vista, de semelhana e de
simetria. Deve-se lembrar [pg. 463] que a teoria do verbo explicava
como a linguagem podia transbordar para fora de si mesma e afirmar o ser
-- isto, num movimento que assegurava, em troca, o ser mesmo da
linguagem, pois que esta s podia instaurar-se e abrir seu espao l
onde j houvesse, ao menos sob uma forma secreta, o verbo "ser"; a
anlise da finitude explica, do mesmo modo, como o ser do homem se acha
determinado por positividades que lhe so exteriores e que o ligam 
espessura das coisas, e como, em troca,  o ser finito que d a toda
determinao a possibilidade de aparecer na sua verdade positiva.
Enquanto a teoria da articulao mostrava de que maneira se podia fazer,
num s movimento, o recorte das palavras e 3     Cf. supra, p. 133. das
coisas que elas representam, a anlise da reduplicao
emprico-transcendental mostra como se correspondem, numa oscilao
indefinida, o que  dado na experincia e o que torna a experincia
possvel. A procura das designaes primeiras da linguagem fazia brotar,
no corao mais silencioso das palavras, das slabas, dos prprios sons,
uma representao adormecida que formava como que sua alma esquecida (e
que era preciso fazer vir  luz, fazer falar e cantar novamente, para
uma justeza maior do pensamento, para um mais maravilhoso poder da
poesia);  de um modo anlogo que, para a reflexo moderna, a espessura
inerte do impensado  sempre habitada, de certa maneira, por um cogito e
que esse pensamento adormecido no que no  pensamento deve ser
novamente animado e dirigido  soberania do "eu penso". Enfim, havia na
reflexo clssica sobre a linguagem uma teoria da derivao: ela
mostrava como a linguagem, desde o incio de sua histria e talvez no
instante de sua origem, no ponto mesmo em que ela se punha a falar,
deslizava em seu prprio espao, girava sobre si mesma, desviando-se de
sua representao primeira, e s estabelecia suas palavras, mesmo [pg.
464] as mais antigas, quando j desenroladas ao longo das figuras da
retrica; a essa anlise corresponde o esforo para pensar uma origem
que j est sempre esquivada, para avanar nessa direo em que o ser do
homem  sempre mantido em relao a si mesmo num afastamento e numa
distncia que o constituem.      Mas esse jogo de correspondncias no
deve iludir. No se deve imaginar que a anlise clssica do discurso se
tenha prosseguido sem modificao atravs dos tempos, aplicando-se
apenas a um novo objeto; que a fora de algum peso histrico a tenha
mantido em sua identidade, apesar de tantas mutaes vizinhas. De fato,
os quatro segmentos tericos que desenhavam o espao da gramtica geral
no se conservaram: dissociaram-se, mudaram de funo e de nvel,
modificaram todo o seu domnio de validade quando, no final do sculo
XVIII, a teoria da representao desapareceu. Durante a idade clssica,
a gramtica geral tinha por funo mostrar como, no interior da cadeia
sucessiva das representaes, podia introduzir-se uma linguagem que,
mesmo manifestando-se na linha simples e absolutamente tnue do
discurso, supunha formas de simultaneidade (afirmao de existncias e
de coexistencias; delimitao de coisas representadas e formao de
generalidades; relao originria e indelvel entre palavras e coisas;
deslocamento de palavras em seu espao retrico). Ao contrrio, a
anlise do modo de ser do homem, tal como se desenvolveu desde o sculo
XIX, no se aloja no interior de uma teoria da representao; sua tarefa
, muito pelo contrrio, mostrar como  possvel que as coisas em geral
sejam dadas  representao, em que condies, sobre que solo, entre que
limites elas podem aparecer numa positividade mais profunda do que os
modos diversos da percepo; e o que ento se descobre nessa
coexistncia do [pg. 465] homem e das coisas, atravs do grande
desdobramento espacial aberto pela representao,  a finitude radical
do homem, a disperso que, a um tempo, o afasta da origem e lha promete,
a distncia incontornvel do tempo. A analtica do homem no retoma, tal
como fora constituda alhures e como a tradio lha negou, a anlise do
discurso. A presena ou ausncia de uma teoria da representao, mais
exatamen- te, o carter primeiro ou a posio derivada dessa teoria
modifica inteiramente o equilbrio do sistema. Enquanto a representao
 evidente, como elemento geral do pensamento, a teoria do discurso
vale, ao mesmo tempo e num s movimento, como fundamento de toda
gramtica possvel e como teoria do conhecimento. Mas, desde que
desaparece o primado da representao, ento a teoria do discurso se
dissocia, e pode-se-lhe reencontrar a forma desencarnada e
metamorfoseada em dois nveis. No nvel emprico, os quatro segmentos
constitutivos se reencontram, mas a funo que exerciam  inteiramente
invertida4: a antiga anlise do privilgio do verbo, do seu poder de
fazer sair o discurso de si mesmo e de enraiz-lo no ser da
representao, foi substituda pela anlise de uma estrutura gramatical
interna que  imanente a cada lngua e a constitui como um ser autnomo,
portanto voltado sobre si mesmo; do mesmo modo, a teoria das flexes, a
procura das leis de mutao prpria das palavras substituem a anlise da
articulao comum s palavras e s coisas; a teoria do radical
substituiu a anlise da raiz representativa; enfim, descobriu-se o
parentesco lateral das lnguas l onde se buscava a continuidade sem
fronteira das derivaes. Em outros termos, tudo o que havia funcionado
na dimenso da relao entre as coisas (tais como so representadas)
[pg. 466] e das palavras (com seu valor representativo) acha-se
retomado no interior da linguagem e incumbido de assegurar-lhe a
legalidade interna. No nvel dos fundamentos, reencontram-se ainda os
quatro segmentos da teoria do discurso: como na idade clssica, eles
servem de 4     Cf. supra, p. 311. fato, nessa analtica nova do ser
humano, para manifestar a relao com as coisas; mas, desta feita, a
modificao  inversa  precedente; no se trata mais de situ-los num
espao interior  linguagem, mas de liber-los do domnio da
representao, no interior do qual eram assumidos, e de faz-los atuar
nessa dimenso da exterioridade em que o homem aparece como finito,
determinado, enredado na espessura daquilo que ele no pensa e
submetido, no seu ser mesmo,  disperso do tempo.      A anlise
clssica do discurso, a partir do momento em que no estava mais em
continuidade com uma teoria da representao, achou-se como que fendida
em duas: por um lado, ela investiu-se num conhecimento emprico das
formas gramaticais; e, por outro, tornou-se uma analtica da finitude;
mas nenhuma dessas duas translaes pde operar-se sem uma inverso
total do funcionamento. Pode-se compreender agora, e at o fundo, a
incompatibilidade que reina entre a existncia do discurso clssico
(apoiada na evidncia no-questionada da representao) e a existncia
do homem, tal como  dada ao pensamento moderno (e com a reflexo
antropolgica que ela autoriza): alguma coisa como uma analtica do modo
de ser do homem s se tornou possvel uma vez dissociada, transferida e
invertida a anlise do discurso representativo. Com isso adivinha-se
tambm que ameaa faz pesar sobre o ser do homem, assim definido e
colocado, o reaparecimento contemporneo da linguagem no enigma de sua
unidade e de seu ser. Ser nossa tarefa no porvir a de avanarmos em
direo a um modo de pensamento, desconhecido [pg. 467] at o presente
em nossa cultura, e que permitiria refletir ao mesmo tempo, sem
descontinuidade nem contradio, sobre o ser do homem e sobre o ser da
linguagem? E, nesse caso,  preciso conjurar, com as maiores precaues,
tudo o que possa constituir retorno ingnuo  teoria clssica do
discurso (retorno cuja tentao,  preciso diz-lo,  tanto maior quanto
mais estamos desarmados para pensar o ser cintilante mas abrupto da
linguagem, ao passo que a velha teoria da representao est a, toda
constituda, a oferecer-nos um lugar onde esse ser poder alojar-se e
dissolver-se num puro funcionamento). Mas pode ser tambm que esteja
para sempre excludo o direito de pensar ao mesmo tempo o ser da
linguagem e o ser do homem; pode ser que haja a como que uma indelvel
abertura (aquela em que justamente existimos e falamos), de tal forma
que seria preciso rejeitar como quimera toda antropologia que
pretendesse tratar do ser da linguagem, toda concepo da linguagem ou
da significao que quisesse alcanar, manifestar e liberar o ser
prprio do homem.  talvez a que se enraza a mais importante opo
filosfica de nossa poca. Opo que s se pode fazer na experincia
mesma de uma reflexo futura. Pois nada nos pode dizer, de antemo, de
que lado a via est aberta. A nica coisa que, por ora, sabemos com toda
a certeza  que jamais, na cultura ocidental, o ser do homem e o ser da
linguagem puderam coexistir e se articular um com o outro. Sua
incompatibilidade foi um dos traos fundamentais de nosso pensamento.
A mutao da anlise do Discurso numa analtica da finitude tem,
contudo, outra conseqncia. A teoria clssica do signo e da palavra
devia mostrar como as representaes, que se sucediam numa cadeia to
estreita e to cerrada que as distines a no apareciam, e que eram,
em suma, todas [pg. 468] semelhantes, podiam estender-se num quadro
permanente de diferenas estveis e de identidades limitadas; tratava-se
de uma gnese da Diferena a partir da monotonia secretamente variada do
Semelhante. A analtica da finitude tem um papel exatamente inverso:
mostrando que o homem  determinado, trata-se, para ela, de manifestar
que o fundamento dessas determinaes  o ser mesmo do homem em seus
limites radicais; ela deve manifestar tambm que os contedos da
experincia so j suas prprias condies, que o pensamento freqenta
previamente o impensado que lhes escapa e cuja reapreenso  sua tarefa
de sempre; ela mostra como essa origem de que jamais o homem 
contemporneo lhe  a um tempo retirada e dada ao modo da iminncia; em
suma, trata-se sempre, para ela, de mostrar como o Outro, o Longnquo 
tambm o mais Prximo e o Mesmo. Passou-se assim de uma reflexo sobre a
ordem das Diferenas (com a anlise que ela supe e essa ontologia do
contnuo, essa exigncia de um ser pleno, sem ruptura, desdobrado em sua
perfeio, que supem uma metafsica) a um pensamento do Mesmo, sempre a
ser conquistado ao que lhe  contraditrio: o que implica (alm da tica
de que se falou) uma dialtica e essa forma de ontologia que, por no
ter necessidade do contnuo, por no precisar refletir o ser seno nas
suas formas limitadas ou no afastamento de sua distncia, pode e deve
dispensar a metafsica. Um jogo dialtico e uma ontologia sem metafsica
se interpelam e se correspondem mutuamente atravs do pensamento moderno
e ao longo de toda a sua histria: pois  um pensamento que no se
encaminha mais em direo  formao jamais acabada da Diferena, mas ao
desvelamento do Mesmo sempre por realizar. Ora, tal desvelamento no se
d sem o aparecimento simultneo do Duplo, e essa distncia, nfima mas
invencvel, que reside no [pg. 469] "e" do recuo e do retorno, do
pensamento e do impensado, do emprico e do transcendental, do que  da
ordem da positividade e do que  da ordem dos fundamentos. A identidade
separada de si mesma numa distncia que lhe , em certo sentido,
interior, mas que, em outro, a constitui, a repetio que oferece o
idntico mas na forma do afastamento esto, sem dvida, no corao desse
pensamento moderno ao qual, apressadamente, se atribui a descoberta do
tempo. De fato, se se prestar um pouco mais de ateno, percebe-se que o
pensamento clssico reportava a possibilidade de espacializar as coisas
em um quadro a essa propriedade da pura sucesso representativa de se
interpelar a partir de si, de se reduplicar e de constituir uma
simultaneidade a partir de um tempo contnuo: o tempo fundava o espao.
No pensamento moderno, o que se revela no fundamento da histria das
coisas e da historicidade prpria ao homem  a distncia que escava o
Mesmo,  o afastamento que o dispersa e o rene nos dois extremos dele
mesmo.  essa profunda espacialidade que permite ao pensamento moderno
sempre pensar o tempo -- conhec-lo como sucesso, promet-lo a si mesmo
como acabamento, origem ou retorno.                         VIII. O sono
antropolgico      A antropologia como analtica do homem teve
indubitavelmente um papel constituinte no pensamento moderno, pois que
em grande parte ainda no nos desprendemos dela. Ela se tornara
necessria a partir do momento em que a representao perdera o poder de
determinar, por si s e num movimento nico, o jogo de suas snteses e
de suas anlises. Era preciso que as snteses empricas fossem
asseguradas em [pg. 470] qualquer outro lugar que no na soberania do
"Eu penso". Deviam ser requeridas onde precisamente essa soberania
encontra seu limite, isto , na finitude do homem -- finitude que 
tanto a da conscincia quanto a do indivduo que vive, fala, trabalha.
Kant j formulara isso na Lgica quando acrescentara  sua trilogia
tradicional uma ltima interrogao: as trs questes crticas (que
posso eu saber? que devo fazer? que me  permitido esperar?) acham-se
ento reportadas a uma quarta e postas, de certo modo, " sua custa":
Was ist der Mensch?5          Essa questo, como se viu, percorre o
pensamento desde o comeo do sculo XIX:  ela que opera, furtiva e
previamente, a confuso entre o emprico e o transcendental, cuja
distino, porm, Kant mostrara. Por ela, constituiu-se uma reflexo de
nvel misto que caracteriza a filosofia moderna. A preocupao que ela
tem com o homem e que reivindica no s nos seus discursos como ainda no
seu pthos, o cuidado com que tenta defini-lo como ser vivo, indivduo
que trabalha ou sujeito falante, s para as boas almas assinalam o tempo
de um reino humano que finalmente retorna; trata-se, de fato -- o que 
mais prosaico e menos moral -- de uma reduplicao emprico-crtica pela
qual se tenta fazer valer o homem da natureza, da permuta ou do discurso
como o fundamento de sua prpria finitude. Nessa Dobra, a funo
transcendental vem cobrir, com sua rede imperiosa, o espao inerte e
sombrio da empiricidade; inversamente, os contedos empricos se animam,
se refazem, erguem-se e so logo subsumidos num discurso que leva longe
sua presuno transcendental. E eis que nessa Dobra a filosofia
adormeceu num sono novo; no mais o do Dogmatismo, mas o da
Antropologia. Todo conhecimento emprico, desde que concernente [pg.
471] ao homem, vale como campo filosfico possvel, em que se deve
descobrir o fundamento do conhecimento, a definio de seus limites e,
finalmente, a verdade de toda verdade. A configurao antropolgica da
filosofia moderna consiste em desdobrar o dogmatismo, reparti-lo em dois
nveis diferentes que se apiam um no outro e se limitam um pelo outro:
a anlise pr- crtica do que  o homem em sua essncia converte-se na
analtica de tudo o que pode dar-se em geral  experincia do homem.
Para despertar o pensamento de tal sono -- to profundo que ele o
experimenta paradoxalmente como vigilncia, de tal modo confunde a
circularidade de um dogmatismo que se desdobra para encontrar em si
mesmo seu prprio apoio com a agilidade e a inquietude de um pensamento
radicalmente filosfico -- para cham-lo s suas mais matinais
possibilidades, no h outro meio seno destruir, at seus fun-
damentos, o "quadriltero" antropolgico. Sabe-se bem, em todo o caso,
que todos 5     Kant. Logik. In: Werke, ed. Cassirer, t. VIII, p. 343.
os esforos para pensar de novo investem precisamente contra ele: seja
porque se trate de atravessar o campo antropolgico e, apartando-se dele
a partir do que ele enuncia, reencontrar uma ontologia purificada ou um
pensamento radical do ser; seja ainda porque, colocando fora de
circuito, alm do psicologismo e do historicismo, todas as formas
concretas do preconceito antropolgico, se tente reintegrar os limites
do pensamento e reatar assim com o projeto de uma crtica geral da
razo. Talvez se devesse ver o primeiro esforo desse desenraizamento da
Antropologia ao qual, sem dvida, est votado o pensamento
contemporneo, na experincia de Nietzsche: atravs de uma crtica
filolgica, atravs de uma certa forma de biologismo, Nietzsche
reencontrou o ponto onde o homem e Deus pertencem um ao outro, onde a
morte do segundo  sinnimo do desaparecimento [pg. 472] do primeiro, e
onde a promessa do super-homem significa, primeiramente e antes de tudo,
a iminncia da morte do homem. Com isso, Nietzsche, propondo-nos esse
futuro, ao mesmo tempo como termo e como tarefa, marca o limiar a partir
do qual a filosofia contempornea pode recomear a pensar; ele
continuar sem dvida, por muito tempo, a orientar seu curso. Se a
descoberta do Retorno , realmente, o fim da filosofia, ento o fim do
homem  o retorno do comeo da filosofia. Em nossos dias no se pode
mais pensar seno no vazio do homem desaparecido. Pois esse vazio no
escava uma carncia; no prescreve uma lacuna a ser preenchida. No 
mais nem menos que o desdobrar de um espao onde, enfim,  de novo
possvel pensar.      A Antropologia constitui talvez a disposio
fundamental que comandou e conduziu o pensamento filosfico desde Kant
at ns. Disposio essencial, pois que faz parte de nossa histria; mas
em via de se dissociar sob nossos olhos, pois comeamos a nela
reconhecer, a nela denunciar de um modo crtico, a um tempo, o
esquecimento da abertura que a tornou possvel e o obstculo tenaz que
se ope obstinadamente a um pensamento por vir. A todos os que pretendem
ainda falar do homem, de seu reino ou de sua liberao, a todos os que
formulam ainda questes sobre o que  o homem em sua essncia, a todos
os que pretendem partir dele para ter acesso  verdade, a todos os que,
em contrapartida, reconduzem todo conhecimento s verdades do prprio
homem, a todos os que no querem formalizar sem antropologizar, que no
querem mitologizar sem desmistificar, que no querem pensar sem
imediatamente pensar que  o homem quem pensa, a todas essas formas de
reflexo canhestras e distorcidas, s se pode opor um riso filosfico --
isto , de certo modo, silencioso. [pg. 473] CAPTULO X AS CINCIAS
HUMANAS                           I. O triedro dos saberes      O modo
de ser do homem, tal como se constituiu no pensamento moderno,
permite-lhe desempenhar dois papis: est, ao mesmo tempo, no fundamento
de todas as positividades, e presente, de uma forma que no se pode
sequer dizer privi- legiada, no elemento das coisas empricas. Esse fato
-- e no se trata a da essncia em geral do homem, mas pura e
simplesmente desse a priori histrico que, desde o sculo XIX, serve de
solo quase evidente ao nosso pensamento -- esse fato , sem dvida,
decisivo para o estatuto a ser dado s "cincias humanas", a esse corpo
de conhecimentos (mas mesmo esta palavra  talvez demasiado forte:
digamos, para sermos mais neutros ainda, a esse conjunto de discursos)
que toma por objeto o homem no que ele tem de emprico.      A primeira
coisa a constatar  que as cincias humanas no receberam por herana um
certo domnio j delineado, dimensionado talvez em seu conjunto, mas
no-desbravado, e que elas teriam por tarefa elaborar com conceitos
enfim [pg. 475] cientficos e mtodos positivos; o sculo XVIII no
lhes transmitiu, sob o nome de homem ou de natureza humana, um espao
circunscrito exteriormente, mas ainda vazio, que elas tivessem, em
seguida, a tarefa de cobrir e analisar. O campo epistemolgico que
percorrem as cincias humanas no foi prescrito de antemo: nenhuma
filosofia, nenhuma opo poltica ou moral, nenhuma cincia emprica,
qualquer que fosse, nenhuma observao do corpo humano, nenhuma anlise
da sensao, da imaginao ou das paixes, jamais encontrou, nos sculos
XVII e XVIII, alguma coisa como o homem; pois o homem no existia (assim
como a vida, a linguagem e o trabalho); e as cincias humanas no
apareceram quando, sob o efeito de algum racionalismo premente, de algum
problema cientfico no-resolvido, de algum interesse prtico,
decidiu-se fazer passar o homem (por bem ou por mal, e com maior ou
menor xito) para o campo dos objetos cientficos -- em cujo nmero,
talvez, no esteja ainda provado que seja possvel inclu-lo de modo
absoluto; elas apareceram no dia em que o homem se constituiu na cultura
ocidental, ao mesmo tempo como o que  necessrio pensar e o que se deve
saber. Certamente, no resta dvida de que a emergncia histrica de
cada uma das cincias humanas tenha ocorrido por ocasio de um problema,
de uma exigncia, de um obstculo de ordem terica ou prtica; por certo
foram necessrias novas normas impostas pela sociedade industrial aos
indivduos para que, lentamente, no decurso do sculo XIX, a psicologia
se constitusse como cincia; tambm foram necessrias, sem dvida, as
ameaas que, desde a Revoluo, pesaram sobre os equilbrios. sociais e
sobre aquele mesmo que instaurara a burguesia, para que aparecesse uma
reflexo de tipo sociolgico. Mas se essas referncias podem bem
explicar por que  que foi [pg. 476] realmente em tal circunstncia
determinada e para responder a tal questo precisa que essas cincias se
articularam, sua possibilidade intrnseca, o fato nu de que, pela
primeira vez, desde que existem seres humanos e que vivem em sociedade,
o homem, isolado ou em grupo, se tenha tornado objeto de cincia -- isso
no pode ser considerado nem tratado como um fenmeno de opinio:  um
acontecimento na ordem do saber.      E esse acontecimento produziu-se,
por sua vez, numa redistribuio geral da epistm: quando, abandonando
o espao da representao, os seres vivos alojaram- se na profundeza
especfica da vida, as riquezas no surto progressivo das formas da
produo, as palavras no devir das linguagens. Nessas condies, era
necessrio que o conhecimento do homem surgisse, com seu escopo
cientfico, como contemporneo e do mesmo veio que a biologia, a
economia e a filologia, de tal sorte que nele se viu, muito
naturalmente, um dos mais decisivos progressos realizados, na histria
da cultura europia, pela racionalidade emprica. Mas, como ao mesmo
tempo a teoria geral da representao desaparecia e impunha-se, em
contrapartida, a necessidade de interrogar o ser do homem como
fundamento de todas as positividades, no podia deixar de produzir-se um
desequilbrio: o homem tornava-se aquilo a partir do qual todo
conhecimento podia ser constitudo em sua evidncia imediata e
no-problematizada; tornava-se, a fortiori, aquilo que autoriza o
questionamento de todo conhecimento do homem. Da esta dupla e
inevitvel contestao: a que institui o perptuo debate entre as
cincias do homem e as cincias propriamente ditas, tendo as primeiras a
pretenso invencvel de fundar as segundas, que, sem cessar so
obrigadas a buscar seu prprio fundamento, a justificao de seu mtodo
e a purificao de sua [pg. 477] histria, contra o "psicologismo",
contra o "sociologismo", contra o "historicismo"; e a que institui o
perptuo debate entre a filosofia, que objeta s cincias humanas a
ingenuidade com a qual tentam fundar-se a si mesmas, e essas cincias
humanas, que reivindicam como seu objeto prprio o que teria constitudo
outrora o domnio da filosofia.      Mas, se todas essas constataes
so necessrias, isso no quer dizer que se desenvolvem no elemento da
pura contradio; sua existncia, sua incansvel repetio desde h mais
de um sculo no indicam a permanncia de um problema indefinidamente
aberto; elas remetem a uma disposio epistemolgica precisa e muito bem
determinada na histria. Na poca clssica, desde o projeto de uma
anlise da representao at o tema da mthsis universalis, o campo do
saber era perfeitamente homogneo: todo conhecimento, qualquer que
fosse, procedia s ordenaes pelo estabelecimento das diferenas e
definia as diferenas pela instaurao de uma ordem; isso era verdadeiro
para as matemticas, verdadeiro tambm para as taxinomias (no sentido
lato) e para as cincias da natureza; mas igualmente verdadeiro para
todos esses conhecimentos aproximativos, imperfeitos e em grande parte
espontneos, que atuam na construo do menor discurso ou nos processos
cotidianos da troca; era verdadeiro, enfim, para o pensamento filosfico
e para essas longas cadeias ordenadas que os idelogos, no menos que
Descartes ou Spinoza, ainda que de outro modo, pretenderam estabelecer a
fim de conduzir necessariamente das idias mais simples e mais evidentes
at as verdades mais complexas. Mas, a partir do sculo XIX, o campo
epistemolgico se fragmenta ou, antes, explode em direes diferentes.
Dificilmente se escapa ao prestgio das classificaes e das hierarquias
lineares  maneira de Comte; mas buscar alinhar todos [pg. 478] os
saberes modernos a partir das matemticas  submeter ao ponto de vista
nico da objetividade do conhecimento a questo da positividade dos
saberes, de seu modo de ser, de seu enraizamento nessas condies de
possibilidade que lhes d, na histria, a um tempo, seu objeto e sua
forma.      Interrogado a esse nvel arqueolgico, o campo da epistm
moderna no se ordena conforme o ideal de uma matematizao perfeita e
no desenrola, a partir da pureza formal, uma longa seqncia de
conhecimentos descendentes, cada vez mais carregados de empiricidade.
Antes, deve-se representar o domnio da epistm moderna com um espao
volumoso e aberto segundo trs dimenses. Numa delas, situar-se-iam as
cincias matemticas e fsicas, para as quais a ordem  sempre um
encadeamento dedutivo e linear de proposies evidentes ou verificadas;
haveria, em outra dimenso, cincias (como as da linguagem, da vida, da
produo e da distribuio das riquezas) que procedem ao estabelecimento
de relaes entre elementos descontnuos mas anlogos, de sorte que elas
pudessem estabelecer entre eles relaes causais e constantes de
estrutura. Essas duas primeiras dimenses definem entre si um plano
comum: aquele que pode aparecer, conforme o sentido em que  percorrido,
como campo de aplicao das matemticas a essas cincias empricas, ou
domnio do matematizvel na lingstica, na biologia e na economia.
Quanto  terceira dimenso, seria a da reflexo filosfica, que se
desenvolve como pensamento do Mesmo; com a dimenso da lingstica, da
biologia e da economia, ela delineia um plano comum: l podem aparecer,
e efetivamente apareceram, as diversas filosofias da vida, do homem
alienado, das formas simblicas (quando se transpem para a filosofia os
conceitos e os problemas que nasceram nos diferentes domnios
empricos); mas, l tambm [pg. 479] apareceram, se se interrogar de um
ponto de vista radicalmente filosfico o fundamento dessas
empiricidades, ontologias regionais, que tentam definir o que so, em
seu ser prprio, a vida, o trabalho e a linguagem; enfim, a dimenso
filosfica define com a das disciplinas matemticas um plano comum: o da
formalizao do pensamento.      Desse triedro epistemolgico, as
cincias humanas so excludas, no sentido ao menos de que no podem ser
encontradas em nenhuma das dimenses, nem  superfcie de nenhum dos
planos assim delineados. Mas, pode-se tambm dizer que elas so
includas por ele, pois  no interstcio desses saberes, mais exatamente
no volume definido por suas trs dimenses, que elas encontram seu
lugar. Essa situao (menor num sentido, privilegiada noutro) coloca-as
em relao com todas as outras formas de saber: tm o projeto, mais ou
menos protelado, porm constante, de se conferirem ou, em todo o caso,
de utilizarem, num nvel ou noutro, uma formalizao matemtica;
procedem segundo modelos ou conceitos tomados  biologia,  economia e
s cincias da linguagem; endeream-se, enfim, a esse modo de ser do
homem que a filosofia busca pensar ao nvel da finitude radical,
enquanto elas pretendem percorr-lo em suas manifestaes empricas. 
talvez essa repartio nebulosa num espao de trs dimenses que torna
as cincias humanas to difceis de situar, que confere sua irredutvel
precariedade  localizao destas no domnio epistemolgico, que as faz
aparecer ao mesmo tempo como perigosas e em perigo. Perigosas, pois
representam para todos os outros saberes como que um risco permanente:
por certo, nem as cincias dedutivas, nem as cincias empricas, nem a
reflexo filosfica, desde que permaneam na sua dimenso prpria,
arriscam-se a "passar" para as cincias humanas ou encarregar-se de sua
impureza; [pg. 480] sabe-se, porm, que dificuldades por vezes encontra
o estabelecimento desses planos intermedirios que unem, umas s outras,
as trs dimenses do espao epistemolgico;  que o menor desvio em
relao a esses planos rigorosos faz cair o pensamento no domnio
investido pelas cincias humanas; da o perigo do "psicologismo", ou do
"sociologismo" -- do que se poderia chamar, numa palavra,
"antropologismo" -- que se torna ameaador desde que, por exemplo, no
se reflita corretamente sobre as relaes entre o pensamento e a
formalizao, ou desde que no se analisem convenientemente os modos de
ser da vida, do trabalho e da linguagem. A "antropologizao" , em
nossos dias, o grande perigo interior do saber. Facilmente se acredita
que o homem liberou-se de si mesmo, desde que descobriu que no estava
nem no centro da criao, nem no ncleo do espao, nem mesmo talvez no
cume e no fim derradeiro da vida; mas, se o homem no  mais soberano no
reino do mundo, se j no reina no mago do ser, as "cincias humanas"
so perigosos intermedirios no espao do saber. Na verdade, porm, essa
postura mesma as condena a uma instabilidade essencial. O que explica a
dificuldade das "cincias humanas", sua precariedade, sua incerteza como
cincias, sua perigosa familiaridade com a filosofia, seu apoio mal
definido sobre outros domnios do saber, seu carter sempre secundrio e
derivado, como tambm sua pretenso ao universal, no , como
freqentemente se diz, a extrema densidade de seu objeto; no  o
estatuto metafsico ou a indestrutvel transcendncia desse homem de que
elas falam, mas, antes, a complexidade da configurao epistemolgica em
que se acham colocadas, sua relao constante com as trs dimenses que
lhes confere seu espao. [pg. 481]                      II. A forma das
cincias humanas       preciso esboar agora a forma dessa
positividade. De ordinrio, tenta-se defini-la em funo das
matemticas: quer porque se busca aproxim-la o mais possvel destas,
fazendo o inventrio de tudo o que nas cincias humanas  matematizvel
e supondo que tudo o que no  suscetvel de semelhante formalizao no
recebeu ainda sua positividade cientfica; quer porque se tenta, ao
contrrio, distinguir com cuidado o domnio do matematizvel e aquele
outro que lhe seria irredutvel, porque seria o lugar da interpretao,
porque se lhes aplicariam sobretudo os mtodos da compreenso, porque se
acharia estreitado em torno do plo clnico do saber. Semelhantes
anlises no so somente cansativas porque gastas, mas antes de tudo
porque carecem de pertinncia. Certamente, no h dvida de que essa
forma de saber emprico que se aplica ao homem (e que, para obedecer 
conveno, pode-se ainda chamar de "cincias humanas" antes mesmo de
saber em que sentido e dentro de que limites podem ser denominadas
"cincias") tem relao com as matemticas: como qualquer outro domnio
do saber, elas podem, sob certas condies, servir-se do instrumental
matemtico; alguns de seus procedimentos, muitos dos seus resultados
podem ser formalizados. , seguramente, de primeira importncia,
conhecer esses instrumentos, poder praticar essas formalizaes, definir
os nveis em que podem ser efetuadas; , sem dvida, interessante para a
histria saber como Condorcet pde aplicar o clculo das probabilidades
 poltica, como Fechner definiu a relao logartmica entre o
crescimento da sensao e o da excitao, como os psiclogos
contemporneos se servem da teoria da informao para compreender os
fenmenos da aprendizagem. Mas, apesar da especificidade [pg. 482] dos
problemas colocados,  pouco provvel que a relao com as matemticas
(as possibilidades de matematizao, ou a resistncia a todos os
esforos de formalizao) seja constitutiva das cincias humanas na sua
positividade singular. E isso por duas razes: porque, no essencial,
elas tm esses problemas em comum com muitas outras disciplinas (como a
biologia, a gentica) ainda que eles no sejam, aqui e l, identicamente
os mesmos; e sobretudo porque a anlise arqueolgica no descortinou, no
a priori histrico das cincias humanas, uma forma nova das matemticas
ou um brusco avano destas no domnio do humano, mas, sim, muito mais
uma espcie de retraimento da mthsis, uma dissociao de seu campo
unitrio e a liberao, em relao  ordem linear das menores diferenas
possveis, de organizaes empricas como a vida, a linguagem e o
trabalho. Nesse sentido, o aparecimento do homem e a constituio das
cincias humanas (ainda que sob a forma de um projeto) seriam
correlativos de uma espcie de "desmatematizao". Dir-se-, sem dvida,
que essa dissociao de um saber concebido por inteiro como mthsis no
era um recuo das matemticas, pela simples razo de que esse saber
jamais conduzira (salvo em astronomia e sobre certos pontos de fsica) a
uma matematizao efetiva; ao desaparecer, ele antes liberava a natureza
e todo o campo das empiricidades para uma aplicao, a cada instante
limitado e controlado, das matemticas; os primeiros grandes progressos
da fsica matemtica, as primeiras utilizaes macias do clculo das
probabilidades no datam do momento em que se renunciou a constituir
imediatamente uma cincia geral das ordens no-quantificveis? Com
efeito, no se pode negar que a renncia a uma mthsis (ao menos
provisoriamente) permitiu, em certos domnios do saber, suspender o
obstculo da qualidade, e aplicar [pg. 483] o instrumental matemtico
l onde ele ainda no penetrara. Mas se, ao nvel da fsica, a
dissociao do projeto da mthsis constitui uma nica e mesma coisa com
a descoberta de novas aplicaes das matemticas, o mesmo no ocorreu em
todos os domnios: a biologia, por exemplo, alm de uma cincia das
ordens qualitativas, constituiu-se como anlise das relaes entre os
rgos e as funes, estudo das estruturas e dos equilbrios,
investigaes sobre sua formao e seu desenvolvimento na histria dos
indivduos ou das espcies; tudo isso no impediu que a biologia
utilizasse as matemticas e que estas pudessem aplicar-se  biologia bem
mais amplamente que no passado. Todavia, no foi em sua relao com as
matemticas que a biologia assumiu sua autonomia e definiu sua
positividade. O mesmo ocorreu com as cincias humanas: foi o retraimento
da mthsis e no o avano das matemticas que permitiu ao homem
constituir-se como objeto de saber; foi o envolvimento do trabalho, da
vida e da linguagem em torno deles prprios que prescreveu, do exterior,
o aparecimento desse novo domnio; e  o aparecimento desse ser
emprico- transcendental, desse ser cujo pensamento  indefinidamente
tramado com o impensado, desse ser sempre separado de uma origem que lhe
 prometida na imediatidade do retorno --  esse aparecimento que d s
cincias humanas sua feio singular. Tambm a, como em outras
disciplinas, pode ser que a aplicao das matemticas tenha sido
facilitada (e o seja cada vez mais) por todas as modificaes que se
produziram, no comeo do sculo XIX, no saber ocidental. Imaginar,
porm, que as cincias humanas definiram seu projeto mais radical e
inauguraram sua histria positiva no dia em que se pretendeu aplicar o
clculo das probabilidades aos fenmenos da opinio poltica e utilizar
logaritmos para medir a intensidade crescente das sensaes [pg. 484] 
tomar um contra-efeito de superfcie pelo acontecimento fundamental.
Em outros termos, entre as trs dimenses que abrem s cincias humanas
seu espao prprio e lhes facultam o volume em que elas tomam corpo, a
das matemticas  talvez a menos problemtica;  com ela, em todo o
caso, que as cincias humanas entretm as relaes mais claras, mais
serenas e, de certo modo, mais transparentes: tanto mais que o recurso
s matemticas, sob uma forma ou outra, sempre foi a maneira mais
simples de emprestar ao saber positivo sobre o homem um estilo, uma
forma, uma justificao cientfica. Em contrapartida, as dificuldades
mais fundamentais, as que permitem melhor definir o que so, em sua
essncia, as cincias humanas, alojam-se do lado das outras duas
dimenses do saber: aquela em que se desenrola a analtica da finitude e
aquela ao longo da qual se repartem as cincias empricas que tomam por
objeto a linguagem, a vida e o trabalho.      As cincias humanas, com
efeito, endeream-se ao homem, na medida em que ele vive, em que fala,
em que produz.  como ser vivo que ele cresce, que tem funes e
necessidades, que v abrir-se um espao cujas coordenadas mveis ele
articula em si mesmo; de um modo geral, sua existncia corporal f-lo
entrecruzar- se, de parte a parte, com o ser vivo; produzindo objetos e
utenslios, trocando aquilo de que tem necessidade, organizando toda uma
rede de circulao ao longo da qual perpassa o que ele pode consumir e
em que ele prprio se acha definido como elemento de troca, aparece ele
em sua existncia imediatamente imbricado com os outros; enfim, porque
tem uma linguagem, pode constituir para si todo um universo simblico,
em cujo interior se relaciona com seu passado, com coisas, com outrem, a
partir do qual pode imediatamente construir alguma coisa com um saber
[pg. 485] (particularmente esse saber que tem de si mesmo e do qual as
cincias humanas desenham uma das formas possveis). Pode-se, portanto,
fixar o lugar das cincias do homem nas vizinhanas, nas fronteiras
imediatas e em toda a extenso dessas cincias em que se trata da vida,
do trabalho e da linguagem. No chegam estas justamente a se formar na
poca em que, pela primeira vez, o homem se oferece  possibilidade de
um saber positivo? Contudo, nem a biologia, nem a economia, nem a
filologia devem ser tomadas como as primeiras cincias humanas nem como
as mais fundamentais. Isso se reconhece sem dificuldade no caso da
biologia, que se dirige a muitos outros seres vivos alm do homem;
tem-se mais dificuldade em admiti-lo no caso da economia ou da
filologia, que tm por domnio prprio e exclusivo atividades
especficas do homem. Mas no se pergunta por que  que a biologia ou a
fisiologia humanas, por que  que a anatomia dos centros corticais da
linguagem no podem, de modo algum, ser consideradas como cincias do
homem.  que o objeto destas ltimas jamais se d ao modo de ser de um
funcionamento biolgico (nem mesmo sob sua forma singular e como que a
de seu prolongamento no homem); ele  antes seu reverso, sua marca no
vazio; ele comea l onde pra -- no a ao ou os efeitos -- mas o ser
prprio desse funcionamento -- l onde se liberam representaes,
verdadeiras ou falsas, claras ou obscuras, perfeitamente conscientes ou
embrenhadas na profundidade de alguma sonolncia, observveis direta ou
indiretamente, oferecidas naquilo que o prprio homem enuncia ou
detectveis somente do exterior; a busca das ligaes intracorticais
entre os diferentes centros de integrao da linguagem (auditivos,
visuais, motores) no  da alada das cincias humanas; mas estas
encontraro seu espao de desempenho, desde que se interrogue [pg. 486]
esse espao de palavras, essa presena ou esse esquecimento de seu
sentido, essa distncia entre o que se quer dizer e a articulao em que
essa inteno  investida, coisas de que o sujeito talvez no tenha
conscincia, mas que no teriam nenhum modo de ser assinalvel se esse
mesmo sujeito no tivesse representaes.      De um modo mais geral, o
homem, para as cincias humanas, no  esse ser vivo que tem uma forma
bem particular (uma fisiologia bastante especial e uma autonomia quase
nica);  esse ser vivo que, do interior da vida  qual pertence
inteiramente e pela qual  atravessado em todo o seu ser, constitui
representaes graas s quais ele vive e a partir das quais detm esta
estranha capacidade de poder se representar justamente a vida. Do mesmo
modo, conquanto o homem seja a nica espcie no mundo que trabalha, ao
menos aquela em que a produo, a distribuio, o consumo dos bens
assumiram tanta importncia e receberam formas to mltiplas e to
diferenciadas, nem por isso a economia  uma cincia humana. Dir-se-
talvez que esta, para definir leis que so contudo interiores aos
mecanismos da produo (como o acmulo do capital ou as relaes entre
as taxas dos salrios e os custos de produo), recorre a comportamentos
humanos e a uma representao que o fundamentam (o interesse, a busca do
lucro mximo, a tendncia para a poupana); mas, ao faz-lo, ela utiliza
as representaes como requisito de um funcionamento (que passa, com
efeito, por uma atividade humana explcita); em contrapartida, s haver
cincia do homem se nos dirigirmos  maneira como os indivduos ou os
grupos se representam seus parceiros na produo e na troca, o modo como
esclarecem, ou ignoram, ou ` mascaram esse funcionamento e a posio que
a ocupam, a maneira como se representam a sociedade em que isso ocorre,
[pg. 487] o modo como se sentem integrados a ela ou isolados,
dependentes, submetidos ou livres; o objeto das cincias humanas no 
esse homem que, desde a aurora do mundo, ou o primeiro grito de sua
idade de ouro, est destinado ao trabalho;  esse ser que, do interior
das formas da produo pelas quais toda a sua existncia  comandada,
forma a representao dessas necessidades, da sociedade pela qual, com a
qual ou contra a qual as satisfaz, de sorte que, a partir da, pode ele
finalmente se dar a representao da prpria economia. Quanto 
linguagem, ocorre o mesmo: embora o homem seja, no mundo, o nico ser
que fala, no constitui cincia humana conhecer as mutaes fonticas, o
parentesco das lnguas, a lei dos desvios semnticos; em contrapartida,
poder-se- falar de cincia humana desde que se busque definir a maneira
como os indivduos ou os grupos se representam as palavras, utilizam sua
forma e seu sentido, compem discursos reais, mostram e escondem neles o
que pensam, dizem, talvez  sua revelia, mais ou menos do que pretendem,
deixam desses pensamentos, em todo o caso, uma massa de traos verbais
que  preciso decifrar e restituir, tanto quanto possvel,  sua
vivacidade representativa. O objeto das cincias humanas no , pois, a
linguagem (falada, contudo, apenas pelos homens), mas, sim, esse ser
que, do interior da linguagem pela qual est cercado, se representa, ao
falar, o sentido das palavras ou das proposies que enuncia e se d,
finalmente, a representao da prpria linguagem.      V-se que as
cincias humanas no so uma anlise do que o homem  por natureza; so
antes uma anlise que se estende entre o que o homem  em sua
positividade (ser que vive, trabalha, fala) e o que permite a esse mesmo
ser saber (ou buscar saber) o que  a vida, em que consistem a essncia
do trabalho e suas leis, e de que modo ele pode falar. As [pg. 488]
cincias humanas ocupam, pois, essa distncia que separa (no sem
uni-las) a biologia, a economia, a filologia daquilo que lhes d
possibilidade no ser mesmo do homem. Seria errneo, portanto, fazer das
cincias humanas o prolongamento, interiorizado na espcie humana, no
seu organismo complexo, na sua conduta e na sua conscincia, dos
mecanismos biolgicos; no menos errneo colocar, no interior das
cincias humanas, a cincia da economia e da linguagem (cuja
irredutibilidade s cincias humanas  manifestada pelo esforo para
constituir uma economia e uma lingstica puras). De fato, nem as
cincias humanas esto no interior dessas cincias, nem as interiorizam,
inclinando-as em direo  subjetividade do homem; se as retomam na
dimenso da representao,  antes reassumindo-as em sua vertente
exterior, deixando-as na sua opacidade, acolhendo como coisas os
mecanismos e os funcionamentos que elas isolam, interrogando estes
ltimos no no que so, mas no que deixam de ser quando se abre o espao
da representao; e, a partir da, elas mostram como pode nascer e
desdobrar-se uma representao do que eles sejam. Elas reconduzem sub-
repticiamente as cincias da vida, do trabalho e da linguagem, para o
lado dessa analtica da finitude que mostra como pode o homem haver-se,
no seu ser, com essas coisas que ele conhece e conhecer essas coisas que
determinam, na positividade, seu modo de ser. Mas aquilo que a analtica
requer na interioridade ou ao menos na dependncia profunda de um ser
que no deve sua finitude seno a si mesmo, as cincias humanas o
desenvolvem na exterioridade do conhecimento.  por isso que o
especfico das cincias humanas no  o direcionamento a certo contedo
(esse objeto singular que  o ser humano);  muito mais um carter
puramente formal: o simples fato de estarem, em relao s cincias em
que o ser [pg. 489] humano  dado como objeto (exclusivo para a
economia e a filologia, ou parcial para a biologia), numa posio de
reduplicao, e de que essa reduplicao possa valer a fortiori para
elas mesmas.      Essa posio torna-se perceptvel em dois nveis: as
cincias humanas no tratam a vida, o trabalho e a linguagem do homem na
maior transparncia em que se podem dar, mas naquela camada de condutas,
de comportamentos, de atitudes, de gestos j feitos, de frases j
pronunciadas ou escritas, em cujo interior eles foram dados
antecipadamente, numa primeira vez, queles que agem, se conduzem,
trocam, trabalham e falam; em outro nvel ( sempre a mesma propriedade
formal, mas desenvolvida at o ponto extremo e mais raro),  sempre
possvel tratar, em estilo de cincias humanas (de psicologia, de
sociologia, de histria das culturas ou das idias ou das cincias) o
fato de haver para certos indivduos ou certas sociedades alguma coisa
como um saber especulativo da vida, da produo e da linguagem -- em
ltima anlise, uma biologia, uma economia e uma filologia. Sem dvida,
isso  apenas a indicao de uma possibilidade que raramente  efetuada
e que talvez no seja suscetvel, ao nvel das empiricidades, de
oferecer uma grande riqueza; mas, o fato de que ela existe como
distncia eventual, como espao de recuo dado s cincias humanas em
relao quilo mesmo donde elas vm, o fato tambm de que esse jogo pode
aplicar-se a elas prprias (podem-se sempre fazer as cincias humanas
das cincias humanas, a psicologia da psicologia, a sociologia da
sociologia etc.) bastam para mostrar sua singular configurao. Em
relao  biologia,  economia, s cincias da linguagem, elas no
esto, portanto, em carncia de exatido ou de rigor; esto antes, como
cincias da reduplicao, numa posio "metaepistemolgica". Ainda
assim, [pg. 490] o prefixo no est talvez muito bem escolhido: pois s
se fala de metalinguagem quando se trata de definir as regras de
interpretao de uma linguagem primeira. Aqui as cincias humanas,
quando reduplicam as cincias da linguagem, do trabalho e da vida,
quando, na sua mais fina extremidade, se reduplicam a si mesmas, no
visam a estabelecer um discurso formalizado: ao contrrio, elas
embrenham o homem que tomam por objeto no campo da finitude, da
relatividade, da perspectiva -- no campo da eroso indefinida do tempo.
Talvez fosse melhor falar a seu propsito de posio "ana" ou
"hipoepistemolgica"; se libertssemos este ltimo prefixo do que pode
ter de pejorativo, ele explicaria sem dvida as coisas: faria
compreender que a invencvel impresso de fluidez, de inexatido, de
impreciso que deixam quase todas as cincias humanas no  seno o
efeito de superfcie daquilo que permite defini-las em sua positividade.
III. Os trs modelos      Numa primeira abordagem, pode-se dizer que o
domnio das cincias humanas  coberto por trs "cincias" -- ou, antes,
por trs regies epistemolgicas, todas subdivididas no interior de si
mesmas e todas entrecruzadas umas com as outras; essas regies so
definidas pela trplice relao das cincias humanas em geral com a
biologia, a economia, a filologia. Poder-se-ia admitir assim que a
"regio psicolgica" encontrou seu lugar l onde o ser vivo, no
prolongamento de suas funes, de seus esquemas neuromotores, de suas
regulaes fisiolgicas, mas tambm na suspenso que os interrompe e os
limita, se abre  possibilidade da representao; do mesmo modo, a
"regio sociolgica" teria encontrado [pg. 491] seu lugar l onde o
indivduo que trabalha, produz e consome se confere a representao da
sociedade em que se exerce essa atividade, dos grupos e dos indivduos
entre os quais ela se reparte, dos imperativos, das sanes, dos ritos,
das festas e das crenas mediante os quais ela  sustentada ou regulada;
enfim naquela regio onde reinam as leis e as formas de uma linguagem,
mas onde, entretanto, elas permanecem  margem de si mesmas, permitindo
ao homem fazer a passar o jogo de suas representaes, l nascem o
estudo das literaturas e dos mitos, a anlise de todas as manifestaes
orais e de todos os documentos escritos, em suma, a anlise dos
vestgios verbais que uma cultura ou um indivduo podem deixar de si
mesmos. Essa repartio, ainda que muito sumria, no  certamente
demasiado inexata. Ela deixa, porm, na ntegra, dois problemas
fundamentais: um concerne  forma de positividade que  prpria s
cincias humanas (os conceitos em torno dos quais elas se organizam, o
tipo de racionalidade ao qual se referem e pelo qual buscam
constituir-se como saber); outro,  sua relao com a representao (e a
este fato paradoxal de que, embora tendo lugar somente onde h
representao,  a mecanismos, formas, processos inconscientes, , em
todo o caso, aos limites exteriores da conscincia que elas se dirigem).
So bem conhecidos os debates a que deu lugar a busca de uma
positividade especfica no campo das cincias humanas: anlise gentica
ou estrutural? explicao ou compreenso? recurso ao "inferior" ou
manuteno da decifrao ao nvel da leitura? Na verdade, todas essas
discusses tericas no nasceram e no prosseguiram ao longo de toda a
histria das cincias humanas porque estas teriam que lidar com o homem
como com um objeto to complexo que no se teria podido encontrar em sua
direo um modo de [pg. 492] acesso nico, ou que se teria sido
constrangido a utilizar vrios alternadamente. De fato, essas discusses
s puderam existir na medida em que a positividade das cincias humanas
se apia simultaneamente na transferncia de trs modelos distintos.
Essa transferncia no , para as cincias humanas, um fenmeno marginal
(uma espcie de estrutura de apoio, de desvio mediante uma
inteligibilidade exterior, de confirmao no campo das cincias j
constitudas); no  tambm um episdio limitado de sua histria (uma
crise de formao numa poca em que eram ainda to novas, que no podiam
fixar por si prprias seus conceitos e suas leis). Trata-se de um fato
indelvel, que est ligado, para sempre,  sua disposio prpria no
espao epistemolgico. Convm, com efeito, distinguir duas espcies de
modelos utilizados pelas cincias humanas (pondo  parte os modelos de
formalizao). Houve, por um lado -- e ainda h freqentemente --
conceitos que so transportados a partir de outro domnio do
conhecimento e que, perdendo ento toda eficcia operatria, no
desempenham mais que um papel de imagem (as metforas organicistas na
sociologia do sculo XIX; as metforas energticas em Janet; as
metforas geomtricas e dinmicas em Lewin). Mas h tambm os modelos
constituintes que no so, para as cincias humanas, tcnicas de
formalizao nem simples meios para, com o menor esforo, imaginar
processos; eles permitem formar conjuntos de fenmenos como tantos
"objetos" para um saber possvel; asseguram sua ligao na empiricidade,
mas os oferecem  experincia j ligados entre si. Desempenham o papel
de "categorias" no saber singular das cincias humanas.      Esses
modelos constituintes so tomados de emprstimo aos trs domnios da
biologia, da economia e do estudo da linguagem.  na superfcie de
projeo da biologia que o [pg. 493] homem aparece como um ser que tem
funes -- que recebe estmulos (fisiolgicos, mas tambm sociais,
inter-humanos, culturais), que responde a eles, que se adapta, evolui,
submete-se s exigncias do meio, harmoniza-se com as modificaes que
ele impe, busca apagar os desequilbrios, age segundo regularidades,
tem, em suma, condies de existncia e a possibilidade de encontrar
normas mdias de ajustamento que lhe permitem exercer suas funes. Na
superfcie de projeo da economia, o homem aparece enquanto tem
necessidades e desejos, enquanto busca satisfaz-los, enquanto, pois,
tem interesses, visa a lucros, ope-se a outros homens; em suma, ele
aparece numa irredutvel situao de conflito; a esses conflitos ele se
esquiva, deles foge ou chega a domin- los, a encontrar uma soluo que
apazige, ao menos em um nvel e por algum tempo, sua contradio;
instaura um conjunto de regras que so, ao mesmo tempo, limitao e
dilatao do conflito. Enfim, na superfcie de projeo da linguagem, as
condutas do homem aparecem como querendo dizer alguma coisa; seus
menores gestos, at em seus mecanismos involuntrios e at em seus
malogros, tm um sentido; e tudo o que ele deposita em torno de si, em
matria de objetos, de ritos, de hbitos, de discurso, toda a esteira de
rastros que deixa atrs de si constitui um conjunto coerente e um
sistema de signos. Assim, estes trs pares, funo e norma, conflito e
regra, significao e sistema, cobrem, por completo, o domnio inteiro
do conhecimento do homem.      Contudo, no se deve julgar que cada um
desses pares de conceitos permanece localizado na superfcie de projeo
em que puderam nascer: a funo e a norma no so conceitos psicolgicos
e exclusivamente tais; o conflito e a regra no tm uma aplicao
limitada apenas ao domnio sociolgico; a significao e o sistema no
valem somente para os fenmenos [pg. 494] mais ou menos aparentados 
linguagem. Todos esses conceitos so retomados no volume comum das
cincias humanas, valem em cada uma das regies que ele envolve: da se
segue ser freqentemente difcil fixar os limites, no s entre os
objetos, mas tambm entre os mtodos prprios  psicologia, 
sociologia,  anlise das literaturas e dos mitos. No entanto, pode-se
dizer, de maneira global, que a psicologia  fundamentalmente um estudo
do homem em termos de funes e de normas (funes e normas que se
podem, de maneira secundria, interpretar a partir dos conflitos e das
significaes, das regras e dos sistemas); a sociologia 
fundamentalmente um estudo do homem em termos de regras e de conflitos
(mas estes podem ser interpretados, e somos constantemente levados a
interpret-los secundariamente, quer a partir das funes, como se
fossem indivduos organicamente ligados a si mesmos, quer a partir de
sistemas de significaes, como se fossem textos escritos ou falados);
enfim, o estudo das literaturas e dos mitos procede essencialmente de
uma anlise das significaes e dos sistemas significantes, mas sabe-se
bem que esta pode ser retomada em termos de coerncia funcional ou de
conflitos e de regras.  assim que todas as cincias humanas se
entrecruzam e podem sempre interpretar-se umas s outras, que suas
fronteiras se apagam, que as disciplinas intermedirias e mistas se
multiplicam indefinidamente, que seu objeto prprio acaba mesmo por
dissolver-se. Mas, qualquer que seja a natureza da anlise e o domnio a
que ela se aplica, tem-se um critrio formal para saber o que  do nvel
da psicologia, da sociologia ou da anlise das linguagens:  a escolha
do modelo fundamental e a posio dos modelos secundrios que permitem
saber em que momento se "psicologiza" ou se "sociologiza" no estudo das
literaturas e dos mitos, em que momento se faz, [pg. 495] em
psicologia, decifraco de textos ou anlise sociolgica. Mas essa
superposio de modelos no  um defeito de mtodo. S h defeito se os
modelos no forem ordenados e explicitamente articulados uns com os
outros. Sabe-se com que preciso admirvel se pde conduzir o estudo das
mitologias indo-europias utilizando, com base numa anlise dos
significantes e das significaes, o modelo sociolgico. Sabe-se, em
contrapartida, a que trivialidades sincrticas conduziu o sempre
medocre empreendimento de fundar uma psicologia dita "clnica".
Quer seja ele fundado e dominado, quer se realize na confuso, esse
entrecruzamento dos modelos constituintes explica as discusses dos
mtodos h pouco evocadas. Elas no tm sua origem e sua justificao
numa complexidade por vezes contraditria que seria o carter prprio do
homem; mas, sim, no jogo de oposio que permite definir cada um dos
trs modelos em relao aos dois outros. Opor a gnese  estrutura 
opor a funo (em seu desenvolvimento, em suas operaes
progressivamente diversificadas, em suas adaptaes adquiridas e
equilibradas no tempo) ao sincronismo do conflito e da regra, da
significao e do sistema; opor a anlise pelo "inferior"  que se
mantm ao nvel de seu objeto  opor o conflito (como dado primeiro,
arcaico, inscrito j nas necessidades fundamentais do homem)  funo e
 significao tais como se desdobram na sua realizao prpria; opor a
compreenso  explicao  opor a tcnica que permite decifrar um
sentido a partir do sistema significante quelas que permitem explicar
um conflito com suas conseqncias, ou as formas e as deformaes que
pode assumir e sofrer uma funo com seus rgos. Mas  preciso ir mais
longe. Sabe-se que, nas cincias humanas, o ponto de vista da
descontinuidade (limiar entre a natureza e a cultura, [pg. 496]
irredutibilidade mtua dos equilbrios ou das solues encontradas por
cada sociedade ou cada indivduo, ausncia de formas intermedirias,
inexistncia de um continuum dado no espao ou no tempo) se ope ao
ponto de vista da continuidade. A existncia dessa oposio se explica
pelo carter bipolar dos modelos: a anlise em estilo de continuidade
apia-se na permanncia das funes (que se encontra desde o fundo da
vida numa identidade que autoriza e enraza as adaptaes sucessivas),
no encadeamento dos conflitos (ainda que assumam formas diversas, seu
rudo de fundo no cessa jamais), na trama das significaes (que se
retomam umas s outras e constituem como que a superfcie de um
discurso); a anlise das descontinuidades, ao contrrio, procura antes
fazer surgir a coerncia interna dos sistemas significantes, a
especificidade dos conjuntos de regras e o carter de deciso que elas
assumem em relao ao que deve ser regulado, a emergncia da norma acima
das oscilaes funcionais.      Poder-se-ia talvez retraar toda a
histria das cincias humanas desde o sculo XIX, a partir desses trs
modelos. Com efeito, eles cobriram todo o seu devir, pois que se pode
seguir, h mais de um sculo, a dinastia de seus privilgios: primeiro,
o reino do modelo biolgico (o homem, sua psique, seu grupo, sua
sociedade, a linguagem que ele fala existem, na poca romntica,
enquanto vivos e na medida em que de fato vivem; seu modo de ser 
orgnico e  analisado em termos de funo); depois vem o reino do
modelo econmico (o homem e toda a sua atividade so o lugar de
conflitos de que constituem, ao mesmo tempo, a expresso mais ou menos
manifesta e a soluo mais ou menos bem-sucedida); enfim -- assim como
Freud vem aps Comte e Marx -- comea o reino do modelo filolgico
(quando se trata de interpretar e de descobrir o sentido oculto) e
lingstico (quando se [pg. 497] trata de estruturar e de trazer  luz
o sistema significante). Um amplo declive conduziu, pois, as cincias
humanas de uma forma mais densa em modelos vivos a uma outra mais
saturada de modelos tirados da linguagem. Esse desvio, porm, foi
duplicado por outro: aquele que fez recuar o primeiro termo de cada um
dos pares constituintes (funo, conflito, significao) e fez surgir
com mais intensidade a importncia do segundo (norma, regra, sistema):
Goldstein, Mauss, Dumezil podem representar, quase igualmente, o momento
em que se realizou a reverso em cada um dos modelos. Uma tal reverso
tem duas sries de conseqncias notveis: enquanto o ponto de vista da
funo prevalecia sobre o da norma (enquanto no era a partir da norma e
do interior da atividade que a estabelece que se tentava compreender a
realizao da funo), era ento preciso realmente separar de facto os
funcionamentos normais daqueles que no o eram; admitia-se, assim, uma
psicologia patolgica bem ao lado da normal, mas para ser como que sua
imagem invertida (da a importncia do esquema jacksoniano da
desintegrao em Ribot ou Janet); admitia-se tambm uma patologia das
sociedades (Durkheim), das formas irracionais e quase mrbidas de
crenas (Lvy-Brhl, Blondel); do mesmo modo, enquanto o ponto de vista
do conflito prevalecia sobre o da regra, supunha-se que certos conflitos
no podiam ser superados, que os indivduos e as sociedades corriam o
risco de neles soobrar; enfim, enquanto o ponto de vista da
significao prevalecia sobre o do sistema, separava-se o significante e
o no-significante, admitia-se que em certos domnios do comportamento
humano ou do espao social havia sentido e que em outros no. De maneira
que as cincias humanas exerciam no seu prprio campo uma partilha
essencial, estendiam-se sempre entre um plo positivo e um plo
negativo, designavam [pg. 498] sempre uma alteridade (e isso a partir
da continuidade que elas analisavam). Ao contrrio, quando a anlise foi
efetuada do ponto de vista da norma, da regra e do sistema, cada
conjunto recebeu de si mesmo sua prpria coerncia e sua prpria
validade, no foi mais possvel falar, mesmo a propsito dos doentes, de
"conscincia mrbida", mesmo a propsito de sociedades abandonadas pela
histria, de "mentalidades primitivas", mesmo a propsito de narrativas
absurdas, de lendas aparentemente sem coerncia, de "discursos
no-significantes". Tudo pode ser pensado na ordem do sistema, da regra
e da norma. Ao pluralizar-se -- visto que os sistemas so isolados, que
as regras formam conjuntos fechados e que as normas se estabelecem na
sua autonomia -- o campo das cincias humanas achou-se unificado:
deixou, de imediato, de estar cindido segundo uma dicotomia de valores.
E se se lembrar que Freud, mais que qualquer outro, aproximou o
conhecimento do homem de seu modelo filo-lgico e lingstico, mas que
foi tambm o primeiro a tentar apagar radicalmente a diviso entre o
positivo e o negativo (o normal e o patolgico, o compreensvel e o
incomunicvel, o significante e o no-significante), compreende-se de
que modo anuncia ele a passagem de uma anlise em termos de funes, de
conflitos e de significaes para uma anlise em termos de norma, de
regras e de sistemas: e  assim que todo esse saber, em cujo interior a
cultura ocidental se proveu, em um sculo, de uma certa imagem do homem,
gira em torno da obra de Freud, sem contudo sair de sua disposio
fundamental. Mas no  ainda a -- como se ver dentro em pouco -- que
est a importncia mais decisiva da psicanlise. Em todo o caso, essa
passagem para o ponto de vista da norma, da regra e do sistema nos
aproxima de um problema que foi deixado em suspenso: o do papel da
representao [pg. 499] nas cincias humanas. J podia parecer bem
contestvel encerrar estas ltimas (para op-las  biologia,  economia,
 filologia) no espao da representao; no se deveria j estimar que
uma funo pode exercer-se, um conflito desenvolver suas conseqncias,
uma significao impor sua inteligibilidade sem passar pelo momento de
uma conscincia explcita? E agora no ser preciso reconhecer que o que
 especfico da norma em relao  funo que ela determina, da regra em
relao ao conflito que ela rege, do sistema em relao  significao
que ele torna possvel est precisamente em no serem dados 
conscincia? s duas vertentes histricas j isoladas no ser preciso
acrescentar uma terceira e dizer que, desde o sculo XIX, as cincias
humanas no cessaram de aproximar-se dessa regio do inconsciente onde a
instncia da representao  mantida em suspenso? De fato, a
representao no  a conscincia e nada prova que este trazer  luz
elementos ou organizaes que jamais so dados como tais  conscincia
faa as cincias humanas escaparem  lei da representao. Com efeito, o
papel do conceito de significao  mostrar de que modo alguma coisa
como uma linguagem, ainda que no se trate de um discurso explcito e
mesmo que no seja desdobrada para uma conscincia, pode, em geral, ser
dada  representao; o papel do conceito complementar de sistema 
mostrar de que modo a significao jamais  primeira e contempornea de
si mesma, mas sempre segunda e como que derivada em relao a um sistema
que a precede, que constitui sua origem positiva, e que se d, pouco a
pouco, por fragmentos e perfis atravs dela; em relao  conscincia de
uma significao, o sistema , na verdade, sempre inconsciente, pois que
j estava l, antes dela, pois que  nele que ela se aloja e a partir
dele que ela se efetua; mas isso porque ele fica sempre prometido a uma
[pg. 500] conscincia futura que talvez jamais o totalizar. Em outras
palavras, o par significao-sistema  o que assegura, a um tempo, a
representabilidade da linguagem (como texto ou estrutura analisados pela
filologia e pela lingstica) e a presena prxima mas recuada da origem
(tal como  manifestada como modo de ser do homem pela analtica da
finitude). Da mesma forma, a noo de conflito mostra de que modo a
necessidade, o desejo ou o interesse, ainda que no sejam dados 
conscincia que os experimenta, podem tomar forma na representao; e o
papel do conceito inverso de regra  mostrar de que modo a violncia do
conflito, a insistncia aparentemente selvagem da necessidade, o
infinito sem lei do desejo esto, de fato, j organizados por um
impensado que no s lhes prescreve sua regra, mas tambm os torna
possveis a partir de uma regra. O par conflito-regra assegura a
representabilidade da necessidade (dessa necessidade que a economia
estuda como processo objetivo no trabalho e na produo) e a
representabilidade desse impensado desvelado pela analtica da finitude.
Enfim, o conceito de funo tem por papel mostrar de que modo as
estruturas da vida podem dar lugar  representao (ainda que no sejam
conscientes), e o conceito de norma, de que modo a funo se d a si
mesma suas prprias condies de possibilidades e os limites de seu
exerccio.      Compreende-se, assim, por que essas grandes categorias
podem organizar todo o campo das cincias humanas:  que elas o
atravessam de ponta a ponta, mantm  distncia, mas tambm renem as
positividades empricas da vida, do trabalho e da linguagem (a partir
das quais o homem historicamente destacou-se como figura de um saber
possvel) s formas da finitude que caracterizam o modo de ser do homem
(tal como se constituiu a partir do dia em que a representao [pg.
501] cessou de definir o espao geral do conhecimento). Essas categorias
no so, pois, simples conceitos empricos de uma bem grande
generalidade; elas so, na verdade, aquilo a partir do qual o homem pode
oferecer-se a um saber possvel; elas percorrem todo o campo de sua
possibilidade e o articulam fortemente com as duas dimenses que o
delimitam.      Mas isso no  tudo: elas permitem a dissociao,
caracterstica de todo saber contemporneo sobre o homem, entre a
conscincia e a representao. Definem a maneira como as empiricidades
podem ser dadas  representao, mas sob uma forma que no est presente
 conscincia (a funo, o conflito, a significao constituem,
realmente, a maneira como a vida, a necessidade, a linguagem so
reduplicadas na representao, mas sob uma forma que pode ser
perfeitamente inconsciente); por outro lado, definem a maneira como a
finitude fundamental pode ser dada  representao sob uma forma
positiva e emprica, mas no transparente  conscincia ingnua (nem a
norma, nem a regra, nem o sistema so dados  experincia cotidiana:
atravessam-na, do lugar a conscincias parciais, mas no podem ser
inteiramente aclarados seno por um saber reflexivo). De sorte que as
cincias humanas s falam no elemento do representvel, mas segundo uma
dimenso consciente-inconsciente, tanto mais acentuada quanto se tente
trazer  luz a ordem dos sistemas, das regras e das normas. Tudo se
passa como se a dicotomia do normal e do patolgico tendesse a
esvaecer-se em proveito da bipolaridade da conscincia e do
inconsciente.      No se deve, pois, esquecer que a importncia cada
vez mais acentuada do inconsciente em nada compromete o primado da
representao. Essa primazia, no entanto, levanta um importante
problema. Agora que os saberes empricos como [pg. 502] os da vida, do
trabalho e da linguagem escapam  sua lei, agora que se tenta definir
fora de seu campo o modo de ser do homem, o que  a representao, seno
um fenmeno de ordem emprica que se produz no homem e que se poderia
analisar como tal? E se a representao se produz no homem, que
diferena h entre ela e a conscincia? Mas a representao no 
simplesmente um objeto para as cincias humanas; ela , como se acaba de
ver, o prprio campo das cincias humanas, e em toda a sua extenso;  o
suporte geral dessa forma de saber, aquilo a partir do qual ele 
possvel. Da duas conseqncias. Uma  de ordem histrica:  o fato de
que as cincias humanas, diferentemente das cincias empricas desde o
sculo XIX, e diferentemente do pensamento moderno, no puderam
contornar o primado da representao; como todo o saber clssico,
alojam-se nelas; porm no so, de modo algum, suas herdeiras ou sua
continuao, pois toda a configurao do saber modificou-se, e elas s
nasceram na medida em que apareceu, com o homem, um ser que no existia
outrora no campo da epistm. Entretanto, pode-se compreender por que
cada vez que h a inteno de servir-se das cincias humanas para
filosofar, verter para o espao do pensamento aquilo que se pde
aprender l onde o homem estava em questo, falseia-se a filosofia do
sculo XVIII, na qual, todavia, o homem no tinha lugar;  que, ao
estender para alm de seus limites o domnio do saber do homem,
estende-se igualmente para alm dele o reino da representao e se est
a instalar-se de novo numa filosofia de tipo clssico. A outra
conseqncia  que as cincias humanas, ao tratarem do que 
representao (sob uma forma consciente ou inconsciente) esto tratando
como seu objeto o que  sua condio de possibilidade. So, portanto,
sempre animadas por uma espcie de mobilidade transcendental. [pg. 503]
No cessam de exercer para consigo prprias uma retomada crtica. Vo do
que  dado  representao ao que torna possvel a representao, mas
que  ainda uma representao. De maneira que elas buscam menos, como as
outras cincias, generalizar-se ou precisar-se do que desmistificar- se
sem cessar: passar de uma evidncia imediata e no-controlada a formas
menos transparentes, porm mais fundamentais. Esse percurso quase
transcendental d-se sempre sob a forma do desvelamento.  sempre
desvelando que, por contragolpe, elas podem generalizar-se ou se refinar
at pensarem os fenmenos individuais. No horizonte de toda cincia
humana, h o projeto de reconduzir a conscincia do homem s suas
condies reais, de restitu-la aos contedos e s formas que a fizeram
nascer e que nela se esquivam;  por isso que o problema do inconsciente
-- sua possibilidade, seu estatuto, seu modo de existncia, os meios de
conhec-lo e de o trazer  luz -- no  simplesmente um problema
interior s cincias humanas e que elas encontrassem ao acaso de seus
procedimentos;  um problema que , afinal, co-extensivo  sua prpria
existncia. Uma sobrelevao transcendental revertida num desvelamento
do no-consciente  constitutiva de todas as cincias do homem.      A
talvez se encontrasse o meio de demarc-las no que elas tm de
essencial. O que manifesta, em todo o caso, o especfico das cincias
humanas, v-se bem que no  esse objeto privilegiado e singularmente
nebuloso que  o homem. Pela simples razo de que no  o homem que as
constitui e lhes oferece um domnio especfico; mas, sim,  a disposio
geral da epistm que lhes d lugar, as requer e as instaura --
permitindo-lhes assim constituir o homem como seu objeto. Dir-se-,
pois, que h "cincia humana" no onde quer que o homem esteja em
questo, mas onde quer que se [pg. 504] analisem, na dimenso prpria
do inconsciente, normas, regras, conjuntos significantes que desvelam 
conscincia as condies de suas formas e de seus contedos. Falar de
"cincias do homem", em qualquer outro caso,  puro e simples abuso de
linguagem. Avalia-se assim quo vs e ociosas so todas as enfadonhas
discusses para saber se tais conhecimentos podem ser ditos realmente
cientficos e a que condies deveriam sujeitar-se para vir a s-lo. As
"cincias do homem" fazem parte da epistm moderna como a qumica ou a
medicina ou alguma outra cincia; ou, ainda, como a gramtica e a
histria natural faziam parte da epistm clssica. Mas dizer que elas
fazem parte do campo epistemolgico significa somente que elas nele
enrazam sua positividade, que nele encontram sua condio de
existncia, que no so, portanto, apenas iluses, quimeras
pseudocientficas, motivadas ao nvel das opinies, dos interesses, das
crenas, que elas no so aquilo a que outros do o estranho nome de
"ideologia". O que no quer dizer, porm, que por isso sejam cincias.
Se  verdade que toda cincia, qualquer que seja, quando interrogada ao
nvel arqueolgico e quando se busca desenredar o solo de sua
positividade, revela sempre a configurao epistemolgica que a tornou
possvel, em contrapartida, toda configurao epistemolgica, mesmo se
perfeitamente demarcvel em sua positividade, pode muito bem no ser uma
cincia: nem por isso se reduz a uma impostura.  preciso distinguir,
com cuidado, trs coisas: h temas com pretenso cientfica que se podem
encontrar ao nvel das opinies e que no fazem (ou no mais fazem)
parte da rede epistemolgica de uma cultura; a partir do sculo XVII,
por exemplo, a magia natural cessou de pertencer  epistm ocidental,
mas prolongou-se por muito tempo no jogo das crenas [pg. 505] e das
valorizaes afetivas. H, em seguida, as figuras epistemolgicas cujo
desenho, posio, funcionamento, podem ser restitudos em sua
positividade por uma anlise de tipo arqueolgico; e, por sua vez, podem
obedecer a duas organizaes diferentes: umas apresentam caracteres de
objetividade e de sistematicidade que permitem defini-las como cincias;
outras no respondem a esses critrios, isto , sua forma de coerncia e
sua relao com seu objeto so determinadas to-somente por sua
positividade. Estas ltimas, conquanto no possuam os critrios formais
de um conhecimento cientfico, pertencem, contudo, ao domnio positivo
do saber. Seria, portanto, to vo e injusto analis-las como fenmenos
de opinio, quanto confront-las, pela histria ou pela crtica, com as
formaes propriamente cientficas; mais absurdo ainda seria trat-las
como uma combinao que misturasse, segundo propores variveis,
"elementos racionais" com outros que no o fossem.  preciso recoloc-
las ao nvel da positividade que as torna possveis e determina
necessariamente sua forma. A arqueologia tem, pois, para com elas, duas
tarefas: determinar a maneira como elas se dispem na epistm em que se
enrazam; mostrar tambm em que sua configurao  radicalmente
diferente daquela das cincias no sentido estrito. Essa configurao que
lhes  peculiar no deve ser tratada como um fenmeno negativo: no  a
presena de um obstculo, no  alguma deficincia interna que as fazem
malograr no limiar das formas cientficas. Elas constituem, na sua
figura prpria, ao lado das cincias e sobre o mesmo solo arqueolgico,
outras configuraes do saber.      J foram encontrados exemplos de
tais configuraes na gramtica geral ou na teoria clssica do valor;
tinham o mesmo solo de positividade que a matemtica cartesiana, mas
[pg. 506] no eram cincias, ao menos para a maioria daqueles que lhes
eram contemporneos.  o caso tambm do que se denomina hoje cincias
humanas; elas desenham, quando se lhes faz a anlise arqueolgica,
configuraes perfeitamente positivas; mas, desde que se determinam
essas configuraes e a maneira como esto dispostas na epistm
moderna, compreende-se por que no podem ser cincias: o que as torna
possveis, com efeito,  uma certa situao de "vizinhana" em relao 
biologia,  economia,  filologia (ou  lingstica); elas s existem na
medida em que se alojam ao lado destas -- ou antes, debaixo delas, no
seu espao de projeo. Com elas mantm, entretanto, uma relao que 
radicalmente diferente daquela que se pode estabelecer entre duas
cincias "conexas" ou "afins": essa relao, com efeito, supe a
transferncia de modelos exteriores na dimenso do inconsciente e da
conscincia e o refluxo da reflexo crtica em direo ao prprio lugar
donde vm esses modelos. Intil, pois, dizer que as "cincias humanas"
so falsas cincias; simplesmente no so cincias; a configurao que
define sua positividade e as enraza na epistm moderna coloca- as, ao
mesmo tempo, fora da situao de serem cincias; e se se perguntar ento
por que assumiram esse ttulo, bastar lembrar que pertence  definio
arqueolgica de seu enraizamento o fato de que elas requerem e acolhem a
transferncia de modelos tomados de emprstimo a cincias. No , pois,
a irredutibilidade do homem, aquilo que se designa como sua invencvel
transcendncia, nem mesmo sua complexidade demasiado grande qu o impede
de tornar-se objeto de cincia. A cultura ocidental constituiu, sob o
nome de homem, um ser que, por um nico e mesmo jogo de razes, deve ser
domnio positivo do saber e no pode ser objeto de cincia. [pg. 507]
IV. A Histria        Falou-se das cincias humanas; falou-se destas
grandes regies que a psicologia, a sociologia, a anlise das
literaturas e das mitologias aproximadamente delimitam. No se falou da
Histria, embora seja a primeira e como que a me de todas as cincias
do homem, embora seja to velha talvez quanto a memria humana. Ou
melhor,  por esta razo mesma que ela permaneceu at agora em silncio.
Com efeito, ela talvez no tenha lugar entre as cincias humanas nem ao
lado delas:  provvel que entretenha com elas uma relao estranha,
indefinida, indelvel e mais fundamental do que o seria uma relao de
vizinhana num espao comum.         verdade que a Histria existiu bem
antes da constituio das cincias humanas; desde os confins da idade
grega, exerceu ela na cultura ocidental um certo nmero de funes
maiores: memria, mito, transmisso da Palavra e do Exemplo, veculo da
tradio, conscincia crtica do presente, decifrao do destino da
humanidade, antecipao do futuro ou promessa de um retorno. O que
caracterizava esta Histria -- o que, ao menos, pode defini-la, em seus
traos gerais, em oposio  nossa --  que, regulando o tempo dos
humanos pelo devir do mundo (numa espcie de grande cronologia csmica,
como nos esticos), ou, inversamente, estendendo at s menores parcelas
da natureza o princpio e o movimento de uma destinao humana (um pouco
 maneira da Providncia crist), concebia-se uma grande histria plana,
uniforme em cada um de seus pontos, que teria arrastado num mesmo fluir,
numa mesma queda ou numa mesma ascenso, num mesmo ciclo, todos os
homens e, com eles, as coisas, os animais, cada ser vivo ou inerte, e
at os semblantes mais calmos da terra. Ora,  esta unidade que se achou
fraturada [pg. 508] no comeo do sculo XIX, na grande reviravolta da
epistm ocidental: descobriu-se uma historicidade prpria  natureza;
definiu-se mesmo, para cada grande tipo do ser vivo, formas de
ajustamento ao meio que iam permitir, em segui- da, definir seu perfil
de evoluo; mais ainda, pde-se mostrar que atividades to
singularmente humanas, como o trabalho ou a linguagem, detinham, em si
mesmas, uma historicidade que no podia encontrar seu lugar na grande
narrativa comum s coisas e aos homens; a produo tem modos de
desenvolvimento, o capital, modos de acumulao, os preos, leis de
oscilao e mudanas que no podem nem restringir-se s leis naturais
nem reduzir-se  marcha geral da humanidade; do mesmo modo a linguagem
modifica-se no tanto com as migraes, o comrcio e as guerras, ao
sabor do que sucede ao homem ou ao capricho do que ele pode inventar,
mas, sim, sob condies que pertencem propriamente s formas fonticas e
gramaticais de que ela  constituda; e se se pde dizer que as diversas
linguagens nascem, vivem, perdem sua fora envelhecendo e acabam por
morrer, esta metfora biolgica no  feita para dissolver sua histria
num tempo que seria o da vida, mas, antes, para sublinhar que tambm
elas tm leis internas de funcionamento e que sua cronologia se
desenvolve segundo um tempo que decorre primeiramente da sua coerncia
singular.      Tende-se comumente a crer que o sculo XIX, por razes na
maior parte polticas e sociais, dirigiu uma ateno mais aguda 
histria humana, que se abandonou a idia de uma ordem ou de um plano
contnuo do tempo, assim como a de um progresso ininterrupto, e que,
pretendendo narrar sua prpria ascenso, a burguesia encontrou, no
calendrio de sua vitria, a espessura histrica das instituies, o
peso dos hbitos e das crenas, a violncia das lutas, a alternncia
[pg. 509] dos sucessos e dos fracassos. E supe-se que, a partir da,
estendeu-se a historicidade descoberta no homem aos objetos que ele
fabricara,  linguagem que falava e, mais longe ainda,  vida. O estudo
das economias, a histria das literaturas e das gramticas, enfim, a
evoluo do ser vivo, nada mais seriam que o efeito de difuso, em
regies do conhecimento cada vez mais longnquas, de uma historicidade
descoberta primeiramente no homem. Na realidade, foi o contrrio que se
passou. As coisas receberam primeiro uma historicidade prpria que as
liberou deste espao contnuo que lhes impunha a mesma cronologia que
aos homens. De sorte que o homem se achou como que despojado do que
constitua os contedos mais manifestos de sua Histria: a natureza no
lhe fala mais da criao ou do fim do mundo, de sua dependncia ou de
seu prximo julgamento; ela s fala de um tempo natural; suas riquezas
no mais lhe indicam a antiguidade ou o retorno prximo de uma idade de
ouro; elas s falam das condies da produo que se modificam na
Histria; a linguagem no traz mais as marcas de antes de Babel ou dos
primeiros gritos que teriam ressoado na floresta; ela traz as armas de
sua prpria filiao. O ser humano no tem mais histria: ou antes,
porque fala, trabalha e vive, acha-se ele, em seu ser prprio, todo
imbricado em histrias que no lhe so nem subordinadas nem homogneas.
Pela fragmentao do espao onde se estendia continuamente o saber
clssico, pelo enredamento de cada domnio assim liberado sobre seu
prprio devir, o homem que aparece no comeo do sculo XIX 
"desistoricizado".      E os valores imaginrios que o passado ento
assumiu, todo o halo lrico que cercara, nessa poca, a conscincia da
histria, a viva curiosidade pelos documentos ou os vestgios que o
tempo pde deixar atrs de si -- tudo isso manifesta, [pg. 510] na
superfcie, o fato nu de que o homem achou-se vazio de histria, mas que
j se entregava  tarefa de reencontrar, no fundo de si mesmo e em meio
a todas as coisas que pudessem ainda lhe devolver sua imagem (as outras
estando caladas e voltadas sobre si mesmas), uma historicidade que lhe
estivesse ligada essencialmente. Essa historicidade, porm,  desde o
incio ambgua. Uma vez que o homem s se d ao saber positivo na medida
em que fala, trabalha e vive, poder sua histria ser outra coisa seno
o n inextrincvel de tempos diferentes, que lhe so estranhos e que so
heterogneos uns em relao aos outros? Ser a histria do homem mais
que uma espcie de modulao comum s mudanas nas condies de vida
(climas, fecundidade do solo, modos de cultura, explorao das
riquezas), s transformaes da economia (e, por via de conseqncia, da
sociedade e das instituies) e  sucesso das formas e dos usos da
lngua? Mas, ento, o homem no , ele prprio, histrico: uma vez que o
tempo lhe vem de fora dele mesmo, ele no se constitui como sujeito da
Histria seno pela superposio da histria dos seres, da histria das
coisas, da histria das palavras. Est submetido aos puros eventos
dessas. Logo, porm, esta relao de simples passividade se inverte:
pois o que fala na linguagem, o que trabalha e consome na economia, o
que vive na vida humana  o prprio homem; e, por esse motivo, tambm
ele tem direito a um devir to positivo quanto o dos seres e das coisas,
no menos autnomo -- e talvez at mais fundamental: no  acaso uma
historicidade prpria ao homem e inscrita profundamente em seu ser que
lhe permite adaptar-se como todo ser vivo e, tambm ele, evoluir (graas
porm a instrumentos, a tcnicas, a organizaes que no pertencem a
nenhum outro ser vivo), que lhe permite inventar formas de produo,
estabilizar, prolongar [pg. 511] ou abreviar a validade das leis
econmicas, pela conscincia que delas tem e pelas instituies que
organiza a partir delas ou em torno delas, que lhe permite, enfim,
exercer sobre a linguagem, em cada uma das palavras que pronuncia, uma
espcie de presso interior constante que, insensivelmente, f-lo
deslizar sobre si mesmo em cada instante do tempo? Assim aparece, por
trs da histria das positividades, aquela, mais radical, do prprio
homem. Histria que concerne agora ao ser mesmo do homem, pois que se
evidencia que no somente ele "tem", em torno de si, "Histria", mas que
ele mesmo , em sua historicidade prpria, aquilo pelo que se delineia
uma histria da vida humana, uma histria da economia, uma histria das
linguagens. Haveria, pois, a um nvel muito profundo, uma historicidade
do homem que seria, por si mesma, sua prpria histria, mas tambm a
disperso radical que funda todas as outras.  justamente essa eroso
primeira que o sculo XIX buscou na sua preocupao de tudo
historicizar, de escrever, a propsito de cada coisa, uma histria
geral, de remontar incessantemente no tempo e de repor as coisas mais
estveis na liberao do tempo. Tambm a,  preciso, sem dvida, rever
a maneira como se escreve tradicionalmente a histria da Histria;
tem-se o hbito de dizer que, com o sculo XIX, cessou a pura crnica
dos acontecimentos, a simples memria de um passado povoado somente de
indivduos e de acidentes, e que se buscaram as leis gerais do devir. De
fato, nenhuma histria foi mais "explicativa", mais preocupada com leis
gerais e com constantes que as da idade clssica -- quando o mundo e o
homem, num s movimento, se incorporavam numa histria nica. A partir
do sculo XIX, o que vem  luz  uma forma nua da historicidade humana
-- o fato de que o homem enquanto tal est exposto ao acontecimento. Da
a preocupao, seja de [pg. 512] encontrar leis para esta pura forma (e
tm-se filosofias como as de Spengler), seja de defini-la a partir do
fato de que o homem vive, de que o homem trabalha, de que o homem fala e
pensa: e tm-se as interpretaes da Histria a partir do homem
considerado como espcie viva, ou a partir das leis da economia, ou a
partir dos conjuntos culturais.      Em todo o caso, essa disposio da
Histria no espao epistemolgico  de grande importncia para sua
relao com as cincias humanas. Uma vez que o homem histrico  o homem
que vive, trabalha e fala, todo contedo da Histria, qualquer que seja,
concerne  psicologia,  sociologia ou s cincias da linguagem. Mas,
inversamente, uma vez que o ser humano se tornou, de ponta a ponta,
histrico, nenhum dos contedos analisados pelas cincias humanas pode
ficar estvel em si mesmo nem escapar ao movimento da Histria. E isto
por duas razes: porque a psicologia, a sociologia, a filosofia, mesmo
quando aplicadas a objetos -- isto , a homens -- que lhe so
contemporneos, no visam jamais seno a cortes sincrnicos no interior
de uma historicidade que os constitui e os atravessa; porque as formas
assumidas sucessivamente pelas cincias humanas, a escolha que elas
fazem de seu objeto, os mtodos que lhes aplicam so dados pela
Histria, incessantemente levados por ela e modificados a seu gosto.
Quanto mais a Histria tenta ultrapassar seu prprio enraizamento
histrico, quanto mais se esfora por atingir, para alm da relatividade
histrica de sua origem e de suas opes, a esfera da universalidade,
tanto mais claramente traz ela os estigmas do seu nascimento histrico,
tanto mais evidentemente aparece atravs dela a histria de que ela
mesma faz parte (e disso, tambm Spengler e todos os filsofos da
histria do testemunho); inversamente, quanto mais ela aceita sua
relatividade, quanto mais se entranha no [pg. 513] movimento que 
comum a ela e ao que ela conta, tanto mais ento ela tende  exigidade
da narrativa, e todo o contedo positivo que ela se conferia atravs das
cincias humanas se dissipa.      A Histria forma, pois, para as
cincias humanas, uma esfera de acolhimento ao mesmo tempo privilegiada
e perigosa. A cada cincia do homem ela d um fundo bsico que a
estabelece, lhe fixa um solo e como que uma ptria: ela determina a rea
cultural -- o episdio cronolgico, a insero geogrfica -- em que se
pode reconhecer, para este saber, sua validade; cerca-as, porm, com uma
fronteira que as limita e, logo de incio, arruina sua pretenso de
valerem no elemento da universalidade. Desta maneira, ela revela que se
o homem -- antes mesmo de o saber -- sempre esteve submetido s
determinaes que a psicologia, a sociologia, a anlise das linguagens
podem manifestar, nem por isso ele  o objeto intemporal de um saber
que, pelo menos ao nvel de seus direitos, seria, ele prprio, sem
idade. Ainda quando evitam toda referncia  histria, as cincias
humanas (e, a esse ttulo, pode-se colocar a histria entre elas) no
fazem mais que pr em relao um episdio cultural com outro (aquele a
que elas se aplicam como ao objeto delas, e aquele em que se enrazam
quanto  sua existncia, seu modo de ser, seus mtodos e seus
conceitos); e se elas se aplicam  sua prpria sincronia,  ao prprio
homem que reportam o episdio cultural donde procedem. De sorte que o
homem jamais aparece na sua positividade sem que esta seja logo limitada
pelo ilimitado da Histria.      V-se reconstituir aqui um movimento
anlogo ao que animava interiormente todo o domnio das cincias do
homem: tal como foi analisado acima, este movimento remetia
perpetuamente das positividades que determinam o ser do [pg. 514] homem
 finitude que faz aparecer estas mesmas positividades; de sorte que as
prprias cincias eram arrastadas nesta grande oscilao, a qual, porm,
elas, por sua vez, retomavam na forma de sua prpria positividade,
buscando ir, sem cessar, do consciente ao inconsciente. Ora, eis que,
com a Histria, uma oscilao semelhante recomea; desta feita, porm,
ela no se exerce entre a positividade do homem tomado como objeto (e
manifestado empiricamente pelo trabalho, a vida e a linguagem) e os
limites radicais de seu ser; exerce-se entre os limites temporais que
definem as formas singulares do trabalho, da vida e da linguagem, e a
positividade histrica do sujeito que, pelo conhecimento, tem acesso a
eles. Tambm agora, o sujeito e o objeto esto ligados num
questionamento recproco; mas, enquanto que antes este questionamento se
fazia no interior mesmo do conhecimento positivo e pelo progressivo
desvelamento do inconsciente pela conscincia, agora ele se faz nos
confins exteriores do objeto e do sujeito; ele designa a eroso a que
ambos esto submetidos, a disperso que os afasta um do outro,
arrancando-os a uma positividade calma, enraizada e definitiva.
Desvelando o inconsciente como seu objeto mais fundamental, as cincias
humanas mostravam que havia sempre o que pensar ainda no que j era
pensado ao nvel manifesto; descobrindo a lei do tempo como limite
externo das cincias humanas, a Histria mostra que tudo o que  pensado
o ser ainda por um pensamento que ainda no veio  luz. Mas talvez no
tenhamos aqui, sob as formas concretas do inconsciente e da Histria,
seno as duas faces dessa finitude que, descobrindo que era por si mesma
seu prprio fundamento, fez aparecer, no sculo XIX, a figura do homem:
uma finitude sem infinito , sem dvida, uma finitude que jamais tem
fim, que est sempre em recuo em relao a si mesma,  [pg. 515] qual
resta ainda alguma coisa para pensar no instante mesmo em que ela pensa,
 qual resta sempre tempo para pensar de novo o que ela pensou.      No
pensamento moderno, o historicismo e a analtica da finitude esto
frente a frente. O historicismo  uma forma de fazer valer por ela mesma
a perptua relao crtica que se exerce entre a Histria e as cincias
humanas. Mas ele a instaura somente ao nvel das positividades: o
conhecimento positivo do homem  limitado pela positividade histrica do
sujeito que conhece, de sorte que o momento da finitude  dissolvido no
jogo de uma relatividade  qual no  possvel escapar e que vale, ela
mesma, como um absoluto. Ser finito seria, muito simplesmente, ser
tomado pelas leis de uma perspectiva que, ao mesmo tempo, permite uma
certa apreenso -- do tipo da percepo ou da compreenso -- e impede
que esta jamais seja inteleco universal e definitiva. Todo
conhecimento se enraza numa vida, numa sociedade, numa linguagem que
tm uma histria; e, nesta histria mesma, ele encontra o elemento que
lhe permite comunicar-se com outras formas de vida, outros tipos de
sociedade, outras significaes:  por isto que o historicismo implica
sempre uma filosofia ou, ao menos, uma certa metodologia da compreenso
viva (no elemento da Lebenswelt), da comunicao inter-humana (sobre o
fundo das organizaes sociais) e da hermenutica (como retomada,
atravs do sentido manifesto de um discurso, de um sentido ao mesmo
tempo segundo e primeiro, isto , mais escondido porm mais
fundamental). Com isto, as diferentes positividades formadas pela
Histria e nela depositadas podem entrar em contato umas com as outras,
envolverem-se  maneira de conhecimento, liberarem o contedo que nelas
dormita; no so ento os prprios limites que aparecem no seu rigor
imperioso, mas totalidades [pg. 516] parciais, totalidades que se acham
limitadas de fato, totalidades cujas fronteiras se podem, at certo
ponto, alterar, mas que jamais se estendero no espao de uma anlise
definitiva e tambm jamais se elevaro at a totalidade absoluta.  por
isto que a anlise da finitude no cessa de reivindicar, contra o
historicismo, a parte de que este descuidara: ela tem por projeto fazer
surgir, no fundamento de todas as positividades e antes delas, a
finitude que as torna possveis; l onde o historicismo buscava a
possibilidade e a justificao de relaes concretas entre totalidades
limitadas, cujo modo de ser era dado, de antemo, pela vida, ou pelas
formas sociais, ou pelas significaes da linguagem, a analtica da
finitude quer interrogar esta relao do ser humano com o ser que,
designando a finitude, torna possveis as positividades em seu modo de
ser concreto.                           V. Psicanlise, etnologia      A
psicanlise e a etnologia ocupam, no nosso saber, um lugar privilegiado.
No certamente porque teriam, melhor que qualquer outra cincia humana,
embasado sua positividade e realizado enfim o velho projeto de serem
verdadeiramente cientficas; antes porque, nos confins de todos os
conhecimentos sobre o homem, elas formam seguramente um tesouro
inesgotvel de experincias e de conceitos, mas, sobretudo, um perptuo
princpio de inquietude, de questiona- mento, de crtica e de
contestao daquilo que, por outro lado, pde parecer adquirido. Ora, h
para isto uma razo que tem a ver com o objeto que respectivamente cada
uma se atribui, mas tem mais ainda a ver com a posio que ocupam e com
a funo que exercem no espao geral da epistm. [pg. 517]      A
psicanlise, com efeito, mantm-se o mais prximo possvel desta funo
crtica acerca da qual se viu que era interior a todas as cincias
humanas. Dando-se por tarefa fazer falar atravs da conscincia o
discurso do inconsciente, a psicanlise avana na direo desta regio
fundamental onde se travam as relaes entre a representao e a
finitude. Enquanto todas as cincias humanas s se dirigem ao in-
consciente virando-lhe as costas, esperando que ele se desvele  medida
que se faz, como que por recuos, a anlise da conscincia, j a
psicanlise aponta diretamente para ele, de propsito deliberado -- no
em direo ao que deve explicitar-se pouco a pouco na iluminao
progressiva do implcito, mas em direo ao que est a e se furta, que
existe com a solidez muda de uma coisa, de um texto fechado sobre si
mesmo, ou de uma lacuna branca num texto visvel e que assim se defende.
No h que supor que o empenho freudiano seja o componente de uma
interpretao do sentido e de uma dinmica da resistncia ou da
barreira; seguindo o mesmo caminho que as cincias humanas, mas com o
olhar voltado em sentido contrrio, a psicanlise se encaminha em
direo ao momento -- inacessvel, por definio, a todo conhecimento
terico do homem, a toda apreenso contnua em termos de significao,
de conflito ou de funo -- em que os contedos da conscincia se
articulam com, ou antes, ficam abertos para a finitude do homem. Isto
quer dizer que, ao contrrio das cincias humanas que, retrocedendo
embora em direo ao inconsciente, permanecem sempre no espao do
representvel, a psicanlise avana para transpor a representao,
extravas-la do lado da finitude e fazer assim surgir, l onde se
esperavam as funes portadoras de suas normas, os conflitos carregados
de regras e as significaes formando sistema, o fato nu de que pode
haver sistema (portanto, [pg. 518] significao), regra (portanto,
oposio), norma (portanto, funo). E, nessa regio onde a
representao fica em suspenso,  margem dela mesma, aberta, de certo
modo ao fechamento da finitude, desenham-se as trs figuras pelas quais
a vida, com suas funes e suas normas, vem fundar-se na repetio muda
da Morte, os conflitos e as regras, na abertura desnudada do Desejo, as
significaes e os sistemas, numa linguagem que  ao mesmo tempo Lei.
Sabe-se como psiclogos e filsofos denominaram tudo isso: mitologia
freudiana. Era realmente necessrio que este empenho de Freud assim lhes
parecesse; para um saber que se aloja no representvel, aquilo que
margeia e define, em direo ao exterior, a possibilidade mesma da
representao no pode ser seno mitologia. Mas, quando se segue, no seu
curso, o movimento da psicanlise, ou quando se percorre o espao
epistemolgico em seu conjunto, v-se bem que estas figuras --
imaginrias, sem dvida, para um olhar mope -- so as prprias formas
da finitude, tal como  analisada no pensamento moderno: no  a morte
aquilo a partir de que o saber em geral  possvel -- de sorte tal que
ela seria, do lado da psicanlise, a figura desta reduplicao
emprico-transcendental que caracteriza na finitude o modo de ser do
homem? No  o desejo o que permanece sempre impensado no corao do
pensamento? E esta Lei-Linguagem (ao mesmo tempo fala e sistema da fala)
que a psicanlise se esfora por fazer falar, no  aquilo em que toda
significao assume uma origem mais longnqua que ela mesma, mas tambm
aquilo cujo retorno  prometido no ato mesmo da anlise?  bem verdade
que nem esta Morte, nem este Desejo, nem esta Lei podem jamais
encontrar-se no interior do saber que percorre em sua positividade o
domnio emprico do homem; mas a razo disto  que designam as condies
de possibilidade de todo saber sobre o homem. [pg. 519]      E
precisamente quando esta linguagem se mostra em estado nu, mas se furta
ao mesmo tempo para fora de toda significao como se fosse um grande
sistema desptico e vazio, quando o Desejo reina em estado selvagem,
como se o rigor de sua regra tivesse nivelado toda oposio, quando a
Morte domina toda funo psicolgica e se mantm acima dela como sua
norma nica e devastadora -- ento reconhecemos a loucura em sua forma
presente, a loucura tal como se d  experincia moderna, como sua
verdade e sua alteridade. Nessa figura emprica, e contudo estranha a (e
em) tudo o que podemos experimentar, nossa conscincia no encontra
mais, como no sculo XVI, o vestgio de um outro mundo; ela no constata
mais o vaguear da razo extraviada; ela v surgir o que nos 
perigosamente o mais prximo -- como se subitamente se perfilasse, em
relevo, o recncavo mesmo de nossa existncia; a finitude, a partir da
qual ns somos, pensamos e sabemos, est subitamente diante de ns,
existncia a um tempo real e impossvel, pensamento que no podemos
pensar, objeto para nosso saber mas que a ele se furta sempre.  por
isso que a psicanlise encontra nesta loucura por excelncia -- a que os
psiquiatras chamam esquizofrenia -- o seu ntimo, o seu mais invencvel
tormento: pois nesta loucura se do, sob uma forma absolutamente
manifesta e absolutamente retrada, as formas da finitude em direo 
qual, de ordinrio, ela avana indefinidamente (e no interminvel), a
partir do que lhe  voluntria-involuntariamente oferecido na linguagem
do paciente. De sorte que a psicanlise "reconhece-se a", quando 
colocada diante destas mesmas psicoses s quais, no entanto (ou antes,
por essa mesma razo) ela quase no tem acesso: como se a psicose
expusesse numa iluminao cruel e oferecesse de um modo demasiado
longnquo, mas justamente demasiado [pg. 520] prximo, aquilo em cuja
direo a anlise deve lentamente caminhar.      Mas esta relao da
psicanlise com o que torna possvel todo saber em geral na ordem das
cincias humanas tem ainda uma outra conseqncia.  que ela no pode
desenvolver-se come puro conhecimento especulativo ou teoria geral do
homem. No pode atravessar o campo inteiro da representao, tentar
contornar suas fronteiras, apontar para o mais fundamental, na forma de
uma cincia emprica construda a partir de observaes cuidadosas; essa
travessia s pode ser feita no interior de uma prtica em que no 
apenas o conhecimento que se tem do homem que est empenhado, mas o
prprio homem -- o homem com essa Morte que age no seu sofrimento, esse
Desejo que perdeu seu objeto e essa linguagem pela qual, atravs da qual
se articula silenciosamente sua Lei. Todo saber analtico , pois,
invencivelmente ligado a uma prtica, a este estrangulamento da relao
entre dois indivduos, em que um escuta a linguagem do outro, libertando
assim seu desejo do objeto que ele perdeu (fazendo-o entender que o
perdeu) e libertando-o da vizinhana sempre repetida da morte (fazendo-o
entender que um dia morrer).  por isso que nada  mais estranho 
psicanlise que alguma coisa como uma teoria geral do homem ou uma
antropologia.      Assim como a psicanlise se coloca na dimenso do
inconsciente (dessa animao crtica que inquieta interiormente todo o
domnio das cincias humanas), a etnologia se coloca na da historicidade
(desta perptua oscilao que faz com que as cincias humanas sejam
sempre contestadas, do exterior, por sua prpria histria).  sem dvida
difcil sustentar que a etnologia tem uma relao fundamental com a
historicidade, j que ela  tradicionalmente o conhecimento dos povos
sem histria; em todo o caso, ela estuda nas culturas [pg. 521] (ao
mesmo tempo por escolha sistemtica e por falta de documentos) antes as
invariantes de estrutura que a sucesso dos acontecimentos. Suspende o
longo discurso "cronolgico" pelo qual tentamos refletir nossa prpria
cultura no interior dela mesma, para fazer surgir correlaes
sincrnicas em outras formas culturais. E, contudo, a prpria etnologia
s  possvel a partir de uma certa situao, de um acontecimento
absolutamente singular, em que se acham empenhadas a um tempo a nossa
historicidade e a de todos os homens que podem constituir o objeto de
uma etnologia (ficando entendido que podemos perfeitamente fazer a
etnologia de nossa prpria sociedade): a etnologia se enraza, com
efeito, numa possibilidade que pertence propriamente  histria de nossa
cultura, mais ainda,  sua relao fundamental com toda histria, e que
lhe permite ligar-se s outras culturas  maneira da pura teoria. H uma
certa posio da ratio ocidental que se constituiu na sua histria e que
funda a relao que ela pode ter com todas as outras sociedades, mesmo
com aquela sociedade em que ela historicamente apareceu. Isto no quer
dizer, evidentemente, que a situao colonizadora seja indispensvel 
etnologia: nem a hipnose, nem a alienao do doente na personagem
fantasmtica do mdico so constitutivos da psicanlise; mas, assim como
esta s pode desenvolver-se na violncia calma de uma relao singular e
da transferncia que ela requer, do mesmo modo a etnologia s assume
suas dimenses prprias na soberania histrica -- sempre retida, mas
sempre atual -- do pensamento europeu e da relao que o pode confrontar
com todas as outras culturas e com ele prprio.      Mas essa relao
(na medida em que a etnologia no busca apag-la, mas, ao contrrio,
escava-a, instalando-se definitivamente nela) no a encerra nos jogos
circulares do [pg. 522] historicismo; coloca-a, antes, em posio de
contornar seu perigo, invertendo o movimento que os faz nascer: com
efeito, em vez de reportar os contedos empricos, tais como a
psicologia, a sociologia ou a anlise das literaturas e dos mitos podem
faz-los aparecer,  positividade histrica do sujeito que os percebe, a
etnologia coloca as formas singulares de cada cultura, as diferenas que
a opem s outras, os limites pelos quais se define e se fecha sobre sua
prpria coerncia na dimenso em que se estabelecem suas relaes com
cada uma das trs grandes positividades (a vida, a necessidade e o
trabalho, a linguagem); assim, a etnologia mostra como se faz numa
cultura a normalizao das grandes funes biolgicas, as regras que
tornam possveis ou obrigatrias todas as formas de troca, de produo e
de consumo, os sistemas que se organizam em torno ou sobre o modelo das
estruturas lingsticas. A etnologia avana, pois, em direo  regio
onde as cincias humanas se articulam com aquela biologia, com aquela
economia, com aquela filologia e aquela lingstica acerca das quais se
viu de que altura as dominavam:  por isto que o problema geral de toda
etnologia  exatamente aquele das relaes (de continuidade ou de
descontinuidade) entre a natureza e a cultura. Mas, neste tipo de
interrogao, o problema da histria se acha invertido: pois trata- se
ento de determinar, segundo os sistemas simblicos utilizados, segundo
as regras prescritas, segundo as normas funcionais escolhidas e
estabelecidas, de que espcie de devir histrico cada cultura 
suscetvel; ela busca retomar, desde a raiz, o modo de historicidade que
a pode aparecer, as razes pelas quais a histria a ser
necessariamente cumulativa ou circular, progressiva ou submetida a
oscilaes reguladoras, capaz de ajustamentos espontneos ou submetida a
crises. E assim se acha esclarecido o fundamento deste fluir histrico,
[pg. 523] em cujo interior as diferentes cincias humanas assumem sua
validade e podem ser aplicadas a uma dada cultura e numa dada regio
sincrnica.      A etnologia, como a psicanlise, interroga no o
prprio homem tal como pode aparecer nas cincias humanas, mas a regio
que torna possvel, em geral, um saber sobre o homem; como a
psicanlise, ela atravessa todo o campo desse saber num movimento que
tende a atingir seus limites. Mas a psicanlise se serve da relao
singular da transferncia para descobrir, nos confins exteriores da
representao, o Desejo, a Lei, a Morte que desenham, no extremo da
linguagem e da prtica analticas, as figuras concretas da finitude; j
a etnologia aloja-se no interior da relao singular que a ratio
ocidental estabelece com todas as outras culturas; e, a partir da, ela
traa o contorno das representaes que os homens, numa civilizao, se
podem dar de si mesmos, de sua vida, de suas necessidades, das
significaes depositadas em sua linguagem; e ela v surgir, por trs
destas representaes, as normas a partir das quais os homens cumprem as
funes da vida, mas repelindo sua presso imediata, as regras atravs
das quais experimentam e mantm suas necessidades, os sistemas sobre
cujo fundo toda significao lhes  dada. O privilgio da etnologia e da
psicanlise, a razo de seu profundo parentesco e de sua simetria -- no
devem, pois, ser buscados numa certa preocupao que uma e outra teriam
em penetrar o profundo enigma, a parte mais secreta da natureza humana;
de fato, o que se espelha no espao de seu discurso  muito mais o a
priori histrico de todas as cincias humanas -- as grandes cesuras, os
sulcos, as partilhas que, na epistm ocidental, desenharam o perfil do
homem e o dispuseram para um saber possvel. Era, portanto, muito
necessrio que ambas fossem cincias do inconsciente: no porque [pg.
524] atingem no homem o que est por sob a sua conscincia, mas porque
se dirigem ao que, fora do homem, permite que se saiba, com um saber
positivo, o que se d ou escapa  sua conscincia.      Pode-se
compreender, a partir da, um certo nmero de fatos decisivos. E, no
primeiro plano, o seguinte: que a psicanlise e a etnologia no so
tanto cincias humanas ao lado das outras, mas percorrem o domnio
inteiro destas, o animam em toda a sua superfcie, expandem por toda a
parte seus conceitos, podem propor em todos os lugares seus mtodos de
decifrao e suas interpretaes. Nenhuma cincia humana pode
assegurar-se de nada lhes dever, nem de ser totalmente independente do
que elas puderam descobrir, nem estar certa de no depender delas de uma
forma ou de outra. Porm seu desenvolvimento tem a particularidade de
que por mais que pretendam ter um "alcance" quase universal, nem por
isso se aproximam de um conceito geral do homem: em nenhum momento elas
tendem a delimitar o que nele poderia haver de especfico, de
irredutvel, de uniformemente vlido em toda a parte onde ele  dado 
experincia. A idia de uma "antropologia psicanaltica", a idia de uma
"natureza humana" restituda pela etnologia no passam de pretenses
piegas. No apenas elas podem dispensar o conceito de homem, como ainda
no podem passar por ele, pois se dirigem sempre ao que constitui seus
limites exteriores. Pode-se dizer de ambas o que Lvi-Strauss dizia da
etnologia: elas dissolvem o homem. No que se trate de reencontr-lo
melhor, mais puro e como que liberado; mas, sim, porque elas remontam em
direo ao que fomenta sua positividade. Em relao s "cincias
humanas" a psicanlise e a etnologia so antes "contracincias"; o que
no quer dizer que sejam menos "racionais", ou "objetivas" que as
outras, mas que elas [pg. 525] as assumem no contrafluxo,
reconduzem-nas a seu suporte epistemolgico e no cessam de "desfazer"
esse homem que, nas cincias humanas, faz e refaz sua positividade.
Compreende-se, enfim, que psicanlise e etnologia sejam estabelecidas
uma em face da outra, numa correlao fundamental: desde Totem e tabu, a
instaurao de um campo que lhes seria comum, a possibilidade de um
discurso que poderia ir de uma  outra sem descontinuidade, a dupla
articulao da histria dos indivduos com o inconsciente das culturas e
da historicidade destas com o inconsciente dos indivduos abrem, sem
dvida, os problemas mais gerais que se podem levantar a propsito do
homem.      Adivinha-se o prestgio e a importncia de uma etnologia
que, em vez de se definir primeiramente, como o fez at ento, pelo
estudo das sociedades sem histria, buscasse deliberadamente seu objeto
do lado dos processos inconscientes que caracterizam o sistema de uma
dada cultura; ela poria em jogo, assim, a relao da historicidade,
relao essa constitutiva de toda etnologia em geral, no interior da
dimenso em que sempre se desenrolou a psicanlise. Assim fazendo, ela
no assimilaria os mecanismos e as formas de uma sociedade  presso e 
represso de fantasmas coletivos, reencontrando deste modo, mas a uma
escala mais larga, o que a anlise pode descobrir ao nvel dos
indivduos; definiria como sistema dos inconscientes culturais o
conjunto das estruturas formais que tornam significantes os discursos
mticos, do s regras que regem as necessidades sua coerncia e sua
imprescindibilidade, fundam, no na natureza, no nas puras funes
biolgicas, as normas de vida. Adivinha-se a importncia simtrica de
uma psicanlise que, por seu lado, encontrasse a dimenso de uma
etnologia, no pela instaurao de uma "psicologia cultural", no pela
explicao sociolgica [pg. 526] de fenmenos manifestados ao nvel dos
indivduos, mas pela descoberta de que tambm o inconsciente possui --
ou, antes de que ele prprio  uma certa estrutura formal. Por a,
etnologia e psicanlise viriam, no a se superpor nem mesmo talvez a se
reunir, mas a se cruzar como duas linhas diferentemente orientadas: uma,
indo da eliso aparente do significado na neurose  lacuna no sistema
significante por onde esta vem a manifestar-se; a outra, indo da
analogia dos significados mltiplos (nas mitologias, por exemplo) 
unidade de uma estrutura, cujas transformaes formais liberariam a
diversidade de narrativas. No seria, portanto, ao nvel das relaes
entre indivduos e sociedade, como freqentemente se acreditou, que a
psicanlise e a etnologia poderiam articular-se uma com a outra; no 
porque o indivduo faz parte de seu grupo, no  porque uma cultura se
reflete e se exprime de um modo mais ou menos refratado no indivduo,
que essas duas formas de saber so vizinhas. Na verdade, elas tm
somente um ponto comum, porm essencial e inevitvel:  aquele em que
elas se cortam em ngulo reto; pois a cadeia significante pela qual se
constitui a experincia nica do indivduo  perpendicular ao sistema
formal a partir do qual se constituem as significaes de uma cultura; a
cada instante a estrutura prpria da experincia individual encontra nos
sistemas da sociedade certo nmero de escolhas possveis (e de
possibilidades excludas); inversamente, as estruturas sociais
encontram, em cada um de seus pontos de escolha, certo nmero de
indivduos possveis (e outros que no o so) -- assim como na linguagem
a estrutura linear torna sempre possvel, em dado momento, a escolha
entre vrias palavras ou vrios fonemas (mas exclui todos os outros).
Forma-se, ento, o tema de uma teoria pura da linguagem, que daria 
etnologia e  psicanlise assim concebidas [pg. 527] seu modelo formal.
Haveria assim uma disciplina que poderia cobrir, no seu nico percurso,
tanto esta dimenso da etnologia que refere as cincias humanas s
positividades que as margeiam, quanto esta dimenso da psicanlise que
refere o saber do homem  finitude que o funda. Com a lingstica,
ter-se-ia uma cincia perfeitamente fundada na ordem das positividades
exteriores ao homem (pois que se trata de linguagem pura) e que,
atravessando todo o espao das cincias humanas, atingiria a questo da
finitude (pois que  atravs da linguagem e nela que o pensamento pode
pensar: de sorte que ela , em si mesma, uma positividade que vale como
o fundamental). Acima da etnologia e da psicanlise, mais exatamente
intrincada com elas, uma terceira "contra-cincia" viria percorrer,
animar, inquietar todo o campo constitudo das cincias humanas e,
extravasando-o, tanto do lado das positividades quanto do lado da
finitude, formaria sua contestao mais geral. Como as duas outras
contra- cincias, ela faria aparecer, num modo discursivo, as
formas-limites das cincias humanas; como elas, alojaria sua experincia
nestas regies iluminadas e perigosas onde o saber do homem trava, sob
as espcies do inconsciente e d historicidade, sua relao com o que as
torna possveis. Todas as trs pem em risco, "expondo-o", aquilo mesmo
que permitiu ao homem ser conhecido. Assim se tece sob nossos olhos o
destino do homem, mas tece-se s avessas; nestes estranhos fusos,  ele
reconduzido s formas de seu nascimento,  ptria que o tornou possvel.
Mas no  essa uma forma de conduzi-lo ao seu fim? Pois a lingstica,
tanto quanto a psicanlise ou a etnologia, no fala do prprio homem.
Dir-se- talvez que, desempenhando este papel, a lingstica no faz
mais que retomar as funes que foram outrora as da biologia ou da
economia quando, no sculo XIX [pg. 528] e no comeo do sculo XX, se
pretendeu unificar as cincias humanas sob conceitos tomados  biologia
ou  economia. Mas a lingstica arrisca- se a ter um papel muito mais
fundamental. E por vrias razes. Primeiro porque ela permite --
esfora-se, ao menos, por tornar possvel -- a estruturao dos prprios
contedos; no , pois, uma retomada terica de conhecimentos adquiridos
alhures, interpretao de uma leitura j feita dos fenmenos; no prope
uma "verso lingstica" de fatos observados nas cincias humanas,  o
princpio de uma decifrao primeira; sob um olhar armado por ela, as
coisas s acedem  existncia na medida em que podem formar os elementos
de um sistema significante. A anlise lingstica  mais uma percepo
que uma explicao: isso quer dizer que  constitutiva de seu objeto
mesmo. Ademais, eis que, por esta emergncia da estrutura (como relao
invariante num conjunto de elementos), a relao das cincias humanas
com as matemticas acha-se novamente aberta e segundo uma dimenso
totalmente nova; no se trata mais de saber se se podem quantificar
resultados, ou se os comportamentos humanos so suscetveis de entrar no
campo de uma probabilidade mensurvel; a questo que se coloca  a de
saber se se pode utilizar sem jogo de palavras a noo de estrutura, ou,
ao menos, se  da mesma estrutura que se fala em matemticas e nas
cincias humanas; questo que  central, se se quiser conhecer as
possibilidades e os direitos, as condies e os limites de uma
formalizao justificada; v-se que a relao das cincias humanas com o
eixo das disciplinas formais e a priori -- relao que no fora
essencial at ento e enquanto se pretendera identific-la ao direito de
medir -- se reanima e se torna fundamental agora que, no espao das
cincias humanas, surge igualmente sua relao com a positividade
emprica da linguagem e com a [pg. 529] analtica da finitude; os trs
eixos que definem o volume prprio s cincias do homem tornam- se assim
visveis, e quase simultaneamente, nas questes que elas colocam. Enfim,
a importncia da lingstica e de sua aplicao ao conhecimento do homem
faz reaparecer, em sua insistncia enigmtica, a questo do ser da
linguagem acerca da qual se viu quanto estava ligada aos problemas
fundamentais de nossa cultura. Questo que a utilizao cada vez mais
ampliada das categorias lingsticas avoluma ainda mais, uma vez que 
necessrio doravante indagar o que deve ser a linguagem, para assim
estruturar o que no , todavia, por si mesmo, nem palavra nem discurso,
e para articular-se com as formas puras do conhecimento. Por um caminho
muito mais longo e muito mais imprevisto, somos reconduzidos a esse
lugar que Nietzsche e Mallarm haviam indicado quando um deles
perguntara: Quem fala? e o outro vira cintilar a resposta na prpria
Palavra. A interrogao sobre o que  a linguagem em seu ser reassume,
ainda uma vez, seu tom imperativo.      Neste ponto em que a questo da
linguagem ressurge com uma to forte superdeterminao e em que ela
parece investir, por todas as partes, a figura do homem (esta figura que
justamente tomara outrora o lugar do Discurso clssico), a cultura
contempornea est se fazendo numa parte importante de seu presente e
talvez de seu porvir. De um lado aparecem, como que subitamente, muito
prximas de todos estes domnios empricos, questes que pareciam, at
ento, bastante afastadas deles: estas questes so aquelas de uma
formalizao geral do pensamento e do conhecimento; e no momento em que
se julgava que elas ainda estavam votadas to-somente  relao entre a
lgica e as matemticas, eis que elas se abrem  possibilidade e tambm
 tarefa de purificar a velha razo emprica, pela constituio de
linguagens [pg. 530] formais, e de exercer uma segunda crtica da razo
pura, a partir de formas novas do a priori matemtico. Entrementes, na
outra extremidade de nossa cultura, a questo da linguagem se acha
confiada quela forma de palavra que, sem dvida, no cessou de
coloc-la, mas que, pela primeira vez, coloca-a a si mesma. Que a
literatura de nossos dias seja fascinada pelo ser da linguagem -- isso
no  nem o sinal de um fim nem a prova de uma radicalizao:  um
fenmeno que enraza sua necessidade numa bem vasta configurao em que
se desenha toda a nervura de nosso pensamento e de nosso saber. Mas se a
questo das linguagens formais faz valer a possibilidade ou a
impossibilidade de estruturar os contedos positivos, uma literatura
votada  linguagem faz valer, em sua vivacidade emprica, as formas
fundamentais da finitude. Do interior da linguagem experimentada e
percorrida como linguagem, no jogo de suas possibilidades estiradas at
seu ponto extremo, o que se anuncia  que o homem  "finito" e que,
alcanando o pice de toda palavra possvel, no  ao corao de si
mesmo que ele chega, mas s margens do que o limita: nesta regio onde
ronda a morte, onde o pensamento se extingue, onde a promessa da origem
recua indefinidamente. Era imprescindvel que esse novo modo de ser da
literatura fosse desvelado em obras como as de Artaud ou de Roussel -- e
por homens como eles; em Artaud, a linguagem, recusada como discurso e
retomada na violncia plstica do choque, e remetida ao grito, ao corpo
torturado,  materialidade do pensamento,  carne; em Roussel, a
linguagem, pulverizada por um acaso sistematicamente manejado, conta
indefinidamente a repetio da morte e o enigma das origens desdobradas.
E, como se essa prova das formas da finitude na linguagem no pudesse
ser suportada, ou como se ela fosse insuficiente (talvez sua
insuficincia [pg. 531] mesma fosse insuportvel), foi no interior da
loucura que ela se manifestou -- oferecendo-se assim a figura da
finitude na linguagem (como o que nela se desvela), mas tambm antes
dela, aqum dela, como esta regio informe, muda, no-significante onde
a linguagem pode liberar-se. E  realmente neste espao assim posto a
descoberto que a literatura, com o surrealismo primeiramente (mas sob
uma forma ainda bem travestida), depois, cada vez mais puramente, com
Kafka, com Bataille, com Blanchot, se deu como experincia: como
experincia da morte (e no elemento da morte), do pensamento impensvel
(e na sua presena inacessvel), da repetio (da inocncia originria,
sempre l, no extremo mais prximo da linguagem e sempre o mais
afastado); como experincia da finitude (apreendida na abertura e na
coero dessa finitude).      V-se que este "retorno" da linguagem no
tem em nossa cultura valor de interrupo sbita; no  a descoberta
irruptiva de uma evidncia h muito escondida; no  a marca de uma
dobra do pensamento sobre si mesmo, no movimento pelo qual ele se
liberta de todo contedo, nem de um narcisismo da literatura,
liberando-se enfim do que ela teria a dizer para no mais falar seno do
fato de que ela  linguagem posta a nu. De fato, trata-se a do
desdobramento rigoroso da cultura ocidental, segundo a necessidade que
ela atribuiu a si prpria no incio do sculo XIX. Seria falso ver,
neste ndice geral de nossa experincia a que se pode chamar o
"formalismo", o sinal de uma petrificao, de uma rarefao do
pensamento incapaz de reassumir a plenitude dos contedos; no seria
menos falso coloc-lo de imediato no horizonte de um novo pensamento e
de um novo saber. Foi no interior do desenho muito cerrado, muito
coerente da epistm moderna que essa experincia contempornea
encontrou [pg. 532] sua possibilidade; foi mesmo ele que, por sua
lgica, suscitou-a, constituiu-a de parte a parte e tornou impossvel
que ela no existisse. O que se passou na poca de Ricardo, de Cuvier e
de Bopp, esta forma de saber que se instaurou com a economia, a biologia
e a filologia, o pensamento da finitude que a crtica kantiana
prescreveu como tarefa para a filosofia, tudo isto forma ainda o espao
imediato de nossa reflexo.  neste lugar que ns pensamos.      E,
contudo, a impresso de acabamento e de fim, o sentimento surdo que
sustenta, anima nosso pensamento, acalenta-o talvez assim com a
facilidade de suas promessas, e que nos faz crer que alguma coisa de
novo est em vias de comear, de que apenas se suspeita um leve trao de
luz na orla do horizonte -- este sentimento e esta impresso talvez no
sejam infundados. Dir-se- que existem, que no cessaram de se formular
sempre de novo desde o comeo do sculo XIX; dir-se- que Hlderlin, que
Hegel, que Feuerbach e Marx j tinham, todos eles, esta certeza de que
neles um pensamento e talvez uma cultura findavam, e que, do fundo de
uma distncia que talvez no fosse invencvel, uma outra se aproximava
-- no recato da aurora, no fulgor do meio-dia, ou no contraste do dia
que acaba. Mas esta prxima, esta perigosa iminncia cuja promessa hoje
tememos, cujo perigo acolhemos, no , sem dvida, da mesma ordem. O que
este anncio prescrevia ento ao pensamento era estabelecer para o homem
uma morada estvel nesta terra, donde os deuses se tinham evadido ou
desaparecido. Em nossos dias, e ainda a Nietzsche indica de longe o
ponto de inflexo, no  tanto a ausncia ou a morte de Deus que 
afirmada, mas sim o fim do homem (este tnue, este imperceptvel
desnvel, este recuo na forma da identidade que fazem com que a finitude
do homem se tenha tornado o seu fim); descobre-se [pg. 533] ento que a
morte de Deus e o ltimo homem esto vinculados: no  acaso o ltimo
homem que anuncia ter matado Deus, colocando assim sua linguagem, seu
pensamento, seu riso no espao do Deus j morto, mas tambm se
apresentando como aquele que matou Deus e cuja existncia envolve a
liberdade e a deciso deste assassnio? Assim, o ltimo homem  ao mesmo
tempo mais velho e mais novo que a morte de Deus; uma vez que matou
Deus,  ele mesmo que deve responder por sua prpria finitude; mas, uma
vez que  na morte de Deus que ele fala, que ele pensa e existe, seu
prprio assassinato est condenado a morrer; deuses novos, os mesmos, j
avolumam o Oceano futuro; o homem vai desaparecer. Mais que a morte de
Deus -- ou antes, no rastro desta morte e segundo uma correlao
profunda com ela, o que anuncia o pensamento de Nietzsche  o fim de seu
assassino;  o esfacelamento do rosto do homem no riso e o retorno das
mscaras;  a disperso do profundo escoar do tempo, pelo qual ele se
sentia transportado e cuja presso ele suspeitava no ser mesmo das
coisas;  a identidade do Retorno do Mesmo e da absoluta disperso do
homem. Durante todo o sculo XIX, o fim da filosofia e a promessa de uma
cultura prxima constituam, sem dvida, uma nica e mesma coisa,
juntamente com o pensamento da finitude e o aparecimento do homem no
saber; hoje, o fato de que a filosofia esteja sempre e ainda em via de
acabar e o fato de que nela talvez, porm mais ainda fora dela e contra
ela, na literatura como na reflexo formal, a questo da linguagem se
coloque, provam sem dvida que o homem est em via de desaparecer.
 que toda a epistm moderna -- aquela que se formou por volta do fim
do sculo XVIII e serve ainda de solo positivo ao nosso saber, aquela
que constituiu o modo de ser singular [pg. 534] do homem e a
possibilidade de conhec-lo empiricamente -- toda essa epistm estava
ligada ao desaparecimento do Discurso e de seu reino montono, ao
deslizar da linguagem para o lado da objetividade e ao seu
reaparecimento mltiplo. Se essa mesma linguagem surge agora com
insistncia cada vez maior numa unidade que devemos mas no podemos
ainda pensar, no ser isto o sinal de que toda essa configurao vai
agora deslocar-se, e que o homem est em via de perecer, na medida em
que brilha mais forte em nosso horizonte o ser da linguagem? Tendo o
homem se constitudo quando a linguagem estava votada  disperso, no
vai ele ser disperso quando a linguagem se congrega? E se isto fosse
verdade, no seria um erro -- um erro profundo, pois que nos esconderia
o que cumpre pensar agora -- interpretar a experincia atual como uma
aplicao das formas da linguagem  ordem do humano? No seria antes
preciso renunciar a pensar o homem, ou, para ser mais rigoroso, pensar
mais de perto este desaparecimento do homem -- e o solo de possibilidade
de todas as cincias do homem -- na sua correlao com nossa preocupao
com a linguagem? No se deve admitir que, estando a linguagem novamente
a, o homem retornar quela inexistncia serena em que outrora o
mantivera a unidade imperiosa do Discurso? O homem fora uma figura entre
dois modos de ser da linguagem; ou antes, ele no se constituiu seno no
tempo em que a linguagem, aps ter sido alojada no interior da
representao e como que dissolvida nela, dela s se liberou
despedaando-se: o homem comps sua prpria figura nos interstcios de
uma linguagem em fragmentos. Certamente, no se trata a de afirmaes,
quando muito de questes s quais no  possvel responder;  preciso
deix-las em suspenso l onde elas se colocam, sabendo apenas que a
possibilidade de as colocar abre, sem dvida, para um pensamento futuro.
[pg. 535]                                         VI      Uma coisa em
todo o caso  certa:  que o homem no  o mais velho problema nem o
mais constante que se tenha colocado ao saber humano. Tomando uma
cronologia relativamente curta e um recorte geogrfico restrito -- a
cultura europia desde o sculo XVI -- pode-se estar seguro de que o
homem  a uma inveno recente. No foi em torno dele e de seus
segredos que, por muito tempo, obscuramente, o saber rondou. De fato,
dentre todas as mutaes que afetaram o saber das coisas e de sua ordem,
o saber das identidades, das diferenas, dos caracteres, das
equivalncias, das palavras -- em suma, em meio a todos os episdios
dessa profunda histria do Mesmo -- somente um, aquele que comeou h um
sculo e meio e que talvez esteja em via de se encerrar, deixou aparecer
a figura do homem. E isso no constitui liberao de uma velha
inquietude, passagem  conscincia luminosa de uma preocupao milenar,
acesso  objetividade do que, durante muito tempo, ficara preso em
crenas ou em filosofias: foi o efeito de uma mudana nas disposies
fundamentais do saber. O homem  uma inveno cuja re- cente data a
arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez o fim
prximo.      Se estas disposies viessem a desaparecer tal como
apareceram, se, por algum acontecimento de que podemos quando muito
pressentir a possibilidade, mas de que no momento no conhecemos ainda
nem a forma nem a promessa, se desvanecessem, como aconteceu, na curva
do sculo XVIII, com o solo do pensamento clssico -- ento se pode
apostar que o homem se desvaneceria, como, na orla do mar, um rosto de
areia. [pg. 536]                         NDICE ONOMSTICO Adanson,
105, 172, 187, 188n, 189, 192, 195n, 197, 198, 204, 311. Adelung, F.,
321. Aldrovandi, U., 25n, 27n, 31, 54, 55, 176, 177. Alstedius, 52.
Anquetil-Duperron, 303, 323, 404. Aristteles, 77, 131. rtaud, Antonin,
60, 453, 531. Bachmeister, 321n. Bacon, F., 33n, 70, 71, 171. Barbon,
Nicolas, 228, 239, 243. Barthez, P. J., 172. Bataille, H., 453, 532.
Batteux, abade, 126n, 143n. Bauze, 126n, 133, 141, 228, 323. Becher,
J., 229, 245. Belon, Pierre, 30, 31, 176, 199n. Bergier, 152, 154n.
Bergson, H., 225, 338. Berkeley, G., 81, 82, 83n, 90, 165. Bichat. X.,
172. Blanchot, 532. Blondel, M., 498. Blumenbach, F., 172. Bodin, J.,
231, 235, 245, 253. Boisguillebert, 228, 229. Bonnet, Charles, 118,
119n, 173, 174, 203, 206, 208, 209, 210, 211n, 223n, 317,      375.
Bopp, F., 79, 346, 347, 386, 388, 389, 393, 394, 396, 397n, 399, 400,
401, 403, 404,      423. Bordeu, 172. Bouteroue, 230, 243, 245n.
Buffier, 127n. Buffon, 54, 55, 77, 173, 181, 183n, 186, 189, 192, 202,
205, 206, 224, 378. [pg.      537] Buxtorf, 131. Cahn, T., 363n.
Campanella, T., 25n, 45. Candolle, P. de, 311. Canguillem, G., 216n.
Cantillon, 228, 229, 230, 257, 259, 268, 272, 304, 305. Cardan, J., 33n,
38n. Csalpin , 29, 30n, 194. Cervantes, M. de, 66, 290. Child, 228.
Clment, 244n, 245n. Coeurdoux, R.-P., 322, 323, 404. Colbert, J.-B.,
244, 245n, 248. Comte, A., 441, 478, 497. Condillac, B. de, 77, 83, 84,
85n, 87, 90, 97, 105, 113, 114n, 115n, 131n, 133, 136n,      147, 149n,
150n, 159n, 165, 168, 249, 265, 271, 272n, 273, 274n, 276, 305,
323, 354, 439. Condorcet, 77, 482. Coprnico, N., 231, 232, 234.
Copineau, abade, 151n. Crollius, 27, 28n, 30n, 31, 36n, 38n. Cuvier, G.,
79, 188, 189, 200, 208, 313, 314n, 346, 347, 362, 363, 364, 365n, 366n,
367, 368, 369, 371n, 372n, 373, 375, 376, 377, 378, 379, 380, 381, 383,
386,      388, 406, 407, 410, 411n, 423, 430, 533. D'Aguesseau, 249.
D'Alembert, 119n, 174, 176, 340. Dante, 415. Darwin, C., 173, 212.
Daubenton, L., 176. Daudin, 362n, 372n. Davanzatti, 230, 231, 236, 237n,
238, 246, 253. De Brosses, C., 151n, 152, 153n, 154n, 155n, 161n.
Descartes, R., 70, 71, 72n, 97, 172, 176, 282n, 340, 417, 446, 478.
Destutt de Tracy, A., 77, 84, 90, 92, 93n, 105, 113, 114n, 119n, 120n,
121, 129n,      134, 136n, 147, 156n, 158n, 249, 271, 331, 332. Diderot,
D., 122n, 173, 174, 182n, 208, 340, 379. Dilthey, 225. D'Oegger, 145.
D'Olivet, abade Fabre, 126n, 145. Domergue,U., 129n, 135n, 141n. Duclos,
P., 139n, 156n. Du Marsais, 160n. Dumezil, 498. Dumoulin, C, 244n.
Duret, Claude, 50n, 51, 53,176. Durkheim, ., 498. Dutot, 249, 250,
259n. Fechner, G. T, 482. Feuerbach, L., 533. [pg. 538] Fortbonnais,
Vron de, 250, 260n, 354. Freud, S., 103, 453, 497, 499, 519. Galiani,
228, 265, 271, 272, 276. Galileu, 417. Gbelin, Court de, 144, 154n,
324. Gee, Josuah, 243n. Gerando, 84, 90, 105, 331. Gesner, 51n, 52n.
Girard, abade, 125n, 133n, 142n. Goldstein, 498. Gonnard, 244n.
Grammont, Scipion de, 239, 241n, 242n, 245, 246n. Graslin, 229, 250,
256n, 265, 271, 275n, 276, 354. Grgoire, P., 24n. Gregrio, 52.
Gresham, T., 234. Grimm, T., 346, 388, 390, 394, 395, 396, 397, 398n,
400n, 402, 403, 406. Guichard, E., 124n. Gldenstadt, 321n. Harris, Z.,
140, 141n. Harvey,W., 173, 246. Hegel, F., 135, 301, 423, 453, 461, 533.
Heidegger, M., 461. Helwag, 324. Hermann, J., 207, 210n. Hobbes, Thomas,
87, 93n, 112, 113n, 130, 246. Hlderlin, F., 60, 461, 533. Homero, 415.
Horneck, 246. Hugo, V., 167. Humboldt, W., 401, 402. Hume, D., 83, 87,
90, 93, 97, 165, 201, 224, 225, 260n, 275n, 448. Husserl, E., 341, 448,
449, 451. Itard, J, 129n. Janet, P., 493, 498. Jaucourt, L., 249.
Jevons, 229. Jones, William, 303, 322, 330. Jonston, 175, 176, 177, 178.
Jussieu, Antoine-Laurent de, 192, 303, 311, 313n, 318, 328, 330, 344,
362, 380, 386. Kafka, F., 532. Kant, E., 225, 331, 332, 336, 340, 353,
423, 445, 448, 471, 472. Knaut, Christophe, 176. La Croix du Maina, 52.
Lamarck, 173, 189, 208, 212, 311, 314, 315n, 316, 317, 318, 319, 322,
328, 375,       379, 380, 386, 388. [pg. 539] Lancelot, C., 79, 92. La
Pierre, Antoine de, 239n. La Rivire, Mercier de, 266. La Sarthe, Buthet
de, 322. Law, J., 228, 230, 249, 251, 252, 253n, 255. Le Bel, 143. Le
Blan, 125n. Le Brandiu, J.-Y., 232n, 234n, 237n, 246n. Le Trosne, 251.
Leibniz, G. W., 87, 210n, 340. Leiris, 145. Lemercier, J.-B., 139.
Lvi-Strauss, C.,525. Lvy-Brhl, L., 498. Lewin, K. Z., 493. Lineu, C,
105, 173, 178, 181, 182n, 183, 184, 185, 186, 189, 192, 193, 194, 195,
199, 202, 204, 221n, 222n, 223, 224, 302, 311, 317. Locke, J., 113, 224,
228, 250, 253, 254. Maillet, Benot de, 173, 208, 212n. Malebranche, N.
de, 82, 91, 97, 165, 174. Malestroit, 234, 235. Mallarm, S., 60, 112,
135, 145, 415, 420, 421, 422, 530. Malson, L., 129n. Malthus, T. R.,
353. Marx, K., 358, 359, 441, 451, 453, 461, 497, 533. Maupertuis, M.
de, 208, 213, 215, 223. Mauss, M., 498. Melon, 249, 250. Merien, 94n.
Michaelis, 122n. Mirabeau, 269n, 270n. Monboddo, 325. Montaigne, M. E.
de, 56n. Montesquieu, C, 228, 249, 254n. Mun, Thomas, 245. Nemours,
Dupont de, 266n, 269n. Newton, I, 123, 174, 210. Nietzsche, F., 103,
301, 361, 362, 412, 414n, 420, 421, 422, 444, 453, 461, 472, 473,
530, 533, 534. Pachero, 11. Pallas, P. S., 206, 319, 322. Paracelso, 27,
28, 36, 45, 297. Paris-Duverney, 249. Petty, 79, 228, 230, 258n. Pinel,
Ph., 315. Pluche, abade, 126n. Ponge, 145. Porta, G., 25n, 26, 32n, 33.
Quesnay, F., 105, 229, 265, 266n, 271, 305, 354. Racine, J., 291. [pg.
540] Ramus, P., 48. Rask, 388, 394. Raveroni, 145. Ray, J., 79, 176n,
177. Raynouard, F., 395, 402. Ribot, C, 498. Ricardo, D, 79, 228, 229,
347, 348, 349, 350, 351, 352, 353, 354, 356, 357, 359,      362, 381,
388, 423, 431, 533. Robinet, J.-B., 208, 214, 215, 217n, 379. Rousseau,
J.-J., 97, 105, 122n, 144n, 149, 161, 166, 172, 291. Roussel, R., 145,
415, 531. Saci, Sylvestre de, 141. Sade, 167, 289, 290, 292, 334, 383,
453. Saint-Hillaire, Geoffroy, 363. Saint-Pravy, 266n, 267n.
Saint-Marc, 145. Saussure, F. de, 92, 395, 407. Sauvages, Boissier de,
189. Savigny, Cristophe de, 52. Say, J.-B., 228, 229. Schlegel, F., 386,
388, 390, 391n, 393, 403n, 404. Schleiermacher, F., 103. Schopenhauer,
A., 451. Schroeder, 242n. S. G. S., 34n. Sicard, abade, 114n, 141.
Smith, Adam, 105, 116, 130, 136n, 137, 139n, 140n, 159n, 229, 303, 304,
305, 308,      309, 310, 311, 322, 328, 330, 344, 347, 348, 349, 350,
354, 362. Spengler,O., 461,513. Spinoza, B., 97, 478. Storr, 314.
Terrasson, 249. Thibault, D., 129n, 132n, 143. Tooke, J. Home, 393n.
Tournefort, J. P. de, 172, 173, 176, 181,183,185n, 189, 191, 194, 199,
248, 311. Tucker, 260n. Turgot, 105, 154n, 155n, 160n, 229, 252, 260n,
268n, 273n, 275n, 304. Vaughan, 250. Velsquez, 11, 19, 20, 430.
Vigenre, Blaise de, 53. Viq d'Azyr, 303, 311, 313, 318, 319, 328.
Voiture, 167. Volney, 158. Voltaire, 123. Warburton, 123n, 156. Wilkins,
344. [pg. 541] Esta obra  distribuda Gratuitamente pela Equipe
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